
Amor
Fandom: Mundo real
Criado: 29/07/2026
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Sob o Gelo e as Cicatrizes Ocultas
O som das lâminas cortando o gelo era o único ritmo que Kuro Hatake realmente entendia. No rinque, ele não era apenas o capitão do time de hóquei; ele era uma força da natureza, um borrão branco e veloz que comandava o disco com uma precisão quase cruel. Mas, naquela tarde, seus olhos castanhos escuros não estavam focados no gol. Eles vagavam, entre uma jogada e outra, para as arquibancadas quase vazias da arena da escola.
Lá estava ela. Tatsuyo.
Ela estava sentada no degrau mais alto, o mais longe possível do barulho dos outros jogadores e dos poucos alunos que assistiam ao treino. Tatsuyo parecia uma pintura delicada em meio ao cenário brutal do esporte: os cabelos pretos e lisos caíam como uma cascata sobre os ombros, contrastando com sua pele parda. Ela segurava um livro, mas Kuro sabia que ela não estava lendo. Seus ombros estavam tensos, as costas curvadas como se ela tentasse diminuir de tamanho para não ser notada.
Kuro sentiu aquela pontada familiar no peito. Ele era louco por ela. Não era apenas uma queda de adolescente; era algo que o fazia querer largar o taco de hóquei e envolvê-la em um abraço protetor, mesmo sabendo que o contato físico era algo complicado para ela.
— Ei, Capitão! Foca no jogo! — gritou um dos defensores, mas Kuro mal ouviu.
Ele viu quando Nico, o irmão mais novo de Tatsuyo, entrou no ginásio com um grupo de amigos da escola primária. Nico tinha apenas onze anos, mas já carregava aquele olhar defensivo, uma mistura de proteção e desconforto que Kuro reconhecia de longe. O garoto tentava rir das piadas idiotas dos amigos, mas seus olhos buscavam a irmã constantemente.
— Olha lá, Nico, sua irmã tá esquisita de novo — um dos meninos riu, apontando para Tatsuyo, que agora balançava levemente o corpo para frente e para trás. — Ela tá falando sozinha? Que bizarro.
Nico endureceu. Ele sentiu o rosto esquentar. Ele amava Tatsuyo — ela era quem fazia seu jantar, quem cuidava dele quando o pai estava trancado no quarto mergulhado em silêncio e luto, quem agia como sua mãe. Mas, ali, sob o olhar cruel dos amigos, ele sentiu aquela pontada de vergonha que o corroía por dentro.
— Deixa ela, cara. Vamos logo pro pátio — Nico resmungou, tentando desviar o foco, sem coragem de defendê-la abertamente.
Lá no alto, Tatsuyo sentiu o mundo começar a fechar. O barulho do hóquei — o estalo dos tacos, os gritos, o ranger do gelo — estava ficando alto demais. As luzes do ginásio pareciam estar queimando suas retinas. Era uma sobrecarga sensorial. Ela sentia como se mil agulhas estivessem cutucando sua pele.
Desesperada para não ter uma crise na frente de todos, para não envergonhar Nico, ela escondeu as mãos sob o livro. Suas unhas começaram a trabalhar. Ela cravou a unha do polegar na carne macia da palma da mão oposta. Depois, começou a arranhar, puxando a pele com força, buscando a dor física para ancorar sua mente e silenciar o caos sonoro ao redor.
Kuro, do centro do gelo, percebeu o movimento. Ele viu o tremor nos ombros dela e a forma como ela abaixou a cabeça, escondendo o rosto entre os cabelos. Ele sabia o que aquilo significava.
— Treino encerrado por hoje! — Kuro gritou, batendo o taco no gelo com autoridade.
— O quê? Mas ainda faltam vinte minutos, Kuro! — reclamou o técnico assistente.
— O gelo tá ruim, vai causar lesão. Todo mundo pro chuveiro! Agora! — Ele não deu espaço para discussões. Como capitão e estrela do time, ninguém ousava contestar sua palavra final.
Kuro patinou rapidamente para a borda, tirou as luvas e os patins com uma pressa febril, calçando seus tênis sem nem amarrar os cadarços direito. Ele subiu as arquibancadas pulando de dois em dois degraus.
Quando chegou perto dela, o cheiro metálico de sangue era sutil, mas presente. Tatsuyo estava em transe, o rosto pálido, os lábios movendo-se sem emitir som. Suas mãos estavam vermelhas, com pequenos cortes e marcas profundas onde as unhas haviam cavado a pele.
— Tatsuyo... — ele chamou suavemente, mantendo uma distância respeitosa.
Ela deu um pulo, os olhos pretos arregalados e úmidos de lágrimas que ela se recusava a deixar cair. Ela tentou esconder as mãos atrás das costas imediatamente.
— K-Kuro... — a voz dela era um sussurro trêmulo. — Desculpe. Eu já estou indo. Eu não queria... atrapalhar.
— Você nunca atrapalha, pequena — Kuro disse, sua voz perdendo todo o tom de comando que usava no gelo. Ele se sentou a um metro de distância dela, sabendo que invadir o espaço pessoal dela agora seria desastroso. — Suas mãos. Deixe-me ver.
— Não! — Ela se encolheu. — Está tudo bem. Eu só... eu estava nervosa.
— Tatsuyo, por favor. Eu vi.
Lentamente, como se estivesse diante de um animal ferido, Kuro estendeu a mão. Tatsuyo hesitou, o peito subindo e descendo com rapidez. Ela olhou para baixo, para onde Nico ainda estava no portão do ginásio, olhando para trás com uma expressão de culpa. Ela não queria ser um fardo para o "seu bebê". Ela precisava ser forte por ele.
Mas a dor em suas mãos estava começando a pulsar, e o carinho no olhar de Kuro era algo que ela não conseguia repelir. Ela estendeu as mãos trêmulas. Kuro sentiu um aperto no coração ao ver os estragos. Estava feio. Ela tinha se machucado de verdade dessa vez.
— Vamos cuidar disso — disse ele, levantando-se e oferecendo o braço, sem tocá-la diretamente. — Tenho um kit de primeiros socorros no vestiário dos capitães. É privativo. Ninguém vai ver.
Tatsuyo assentiu, as lágrimas finalmente escapando e escorrendo pelo rosto. O caminho até o vestiário foi silencioso. Kuro caminhava de um jeito que bloqueava a visão de qualquer curioso que pudesse olhar para as mãos dela.
Lá dentro, o ambiente era mais calmo. Kuro a sentou em um banco de madeira e pegou a maleta médica. Ele se ajoelhou entre as pernas dela — uma posição que, em qualquer outra circunstância, faria sua mente pervertida divagar sobre o quanto ela era linda e o quanto ele queria beijar cada centímetro de sua pele, mas agora, ele só sentia uma adoração protetora.
Ele pegou uma gaze embebida em antisséptico.
— Vai arder um pouco, tá? — Ele soprou suavemente sobre a ferida antes de tocar.
— Por que você faz isso? — ela perguntou, a voz quase sumindo. — Eu sou... eu sou esquisita, Kuro. Todo mundo diz. O Nico tem vergonha de mim.
Kuro parou o movimento e olhou fixamente nos olhos dela.
— O Nico é uma criança que não sabe o que tem em casa. E os outros? Os outros são idiotas que não conseguiriam aguentar um dia sendo tão fortes quanto você é. Você cuida de uma casa sozinha, cuida do seu irmão, estuda... e ainda lida com todo esse barulho do mundo. Para mim, você é a pessoa mais incrível que eu já conheci.
Tatsuyo sentiu um calor diferente subir pelo seu pescoço. Não era a queimação da ansiedade, era algo doce.
— Você não acha... feio? — Ela olhou para as marcas de unhas.
— Eu acho que essas marcas mostram o quanto você tenta lutar — Kuro disse, limpando o sangue com uma delicadeza extrema. — Mas eu preferia que você apertasse a minha mão em vez de machucar a sua. Da próxima vez que o mundo estiver alto demais, me procure. Eu posso ser o seu silêncio, Tatsuyo.
Ele terminou de enfaixar as mãos dela com cuidado, fazendo laços perfeitos. Quando terminou, ele não soltou as mãos dela imediatamente. Ele deslizou os polegares pelas bandagens.
— Kuro? — ela chamou, sentindo o coração acelerar.
— Hum?
— Obrigada. Pelo silêncio.
Kuro sorriu, aquele sorriso de lado que o tornava o garoto mais popular da escola, mas que agora era dedicado apenas a ela. Ele se inclinou um pouco mais, sentindo o perfume de baunilha que emanava do cabelo dela.
— Sabe... — ele disse, com um brilho malicioso começando a retornar aos olhos — ...eu sou um capitão muito exigente. Vou precisar de um pagamento por esses curativos.
Tatsuyo inclinou a cabeça, confusa.
— O que você quer?
Kuro se aproximou um pouco mais, seu rosto a centímetros do dela. Ele podia ver as pequenas sardas no nariz dela e a profundidade de seus olhos pretos.
— Deixe-me te levar para casa hoje. E deixe-me carregar sua mochila. Quero que todos vejam que a menina mais foda da escola está com o capitão do time de hóquei.
Tatsuyo soltou uma risadinha curta, um som que Kuro considerava a melhor música do mundo.
— Tudo bem — ela aceitou. — Mas você tem que prometer que não vai fazer nenhuma piada idiota na frente do Nico. Ele acha que você é legal demais para ser amigo da irmã dele.
— Ah, eu vou ser muito mais do que um amigo, Tatsuyo Nakamura. Só me dê tempo para te provar isso.
Kuro levantou-se e, com um gesto cavalheiro, pegou a mochila dela. Quando saíram do vestiário, ele caminhou orgulhosamente ao lado dela. Ao passarem pelo corredor principal, Nico ainda estava lá, esperando a irmã para irem embora. O garoto arregalou os olhos ao ver Kuro Hatake — o ídolo de todos os meninos da escola — carregando a mochila de sua irmã e sorrindo para ela como se ela fosse um tesouro.
— Ei, Nico! — Kuro exclamou, passando o braço (sem encostar, respeitando o espaço de Tatsuyo) por cima dos ombros da garota de forma protetora. — Sua irmã é a pessoa mais corajosa desse lugar. Você tem sorte de ter ela.
Nico olhou para as mãos enfaixadas de Tatsuyo e depois para o olhar sério e firme de Kuro. Pela primeira vez em muito tempo, a vergonha que Nico sentia foi substituída por algo novo: orgulho. Ele correu até eles e segurou a mão enfaixada de Tatsuyo com cuidado.
— Vamos pra casa, Tatsy? Eu... eu ajudo você com o jantar hoje — Nico disse, baixinho.
Tatsuyo sorriu, as lágrimas de dor agora substituídas por uma sensação de pertencimento. Ela olhou para Kuro, que deu uma piscadinha para ela. O mundo ainda era barulhento, e as crises ainda viriam, mas, pela primeira vez, ela sentiu que não precisava se machucar para sobreviver a elas. Ela tinha um capitão em seu time agora.
