
A Rosa e o Dragão
Fandom: O Cavaleiro dos Sete Reinos
Criado: 31/07/2026
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O Peso da Coroa de Cinzas
O silêncio na Sala do Trono era mais ensurdecedor do que o clamor das espadas que, lá fora, ainda ecoavam pelos pátios da Fortaleza Vermelha. O cheiro de metal e fumaça impregnava o ar, mas nada era tão sufocante quanto a visão que se desdobrava diante dos olhos de Valarr Targaryen.
Ele estava parado, com a armadura negra manchada de sangue que não era seu, a lança trêmula em sua mão enluvada. Atrás dele, seu pai, Baelor Quebra-Lança, mantinha a mão no cabo da espada, o peito subindo e descendo com esforço, os olhos fixos na figura sentada no Trono de Ferro.
Aldric Darkmoor parecia ter nascido para aquele assento de espadas retorcidas. Ele sorria — um sorriso leve, quase gentil, que escondia a monstruosidade de sua alma. Mas não era para Aldric que Valarr olhava. Seus olhos, um azul profundo e o outro um marrom terroso, estavam cravados na mulher ao lado do usurpador.
Lysaha Rowen. Ou, como o reino agora a conhecia, Alyssane Darkmoor.
Ela vestia seda escura, a postura ereta, os cabelos pretos caindo como uma cascata sobre os ombros. A guerreira habilidosa, a mulher cujos sorrisos haviam sido o único refúgio de Valarr nos últimos meses, estava ali, impassível.
— Lysie? — A voz de Valarr saiu como um sussurro quebrado, desprovido de toda a dignidade real que ele tanto cultivara.
Ela não respondeu de imediato. Seus olhos castanhos escuros encontraram os dele, mas não havia o brilho de afeto que ele vira na noite anterior. Havia apenas um abismo.
— Diga que é mentira — implorou Valarr, dando um passo à frente, ignorando o rosnado dos guardas de Aldric. — Diga que você foi forçada. Que ele está te ameaçando agora.
Aldric soltou uma risada curta e seca, inclinando-se para a frente no trono.
— Forçada, Príncipe Valarr? Minha sobrinha foi o meu trunfo mais valioso. Cada beijo, cada segredo compartilhado entre vocês... tudo serviu para pavimentar o meu caminho até aqui.
Valarr sentiu como se o chão tivesse desaparecido. Ele olhou para Lysaha, esperando por um sinal, uma negação, qualquer coisa.
— É verdade? — perguntou ele, a voz agora mais firme, endurecida pela agonia.
Lysaha finalmente falou. Sua voz era fria, embora suas mãos, escondidas nas dobras do vestido, estivessem geladas.
— Eu fiz o que tinha que fazer, Valarr.
Baelor deu um passo à frente, a voz de trovão ecoando pelo salão.
— Você salvou minha vida esta noite, menina. Eu vi você matar aquele soldado na escada. Por que fazer isso se o seu plano era a nossa ruína?
Aldric lançou um olhar de soslaio para Lysaha, um brilho de suspeita cruzando seus olhos claros por um breve segundo, mas ela não vacilou.
— Um erro estratégico de um subordinado — respondeu ela, sem olhar para Baelor. — O destino de Porto Real já estava selado.
Valarr sentiu que ia vomitar. A traição tinha um gosto metálico. Ele lembrou-se do calor da pele dela, das promessas sussurradas entre lençóis de seda, da forma como ela o olhava enquanto treinavam no pátio. Tudo fora uma mentira. Uma encenação magistral.
— Levem-nos — ordenou Aldric, acenando com desdém. — O Rei Daeron, Maekar, Baelor e os príncipes. Eles serão nossos convidados de honra nas celas... por enquanto.
Enquanto os guardas avançavam, Valarr não lutou. Ele permitiu que o despojassem de sua lança negra, seus olhos nunca deixando o rosto de Lysaha. Ela, porém, desviou o olhar para o teto abobadado, recusando-se a testemunhar a queda do homem que, em segredo, ainda possuía seu coração estilhaçado.
Seis meses antes
O sol de Porto Real era impiedoso, mas o pátio de treinos da Fortaleza Vermelha oferecia a sombra das altas muralhas. Valarr Targaryen observava a recém-chegada com uma curiosidade que raramente demonstrava. Alyssane Darkmoor, a sobrinha do novo conselheiro do rei, não era como as outras damas da corte. Ela não passava o tempo bordando ou fofocando sobre casamentos.
Ela empunhava uma espada curta com uma ferocidade técnica que chamou a atenção até de Maekar.
— Ela é rápida — comentou Baelor, aproximando-se do filho. — E inteligente. Aldric diz que ela teve os melhores mestres nas Cidades Livres.
— Ela luta como se tivesse algo a provar, pai — observou Valarr, ajustando suas luvas de couro.
— Talvez todos nós tenhamos — disse Baelor com um sorriso encorajador. — Vá. Teste a habilidade da moça.
Valarr desceu os degraus de pedra com sua elegância natural. Ele era esguio, mas seus movimentos possuíam a precisão de um predador calmo. Quando Lysaha — que ele ainda conhecia como Alyssane — o viu se aproximar, ela baixou a arma e fez uma reverência curta, seus olhos castanhos brilhando de forma enigmática.
— Príncipe Valarr — disse ela. A voz era doce, mas havia uma firmeza nela que o intrigava.
— Lady Alyssane. Meu pai diz que sua técnica é impecável. Gostaria de verificar se ele está exagerando.
Ela sorriu, um sorriso que, na época, Valarr achou ser de pura diversão.
— Serei gentil, meu príncipe.
— Não seja — respondeu ele, desembainhando sua espada de treino. — Eu detesto condescendência.
O treino durou quase uma hora. Valarr era mais alto e tinha maior alcance, mas Lysaha era pequena e ágil, movendo-se como fumaça entre seus ataques. Ela não conseguia vencê-lo — a força física de Valarr e sua educação militar eram superiores —, mas ela o desafiava de uma forma que ninguém mais conseguia.
Ao final, ambos estavam ofegantes, o suor brilhando em suas testas. Valarr ofereceu-lhe um odre de água.
— Você treina como uma guerreira veterana — disse ele, genuinamente impressionado.
— Aprendi que, neste mundo, a beleza é uma armadura frágil — respondeu ela, bebendo a água com sofregidão. — A força e a astúcia são as únicas coisas que permanecem.
Valarr sentiu uma conexão imediata. Ele, que sempre fora reservado e educado, sentia-se à vontade com aquela mulher que parecia entender o peso da responsabilidade e da posição. Nos meses que se seguiram, o pátio tornou-se o refúgio deles.
Entre um golpe de espada e outro, eles conversavam. Valarr falava sobre suas dúvidas em relação ao futuro, sobre o peso de carregar a mecha prateada em seus cabelos castanhos — um lembrete constante de sua linhagem em um corpo que muitos consideravam atípico para um Targaryen. Lysaha ouvia com uma atenção que parecia devocional.
— Você será um grande rei, Valarr — disse ela certa noite, enquanto caminhavam pelos jardins de dragões. — Você tem o coração do seu pai e a visão que falta a muitos nesta Fortaleza.
— E você estará ao meu lado para me aconselhar? — perguntou ele, parando sob a luz da lua.
Lysaha hesitou. Por um momento, a máscara de Alyssane Darkmoor fraquejou. A dor em seus olhos era visível, mas Valarr, em sua paixão crescente, interpretou-a como timidez.
— Eu estarei onde o destino me colocar — respondeu ela em voz baixa.
Naquela noite, o primeiro beijo aconteceu. Foi um toque hesitante, seguido por uma urgência que os surpreendeu. Valarr sentiu que tinha encontrado sua alma gêmea. Ele não sabia que, a poucos metros dali, Aldric Darkmoor observava das sombras, um sorriso predatório em seu rosto frio.
Para Aldric, cada momento de intimidade entre os dois era uma peça movida em seu tabuleiro. Ele tinha a família de Lysaha — sua mãe Luieny e sua irmã Cassye — sob seu controle em um local secreto. A lealdade de Lysaha não fora comprada com ouro, mas com o sangue de sua linhagem.
— Lembre-se, querida — sussurrara Aldric no ouvido dela naquela mesma noite, após o encontro com o príncipe. — O coração de Valarr deve ser seu para que, no momento certo, você possa pará-lo. Se você falhar, sua irmã será a próxima a conhecer o aço.
Lysaha fechou os olhos, sentindo o nojo subir por sua garganta.
— Eu não vou falhar.
O Presente: As Celas da Fortaleza Vermelha
As paredes de pedra eram úmidas e frias. Valarr estava sentado no chão de sua cela, a cabeça encostada na parede. Ele ainda conseguia ouvir os gritos distantes na cidade, o som da nova ordem de Aldric sendo imposta a ferro e fogo.
Seu pai, Baelor, estava na cela ao lado.
— Valarr? — chamou Baelor suavemente.
— Eu fui um tolo, pai. Eu a deixei entrar. Eu contei a ela sobre as patrulhas, sobre os pontos fracos da guarda...
— Todos nós fomos enganados — disse Baelor, sua voz mantendo a calma magnânima que o tornava tão respeitado. — Mas há algo que não faz sentido. Naquela noite, o soldado que entrou nos meus aposentos... ele tinha ordens para me matar enquanto eu dormia. Lysaha apareceu do nada. Ela o matou diante de mim.
Valarr levantou a cabeça, os olhos bicolores brilhando na penumbra.
— Por que ela faria isso? Se ela está com Aldric, por que salvar você?
— Talvez — ponderou Baelor — porque o amor que ela sente por você não seja a mentira que ela quer que acreditemos.
Valarr soltou uma risada amarga.
— Ela estava ao lado do trono, pai. Ela nos entregou.
Nesse momento, o som de botas ecoou pelo corredor. Um guarda abriu a grade da cela de Valarr.
— O Lorde Protetor exige sua presença no pátio — rosnou o homem.
Valarr foi conduzido sob a luz do entardecer. O pátio estava deserto, exceto por uma figura solitária que treinava contra um poste de madeira. Lysaha.
Ela se moveu com a mesma cadência mecânica de sempre, mas seus golpes eram erráticos, cheios de uma raiva contida. Quando sentiu a presença dele, ela parou.
— Valarr.
Ele não respondeu. Apenas a encarou com aquela decepção profunda que dói mais do que o ódio.
— Por favor... — a voz dela rachou, perdendo a compostura de "sobrinha do rei". — Me escute.
O silêncio durou três batidas de coração. Valarr finalmente se aproximou, mas parou a uma distância segura, como se ela fosse uma criatura perigosa.
— Nada do que eu senti foi mentira — disse ela, as mãos tremendo. — Os treinos... as conversas... Aquela noite... A noite em que eu dormi nos seus braços...
As lágrimas começaram a escorrer pelo rosto moreno de Lysaha.
— Eu amei você. Eu ainda amo.
Valarr a encarou. Ele queria acreditar. Queria atravessar aquele espaço e abraçá-la, mas a imagem dela ao lado de Aldric no trono estava queimada em sua mente.
— Mentira — disse ele, a voz baixa e devastadora.
— Valarr, por favor... Aldric tem minha família. Ele vai matá-las!
Ele deu um passo para trás, o rosto endurecido como pedra.
— A única coisa verdadeira entre nós... — ele engoliu em seco, a voz vacilando pela primeira vez — ...foi o amor que eu senti por você.
— Me perdoe — implorou ela, estendendo a mão.
Valarr olhou para a mão dela, a mesma mão que segurara a dele sob o luar, e depois para seus olhos.
— Perdoar? Nunca.
Ele virou as costas e caminhou de volta para a escuridão das masmorras, deixando Lysaha de joelhos no pátio frio.
Das sombras de uma varanda superior, Aldric Darkmoor observava a cena. Ele se aproximou de Lysaha momentos depois, seus passos silenciosos. Ele se inclinou, a boca quase encostada na bochecha dela, o cheiro de vinho e ambição emanando dele.
— Uma performance tocante, querida Lysaha — sussurrou ele com ódio contido. — Mas não se esqueça: você é minha criatura. Se eu detectar um único deslize, se eu perceber que você está planejando outra "salvação" como fez com Baelor... eu destruo você. Acabo com tudo o que você tem.
Lysaha virou o rosto, fechando os olhos com nojo, sentindo o hálito dele em sua pele.
— Eu sei — respondeu ela, a voz desprovida de emoção.
— Ótimo. Agora limpe esse rosto. Temos lordes para intimidar. E lembre-se de dizer a todos como foi fácil seduzir o "Príncipe Promissor". O povo precisa saber que os Targaryen caíram por causa de uma fraqueza da carne.
Aldric se afastou, deixando-a sozinha na escuridão crescente. Lysaha olhou para as próprias mãos. Elas estavam manchadas, não de sangue, mas de uma culpa que nenhuma água poderia lavar.
Longe dali, nos arredores das Terras da Coroa, um cavaleiro errante muito alto e um garoto de cabeça raspada observavam as colunas de fumaça que subiam da capital.
— Algo está errado, Dunk — disse o garoto, seus olhos violetas brilhando com uma inteligência além de seus anos. — O dragão não deveria estar chorando.
— Vamos, Egg — respondeu o cavaleiro, ajustando o escudo em suas costas. — Temos que descobrir o que aconteceu.
A guerra pelo Trono de Ferro estava apenas começando, e no centro dela, um príncipe quebrado e uma guerreira traidora eram apenas pedaços de um tabuleiro muito maior. Mas Valarr Targaryen, mesmo acorrentado, ainda era um dragão. E dragões, quando feridos, costumam queimar tudo ao seu redor.
