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Criado: 30/07/2026

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Entre o Verniz e o Feno

O sol da tarde deitando-se sobre os campos da fazenda de seus avós trazia um calor preguiçoso, tingindo tudo de um dourado que parecia saído diretamente de uma das telas que Eduarda estudava em suas aulas de História da Arte. O ar ali era diferente da cidade; cheirava a terra úmida, capim fresco e ao café constante que Dona Mercedes mantinha no fogo. Para Eduarda, aquele refúgio era seu lugar de paz, mas, desta vez, havia uma tensão elétrica que ela não conseguia ignorar.

Eduarda estava sentada na varanda, os pés descalços e as pernas esguias de bailarina esticadas sobre o banco de madeira. Ela usava um vestido de algodão branco, leve e fluido, que deixava seus ombros delicados à mostra. Seus olhos castanhos acompanhavam o movimento de Emanuel, que estava a poucos metros dali, conferindo alguns documentos no tablet, a expressão séria e os traços do rosto endurecidos pelo estresse de gerenciar seus estúdios de tatuagem pelo mundo.

Ele era a definição de estabilidade, mas Eduarda sentia que, sob aquela superfície de controle, havia um vulcão.

— Você vai acabar furando a tela se continuar olhando para esses números com tanta raiva — comentou Eduarda, a voz suave e um pouco manhosa, buscando a atenção dele.

Emanuel levantou o olhar. A rigidez em seus ombros relaxou instantaneamente ao vê-la. Ele sempre teve essa fraqueza por Eduarda. Para ele, ela era como uma obra de arte viva, frágil e preciosa, algo que ele sentia uma necessidade visceral de proteger.

— São apenas negócios, Duda. O caos não tira férias só porque eu decidi vir para o interior — respondeu ele, a voz rouca, guardando o aparelho.

Nesse momento, a porta da casa se abriu e Sara apareceu. Ela era o oposto absoluto de Eduarda. Usava um conjunto de cetim justo que realçava as curvas acentuadas pelo silicone e a barriga de cinco meses de gravidez, que ela exibia com orgulho. Seus cabelos loiros estavam impecavelmente escovados, e o brilho nos olhos era de quem detinha o controle absoluto da situação.

— Deixe os negócios de lado, querido. Valentina não quer um pai estressado — disse Sara, aproximando-se de Emanuel e depositando um beijo possessivo em seu pescoço.

Eduarda desviou o olhar, sentindo aquela pontada familiar de insegurança. Ela amava o primo, um amor que havia florescido de forma proibida e silenciosa ao longo dos anos. Mas ela respeitava Sara. E, surpreendentemente, Sara não a via como uma rival. A loira se aproximou de Eduarda e tocou levemente em seu ombro.

— Você está pálida, Duda. Precisa de um pouco de sol. Ou talvez de algo mais emocionante do que esses seus livros de balé — provocou Sara com um sorriso irônico, mas não maldoso.

— Eu estou bem, Sara — murmurou Eduarda, encolhendo-se um pouco.

Emanuel observava as duas. Ele amava Sara; amava a força dela, a vulgaridade honesta, a forma como ela não tinha filtros e como ela aceitava cada parte sombria dele. Mas ele também desejava Eduarda com uma intensidade que beirava o desespero. Ele queria a doçura da prima, a fragilidade que o fazia querer carregá-la no colo.

Mais tarde, quando a lua já começava a surgir no céu e os pais de Eduarda estavam rindo com os avós na sala principal, Sara puxou Emanuel para o canto do corredor.

— Ela está morrendo de vontade, Emanuel — sussurrou Sara, ajeitando a gola da camisa dele. — E você também. Eu vejo o jeito que você olha para ela. Eu já te disse, eu não me importo. Eu quero você feliz, e se ter a Duda é o que falta para você se sentir completo, então vá.

— Você tem certeza disso, Sara? — Emanuel perguntou, a voz tensa, a racionalidade lutando contra o desejo. — É da Eduarda que estamos falando. Ela é... sensível.

— Eu sei o que ela é. E sei que ela confia em você mais do que em qualquer pessoa. Vá antes que eu mude de ideia e resolva te trancar no quarto comigo.

Emanuel assentiu, o coração batendo forte contra as costelas. Ele encontrou Eduarda perto do celeiro, onde ela costumava ir para praticar alguns passos de dança no silêncio da noite. O celeiro era antigo, com o cheiro reconfortante de feno seco e madeira envelhecida.

Ao entrar, ele a viu. Eduarda estava na ponta dos pés, os braços erguidos em uma posição graciosa, a luz do luar filtrando-se pelas frestas do telhado e iluminando sua pele clara. Ela parecia uma miragem.

— Duda — chamou ele baixo.

Ela se assustou, perdendo o equilíbrio por um segundo antes de ele se aproximar e segurá-la pela cintura. A proximidade física foi imediata. Eduarda apoiou as mãos pequenas no peito largo de Emanuel, sentindo o calor que emanava dele.

— Emanuel? O que você está fazendo aqui? A Sara...

— A Sara sabe — interrompeu ele, a voz profunda, os olhos fixos nos dela. — Ela quer que sejamos felizes, Duda. Eu quero você. Há tanto tempo que eu não consigo pensar em outra coisa.

Eduarda sentiu as pernas tremerem. Sua insegurança gritava, mas o toque de Emanuel era firme, protetor. Ela se aconchegou mais a ele, escondendo o rosto em seu pescoço.

— Eu tive medo... de que você nunca dissesse nada — admitiu ela, a voz abafada. — Eu não sou como ela, Emanuel. Eu não sou forte, eu não sou marcante.

— Você é perfeita — ele sussurrou, erguendo o queixo dela para que seus olhares se cruzassem. — Você é a minha paz, Duda. A Sara é o meu fogo, mas você é o meu ar. Eu não quero escolher. Eu não vou escolher.

Ele a beijou. Foi um beijo lento, carregado de uma ternura que rapidamente se transformou em necessidade. Emanuel a conduziu até um monte de feno limpo, coberto por uma manta que ele havia trazido. O contraste entre a rusticidade do celeiro e a delicadeza de Eduarda era gritante.

Com mãos trêmulas, mas guiadas por um instinto de cuidado, Emanuel começou a despir a prima. Cada centímetro de pele revelado era tratado como um tesouro. Eduarda, embora tímida, entregava-se ao toque dele, buscando a proteção que só ele sabia oferecer.

— Tem certeza? — perguntou ele, parando por um momento, a testa encostada na dela. — Eu não quero te apressar.

— Com você, eu tenho certeza de tudo — respondeu ela, os olhos expressivos brilhando com lágrimas de emoção.

O ato foi um rito de passagem. Emanuel foi paciente, controlando seus próprios impulsos para garantir que Eduarda se sentisse segura. Quando a dor inicial dela se transformou em um prazer suave e constante, ele sentiu uma conexão que ia além do físico. Ele estava marcando-a, não com tinta, como fazia em seus estúdios, mas com sua própria alma.

Enquanto isso, na casa principal, Sara estava sentada na poltrona, acariciando a barriga onde Valentina crescia. Ela sabia exatamente o que estava acontecendo no celeiro. Um sorriso enigmático brincava em seus lábios pintados de vermelho. Ela não sentia ciúmes; sentia satisfação. Emanuel era um homem complexo, e ela sabia que, para mantê-lo inteiro, precisava que todas as suas partes fossem nutridas.

Horas depois, Emanuel e Eduarda voltaram para a casa, caminhando sob o céu estrelado. Eduarda estava agarrada ao braço dele, o rosto radiante de uma forma que nunca estivera antes. Ao entrarem na cozinha para buscar água, encontraram Sara.

A loira avaliou o estado dos dois: o cabelo de Eduarda levemente bagunçado, o olhar de Emanuel mais calmo, menos carregado pelo estresse.

— Pelo visto, o ar do campo fez bem para vocês — disse Sara, levantando-se e caminhando até eles.

Eduarda baixou a cabeça, o rosto corando intensamente.

— Sara, eu... — começou a jovem bailarina.

— Não precisa dizer nada, querida — interrompeu Sara, aproximando-se e segurando a mão de Eduarda. — Nós somos uma família agora, de um jeito diferente. O Emanuel tem amor suficiente para nós duas, e eu não sou de dividir o que é meu com estranhos, mas você... você é de casa.

Emanuel envolveu as duas em um abraço. De um lado, a força e a exuberância de Sara, carregando sua filha; do outro, a suavidade e o frescor de Eduarda. Pela primeira vez em meses, o tatuador sentiu que o controle não era algo que ele precisava impor, mas algo que simplesmente existia no equilíbrio daquelas duas mulheres tão distintas.

— Amanhã vamos todos tomar café juntos — declarou Emanuel, a voz firme e decidida. — Sem segredos. Meus tios são modernos, eles vão entender com o tempo. O que importa é que estamos aqui.

Eduarda sorriu, sentindo-se finalmente segura. Ela sabia que o caminho não seria fácil, que haveria julgamentos externos, mas, olhando para o primo que agora também era seu amante, e para a mulher que a aceitava sem reservas, ela sentiu que tinha encontrado seu lugar no mundo. Entre a arte, o balé e aquele amor plural, ela finalmente pertencia.

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