
TITÃS
Fandom: ORIGINAL
Criado: 30/07/2026
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O Toque do Vazio e o Peso do Amanhã
O silêncio no topo da Torre dos Titãs era interrompido apenas pelo zumbido suave dos sistemas de ventilação e pelo som rítmico de socos atingindo um saco de pancadas no andar de treinamento. Mas, no escritório principal, o clima era de uma solenidade que Victor não estava acostumado a presenciar fora de filmes de época.
Ele ajustou as luvas de kevlar reforçado, sentindo o suor frio nas palmas das mãos. Victor tinha vinte anos, uma coleção invejável de camisetas de cultura pop e um conhecimento enciclopédico de vídeos de gatos no TikTok. Ele também era, tecnicamente, uma arma de destruição em massa ambulante.
— Você está nervoso — observou o Superman, sua voz ressoando com aquela calma paternal que parecia capaz de parar guerras. — Não precisa estar. Eles são jovens como você.
Victor deu um sorriso torto, ajeitando os óculos de descanso.
— Clark, eu sou basicamente o "Thanos do estalar de dedos" da vida real, mas sem o queixo de uva passa e com muito mais ansiedade social. Se eu tropeçar e tocar na maçaneta errada, a Torre vira poeira cósmica. "Nervoso" é um eufemismo. Eu estou em nível de pânico "Windows 95 travando".
O Homem de Aço riu baixo, colocando uma mão pesada — mas cuidadosa — no ombro do rapaz.
— Você passou anos treinando o autocontrole. A Liga confia em você. Eu confio em você. É hora de parar de se esconder do mundo, Victor.
As portas automáticas se abriram, revelando a sala comunal da Torre. O lugar era uma mistura de tecnologia alienígena avançada e o caos absoluto de uma república estudantil.
No centro da sala, dois vultos se moviam tão rápido que eram quase borrões. Kael, com seus 1,85 m de puro músculo e intensidade, bloqueou um chute lateral que teria quebrado as costelas de um homem comum. O agressor era Damian Wayne, o atual Robin, cujos movimentos eram cirúrgicos e carregados de uma arrogância letal.
— Lento demais, Kael — sibilou Damian, girando no ar para desferir um golpe com o calcanhar. — Meu pai deve ter te recrutado por caridade.
Kael rugiu, agarrando o tornozelo de Damian e o arremessando contra o sofá reforçado.
— Engole o veneno, Wayne! Você está bravo porque eu bati seu recorde no simulador de combate ou porque eu sou mais alto?
— Você é um bruto sem refinamento — rebateu Damian, recuperando o equilíbrio com uma agilidade felina. — Força bruta é o refúgio dos incompetentes.
— E o sarcasmo é o refúgio de quem apanha no treino — Kael limpou um rastro de sangue no lábio, os olhos brilhando com uma competitividade feroz.
O Superman pigarreou. O som, embora baixo, cortou a tensão como uma lâmina. Os dois jovens pararam instantaneamente. Kael se empertigou, cruzando os braços sobre o peito largo, enquanto Damian apenas guardou as mãos nos bolsos, mantendo a expressão gélida.
— Pessoal — disse Clark —, este é o Victor. Ele é o novo membro da equipe. Victor, estes são Kael e Damian.
Victor levantou a mão em um aceno tímido, mantendo uma distância segura de qualquer objeto ou pessoa.
— E aí, galera. Prazer em conhecer. Eu traria um bolo de boas-vindas, mas as chances de eu transformar a forma do bolo em vácuo quântico eram de 40%, então achei melhor não arriscar.
Kael caminhou até ele, avaliando o novato com um olhar intenso. Victor sentiu a energia que emanava do rapaz; Kael era como um motor de Ferrari ligado no máximo, vibrando com uma força contida.
— Você é o cara que o Superman trouxe pessoalmente? — Kael estendeu a mão para um aperto. — Sou o Kael.
Victor recuou um passo instintivamente, escondendo as mãos atrás das costas. O clima pesou.
— Foi mal, cara. Regra número um do fã-clube do Victor: nada de toque físico. Eu sou tipo aquele meme do "Don't touch me", só que se você me tocar e eu perder o foco, suas moléculas decidem que não querem mais existir neste plano da realidade.
Damian soltou um som de desdém, aproximando-se com os olhos semicerrados.
— Outro meta-humano instável? — Damian olhou para o Superman com reprovação. — Já temos problemas demais com a disciplina do Kael. Não precisamos de uma bomba relógio que usa camisetas de anime.
— É "Fullmetal Alchemist", na verdade — corrigiu Victor, recuperando um pouco da compostura. — E a ironia de um cara vestido de morcego falar sobre estabilidade emocional é... bom, é um prato cheio pro Twitter.
Kael soltou uma gargalhada genuína, o que pareceu irritar Damian ainda mais.
— Gostei de você, novato. Ele tem coragem, Wayne. Algo que falta nas suas táticas de sumir nas sombras.
— Silêncio, Kael — rosnou o Robin. — Veremos quanto tempo a "gentileza" dele dura quando estivermos em campo.
O Superman trocou um olhar cúmplice com Victor antes de se despedir. O herói sabia que o caminho seria difícil, mas havia algo na calma de Victor que era necessário para aquela equipe.
Nas semanas que se seguiram, a rotina na Torre dos Titãs provou ser um desafio de convivência. Kael e Damian viviam em um estado de guerra fria — ou quente, dependendo de quem ganhava a última rodada de treinamento. Eles competiam por tudo: quem chegava primeiro à cozinha, quem derrotava mais robôs no simulador, quem recebia menos broncas do Batman via monitor.
Victor, por outro lado, tornou-se a "Suíça" da Torre. Ele passava a maior parte do tempo no laboratório ou na sala de estar, jogando videogame com luvas especiais que impediam qualquer acidente.
Certa tarde, Kael entrou na sala bufando, as juntas dos dedos esfoladas.
— Aquele anão autossuficiente! — exclamou Kael, jogando-se na poltrona ao lado de Victor. — Ele sabotou meus pesos na academia. Eu quase quebrei o teto da sala de musculação.
Victor nem tirou os olhos da tela, onde seu personagem saltava entre plataformas.
— "O ódio é um fardo muito pesado para se carregar", já dizia o sábio — comentou Victor calmamente. — Ou foi o Martin Luther King, ou o Gandalf. Um dos dois. Relaxa, Kael. Ele só faz isso porque você é o único que consegue acompanhar o ritmo dele. É o jeito Wayne de dizer "eu te respeito".
— É um jeito bem idiota — resmungou Kael, observando Victor jogar. — Por que você nunca treina com a gente, Victor? Eu vi seus arquivos. "Desintegração Molecular Instantânea". Isso é... pesado.
Victor pausou o jogo. A leveza em seu rosto desapareceu por um segundo, substituída por uma sombra de melancolia que o fazia parecer muito mais velho do que vinte anos.
— Sabe o que acontece quando eu toco em algo com a intenção — ou o medo — de destruir? — Victor apontou para uma caneca de café vazia sobre a mesa. — Não há explosão. Não há barulho. Simplesmente deixa de ser. Não sobra cinzas. Não sobra memória atômica. É o nada absoluto.
Kael ficou em silêncio, a intensidade de sua própria força parecendo pequena diante daquela revelação.
— Eu passo 24 horas por dia me policiando — continuou Victor, voltando ao tom leve, embora um pouco forçado. — Ser gentil não é só minha personalidade, Kael. É minha trava de segurança. Se eu ficar com raiva... bom, "I don't feel so good, Mr. Stark".
Kael assentiu, uma nova centelha de respeito surgindo em seus olhos.
— Deve ser solitário. Não poder tocar em ninguém.
— Tem seus momentos. Mas hey, eu economizo muito com hidratante corporal.
A conversa foi interrompida pelo alarme estridente da Torre. A tela gigante no centro da sala piscou em vermelho. A voz de Ravena ecoou pelos alto-falantes:
— Todos para o hangar. Temos uma brecha dimensional no centro da cidade. Algo está saindo de lá, e não veio para pedir informações.
No hangar, a equipe se reuniu rapidamente. Damian já estava em seu jet, verificando os sistemas. Kael ajustava as braçadeiras de combate, seu corpo já em estado de alerta máximo.
— Victor, você vem conosco — ordenou Damian, sem olhar para trás. — O Superman disse que você é um recurso. Prove.
— Ah, cara... eu esperava que minha primeira missão fosse algo mais "salvar gatinhos de árvores" e menos "combater horrores cósmicos" — disse Victor, seguindo-os enquanto apertava bem as luvas.
A cena no centro da cidade era caótica. Uma fenda arroxeada rasgava o céu, e dela emergiam criaturas feitas de uma massa negra e viscosa que parecia absorver a luz ao redor. Os policiais não conseguiam feri-las; as balas simplesmente passavam pelas criaturas como se fossem fumaça, mas o toque delas congelava o que encontrasse pela frente.
Kael saltou do transporte antes mesmo dele pousar. Ele atingiu o solo com a força de um meteoro, criando uma onda de choque que afastou três das criaturas.
— Elas são densas! — gritou Kael, desferindo um soco que enviou uma criatura pelos ares, embora ela tenha se reformado segundos depois. — Socos normais não estão funcionando!
Damian disparou uma série de bat-farpas explosivas, mas o resultado foi o mesmo. As criaturas eram resilientes demais.
— Kael, pela esquerda! — comandou Damian, saltando sobre os ombros do aliado para atingir o núcleo de uma criatura com uma lâmina de energia. Os dois trabalhavam com uma sincronia impecável, apesar das brigas constantes. Era uma dança de violência e precisão.
Mas as criaturas eram centenas. E elas estavam se fundindo em algo maior. Uma massa de dez metros de altura começou a se erguer, emitindo um som que parecia o lamento de mil almas.
Kael foi atingido por um tentáculo sombrio e arremessado contra um ônibus. Damian tentou intervir, mas foi cercado por cinco monstros menores.
— Victor! — gritou Kael, tentando se levantar enquanto o gelo negro começava a cobrir seu braço. — Faz alguma coisa!
Victor estava parado no meio da rua, tremendo. O caos ao seu redor era o gatilho perfeito para o descontrole. Ele via as pessoas correndo, via seus novos companheiros — as únicas pessoas que não o olharam com medo imediato — prestes a serem esmagados.
— "Com grandes poderes, vem uma ansiedade de proporções bíblicas" — sussurrou Victor para si mesmo.
Ele tirou a luva da mão direita.
O ar ao redor de sua mão pareceu distorcer. Não era fogo, não era eletricidade. Era uma ausência de cor tão profunda que doía olhar.
A criatura gigante rugiu e desceu um punho maciço em direção a Victor.
Kael e Damian assistiram, paralisados por um instante.
Victor não se moveu. Ele apenas levantou a mão descalça e tocou levemente a superfície da massa negra que descia sobre ele.
O efeito foi imediato e aterrorizante.
Não houve impacto. No ponto onde os dedos de Victor tocaram a criatura, um padrão de linhas brancas e finas começou a se espalhar como uma teia de aranha. Em menos de um segundo, o monstro de dez metros de altura simplesmente... desapareceu.
Não caiu no chão. Não explodiu em pedaços. Ele foi apagado da existência, do topo da cabeça até a última gota de gosma no asfalto. O vácuo deixado pela massa da criatura causou um súbito deslocamento de ar, um estalo seco que fez os ouvidos de todos zunirem.
Victor permaneceu ali, a mão estendida, respirando pesadamente. Ele rapidamente recolocou a luva, escondendo o perigo novamente.
As criaturas menores, sem o seu núcleo, dissiparam-se em fumaça.
O silêncio que se seguiu foi absoluto. Kael se aproximou lentamente, olhando para o lugar onde a criatura estivera. Ele olhou para Victor, e depois para a própria mão, que ainda doía do impacto com os monstros.
Damian embainhou sua espada, a expressão geralmente ilegível agora marcada por um choque genuíno.
— Você... — começou Damian, mas as palavras pareceram fugir dele pela primeira vez na vida.
Victor limpou o suor da testa com o braço coberto pela manga da camisa e deu um sorriso pálido, embora suas pernas ainda estivessem bambas.
— É... — disse Victor, a voz falhando um pouco. — "O que aconteceu com o vilão?", vocês perguntam. E a resposta é: ele foi de arrasta pra cima. Literalmente. Foi deletado sem passar pela lixeira.
Kael soltou um suspiro longo, caminhando até Victor e parando a uma distância respeitosa, mas desta vez com um sorriso de canto.
— Aquilo foi a coisa mais assustadora e incrível que eu já vi, cara.
— Não se acostumem — pediu Victor, recuperando seu tom brincalhão. — Meu batimento cardíaco está mais alto que o preço da gasolina. Eu preciso de um hambúrguer e de doze horas de vídeos de restauração de facas antigas para me acalmar.
Damian caminhou até eles, recuperando sua postura austera, embora houvesse um novo brilho de cautela em seus olhos.
— Sua técnica é inexistente — disse o Robin —, e sua postura de combate é ofensiva para qualquer artista marcial. Mas... admito que sua utilidade é inegável.
Kael riu, dando um tapa nas próprias coxas.
— Viu só, Victor? Isso é o máximo de elogio que você vai tirar dele. "Utilidade inegável" é o "eu te amo" do Damian.
— Não abuse da sorte, Kael — retrucou Damian, embora sem a agressividade de antes.
Enquanto caminhavam de volta para o transporte, Kael passou o braço pelos ombros de Victor — mas parou a poucos centímetros, lembrando-se do aviso. Victor notou o gesto e sorriu.
— Sabe, Kael, se você quiser, a gente pode treinar depois. Você me ensina a não parecer um boneco de posto lutando, e eu te ensino as gírias da Geração Z para você parar de falar como um herói dos anos 40.
— Fechado — concordou Kael. — E você, Wayne? Vai participar ou vai ficar no canto escrevendo no seu diário de morcego?
— Eu não tenho um diário — rosnou Damian. — E se tivéssemos um treinamento, eu venceria os dois em cinco minutos.
— Ah, lá vamos nós de novo — Victor revirou os olhos, mas sentia um calor estranho no peito. Pela primeira vez em anos, ele não se sentia apenas como uma anomalia a ser monitorada. — Alguém avisa pro Batman que o recrutamento foi um sucesso, mas que eu vou precisar de luvas novas. Essas aqui ficaram com cheiro de fim do mundo.
A Torre dos Titãs brilhava no horizonte enquanto o sol se punha. O mundo estava mudando, e uma nova geração de protetores estava se formando. Entre a força bruta de Kael, a disciplina letal de Damian e o poder silencioso e terrível de Victor, os Titãs nunca mais seriam os mesmos.
E o mundo, embora ainda não soubesse, estava um pouco mais seguro sob a vigilância do garoto que conhecia todos os memes da internet e carregava o vazio na ponta dos dedos.
