
Agruwk
Fandom: It a coisa
Criado: 29/07/2026
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O Reflexo de um Noivado Esquecido
A neve derretida de Derry sempre parecia carregar um cheiro de mofo e segredos antigos. Clara, aos vinte e cinco anos, ajustou o casaco pesado sobre o corpo, sentindo o aperto familiar da insegurança. Ela nunca fora a mulher que estampava capas de revistas; suas curvas eram generosas e seu rosto, embora doce, carregava a sombra de uma tristeza que ela não conseguia explicar. Naquela manhã, em frente à vitrine de uma loja de noivas no centro da cidade, ela parou.
O vestido de seda branca parecia brilhar sob a luz pálida do sol de inverno. Clara suspirou, as mãos enfiadas nos bolsos. Desde os dezenove anos, ela alimentava esse sonho de um altar, de um compromisso eterno, de alguém que a olhasse e visse nela o mundo inteiro. Mas sua memória era um campo minado de lacunas. Havia um vazio entre os seus vinte e três e vinte e quatro anos, um "acidente" que os médicos chamaram de trauma psicológico, que havia levado embora meses de sua vida.
— Ele ficaria lindo em você — uma voz profunda ressoou às suas costas.
Clara deu um sobressalto, virando-se rapidamente. O homem parado ali era alto, com traços aristocráticos e olhos de um azul tão intenso que pareciam irreais. Ele vestia um terno cinza impecável, algo elegante demais para a pequena e decadente Derry.
— Desculpe, eu não queria assustá-la — disse ele, com um sorriso que não chegava totalmente aos olhos.
— Não foi nada. Eu só estava... distraída — Clara respondeu, sentindo as bochechas esquentarem. — Eu não costumo ficar olhando vitrines de casamento. É bobagem.
— Não é bobagem desejar a eternidade ao lado de alguém — o homem deu um passo à frente. — Eu me chamo Bill.
Clara sentiu um calafrio percorrer sua espinha. O nome "Bill" ecoou em sua mente como um sino distante, uma nota musical que ela já ouvira um milhão de vezes, mas não conseguia localizar a melodia.
— Eu sou a Clara — ela murmurou, desviando o olhar para os próprios pés. — Você é novo na cidade?
— Eu estive fora por um tempo — Bill respondeu, e por um breve segundo, sua pupila pareceu se dilatar de uma forma inumana. — Mas eu sempre volto para o que é meu.
Enquanto Clara conversava com o estranho, a poucos quarteirões dali, no fundo de uma biblioteca empoeirada, um grupo de homens e uma mulher se reuniam em torno de recortes de jornais e mapas antigos. O Clube dos Perdedores estava de volta, e as cicatrizes em suas mãos não eram as únicas coisas que ardiam.
— Ele não está apenas caçando crianças desta vez — disse Bill Denbrough, sua voz falhando levemente pela gagueira que retornara com a proximidade de Derry. — Ele tem uma... uma fixação.
— Uma obsessão — corrigiu Richie Tozier, sem qualquer traço de humor no rosto. — Nós encontramos as fotos no porão daquela casa abandonada na Neibolt Street. Não eram fotos de vítimas comidas. Eram fotos de uma garota.
Beverly Marsh deslizou uma fotografia polaróide sobre a mesa de madeira. Nela, uma Clara mais jovem, de dezenove anos, sorria para a câmera enquanto segurava a mão de um homem que, na foto, parecia apenas uma sombra distorcida, mas cujos olhos brilhavam com um amarelo predatório.
— O nome dela é Clara — Mike Hanlon explicou, apontando para os registros hospitalares. — Ela desapareceu por dois anos. Quando foi encontrada, vagando perto dos esgotos, ela não lembrava de nada. O "acidente" que a família relata foi um surto psicótico, mas nós sabemos a verdade. Pennywise não a matou. Ele a manteve.
— Por que ele a deixaria ir? — perguntou Ben Hanscom, franzindo a testa. — A Coisa não deixa as pessoas irem.
— Ele não a deixou ir — Beverly tocou o papel frio da foto. — Ele a protegeu de si mesmo. Ele se apaixonou, ou o que quer que aquela criatura entenda por amor. Quando ela descobriu o que ele era, o horror dela quase o destruiu. Então, ele apagou a memória dela para que ela não o odiasse. Ele preferiu o esquecimento dela ao desprezo dela.
— E agora ele voltou para buscá-la — concluiu Bill Denbrough. — E se ele está vulnerável por causa dela... nós podemos usar isso.
— Você está sugerindo que usemos uma inocente como isca? — Richie levantou-se, indignado. — Isso é baixo, Bill. Até para nós.
— É a única forma de atraí-lo para fora dos esgotos sem que ele tenha a vantagem do medo — Bill rebateu, os olhos cheios de uma determinação amarga. — Se ele a ama, ele vai segui-la. E nós estaremos lá para acabar com isso de uma vez por todas.
Enquanto o plano era traçado, Clara caminhava pelo parque com Bill. Ela se sentia estranhamente confortável ao lado dele, apesar da aura de perigo que parecia emanar de seus ombros largos.
— Você acredita em destino, Bill? — Clara perguntou, chutando uma pedra no caminho.
— Eu acredito em fome — ele respondeu, e depois pigarreou. — E acredito que algumas almas pertencem uma à outra, não importa quantas vidas passem.
— Eu às vezes sinto que estou esperando por alguém — Clara confessou, parando debaixo de um salgueiro chorão cujos galhos estavam secos. — Mas quando tento lembrar do rosto dessa pessoa, tudo o que vejo são balões vermelhos. É ridículo, não é?
Bill parou e se aproximou dela. Ele tocou o rosto de Clara com as pontas dos dedos frios, um toque que enviou faíscas de reconhecimento e terror através do corpo dela.
— Você não precisa lembrar, Clara — ele sussurrou, a voz assumindo um tom levemente sibilante. — Você só precisa sentir. Você não se sente completa agora?
— Eu sinto... — ela hesitou, o coração batendo descompassado contra as costelas. — Eu sinto que conheço o seu cheiro. Pipoca e... algo doce. Como algodão-doce.
— É o cheiro do circo — ele sorriu, e desta vez, seus dentes pareceram um pouco brancos demais, um pouco grandes demais. — Onde tudo é diversão e ninguém nunca precisa crescer ou ser rejeitado.
Subitamente, um grito interrompeu o momento.
— Clara! Saia de perto dele!
Clara virou-se e viu um grupo de desconhecidos correndo em sua direção. Um homem ruivo e uma mulher de cabelos curtos lideravam o grupo. Eles pareciam aterrorizados e armados com o que pareciam ser bastões e pedras.
— Quem são vocês? — Clara perguntou, dando um passo para trás, instintivamente buscando a proteção de Bill.
— Nós somos seus amigos, Clara — disse Beverly, parando a poucos metros, ofegante. — Aquele homem... ele não é o que você pensa. Ele é o motivo de você ter esquecido tudo!
Clara olhou para Bill, esperando que ele risse ou os mandasse embora. Mas Bill não se moveu. Sua postura mudou; ele parecia ter crescido alguns centímetros, e a temperatura ao redor deles caiu drasticamente.
— Bill? — Clara murmurou, a incerteza voltando a nublar seu julgamento. — O que eles estão dizendo?
— Eles querem tirar você de mim de novo, meu amor — Bill disse, mas sua voz não era mais profunda e aveludada. Estava rachando, sobrepondo-se a uma risada aguda e estridente que parecia vir de todos os lugares ao mesmo tempo.
— Você a sequestrou! — Bill Denbrough gritou, apontando para a criatura. — Você tirou a vida dela, Pennywise! Deixe-a ir!
O nome "Pennywise" atingiu Clara como um soco no estômago. Um flash de memória surgiu: faíscas de luzes coloridas, o cheiro de esgoto, e um palhaço de gola bufante segurando um anel de noivado feito de ossos humanos e prata. Ela cambaleou para trás, as mãos na cabeça.
— Não... — ela gemeu. — O acidente... não foi um carro. Foi... foi um poço.
— Clara, venha conosco! — Richie estendeu a mão. — Nós podemos ajudar você a lembrar de tudo, podemos proteger você!
A criatura que Clara conhecia como Bill se transformou diante de seus olhos. A pele humana pareceu derreter, revelando a seda suja de um traje de palhaço vitoriano. O rosto se alongou, os olhos tornaram-se amarelos e brilhantes, e dois grandes dentes incisivos saltaram para fora de um sorriso grotesco.
— ELA NÃO QUER LEMBRAR! — Pennywise rugiu, a voz fazendo o chão tremer. — Ela era feliz comigo no escuro! Eu a fiz rainha no meu reino de sombras!
Clara olhava de Pennywise para o Clube dos Perdedores. Ela via o terror nos olhos daqueles estranhos, mas também via uma determinação que ela nunca sentira em sua própria vida. E então, ela olhou para a Coisa.
Apesar da aparência monstruosa, havia algo no olhar de Pennywise que ainda era... Bill. Uma possessividade doentia, um desejo de ser amado por alguém que ele considerava sua única conexão com algo além da fome.
— Você apagou minha mente — Clara disse, a voz trêmula, mas ganhando força. — Você me fez pensar que eu era louca por dois anos.
— Eu salvei você da dor de saber o que eu sou! — Pennywise deu um passo em direção a ela, ignorando os Perdedores que se aproximavam com suas armas improvisadas. — Você queria um noivo, Clara. Você queria alguém que nunca a deixasse por causa do seu peso, ou da sua insegurança. Eu nunca a deixarei. Eu vou devorar o mundo, mas deixarei você por último para que possamos flutuar juntos!
— Clara, agora! — gritou Mike Hanlon. — Corra para nós!
Clara olhou para a mão estendida de Bill Denbrough e depois para as garras enluvadas de Pennywise. Ela era uma mulher que sempre se sentira indesejada, uma sombra em sua própria casa, rejeitada pela sociedade que valorizava apenas a beleza superficial. Pennywise, em sua loucura, a via como algo precioso. Mas era um amor baseado em mentiras e cadáveres.
— Eu prefiro a dor da verdade do que a paz de uma mentira — Clara sussurrou.
Ela correu. Mas não em direção aos Perdedores. Ela correu em direção à vitrine da loja de noivas que estava logo atrás deles. Com um grito de frustração e medo, ela pegou um pesado vaso de ferro decorativo da calçada e o lançou contra o vidro.
O estilhaçar do cristal foi como um sinal de guerra.
— Peguem-na! — Pennywise ordenou às sombras, que começaram a ganhar vida ao redor do parque.
Os Perdedores cercaram Clara, formando um círculo protetor. Bill Denbrough colocou a mão no ombro dela, sentindo o tremor de seu corpo gordinho.
— Você está bem? — ele perguntou, genuinamente preocupado.
— Eu lembro — Clara respondeu, as lágrimas escorrendo pelo rosto. — Eu lembro de tudo. Ele me levava para as galerias subterrâneas... ele me dava presentes que pertenciam a crianças desaparecidas. Eu o amava porque não sabia o que ele era.
— Nós vamos acabar com ele, Clara — disse Beverly, segurando firme seu estilingue. — Mas precisamos que você seja forte. Você é a única coisa que ele teme, porque você é a única coisa que ele deseja e não pode controlar.
Pennywise soltou um grito desumano, sua forma oscilando entre o palhaço e o homem elegante que Clara conhecera naquela manhã.
— VOCÊ VAI FLUTUAR, CLARA! — ele berrou, as garras arranhando o asfalto. — TODOS VOCÊS VÃO FLUTUAR!
— Não hoje, seu palhaço desgraçado — Richie murmurou, preparando-se para o ataque.
Clara olhou para o monstro que um dia chamou de Bill. Ela sentia a insegurança tentar dominá-la, a vontade de se encolher e deixar que os outros resolvessem o problema. Mas então ela lembrou do sonho do casamento, da seda branca, e da dignidade que lhe fora roubada.
— Eu não sou sua obsessão — Clara gritou para o monstro, enquanto o Clube dos Perdedores avançava. — Eu não sou um troféu para sua coleção de horrores!
A batalha por Derry estava apenas começando, e Clara, a mulher que todos julgavam frágil, acabara de se tornar a arma mais perigosa contra o mal que habitava os esgotos. Ela não precisava de um noivo para ser completa; ela precisava de sua própria voz. E Pennywise estava prestes a descobrir que não havia nada mais faminto do que uma mulher que recuperou sua própria história.
