
Família
Fandom: Mundo real
Criado: 30/07/2026
Tags
O Gelo de Vancouver e o Calor do Lar
A luz da manhã em Vancouver tinha aquele tom azulado e frio, típico da costa oeste canadense, mas dentro da cobertura dos Hatake, o clima era de um calor absoluto. O som abafado das lâminas de patins cortando o gelo ainda ecoava na mente de Kuro, um resquício do treino intenso da madrugada, mas nada se comparava ao som que ele ouvia agora: o silêncio suave de sua casa despertando.
Kuro Hatake atravessou o corredor com passos leves, apesar de seu porte físico imponente. Aos 23 anos, ele era o prodígio do hóquei, o defensor que os adversários temiam e que as câmeras amavam. A camisa de treino sem mangas deixava à mostra os braços musculosos e as veias saltadas, fruto de horas de dedicação ao esporte. O cabelo branco, curto e repicado, estava levemente bagunçado, dando a ele aquele ar de "bad boy" que fazia a internet entrar em colapso a cada postagem. Mas, ali, entre aquelas quatro paredes, ele era apenas o homem perdidamente apaixonado pela esposa.
Ele parou no batente da porta do quarto principal. A cena diante de seus olhos era o seu combustível diário.
Tatsuyo estava sentada na poltrona de amamentação, envolta em um robe de seda que contrastava com sua pele parda e os longos cabelos pretos que caíam como uma cascata sobre os ombros. Em seu colo, o pequeno Koda, de apenas oito meses, estava profundamente concentrado, as mãozinhas gordinhas espalmadas contra o seio da mãe.
Kuro sentiu aquele aperto familiar no peito. Ele era obcecado por ela desde o colégio, e vê-la naquele papel de mãe só alimentava um desejo que beirava o devocional.
— Você é a coisa mais linda desse mundo, sabia? — sussurrou Kuro, aproximando-se lentamente.
Tatsuyo levantou os olhos pretos e profundos, abrindo um sorriso sereno que iluminou o rosto.
— Achei que você ainda estivesse no chuveiro — disse ela, a voz doce e baixa para não distrair o bebê. — O treino foi muito pesado hoje?
Kuro se ajoelhou ao lado da poltrona, apoiando os braços fortes no braço do móvel. Ele inclinou a cabeça, observando Koda mamar com vontade.
— O técnico está pegando pesado para os playoffs, mas eu só conseguia pensar em voltar para casa. — Ele esticou a mão e acariciou a bochecha de Tatsuyo com o polegar. — Minha jornalista favorita trabalhou muito ontem à noite?
— Só um pouco — Tatsuyo respondeu, inclinando o rosto para o toque dele. — Consegui terminar a coluna de esportes. Ironicamente, tive que escrever sobre um certo jogador de hóquei que anda quebrando recordes e corações por aí.
Kuro soltou uma risadinha convencida, seus olhos castanhos brilhando com malícia.
— Ah, é? E o que a crítica disse sobre ele?
— Disse que ele é um exibido — ela brincou, embora seus olhos transmitissem um amor imenso. — Mas que, infelizmente, ele é o melhor que já vimos em décadas.
— Só "o melhor"? — Kuro se aproximou mais, o rosto a centímetros do dela. — Eu esperava algo como "o homem mais sortudo do mundo por ter a Tatsuyo".
Antes que ela pudesse responder, a porta do quarto foi aberta com um estrondo suave, e um pequeno furacão de cabelos brancos e energia pura invadiu o recinto. Kenai, de dois anos, já estava totalmente desperto, vestindo um pijama de ursinho.
— Papai! Mamãe! — Kenai correu em direção a eles, os olhos castanhos saltitantes de alegria. — Minha vez!
Kuro pegou o filho no colo antes que ele pulasse em cima de Tatsuyo e do bebê. O jogador de hóquei ergueu o menino para o alto, fazendo-o gargalhar.
— Calma aí, campeão! O Koda ainda está terminando o café da manhã dele. Você sabe a regra, não sabe?
— Primeiro o Koda, depois o Kenai! — o menino exclamou, tentando se soltar para chegar perto da mãe.
Tatsuyo riu, ajeitando Koda, que já começava a soltar o seio, satisfeito e sonolento.
— Venha aqui, meu amor — chamou Tatsuyo, estendendo o braço livre para Kenai. — O papai te ajuda a subir.
Kuro colocou Kenai cuidadosamente ao lado de Tatsuyo. O menino, que herdara a pele parda da mãe e o cabelo branco do pai, era a mistura perfeita dos dois. Com a naturalidade de quem via naquilo o momento mais sagrado do dia, Kenai se acomodou enquanto Tatsuyo o guiava para o outro seio.
Para Tatsuyo, aqueles momentos eram de pura conexão. Ela amava sua carreira, mesmo trabalhando pouco e de casa, mas nada se comparava à sensação de nutrir seus filhos. Era o seu refúgio, o momento em que o mundo lá fora, com suas pressões e flashes, deixava de existir.
Kuro observava a cena em silêncio por alguns instantes. Sua mente viajava pela sorte que tinha. Ele era um ídolo nacional, um homem rico e musculoso que poderia ter qualquer coisa, mas tudo o que ele queria estava ali. Ele se inclinou e beijou o topo da cabeça de Kenai, e depois a testa de Tatsuyo, deixando o beijo demorar um pouco mais.
— Eu vou preparar o café — disse Kuro, sua voz subitamente mais rouca. — E depois, eu quero que você me conte mais sobre esse artigo que escreveu. Especialmente a parte onde você diz o quanto eu sou bom... em tudo.
Tatsuyo deu um peteleco leve no braço dele, corando levemente.
— Você é impossível, Kuro Hatake. As suas fãs teriam um ataque se vissem esse seu lado tarado.
— Elas podem surtar o quanto quiserem na internet — ele piscou para ela, levantando-se e exibindo o abdômen definido sob a luz do sol. — Mas só você tem o passe VIP para o show completo.
Ele saiu do quarto com um passo leve, deixando Tatsuyo sorrindo sozinha.
Meia hora depois, a cozinha estava impregnada com o cheiro de café fresco e panquecas. Kuro estava terminando de montar a mesa quando Tatsuyo apareceu, agora carregando Koda no colo, enquanto Kenai corria em volta de suas pernas, já pedindo por suco.
— Tudo pronto, minha rainha — anunciou Kuro, pegando Koda dos braços dela para que ela pudesse se sentar.
— Você realmente se superou hoje — comentou ela, observando a mesa farta.
— Eu preciso manter minha família bem alimentada — ele disse, sentando-se ao lado dela e começando a dar pedaços de fruta para o bebê. — E eu preciso de energia. Tenho um jogo importante hoje à noite.
— Nós estaremos lá — Tatsuyo afirmou com convicção. — Kenai já separou a mini camisa dele.
— Eu vou fazer um gol para vocês — prometeu Kuro, olhando fixamente para Tatsuyo. — Mas o prêmio que eu quero de verdade é quando a gente voltar para casa e os meninos estiverem dormindo.
Tatsuyo sentiu aquele frio na barriga que só Kuro conseguia causar. Mesmo depois de anos e dois filhos, a intensidade dele nunca diminuía.
— Você não se cansa nunca, não é? — ela perguntou, com um sorriso desafiador.
— De você? — Ele se inclinou, sussurrando perto do ouvido dela enquanto as crianças se distraíam com a comida. — Nunca. Eu sou viciado em você, Tatsuyo. No seu cheiro, no seu toque... em como você fica linda cuidando dos nossos filhos. Você é o meu troféu, o único que realmente importa.
— Papai, olha! — Kenai interrompeu, apontando para a televisão que passava os destaques do esporte.
A imagem de Kuro Hatake apareceu na tela, fazendo um movimento agressivo no gelo, derrubando um adversário e mandando o disco para o fundo da rede. O locutor gritava seu nome com entusiasmo.
— Esse é você, papai! — Kenai bateu palmas.
Kuro olhou para a tela e depois para o filho, sorrindo de lado.
— É, amigão. Mas o papai aqui na cozinha é muito mais legal, não acha?
— O papai do gelo é forte! — Kenai exclamou, fazendo pose de músculo.
Tatsuyo riu, observando a interação. Kuro era um pai incrível, sempre presente, sempre disposto a brincar e a ensinar. Ele não tinha medo de demonstrar afeto, de ser vulnerável perto deles, apesar da imagem de "durão" que mantinha no rinque.
Após o café, Kuro ajudou a arrumar tudo. Ele tinha uma rotina de treinos leve antes do jogo, mas antes de sair, ele sempre reservava um tempo para ficar a sós com Tatsuyo, nem que fosse por cinco minutos.
Enquanto os meninos brincavam no tapete da sala com alguns blocos de montar, Kuro puxou Tatsuyo pela cintura na cozinha.
— Eu vou sentir saudade — ele murmurou, escondendo o rosto no pescoço dela e aspirando o perfume de baunilha e leite.
— Você só vai ficar fora por algumas horas, Kuro — ela riu, embora suas mãos estivessem perdidas nos cabelos brancos dele.
— Horas demais — ele rebateu, apertando-a contra seu corpo musculoso. — Às vezes eu queria poder te colocar na minha bolsa de equipamentos e te levar para o banco de reservas. Só para olhar para o lado e ver que você está ali.
— Eu estarei na arquibancada, como sempre. E estarei aqui quando você voltar.
Kuro se afastou o suficiente para olhar nos olhos dela. A brincadeira havia sumido, substituída por uma seriedade profunda.
— Eu te amo mais do que consigo explicar, Tatsuyo. Obrigado por tudo isso. Por eles, por nós.
— Eu também te amo, meu jogador favorito.
Ele a beijou com uma fome que sempre a surpreendia, um beijo que prometia muito mais para o final da noite. Quando se separaram, ele estava com aquele sorriso convencido de novo.
— Se eu fizer dois gols, eu ganho um bônus? — ele perguntou, pegando as chaves do carro.
— Talvez — ela respondeu, cruzando os braços e encostando-se no balcão. — Depende de quão bem você se comportar nas entrevistas pós-jogo. Nada de gracinhas com as repórteres.
— Elas não são você, Tatsuyo. Elas nem existem para mim.
Kuro deu um último tchau para os filhos, recebendo um "Tchau, papai!" entusiasmado de Kenai e um balbuciar alegre de Koda.
Quando a porta se fechou, a casa ficou um pouco mais silenciosa, mas o calor permanecia. Tatsuyo caminhou até a janela, observando a paisagem de Vancouver. Ela sabia que, em algumas horas, milhares de pessoas estariam gritando o nome de seu marido, admirando sua força e sua habilidade. Mas ela também sabia que, no final da noite, o grande astro do hóquei só queria uma coisa: voltar para os braços da mulher que amava e para a vida simples e perfeita que haviam construído juntos.
Ela pegou seu laptop e sentou-se no sofá, enquanto os meninos brincavam aos seus pés. Ela tinha um novo artigo para começar, mas, desta vez, não seria sobre estatísticas ou jogadas ensaiadas. Seria sobre o que acontece quando o gelo derrete e o que sobra é apenas o amor mais puro e obsessivo que alguém poderia ter a sorte de encontrar.
E ela sabia exatamente por onde começar.
