
Amor real
Fandom: Mundo real
Criado: 29/07/2026
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O Peso do Silêncio e o Calor da Redenção
O som dos patins cortando o gelo ainda ecoava na mente de Kuro Hatake enquanto ele caminhava pelos corredores da escola. Como capitão do time de hóquei, ele estava acostumado com a adrenalina, com os gritos da torcida e com o peso da responsabilidade. Mas nada disso se comparava ao frio na barriga que sentia toda vez que via Tatsuyo Nakamura.
Kuro era o tipo de cara que chamava atenção: 1,80m de altura, um físico atlético esculpido pelos treinos pesados e aquele cabelo branco repicado que parecia desafiar a gravidade. Ele tinha a fama de ser o "engraçadinho" da turma, sempre com um comentário de duplo sentido na ponta da língua e um sorriso malicioso que fazia as garotas suspirarem. Mas, por dentro, seu coração batia em um ritmo diferente, um ritmo que só Tatsuyo conhecia.
Ele a avistou perto dos armários. Tatsuyo, com sua pele parda e longos cabelos pretos que caíam como uma cascata pelas costas, parecia minúscula e frágil em meio ao caos do intervalo. Seus olhos pretos estavam fixos no chão, evitando o contato visual com qualquer pessoa. Kuro sentiu aquele aperto familiar no peito. Ele sabia o quanto o ambiente escolar era agressivo para ela, com todos aqueles ruídos, luzes fluorescentes e pessoas esbarrando umas nas outras.
Kuro se aproximou devagar, suavizando a expressão.
— Ei, gatinha — sussurrou ele, parando ao lado dela. — Você parece estar em outro planeta hoje. Posso ir pra lá com você?
Tatsuyo deu um pequeno pulo, assustada, mas relaxou minimamente ao reconhecer a voz dele. Ela não respondeu de imediato. Seus dedos já estavam ocupados, as unhas cravando-se na pele macia do dorso da mão oposta. Era um movimento rítmico, quase imperceptível para quem não a conhecesse, mas Kuro notou o vinco de dor em sua testa.
— Tatsu... — Kuro baixou o tom de voz, bloqueando a visão de outros alunos com seu corpo largo. — Suas mãos, pequena. Solta.
— Está muito barulho, Kuro — ela murmurou, a voz quase um sopro. — O sinal... ele vai tocar. Eu sinto ele vibrando nos meus dentes antes mesmo de acontecer.
Kuro sentiu uma onda de proteção. Ele sabia que ela estava tentando conter uma crise. Tatsuyo odiava que a vissem "perder o controle". Ela preferia se ferir, arrancar a própria pele com as unhas, a deixar que o mundo visse sua vulnerabilidade.
— Vamos sair daqui — disse ele, pegando a mochila dela com uma mão e envolvendo os ombros dela com a outra. — Vamos para o ginásio. Está vazio agora.
Mais tarde naquele dia, o cenário mudou para o pequeno apartamento dos Nakamura. O pai deles, como de costume, estava trancado no quarto, um fantasma que só aparecia para pagar as contas e garantir que a geladeira não estivesse vazia. A responsabilidade de manter tudo em ordem recaía sobre os ombros de Tatsuyo desde que ela se entendia por gente.
Ela estava na cozinha, preparando o jantar, quando Nico entrou. O menino de 11 anos jogou a mochila no sofá com um suspiro pesado. Nico era a imagem cuspida da irmã, mas com o cabelo curto e uma expressão que alternava entre a admiração profunda e uma irritação latente.
— O cheiro está bom, Tatsu — disse Nico, aproximando-se da mesa.
Tatsuyo sorriu, um sorriso genuíno que raramente mostrava na escola.
— Seu prato favorito, Nico. Lave as mãos.
— O Kuro vem pra cá de novo? — perguntou o menino, fazendo uma careta.
— Ele vem me ajudar com o trabalho de história — respondeu ela, embora ambos soubessem que Kuro vinha apenas para estar perto dela.
Nico bufou. Ele amava a irmã, ela era sua mãe, sua protetora, a pessoa que cuidava de cada detalhe da sua vida. Mas ele tinha vergonha. Tinha vergonha de como ela balançava o corpo quando estava nervosa, vergonha de como ela tapava os ouvidos por causa de barulhos que ninguém mais ouvia. Na escola, seus amigos eram cruéis. Eles chamavam Tatsuyo de "esquisita" e "retardada". Nico nunca os defendia, mas também nunca se juntava a eles. Ele simplesmente ficava em silêncio, sentindo um nó de culpa e vergonha no estômago.
A campainha tocou e, antes que Tatsuyo pudesse se mexer, Kuro já estava entrando, agindo como se fosse o dono da casa. Ele trazia uma caixa de donuts e um sorriso largo.
— E aí, pirralho! — Kuro bagunçou o cabelo de Nico, que se esquivou rapidamente.
— Não me chama de pirralho, seu poste de luz albino — rebateu Nico, cruzando os braços.
— Uau, que agressividade! É falta de açúcar? — Kuro riu, colocando a caixa sobre a mesa e indo direto para trás de Tatsuyo, abraçando-a pela cintura e depositando um beijo no pescoço dela. — Oi, meu amor.
Tatsuyo ficou tensa por um segundo, a sensação do contato físico súbito sempre sendo um desafio, mas o cheiro de Kuro — uma mistura de sabonete e gelo — a acalmou.
— Oi, Kuro.
— Tira a mão dela! — Nico exclamou, sentindo o ciúme borbulhar. — Ela está cozinhando, você vai fazer ela se queimar.
— Relaxa, Nico. Eu sou um mestre na cozinha... mestre em comer, pelo menos — Kuro deu uma piscadela tarada para Tatsuyo, que corou violentamente. — E outras coisas também, se sua irmã permitir.
— Kuro! — Tatsuyo repreendeu, embora um pequeno sorriso brincasse em seus lábios.
— O que? Eu só ia dizer que sou mestre em lavar a louça! — Ele riu, mas seus olhos logo caíram para as mãos de Tatsuyo. As marcas vermelhas da tarde ainda estavam lá. Sua expressão escureceu por um breve momento antes de ele voltar ao tom brincalhão para não alertar Nico.
O jantar foi uma mistura de provocações entre Kuro e Nico. O menino tentava a todo custo chamar a atenção de Tatsuyo, contando sobre seu dia, enquanto Kuro tentava roubar beijos dela sempre que Nico olhava para o lado.
— Tatsu, você vai me ajudar com o dever de matemática depois? — perguntou Nico, ignorando Kuro.
— Claro, meu bebê — disse ela, acariciando o rosto do irmão.
— Ele não é mais um bebê, Tatsu — Kuro interrompeu, pegando um donut. — Já tem cara de quem vai dar trabalho para as meninas. Mas enquanto ele não cresce, ele podia ir pro quarto jogar videogame, né? Deixar os adultos conversarem.
— Eu não vou a lugar nenhum! — Nico disparou. — Você sempre quer ficar sozinho com ela pra ficar fazendo essas coisas nojentas de namorados.
— "Coisas nojentas"? — Kuro soltou uma gargalhada alta. — Ah, Nico, você não sabe o que está perdendo. Mas não se preocupe, quando você tiver minha idade, eu te dou umas dicas de como conquistar uma garota tão incrível quanto a sua irmã.
— Eu nunca vou querer dicas de um idiota que joga hóquei e usa o cabelo igual a um anime — resmungou Nico, embora no fundo, uma parte dele admirasse a confiança de Kuro.
A noite avançou e, após muita insistência, Nico finalmente foi para o quarto, mas não sem antes lançar um olhar de aviso para Kuro. O silêncio finalmente caiu sobre a sala, quebrado apenas pelo som da televisão baixa.
Tatsuyo estava sentada no sofá, as pernas encolhidas contra o peito. O estresse do dia escolar e a energia caótica de Nico e Kuro começaram a cobrar seu preço. O silêncio da casa parecia, de repente, pesado demais. Seus dedos começaram a trabalhar. As unhas encontraram as cicatrizes antigas e começaram a cavar.
Kuro, que estava sentado ao lado dela, percebeu imediatamente. Ele desligou a TV e se aproximou.
— Tatsu, olha pra mim.
Ela balançou a cabeça negativamente, os olhos fixos em suas próprias mãos que agora sangravam levemente.
— Não... eu estou bem. Só... muita informação. Muitas cores. O Nico gritou muito hoje.
— Shhh... eu sei. — Kuro pegou as mãos dela com delicadeza, forçando-as a se abrirem. — Você não precisa fazer isso, meu anjo. Eu estou aqui.
— Dói menos se eu fizer isso — ela sussurrou, a voz começando a falhar. — Se eu não fizer, eu vou gritar. E o Nico vai ouvir. E ele vai ter vergonha de mim de novo.
Kuro sentiu uma pontada de raiva — não de Tatsuyo, mas da situação. Ele sabia que Nico tinha dificuldades em lidar com o autismo da irmã, mas ver Tatsuyo se mutilando para proteger a imagem do irmão era demais.
— O Nico ama você, Tatsu. Mas ele é uma criança. Ele não entende o quanto você é forte por carregar tudo isso sozinha. — Kuro puxou-a para o seu colo, deixando que ela escondesse o rosto em seu pescoço. — Pode chorar. Eu não vou deixar ninguém ouvir. Eu sou seu escudo, lembra?
Tatsuyo finalmente desmoronou. Soluços silenciosos sacudiram seu corpo pequeno enquanto ela se agarrava à camiseta de Kuro. Ele a balançava suavemente, um movimento rítmico que ele sabia que a ajudava a se autorregular.
— Eu te amo tanto, Tatsuyo — ele murmurou contra o cabelo dela. — Você é a pessoa mais incrível que eu já conheci. E eu não dou a mínima para o que os idiotas da escola pensam. E o Nico... ele vai aprender. Eu vou garantir que ele aprenda a te valorizar.
Enquanto Tatsuyo se acalmava nos braços de Kuro, a porta do corredor estava entreaberta. Nico observava a cena em silêncio. Ele viu o sangue nas mãos da irmã e viu o cuidado quase sagrado com que Kuro limpava cada ferida com um lenço, beijando a ponta de seus dedos.
Pela primeira vez, Nico não sentiu ciúmes. Ele sentiu uma pontada de remorso. Ele percebeu que, enquanto ele se escondia atrás da vergonha, Kuro estava lá, sendo a âncora que sua irmã precisava para não afundar.
Nico fechou a porta do quarto silenciosamente.
Na sala, Kuro continuava a ninar Tatsuyo. Ele sabia que o caminho seria longo, que as crises viriam de novo e que a sociedade continuaria sendo barulhenta e cruel. Mas, enquanto ele tivesse força, ele seria o silêncio e o conforto dela.
— Kuro? — ela chamou baixinho, depois de um tempo.
— Oi, gatinha.
— Você é muito bobo — ela disse, limpando o rosto.
Ele sorriu, aquele sorriso ladino que ela tanto amava.
— Sou mesmo. Mas sou o bobo que é louco por você. E agora, que tal a gente terminar aqueles donuts antes que o pequeno monstro saia do quarto e coma tudo?
Tatsuyo riu, um som cristalino que fez o coração de Kuro dar um salto.
— Acho uma boa ideia.
Kuro a beijou, um beijo doce e casto, antes de se levantar para pegar os doces. Ele faria qualquer coisa para manter aquele sorriso no rosto dela. Mesmo que tivesse que enfrentar o time de hóquei inteiro ou a fúria ciumenta de um irmão mais novo, Kuro Hatake estaria sempre ali, protegendo sua Tatsu do mundo.
