Fanfy
.studio
Imagem de fundo

Destinados Dark Romance

Fandom: leitores de dark romance

Criado: 31/07/2026

Tags

DramaAngústiaPsicológicoEstudo de PersonagemTragédiaRealismoNoir GóticoDor/Conforto
Índice

Sombras sob a Porcelana

O despertar na mansão dos Cavalcanti nunca era suave; era uma transição mecânica da inconsciência para o dever. Eu não acordava com o sol, mas com o som metálico dos anéis da cortina deslizando pelo varão de bronze, um ruído que cortava o silêncio do meu quarto como um bisturi.

A luz branca e impiedosa da manhã de 26 de dezembro invadiu o ambiente, ferindo meus olhos ainda pesados pelo sono inquieto e pelas lembranças da noite anterior. Senti o peso do edredom de seda, mas o frio que vinha de dentro de mim parecia não ceder.

— Bom dia, menina Mikaela. — A voz de Helena era baixa, profissional, mas carregada daquela familiaridade cansada de quem me viu crescer entre paredes frias. — Já passa das oito. Sua mãe já está na mesa e não gosta de esperar.

Sentei-me devagar, sentindo cada músculo do meu pescoço protestar. A imagem dos vaga-lumes no jardim ainda estava gravada na minha retina, um contraste doloroso com a realidade austera que Helena organizava diante de mim.

— Ela está de bom humor? — perguntei, minha voz saindo rouca, ainda arranhada pelo ar gelado que respirei na varanda.

Helena não respondeu de imediato. Ela se aproximou do closet aberto e apontou para o conjunto de alfaiataria em tom creme, impecavelmente passado e pendurado no suporte de carvalho.

— A senhora sua mãe está... como sempre, Mikaela. — Ela ajeitou a gola da blusa de seda com dedos ágeis. — A roupa já está pronta. O café será servido em dez minutos. Por favor, não se atrase. Ela mencionou que o dia será longo.

— O dia é sempre longo nesta casa, Helena — sussurrei para as minhas próprias mãos, mas a governanta já estava saindo, fechando a porta com o clique seco que sinalizava o fim da minha breve liberdade matinal.

Levantei-me e caminhei até o banheiro. Olhei-me no espelho e vi a máscara começando a se formar antes mesmo de eu tocar na maquiagem. A Mikaela que chorava pela irmã debaixo da mesa de jantar estava enterrada sob camadas de expectativas. Lavei o rosto com água gelada, tentando expulsar o fantasma de Melissa que insistia em me seguir pelos corredores.

Vesti a roupa escolhida. O tecido era caro, a modelagem perfeita, mas eu me sentia como um soldado vestindo uma armadura para uma guerra de aparências. Desci as escadas de mármore, o som dos meus passos ecoando no vazio do hall, até chegar à sala de café.

Minha mãe, Eleanor, estava sentada à cabeceira, segurando uma xícara de porcelana fina. Ela não levantou os olhos do tablet onde lia as notícias do mercado financeiro.

— Você demorou, Mikaela — disse ela, o tom de voz tão gélido quanto o orvalho do jardim. — Sente-se. Temos muito o que alinhar sobre o evento beneficente de ano novo.

— Bom dia para você também, mamãe — respondi, puxando a cadeira oposta à dela.

— Não comece com sarcasmos logo cedo. — Ela finalmente me encarou, seus olhos avaliando cada centímetro do meu rosto em busca de uma imperfeição. — Sua saída repentina ontem à noite não passou despercebida. O Dr. Benjamin perguntou por você. Foi falta de educação.

— Eu precisava de ar. O salão estava sufocante.

— O salão estava perfeito. — Ela pousou a xícara com um ruído seco. — O que é sufocante, minha filha, é a sua insistência em manter essa melancolia improdutiva. Oito anos. Já se passaram oito anos.

O estômago deu um nó. O peru de ontem parecia ainda estar parado na minha garganta.

— Não é melancolia, é memória — retruquei, tentando manter a voz estável.

— Memória é para álbuns de fotografia, não para ser carregada como um peso que atrapalha sua postura social. — Ela fez um gesto vago com a mão, dispensando o assunto. — Termine seu café. Às onze horas, o joalheiro virá trazer as peças para o réveillon. À tarde, temos a prova final do vestido na Maison. E à noite, seu pai quer que o acompanhemos naquele jantar com os sócios do setor portuário.

— Mais um jantar? — Minha voz falhou levemente. — Acabamos de passar pelo Natal.

— A vida não para porque você quer contemplar vaga-lumes no escuro, Mikaela. — Ela se levantou, a silhueta elegante e austera contra a luz da janela. — Esteja pronta. Não quero ver sombras sob seus olhos. Use o corretivo que lhe dei.

Ela saiu da sala sem esperar resposta, deixando para trás apenas o cheiro de seu perfume caro e a sensação de que eu era apenas um projeto inacabado aos seus olhos.

Passei o resto da manhã em um transe obediente. Às onze horas, conforme o cronograma, o joalheiro chegou. A sala de estar foi transformada em uma vitrine de luxo obsceno. Diamantes, rubis e esmeraldas brilhavam sob a luz dos lustres, mas para mim, pareciam apenas pedras frias.

— Esta gargantilha de diamantes negros seria perfeita para o seu tom de pele, senhorita Cavalcanti — disse o homem, com um sorriso bajulador.

— É bonita — respondi, sem emoção.

— Bonita não é o adjetivo, Mikaela. É imponente — corrigiu minha mãe, testando o fecho da joia no meu pescoço. — Ela transmite autoridade. É disso que você precisa.

Senti o metal gelado contra a minha pele, apertando levemente a minha garganta. Era uma coleira de luxo, nada mais.

Após a escolha das joias, fomos para a Maison. O trajeto no carro blindado foi feito em silêncio absoluto. Minha mãe revisava e-mails, e eu olhava pela janela, observando as pessoas nas ruas, embrulhadas em casacos, carregando sacolas de presentes trocados, vivendo vidas que pareciam dolorosamente reais comparadas à minha.

Na Maison, fui cercada por costureiras que alfinetavam o tecido de seda sobre o meu corpo como se eu fosse um manequim de gesso.

— A cintura poderia estar um pouco mais ajustada, não acham? — comentou minha mãe, observando meu reflexo no espelho triplo.

— Mas senhora, ela já está no limite do conforto — arriscou uma das costureiras.

— O conforto é secundário à estética — sentenciou Eleanor. — Ajustem.

Eu permanecia imóvel, os braços abertos, sentindo as picadas ocasionais dos alfinetes. Minha mente, no entanto, fugia para longe. Eu me imaginava correndo com Melissa no jardim, as meias de lã escorregando, a liberdade de ser apenas uma criança sem o peso de um sobrenome.

— Mikaela, você está me ouvindo? — A voz da minha mãe me trouxe de volta.

— Sim, mamãe. Ajustar a cintura. Eu ouvi.

— Ótimo. Sairemos daqui direto para o jantar. Não haverá tempo de passar em casa, então Helena já enviou sua bolsa de retoques e os sapatos novos para o carro.

As horas seguintes foram um borrão de etiquetas, sorrisos forçados e conversas vazias. O jantar com os sócios do meu pai foi exatamente como eu previra: uma exibição de poder onde as mulheres eram troféus silenciosos e os homens discutiam números como se fossem deuses decidindo o destino do mundo.

Sentei-me à mesa, a gargantilha de diamantes negros parecendo pesar toneladas. O vinho servido era excelente, mas tinha gosto de cinzas. Eu observava meu pai, um homem de poucas palavras e muita ambição, rindo de uma piada sem graça de um dos investidores. Ele raramente olhava para mim, e quando o fazia, era apenas para verificar se eu estava mantendo a postura correta.

— Sua filha é uma joia, Cavalcanti — disse um dos homens, o rosto avermelhado pelo álcool. — Tão distinta.

— Ela sabe o lugar dela e a importância da nossa linhagem — respondeu meu pai, com um orgulho que não tinha nada a ver com quem eu era, mas com o que eu representava.

O jantar se arrastou até quase meia-noite. Quando finalmente entramos no carro para voltar para casa, o silêncio era denso. Meus pés doíam nos sapatos novos, e a seda do vestido parecia sufocar minha pele.

Ao chegarmos na mansão, meus pais subiram imediatamente para seus aposentos, trocando apenas breves instruções sobre a agenda do dia seguinte. Eu fiquei parada no hall, a escuridão da casa sendo quebrada apenas pelas luzes de emergência.

Caminhei em direção à cozinha, sentindo uma sede que nenhuma água parecia capaz de saciar. No caminho, passei pelo antigo quarto de Melissa. A porta estava trancada, como sempre estivera desde o acidente. Minha mãe guardara a chave e proibira qualquer um de entrar, alegando que "a poeira do passado não deve contaminar o presente".

Encostei a testa na madeira fria da porta.

— Prometo — sussurrei, as palavras de oito anos atrás ecoando na minha mente. — Todo Natal. Só nós duas contra o resto da casa.

Uma lágrima solitária escapou e rolou pelo meu rosto, manchando a maquiagem perfeita que eu carregara o dia todo. Eu havia quebrado a promessa. Eu não estava lutando contra a casa; eu estava me tornando parte dela, uma peça de mobília cara e sem vida.

Fui para a cozinha e encontrei Helena guardando algumas louças. Ela me olhou e, por um momento, a máscara de governanta caiu, revelando uma compaixão genuína.

— A senhora quer um chá, Mikaela? Algo para ajudar a dormir?

— Eu quero que o tempo pare, Helena — respondi, sentando-me no banco de madeira da ilha central. — Ou que ele volte.

Helena aproximou-se e colocou a mão sobre a minha, um gesto de carinho que meus pais nunca se permitiam.

— O tempo não volta, querida. Mas você não precisa deixar que ele te esmague. Você ainda é jovem.

— Eu tenho vinte e dois anos e sinto que vivi cem — confessei, limpando a lágrima com as costas da mão. — Hoje, enquanto o joalheiro colocava aqueles diamantes em mim, eu só conseguia pensar na fita vermelha de presente que ela amarrou no meu pulso. Aquela fita valia mais do que tudo o que existe neste cofre que chamamos de casa.

— Eu sei — suspirou Helena. — Mas sua mãe... ela lida com a dor transformando tudo em pedra. Ela acha que se tudo for sólido e perfeito, nada mais poderá quebrar.

— Mas as coisas já estão quebradas, Helena. Só estamos fingindo que os cacos são arte moderna.

Bebi um copo de água em silêncio e me levantei. O cansaço físico era imenso, mas a agitação mental era pior. Subi para o meu quarto, desagi do vestido com movimentos bruscos, deixando a seda cair no chão como uma pele morta.

Tirei a gargantilha e a joguei sobre a penteadeira. Os diamantes negros brilharam sob a luz do abajur, parecendo olhos frios me observando.

Deitei-me na cama e olhei para o teto. O dia seguinte seria igual. Provas de roupas, eventos, sorrisos ensaiados, o silêncio sobre Melissa, a pressão constante para ser a "filha perfeita".

Fechei os olhos e tentei evocar novamente o cheiro de canela e rabanadas. Tentei ouvir a risada de Melissa correndo pelo corredor. Mas o silêncio da mansão era muito potente. Ele abafava as memórias, transformando-as em ecos distantes e quase inaudíveis.

— Só mais alguns dias — murmurei para a escuridão. — Só mais alguns dias de teatro e o ano acaba.

Mas eu sabia, no fundo do meu coração, que o fim do ano não traria libertação. Apenas outro ciclo de porcelana e sombras, onde eu continuaria a ser a boneca impecável de Eleanor Cavalcanti, enquanto a verdadeira Mikaela sangrava silenciosamente por trás de um colar de diamantes negros.

Adormeci finalmente, não com sonhos de esperança, mas com a sensação de que as paredes da mansão estavam se fechando um pouco mais, estreitando o espaço entre quem eu era e quem eles me forçavam a ser. O Natal havia passado, mas o inverno na minha alma estava apenas começando.

Índice

Quer criar seu próprio fanfic?

Cadastre-se na Fanfy e crie suas próprias histórias!

Criar meu fanfic