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Amor antigo

Fandom: Supernatural

Criado: 31/07/2026

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DramaAngústiaFatias de VidaEstudo de PersonagemCenário CanônicoRomanceDivergência
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Cicatrizes, Cerveja e Velhos Hábitos

O som do Impala 67 roncando na estrada de terra era um aviso prévio que Clara conhecia bem. Ela não precisava olhar pela janela da cozinha para saber quem estava chegando. O som do motor de "Baby" era tão familiar quanto as batidas do seu próprio coração, embora, ultimamente, seu coração batesse em um ritmo muito mais calmo e controlado.

Clara limpou as mãos sujas de graxa em um pano velho e suspirou, ajeitando a camiseta xadrez que abraçava suas curvas. Ela sabia que muitos no mundo da caça a olhavam com desdém por ser gordinha, mas Clara nunca deixou que isso a definisse. Ela era rápida com uma espingarda de sal, letal com uma faca e, nos últimos três anos, tinha se tornado o braço direito — e às vezes o esquerdo — de Bobby Singer.

— Eles chegaram, pai — anunciou ela, ouvindo o ranger da cadeira de rodas de Bobby no cômodo ao lado.

— Já estava na hora — resmungou Bobby, embora Clara soubesse que ele estava secretamente feliz em ver os "seus garotos". — Espero que não tragam mais problemas do que já temos.

Clara abriu a porta dos fundos bem no momento em que Sam e Dean saltavam do carro. Sam foi o primeiro a vê-la, um sorriso largo iluminando seu rosto cansado. Ele atravessou o pátio de sucatas com passos largos e a envolveu em um abraço de urso que quase a tirou do chão.

— Oi, baixinha — disse Sam, soltando-a, mas mantendo as mãos em seus ombros. — Você parece ótima. Como está o Bobby?

— Mal-humorado como sempre, Sam — Clara riu, sentindo o calor da amizade genuína que os unia. — E eu estou bem. Senti sua falta.

— Eu também — ele respondeu honestamente.

E então, houve o silêncio. Aquele silêncio pesado que sempre surgia quando seus olhos encontravam os de Dean.

Dean Winchester estava parado junto ao Impala, as mãos enfiadas nos bolsos da jaqueta de couro, observando-os. Fazia três anos desde que ela decidira colocar um ponto final naquela "amizade colorida" que estava destruindo sua saúde mental. Dean não queria compromisso, não queria rótulos, e Clara, com toda a sua intensidade e amor-próprio, decidiu que merecia mais do que sobras de afeto entre uma caçada e outra.

— Clara — Dean disse, finalmente se aproximando. Sua voz era a mesma mistura de cascalho e mel que costumava desarmá-la.

— Dean — ela retribuiu com um aceno de cabeça educado, mas distante. — Entrem. O café está fresco e eu fiz torta.

— Torta? — Os olhos de Dean brilharam por um segundo, o velho brilho travesso que ela tanto amava. — Você sabe como conquistar um homem.

— Eu sei como alimentar um caçador faminto, Dean — corrigiu ela, dando as costas e entrando na casa. — Não confunda as coisas.

A cozinha de Bobby era o coração daquela casa. Enquanto Sam se sentava à mesa para discutir um caso de possíveis aparições em Ohio com Bobby, Clara se ocupava em servir os pratos. Ela sentia o olhar de Dean seguindo cada movimento seu. Ela sabia que tinha mudado. Não fisicamente — ela continuava orgulhosa de seu corpo, de sua força e de suas curvas —, mas sua aura era diferente. Ela não era mais a garota que esperava ansiosamente por uma ligação dele.

— Então, Clara — começou Dean, sentando-se no banco em frente ao balcão enquanto ela cortava a torta. — Sam me disse que você rastreou aquele ninho de vampiros em Nebraska sozinha no mês passado.

— Alguém tinha que fazer o trabalho sujo enquanto o papai se recuperava da última cirurgia — ela respondeu sem olhar para ele. — Eu não perdi o jeito, Dean. Só mudei minhas prioridades.

— Você sempre foi a melhor de nós na pesquisa — Dean disse, sua voz baixando um tom, tornando-se mais íntima do que ela gostaria. — E, pelo que vi lá fora, sua pontaria continua afiada.

Clara parou com a faca na mão e finalmente o encarou. Dean parecia mais cansado. As olheiras sob os olhos verdes eram profundas, e havia uma nova cicatriz perto da têmpora.

— O que você quer, Dean? — perguntou ela, direta.

— Só estou conversando — ele deu de ombros, fingindo indiferença. — Não podemos ser amigos?

— Nós somos amigos. Eu sou a melhor amiga do seu irmão e a filha do seu mentor — Clara colocou uma fatia generosa de torta de maçã na frente dele. — Mas se você está procurando aquela Clara que aceitava qualquer migalha de atenção que você jogava no chão... ela parou de caçar esse tipo de fantasma faz tempo.

Dean pegou o garfo, mas não comeu imediatamente. Ele olhou para a torta e depois para ela.

— Eu nunca quis que as coisas terminassem daquele jeito — murmurou ele.

— Mas terminaram. E foi a melhor coisa que eu fiz por mim mesma — ela se encostou no balcão, cruzando os braços. — Eu amo o que fazemos, Dean. Amo ajudar as pessoas. Mas eu também amo a paz de saber quem eu sou quando as luzes se apagam. Você ainda foge de si mesmo a cada 100 quilômetros por hora.

A conversa foi interrompida pelo grito de Bobby na sala ao lado.

— Clara! Traga os livros de latim! Sam achou algo que parece ser sumério antigo, e minha visão está uma porcaria hoje!

Clara deu um tapinha no ombro de Dean — um toque puramente platônico que o fez estremecer por dentro — e saiu da cozinha.

A noite caiu sobre o ferro-velho de Bobby com uma serenidade enganosa. Após horas de pesquisa, Sam e Bobby haviam adormecido sobre os livros na biblioteca. Clara saiu para o alpendre para respirar o ar fresco da noite, encontrando Dean sentado nos degraus, bebendo uma cerveja.

— O Sam apagou — disse ela, sentando-se a uma distância segura.

— Ele está ficando velho — brincou Dean, oferecendo-lhe uma garrafa.

Clara aceitou, o vidro gelado contrastando com o calor da noite de verão. Eles beberam em silêncio por um longo tempo, observando as sombras dos carros empilhados que pareciam monstros adormecidos sob a luz da lua.

— Sente falta? — Dean perguntou de repente.

— Da caçada constante? Às vezes. Mas cuidar do Bobby me dá um propósito diferente. Eu ainda caço, Dean. Só não deixo que isso seja a única coisa na minha vida.

— Eu não sei como fazer isso — confessou Dean, a vulnerabilidade saindo de sua boca antes que ele pudesse impedi-la. — Para mim, é só a estrada. O próximo monstro. A próxima cidade.

— É por isso que não funcionou, Dean — disse ela suavemente. — Você é um nômade por escolha e por trauma. Eu sou uma caçadora, mas eu também sou um lar. E você tem medo de qualquer coisa que pareça um lugar para ficar.

Dean virou-se para ela, os olhos brilhando no escuro.

— Você está diferente, Clara. Mais... firme.

— Eu aprendi a me amar mais do que eu amava você — ela respondeu com uma honestidade brutal que o fez desviar o olhar. — E isso mudou tudo.

Dean soltou um suspiro pesado e deixou a garrafa vazia de lado.

— Eu sinto falta de você. Não só da... você sabe. Sinto falta de conversar. De como você me entendia sem eu precisar dizer uma palavra.

— Eu ainda entendo, Dean — Clara sorriu tristemente. — É por isso que eu sei que amanhã de manhã, quando o sol nascer, você e o Sam vão entrar naquele carro e seguir para o próximo caso. E eu vou ficar aqui, cuidar do meu pai e consertar motores. E está tudo bem.

Dean estendeu a mão, hesitante, e tocou o rosto de Clara. Seus dedos roçaram sua bochecha e se perderam em seus cabelos. Por um momento, o tempo pareceu retroceder três anos. O desejo ainda estava lá, uma chama persistente que nunca se apagaria completamente, mas a urgência tinha ido embora.

— Você é uma mulher incrível, Clara Singer — ele sussurrou.

— Eu sei que sou — ela respondeu, segurando o pulso dele e afastando a mão com delicadeza. — Agora vá dormir. Vocês têm um longo caminho até Ohio amanhã.

Dean levantou-se, sentindo o peso de suas escolhas. Ele caminhou até a porta, mas parou antes de entrar.

— Clara?

— Sim?

— A torta estava excelente.

Clara riu sozinha na escuridão do alpendre.

— Eu sei, Dean. Eu sei.

Na manhã seguinte, o som do Impala partindo despertou Clara. Ela não foi até a janela. Apenas se espreguiçou, sentindo-se confortável em sua própria pele, e levantou-se para preparar o café. Ela amava os Winchesters, e sempre haveria um lugar à mesa para eles, mas Clara Singer não era mais uma personagem coadjuvante na história de outra pessoa. Ela era a dona de sua própria estrada, e aquela era uma jornada que ela adorava percorrer.

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