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Fandom: Desenfreados
Criado: 30/07/2026
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A Boneca de Porcelana na Prateleira de Vidro
O despertador não precisa tocar. Meus olhos se abrem exatamente às 07:00, como se houvesse um mecanismo interno, uma engrenagem fria e bem lubrificada que me puxa do vazio para a realidade antes mesmo que o sol termine de escalar o horizonte de São Paulo. Não há bocejo, não há o desejo de rolar para o lado e sentir o calor dos lençóis de fios egípcios. Há apenas o despertar.
Eu não estou triste. A tristeza exige energia, exige um reconhecimento de que algo está errado, e eu já passei dessa fase há muito tempo. Hoje, eu sou apenas o piloto automático de um avião que nunca escolheu o destino.
O som suave da maçaneta girando ecoa pelo quarto silencioso. Dona Sônia, a governanta que trabalha para a minha família desde antes de eu aprender a falar, entra com passos tão leves que parecem ensaiados. Ela caminha até a janela e, com um movimento fluido, abre as cortinas pesadas. A luz da manhã invade o quarto, agressiva e branca, revelando cada partícula de poeira que se atreve a flutuar no ar estéril.
Ela coloca a bandeja de prata sobre a mesa de cabeceira. O cheiro de café preto e torradas integrais preenche o ambiente.
— Bom dia, menina Mikaela — diz ela, com um sorriso profissional. — Dormiu bem?
Eu me sento, ajeitando a camisola de seda que não tem um único amarrotado, apesar de eu ter passado a noite inteira encarando o teto.
— Sim, Sônia. Dormi perfeitamente, obrigada — respondo.
A mentira sai da minha boca com a naturalidade de quem respira. Eu não dormi. Eu passei as últimas oito horas contando os batimentos do meu próprio coração, esperando o momento em que a encenação do novo dia começaria. Mas Sônia não precisa saber disso. Ninguém precisa.
— Que bom — ela diz, enquanto arruma as almofadas atrás das minhas costas. — Sua mãe já deixou o cronograma na mesa do café. Ela a espera no andar de baixo em trinta minutos.
— Estarei lá.
Assim que ela sai, eu olho para a bandeja. O café está na temperatura exata. As frutas estão cortadas em cubos simétricos. Eu como porque é necessário manter a máquina funcionando, não porque sinto fome.
Levanto-me e vou até o closet. Sobre a poltrona de veludo, já está estendido o primeiro figurino do dia. Um vestido midi em tom pastel, corte impecável, acompanhado por um colar de pérolas discreto. Não fui eu quem escolheu. Nunca sou eu. Minha mãe, com seu olhar clínico para a estética e para o que a sociedade espera de uma herdeira, já decidiu que hoje eu devo parecer "acessível, porém sofisticada".
Visto a roupa. O tecido é frio contra a minha pele. Olho-me no espelho e vejo Mikaela. Ou melhor, vejo a imagem de Mikaela que foi construída tijolo por tijolo, jantar por jantar, sorriso falso por sorriso falso.
Desço as escadas e encontro minha mãe na sala de jantar. Ela está impecável, como sempre, com o tablet em uma mão e uma xícara de chá na outra. Ela nem sequer levanta os olhos quando eu entro.
— Bom dia, Mikaela. Você está dois minutos atrasada — diz ela, a voz calma, mas cortante como uma lâmina de barbear.
— Sinto muito, mãe.
— Não importa. Sente-se. Temos um dia longo. — Ela finalmente me olha, escaneando-me de cima a baixo à procura de qualquer falha. — O vestido ficou bom. Realça a sua palidez de um jeito elegante.
— Obrigada.
— Aqui está a agenda — ela continua, deslizando um papel impresso sobre a mesa. — Às dez, temos a inauguração da ala pediátrica no hospital beneficente. Você precisa sorrir para as fotos e conversar com a esposa do Secretário de Saúde. Lembre-se de mencionar o quanto a fundação da nossa família se preocupa com o futuro das crianças.
— Entendido — respondo, sem olhar para o papel. Eu já decorei o tom que devo usar.
— Depois — ela prossegue —, almoçaremos com os investidores do grupo imobiliário. Eles estão interessados na expansão do shopping. O seu pai quer que você esteja presente. Mantenha-se atenta, mas não interrompa as discussões técnicas. Apenas mostre que você está aprendendo o funcionamento dos negócios.
— E a faculdade? — pergunto, apenas por força do hábito.
Minha mãe dá um gole no chá, a expressão imperturbável.
— Você tem as aulas gravadas e os materiais no portal. Pode revisar no carro entre um compromisso e outro. Administração é um curso prático, Mikaela. Você aprende mais nesses almoços do que em uma sala de aula.
Administração. O curso que meu pai escolheu para mim no dia em que nasci. Eu queria... o que eu queria mesmo? Às vezes, tento lembrar se algum dia tive um sonho que não envolvesse planilhas ou relações públicas, mas as memórias parecem nubladas, como se pertencessem a outra pessoa.
— E à noite? — pergunto.
— O coquetel da galeria de arte. É um evento importante para o networking. Estaremos em casa por volta das onze da noite.
— Tudo bem.
— Ótimo. Vá terminar de se arrumar. Quero você no carro em dez minutos.
— Sim, senhora.
O hospital cheira a desinfetante e flores caras. Eu caminho ao lado da minha mãe, mantendo a postura ereta que anos de aulas de etiqueta me impuseram. O flash das câmeras é constante. Eu sorrio. Não é um sorriso que chega aos olhos, mas é o suficiente para as colunas sociais.
— Menina Mikaela, que prazer vê-la tão engajada — diz a esposa do Secretário, uma mulher cujas plásticas a impedem de demonstrar qualquer emoção real.
— O prazer é meu, Sra. Albuquerque — respondo, a voz suave e modulada. — É inspirador ver como este projeto saiu do papel. Minha família acredita que investir na base é o único caminho para um país melhor.
As palavras saem da minha boca como se eu estivesse lendo um teleprompter invisível. Eu não sinto o que estou dizendo. Eu sinto apenas o peso do colar de pérolas no meu pescoço, que parece apertar a cada minuto.
O almoço com os investidores é uma sucessão de pratos sofisticados que eu mal toco e conversas sobre margens de lucro e taxas de juros. Eu sento lá, uma estátua decorativa, acenando com a cabeça nos momentos certos. Meu pai fala com autoridade, e eu sou o reflexo do seu sucesso.
— A Mikaela já está se familiarizando com os ativos da família — diz meu pai, colocando a mão sobre o meu ombro. O toque é pesado, uma reivindicação de propriedade. — Em breve, ela terá um papel fundamental na diretoria.
— É muito bom ver a continuidade do legado — comenta um dos investidores, um homem grisalho que me olha como se eu fosse um prédio em construção.
— Estou ansiosa por isso — minto.
No carro, a caminho do coquetel, o silêncio é absoluto. Minha mãe está digitando furiosamente no celular. Eu olho pela janela, vendo a vida passar lá fora. Pessoas correndo para pegar o ônibus, jovens rindo em uma esquina, alguém andando de bicicleta. Eles parecem tão... vivos. Tão bagunçados.
Eu me pergunto como seria ser bagunçada. Como seria acordar às dez da manhã em um sábado e decidir, no improviso, que quero tomar sorvete no café da manhã. Como seria escolher uma roupa só porque ela é confortável, e não porque ela comunica "estabilidade financeira".
— Mikaela, você está distraída — diz minha mãe, sem tirar os olhos da tela. — Retoque o batom. O tom está desaparecendo.
— Sim, mãe.
Pego o espelho na bolsa. O rosto que me devolve o olhar é bonito, sim. Mas é um rosto vazio. É a máscara que eu uso para não decepcionar o sobrenome que carrego.
O coquetel é um borrão de taças de champanhe e música clássica em volume baixo. O ar está denso com o cheiro de perfumes importados e pretensão.
— Você parece cansada — alguém diz atrás de mim.
Eu me viro, pronta para disparar a resposta automática de que "estou ótima, apenas emocionada com a exposição", mas as palavras travam na garganta. É apenas um conhecido da família, alguém que frequenta os mesmos círculos.
— Impressão sua — respondo, recuperando a compostura. — O evento está maravilhoso.
— Claro — ele diz, com um tom de ironia que eu não sei como processar. — Tudo aqui é sempre maravilhoso, não é?
Eu não respondo. Não há espaço para ironia na minha vida. Não há espaço para nada que não esteja no script.
Quando finalmente chegamos em casa, o relógio marca 23:15. Meus pés doem por causa dos saltos, e minha mandíbula está tensa de tanto sustentar o sorriso social.
— Foi um bom dia — diz minha mãe, subindo as escadas. — Amanhã o café será às 07:30. Temos a reunião com o arquiteto da casa de praia. Boa noite, Mikaela.
— Boa noite, mãe.
Entro no meu quarto e fecho a porta. O silêncio me envolve como um cobertor pesado. Começo a me despir, removendo cada camada da armadura que usei hoje. O vestido, as pérolas, a maquiagem.
Vou até o banheiro e lavo o rosto. A água fria é a única coisa real que senti o dia inteiro. Olho para o reflexo no espelho, as gotas de água escorrendo pela pele.
Eu não escolhi o curso de Administração. Eu não escolhi esse vestido. Eu não escolhi estar naquele hospital ou naquele almoço. Eu não escolhi ser essa versão de mim mesma.
Eu sou como um trem nos trilhos. Posso ser luxuoso, posso ser rápido, posso ser admirado por quem olha de fora, mas eu nunca, jamais, poderei virar o volante e sair do caminho que foi traçado para mim antes mesmo de eu nascer.
Deito-me na cama. O quarto está escuro, mas meus olhos permanecem abertos.
Amanhã, às 07:00, eu acordarei. Dona Sônia abrirá as cortinas. Minha mãe terá a agenda pronta. E eu cumprirei cada item, cada minuto, cada expectativa.
Porque é isso que eu faço. Eu não vivo. Eu apenas cumpro.
Fecho os olhos, esperando pelo sono que não vem, enquanto o piloto automático se prepara para a próxima decolagem.
