
Rintama high
Fandom: Alien stage
Criado: 31/07/2026
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Hierarquias de Giz e Jaquetas de Couro
O sinal da Escola Secundária Anaktos não era apenas um aviso de que as aulas haviam terminado; era o gongo que anunciava o início das hostilidades silenciosas nos corredores. Naquele prédio monumental, onde as sombras das escadarias pareciam esconder segredos de gerações, a geografia não era medida por salas, mas por territórios de gangs.
No topo da cadeia alimentar, embora muitos se recusassem a admitir por puro machismo barato, estava a Mukuro. E no comando da Mukuro, sentada preguiçosamente em cima de uma mesa de carvalho na biblioteca — o lugar mais improvável para uma líder de gangue —, estava Mizi.
Seus cabelos rosa longos, com as pontas tingidas de um azul vibrante, caíam como uma cascata bagunçada sobre os ombros. Ela balançava as pernas, a saia preta curta revelando a atitude de quem não dava a mínima para o código de vestimenta. A gravata preta estava tão frouxa que era quase um adereço de pescoço.
— Eu juro, Ivan, se aquele idiota da gangue "Presas de Ferro" vier falar comigo sobre "diplomacia" de novo, eu vou enfiar aquele óculos dele no rabo — Mizi bocejou, os olhos dourados brilhando com um sarcasmo sonolento. — Que porra de nome é esse, aliás? Presas de Ferro? Parece nome de pet shop para tubarão.
Ivan, sentado na cadeira ao lado, não desviou os olhos do pirulito que desembalava com uma precisão quase cirúrgica. Ele era alto, de cabelos pretos impecáveis e uma pele tão pálida que parecia brilhar sob as luzes fluorescentes.
— Pelo menos eles têm um nome temático — Ivan comentou, enfiando o doce na boca. — A sua gangue se chama Mukuro. Soa como algo que um vilão de anime gritaria antes de explodir.
— Vai se foder, Ivan — Mizi riu, dando um empurrão de leve no ombro dele. — É um nome clássico. E você adora, não finge que não.
Eles eram o enigma da escola. Amigos inseparáveis desde o 9º ano, agora no 3º, circulavam pelos corredores como uma unidade impenetrável. A maioria dos alunos jurava que eles eram o casal de ouro: a líder rebelde e o garoto enigmático. Mal sabiam que, entre sussurros e piadas internas, o que os unia era o segredo de serem exatamente o oposto do que o mundo esperava. Mizi não tinha o menor interesse em caras, e Ivan... bem, Ivan estava ocupado demais tentando não encarar o fundo da sala.
Lá no fundo, em um universo paralelo que distava apenas cinco fileiras de carteiras, estava o grupo que Ivan e Mizi ignoravam olimpicamente — ou fingiam ignorar.
Sua, com seus cabelos pretos curtos e olhos roxos que pareciam carregar todo o peso do mundo, estava imersa em um livro de poesia melancólica. Ela era o oposto do irmão, Ivan. Enquanto ele era irritante e doce, ela era silenciosa e amarga. Eles mal se falavam em casa, e na escola, fingiam que eram estranhos.
Ao lado dela, Till batucava freneticamente na mesa. O cabelo cinza estava mais bagunçado que o normal, e seus olhos verdes disparavam faíscas de puro estresse. Ele fazia parte da Gnash, uma gangue de baderneiros liderada por um veterano brutamontes chamado Kael, mas Till mal sabia o nome dos próprios "companheiros". Ele só queria que o ensaio da banda começasse logo.
— Dá pra parar com a bateria imaginária, Till? — Sua murmurou, sem tirar os olhos da página. — Tá dando gatilho na minha enxaqueca.
— Foi mal, porra — Till resmungou, mas não parou totalmente, apenas diminuiu o ritmo. — Esse lugar me deixa pilhado. Olha ali a Mukuro e o esquisito do seu irmão. Eles acham que são donos do mundo.
— Deixa eles — disse Hyuna, aproximando-se com um sorriso carismático que parecia iluminar até os cantos mais escuros da biblioteca. — Mizi é foda, você tem que admitir. Ser mulher e manter aqueles caras da Mukuro na linha não é pra qualquer um.
Hyuna era a personificação do "descolado". Cabelos marrons longos, pele morena e olhos azuis que capturavam qualquer um. Ela já tinha sido convidada para liderar pelo menos três gangues diferentes, incluindo a Gnash, mas recusou todas. Preferia sua liberdade e seu grupo de amigos.
Logo atrás dela, Luka vinha ajustando os óculos, com uma pilha de livros de física nos braços. Ele era o observador silencioso, o nerd que sabia de tudo, mas falava pouco.
— A estrutura de poder da escola é fascinante — Luka comentou, sentando-se à mesa com o grupo. — Mas é instável. Se a Mukuro entrar em conflito com os "Corvos de Prata" do setor leste, o equilíbrio acaba.
— Você analisa demais, Luka — Hyuna riu, bagunçando o cabelo loiro dele. — Às vezes é só sobre quem bate mais forte.
Luka corou levemente sob o toque de Hyuna, mas manteve a compostura. Ele a adorava, e todos no grupo — exceto talvez a própria Hyuna, ou assim eles achavam — sabiam disso.
Enquanto isso, na "fronteira" invisível da sala, Ivan sentiu um peso no peito. Ele olhou para Till por um breve segundo. O garoto de cabelo cinza estava com a cara amarrada, discutindo algo com Sua. Ivan sentia uma vontade absurda de ir até lá e dizer algo idiota apenas para ver Till explodir. Era o seu jeito de demonstrar afeto: irritando até o limite. Mas ele não podia. Ele e Mizi tinham uma reputação de isolamento a manter.
— Você tá olhando de novo — Mizi sussurrou, o tom brincalhão escondendo uma lealdade profunda.
— Não estou — mentiu Ivan, voltando-se para o pirulito.
— Está sim. O emo revoltado faz seu tipo, né? — Mizi deu uma risadinha abafada. — Se quiser, eu mando a Mukuro sequestrar ele pra você.
— Nem brinca com isso. Você é impulsiva demais, ia acabar causando uma guerra de gangues por causa de um garoto que nem sabe meu nome — Ivan revirou os olhos.
— Ele sabe seu nome, Ivan. Todo mundo sabe. Você é o "irmão estranho da Sua" ou o "namorado da Mizi". Escolha o seu veneno.
— Prefiro "o cara que vai te dar um soco se você não calar a boca".
A conversa foi interrompida quando a porta da biblioteca foi escancarada. Três garotos com jaquetas cinzas — os membros da Gnash — entraram, parecendo nervosos. Eles ignoraram Till e foram direto para a mesa de Mizi.
— Mizi — o líder do trio, um cara alto chamado Vahn, disse com a voz tremendo levemente. — Houve um problema no pátio sul. Os caras da "Sombra Rubra" estão pichando o muro da Mukuro.
Mizi fechou os olhos por um momento, como se estivesse pedindo paciência a uma divindade que não existia.
— E por que caralhos vocês estão aqui me contando isso em vez de estarem lá limpando o chão com a cara deles? — Ela perguntou, a voz doce, mas carregada de uma ameaça letal.
— Eles são muitos, e o líder deles, o tal do Drake, disse que você é só uma "garotinha brincando de casinha".
O silêncio que se seguiu na biblioteca foi absoluto. Até Sua parou de ler. Hyuna inclinou a cabeça, interessada. Till parou o batuque.
Mizi pulou da mesa com uma agilidade de gato. Ela estalou o pescoço e deu um sorriso que não chegava aos olhos.
— Garotinha? — Ela repetiu, ajeitando a gravata frouxa. — Ivan, quer ver uma coisa engraçada?
— Eu tenho escolha? — Ivan suspirou, levantando-se e limpando o farelo de doce da calça.
— Nenhuma.
Mizi começou a caminhar em direção à saída, mas parou ao passar pela mesa do grupo de Sua. Seus olhos dourados encontraram os verdes de Till por um milésimo de segundo, e depois os roxos de Sua.
— Sua, avisa aos nossos pais que o Ivan vai chegar tarde hoje — Mizi disse, com um tom sarcástico. — Ele vai estar ocupado me ajudando a enterrar alguns corpos.
Sua nem levantou a cabeça.
— Não sou sua secretária, Mizi. E Ivan sabe o caminho de casa.
Ivan deu um sorrisinho de canto para a irmã, um raro momento de reconhecimento, e seguiu Mizi.
Assim que eles saíram, Till bufou.
— Aquela garota é louca. Ela vai se meter em briga de novo.
— E você vai lá ver, não vai? — Hyuna provocou, arqueando uma sobrancelha.
— O quê? Por que eu iria? — Till cruzou os braços, o rosto ficando levemente vermelho.
— Porque você faz parte de uma gangue, tecnicamente — Luka interveio, ajustando os óculos. — E porque você está curioso para saber se o Ivan realmente vai lutar ou se só vai ficar olhando com aquela cara de tédio.
— Vão se foder todos vocês — Till levantou-se abruptamente. — Eu só vou porque... porque eu odeio a Sombra Rubra. Aqueles caras são uns babacas.
— Aham, claro — Hyuna riu, levantando-se também. — Vamos lá, pessoal. O show vai começar e eu não quero perder a Mizi quebrando dentes.
O pátio sul estava tenso. Cerca de dez membros da Sombra Rubra, liderados por Drake — um brutamontes que parecia ter repetido o terceiro ano umas cinco vezes —, estavam diante do muro grafitado com o símbolo da Mukuro.
Mizi chegou caminhando calmamente, com Ivan logo atrás, as mãos nos bolsos.
— Então — Mizi começou, parando a poucos metros de Drake —, eu ouvi dizer que você tem opiniões interessantes sobre a minha gestão. Quer compartilhar com o grupo ou prefere escrever um ensaio sobre isso enquanto eu uso sua cabeça como bola de basquete?
— Olha só, a princesinha apareceu — Drake cuspiu no chão. — Você e seu namorado esquisito deveriam estar em casa. Esse muro agora é nosso.
Ivan deu um passo à frente, um sorriso irritante brincando em seus lábios.
— Na verdade, eu sou só o apoio moral. Mas, se você chamar ela de princesa de novo, eu vou ter que intervir, e eu sou péssimo com sangue. Suja muito a roupa, entende?
— Cala a boca, seu merda! — Drake avançou para dar um soco em Ivan, mas não chegou nem perto.
Mizi foi mais rápida. Com um movimento impulsivo e preciso, ela desferiu um chute lateral que atingiu o estômago de Drake, fazendo-o dobrar de tamanho. Antes que ele pudesse reagir, ela agarrou o colarinho dele e o puxou para baixo, sussurrando no seu ouvido:
— Eu não brinco de casinha, Drake. Eu sou a dona da porra da vizinhança toda.
A briga estourou. Os membros da Mukuro, que estavam escondidos nas sombras, avançaram. Ivan, apesar de dizer que odiava confusão, movia-se com uma elegância letal, desviando de golpes e acertando pontos estratégicos com uma precisão irritante.
Do alto da escadaria, o grupo de Hyuna observava.
— Caralho — Till murmurou, os olhos fixos em Ivan. O jeito que o garoto de preto se movia era... hipnotizante, de uma forma que ele odiava admitir. — Ele realmente sabe brigar.
— Eu disse — Luka comentou, calmo. — Eles não são apenas fachada.
Hyuna assobiou, impressionada.
— Mizi está se divertindo. Olha o sorriso dela.
No meio do caos, Mizi parou por um segundo para limpar um respingo de tinta (ou sangue, ela não tinha certeza) da bochecha. Ela viu o grupo de Hyuna no topo da escada. Viu Till olhando para Ivan com uma expressão que era uma mistura de ódio e admiração.
Ela piscou para Ivan, que estava ocupado imobilizando um cara o dobro do seu tamanho.
— Ei, Ivan! — Mizi gritou no meio do barulho. — O seu "crush" tá assistindo! Tenta não parecer um completo idiota!
Ivan quase tropeçou. Ele olhou para a escadaria e encontrou o olhar de Till. Por um segundo, o tempo pareceu parar. Till desviou o olhar imediatamente, xingando algo que parecia ser "idiota", mas suas orelhas estavam vermelhas.
Ivan sorriu. Talvez a escola não fosse tão chata afinal.
— Mizi! — Ivan gritou de volta, chutando o oponente para longe. — Foca na briga, porra!
— Eu estou focada! — Ela riu, acertando mais um soco em Drake. — Mas a vida é curta demais pra não criar um pouco de caos romântico no meio de uma guerra de gangues!
A briga terminou tão rápido quanto começou. A Sombra Rubra recuou, deixando Drake para trás, gemendo no chão. Mizi limpou as mãos na saia, suspirando.
— Que tédio. Achei que eles iam durar mais.
Ela caminhou até a base da escadaria, onde o grupo de Hyuna estava descendo.
— E aí? — Mizi perguntou, sarcástica como sempre. — Gostaram do show ou querem reembolso?
— Nota oito — Hyuna disse, piscando para ela. — Faltou um pouco mais de drama no final.
— Na próxima eu trago fogos de artifício — Mizi brincou.
Sua passou por Ivan sem dizer nada, mas parou por um segundo ao lado dele.
— Você tem sangue na gola. Mãe vai te matar.
— Valeu pelo aviso, "irmãzinha" — Ivan respondeu, com o tom irritante de sempre.
Till estava por último, tentando parecer desinteressado. Quando ele passou por Ivan, o garoto mais alto inclinou-se em sua direção.
— Gostou da vista, Till? — Ivan sussurrou, a voz carregada de provocação.
Till parou, os olhos verdes faiscando.
— Você é um babaca, Ivan. Um babaca exibido.
— E você não parou de olhar por um segundo — Ivan deu um passo para trás, sorrindo vitorioso.
Till rosnou um palavrão e apressou o passo para alcançar os outros.
Mizi se aproximou de Ivan, passando o braço pelo pescoço dele.
— Missão cumprida. Defendemos o território e você flertou com o emo. Podemos ir dormir agora?
— Eu não flertei com ninguém — Ivan mentiu, mas o sorriso em seu rosto dizia o contrário.
— Claro que não. E eu sou a Rainha da Inglaterra — Mizi bocejou, começando a caminhar em direção ao portão da escola. — Vamos, Ivan. Amanhã tem prova de matemática e eu pretendo dormir durante toda a explicação.
Enquanto o sol se punha sobre a Escola Anaktos, as sombras das gangs se alongavam, escondendo os segredos, os desejos e as rebeldias de um grupo de adolescentes que, entre socos e livros de poesia, tentavam apenas encontrar o seu lugar naquele campo de batalha chamado ensino médio.
