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Fandom: Nenhum

Criado: 30/07/2026

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Entre o Traço e a Sapatilha

A brisa do fim de tarde na fazenda dos avós trazia um cheiro doce de grama cortada e terra molhada, um contraste gritante com o asfalto quente e o barulho das máquinas de tatuagem que compunham a rotina de Emanuel na cidade. Ele estava encostado na cerca de madeira do terraço, observando o horizonte alaranjado. Seus dedos, marcados por tatuagens artísticas que contavam histórias de anos de dedicação, tamborilavam de forma inquieta no parapeito. O estresse de gerenciar estúdios em três continentes parecia dissipar ali, mas era substituído por uma tensão de natureza muito mais íntima e complexa.

— Você está com aquela cara de quem está tentando resolver uma equação de terceiro grau mentalmente, Manu. — A voz de Sara surgiu às suas costas, carregada de um deboche carinhoso.

Emanuel não precisou se virar para saber que ela estava sorrindo. Sara cruzou o espaço com passos decididos, o vestido curto e justo realçando a barriga de cinco meses que carregava Valentina. Ela era o oposto do ambiente bucólico: loira, com cílios postiços impecáveis, lábios pintados de um vermelho vibrante e uma presença que exigia atenção. Ela parou ao lado dele, encostando o quadril no dele, exalando um perfume importado forte e doce.

— Só estou pensando na logística de tudo, Sara. — Emanuel suspirou, passando a mão pelo rosto cansado. — A família toda reunida... é um pouco demais às vezes.

— Mentira — rebateu ela, virando-se para ele e colocando as mãos nas curvas acentuadas pelo silicone e pela gravidez. — Você está olhando para o jardim porque sabe que a Duda está lá embaixo. Para de ser covarde. A gente já conversou sobre isso.

Emanuel finalmente olhou para a esposa. O relacionamento deles era baseado em uma honestidade bruta, quase visceral. Ele a amava com uma intensidade que beirava a obsessão; amava a força dela, a falta de filtros e a forma como ela não se deixava abater por nada. Quando ele confessou, meses atrás, que seus sentimentos pela prima, Eduarda, haviam transcendido o carinho familiar, ele esperava um escândalo. Em vez disso, Sara deu de ombros e disse que, se ele tinha coração para duas, ela não seria a pessoa a podar sua felicidade, desde que ela continuasse sendo a sua rainha.

— Ela está grávida, Sara. O desgraçado do ex-namorado a largou no momento em que ela mais precisava. Ela está sensível, focada no ballet, na faculdade de História da Arte... eu não quero ser mais um problema na vida dela.

— Problema? — Sara riu, uma risada anasalada e confiante. — Você é o porto seguro dela, Emanuel. Olha como ela te olha. Ela se apoia em você para tudo. O que você sente por ela é puro, é protetor. E, sinceramente? Ela é uma fofa. Eu gosto da Duda. Ela não é uma ameaça para mim, ela é... como um passarinho que precisa de um ninho maior. E o nosso ninho tem espaço.

Emanuel olhou para baixo, na direção do gramado. Eduarda estava lá, sentada em um banco de madeira sob uma mangueira. Ela usava um vestido de algodão branco, leve e fluido, que escondia e revelava ao mesmo tempo a barriga de cinco meses onde Amélie crescia. Ela lia um livro de história da arte, mas seus olhos pareciam distantes. A fragilidade dela era magnética para ele. Enquanto Sara era o fogo que o desafiava, Eduarda era a água que o acalmava.

— Vai lá falar com ela — incentivou Sara, dando um tapinha no braço dele. — Eu vou procurar sua avó para reclamar que esse café da fazenda precisa de mais açúcar. E não esquece: se você não abrir o jogo, eu abro por você. E você sabe que eu não tenho delicadeza.

Emanuel sorriu de lado, um sorriso raro e tenso.

— Eu sei que não tem.

Ele desceu as escadas de madeira rangentes e caminhou pelo gramado. O sol estava quase sumindo, deixando o mundo em tons de violeta. Quando se aproximou, Eduarda levantou os olhos. Um brilho imediato surgiu em seu olhar expressivo, e ela fechou o livro, ajeitando uma mecha do cabelo castanho que caía sobre o rosto.

— Emanuel — disse ela, a voz suave e um pouco manhosa. — Achei que você estivesse trancado no escritório resolvendo coisas de Londres.

— Eu decidi que Londres pode esperar até segunda-feira — ele respondeu, sentando-se no banco ao lado dela, mas mantendo uma distância respeitosa que seu corpo implorava para diminuir. — Como você está se sentindo? A Amélie deu trégua hoje?

Eduarda sorriu, levando a mão pequena à barriga.

— Ela está agitada. Acho que gosta do ar do campo. Ou talvez seja o cansaço das aulas de ballet que dei antes de vir para cá. Meus pés estão me matando.

— Você não deveria estar se esforçando tanto, Duda. Dar aulas e ainda estudar para as provas da faculdade... você precisa descansar.

— Eu gosto de me manter ocupada — ela murmurou, desviando o olhar para os próprios pés calçados em sapatilhas simples. — Me impede de pensar em... outras coisas. Em como tudo mudou tão rápido.

Emanuel sentiu aquela pontada familiar de proteção. Ele queria encontrar o homem que a abandonara e garantir que ele nunca mais pudesse andar, mas, em vez disso, focou em ser o que ela precisava naquele momento: estabilidade.

— Você não está sozinha, sabe disso. Meus tios são modernos, eles te apoiam em tudo. E eu... eu estou aqui. Sempre.

Eduarda se inclinou levemente para o lado, encostando a cabeça no ombro de Emanuel. Era um gesto de confiança absoluta, de uma carência que ela só se permitia demonstrar com ele. O cheiro dela, algo que lembrava baunilha e sabonete de bebê, invadiu os sentidos dele.

— Eu sei que está — sussurrou ela. — Às vezes eu acho que você é a única pessoa que realmente me entende sem que eu precise dizer uma palavra. A Sara tem sorte de ter você. Ela é tão segura de si, tão... poderosa. Eu queria ser um pouco mais como ela.

Emanuel sentiu o coração acelerar. A ironia daquela frase quase o fez rir.

— A Sara é única, mas você também é, Duda. Você tem uma força que nem percebe. Aguentar tudo o que passou e ainda manter essa doçura... isso é raridade.

Ele ousou passar o braço pelos ombros dela, puxando-a para mais perto. Eduarda soltou um suspiro de alívio e se aninhou no peito dele, fechando os olhos. Por alguns minutos, o único som era o dos grilos começando sua sinfonia noturna.

— Duda? — Emanuel chamou, a voz mais rouca do que o normal.

— Oi?

— E se... e se o "porto seguro" fosse mais do que apenas família? Se eu dissesse que o que eu sinto por você não cabe em uma caixa de primos?

Eduarda se afastou um pouco, olhando para ele com os olhos arregalados, a confusão nublando sua expressão doce.

— O que você quer dizer, Manu?

Emanuel olhou para a casa da fazenda. Na janela da cozinha, ele viu o vulto de Sara. Ela estava observando, um copo de suco na mão, e quando percebeu o olhar dele, apenas assentiu com a cabeça, um incentivo silencioso. Ela não tinha ciúmes, porque sabia que o amor de Emanuel por ela era uma rocha, e o que ele sentia por Eduarda era uma flor que precisava ser regada.

— Eu quero dizer que eu amo a Sara. Com todo o meu ser. Ela é minha esposa, a mãe da minha filha e a mulher que divide a vida comigo. Mas... — Ele hesitou, buscando as palavras lógicas que costumavam vir tão fácil em reuniões de negócios, mas que agora fugiam. — Mas o meu coração também tem um lugar que pertence só a você. E não é de hoje.

Eduarda piscou, as lágrimas começando a inundar seus olhos sensíveis.

— Mas a Sara... ela ficaria brava, ela me odiaria...

— Ela sabe, Duda. — Emanuel pegou a mão dela, entrelaçando seus dedos marcados por tinta com os dedos delicados de bailarina. — Ela sabe e ela quer que eu te conte. A Sara não vê o amor como uma conta de divisão, mas como uma de soma. Ela gosta de você. Ela quer que estejamos juntos.

— Eu... eu não sei o que dizer — gaguejou Eduarda, a insegurança gritando em seu peito. — Eu sempre me senti segura com você, Manu. Eu sempre tive um carinho diferente por você, mas eu achei que era errado, que era só porque eu estava carente e você era bom para mim.

— Não é errado se faz bem para nós três. — Emanuel se aproximou, a testa encostada na dela. — Eu quero cuidar de você e da Amélie. Quero que vocês façam parte da minha vida de um jeito completo. Eu não quero ter que escolher, porque eu amo as duas de formas diferentes, mas com a mesma intensidade.

Eduarda soltou um soluço baixo, escondendo o rosto no pescoço dele.

— Eu tive tanto medo de ficar sozinha, Manu.

— Você nunca mais vai estar sozinha. Eu prometo.

Nesse momento, passos confiantes ecoaram na grama. Sara se aproximou, o brilho das suas joias refletindo a luz da varanda. Ela parou diante dos dois e colocou a mão livre no ombro de Eduarda.

— Chega de choro, boneca — disse Sara, com seu tom vibrante. — O Emanuel é um dramático, mas ele tem um coração de ouro. Se ele está dizendo que a gente vai dar um jeito, a gente vai. Eu já até pensei em como vamos organizar os quartos lá em casa quando as meninas nascerem. Valentina e Amélie vão ser como irmãs.

Eduarda olhou para Sara, surpresa com a naturalidade da loira.

— Você... você realmente não se importa, Sara?

Sara deu de ombros, soltando uma risadinha.

— Querida, eu sou muita areia para o caminhão de qualquer um, mas o Emanuel é um caminhão bem grande. Se ele precisa de uma doçura como a sua para ser plenamente feliz, quem sou eu para dizer não? Além do mais, eu preciso de alguém para me ajudar a escolher as roupas da Valentina, e o gosto do seu primo para moda é... funcional demais.

Eduarda riu entre as lágrimas, sentindo um peso imenso sair de seus ombros. A dinâmica era estranha, fora de qualquer padrão que ela tivesse estudado na faculdade ou visto na sua família moderna, mas ali, entre a força de Emanuel e a exuberância de Sara, ela se sentiu, pela primeira vez em meses, verdadeiramente protegida.

Emanuel suspirou, sentindo a tensão acumulada de semanas finalmente ceder. Ele tinha Sara de um lado e Eduarda do outro. O controle que ele tanto buscava na vida não vinha de ditar regras, mas de aceitar que o amor podia ser mais vasto do que as convenções sociais permitiam.

— Vamos entrar? — sugeriu Emanuel. — O sereno está ficando forte e temos duas grávidas para alimentar.

— Com certeza — concordou Sara, pegando o braço livre de Emanuel. — E Duda, amanhã você vai me mostrar os desenhos que fez para o quarto da Amélie. Se forem básicos demais, eu vou ter que intervir. Minha afilhada/irmã de consideração tem que ter estilo.

Eduarda sorriu, deixando-se ser conduzida por eles em direção à luz da casa. Ela ainda estava processando tudo, sua mente tímida tentando entender como sua vida tinha mudado em questão de minutos. Mas, ao sentir a mão firme de Emanuel em sua cintura e ouvir o falatório incessante de Sara sobre decorações luxuosas, ela soube que Amélie nasceria em um mundo onde o amor não tinha cercas.

Naquela noite, sob o teto da fazenda dos avós, entre o aroma de café e o som de conversas familiares ao fundo, um novo tipo de família começou a se desenhar. Emanuel, o tatuador que costumava marcar a pele das pessoas com tinta eterna, percebeu que a marca mais profunda que ele já havia feito não fora com agulhas, mas com a coragem de ser honesto sobre a imensidão do que sentia. E enquanto as duas mulheres que ele amava se acomodavam no sofá, ele sentiu que, pela primeira vez, o controle da situação não era necessário, pois o afeto guiava o caminho.

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