
O Início do Jogo Cruel
O pátio da escola estadual estava lotado, mas para Kuro Hatake, o mundo parecia girar em torno de seu próprio reflexo na tela do celular. Com 1,80m de altura, um abdômen definido que ele fazia questão de marcar sob a camiseta leve e aquele cabelo branco repicado que era sua marca registrada, ele sabia que era o centro das atenções. Kuro tinha o tipo de beleza que atraía olhares e o tipo de personalidade "engraçadinha" que desarmava qualquer um.
— Duvido, Kuro. Você é bom, mas a Nakamura? Aquilo não é uma garota, é um fantasma — disse Ren, um dos cinco amigos que rodeavam o banco onde Kuro estava sentado.
Kuro soltou uma risada anasalada, passando a mão pelos fios brancos. Seus olhos castanhos brilharam com uma malícia juvenil.
— Ninguém resiste ao meu charme, Ren. A Tatsuyo é só... fechada. É um desafio diferente.
— Não é só ser fechada — interveio Leo, cruzando os braços. — A garota é estranha. Vive com fone de ouvido, não fala com ninguém, e o pessoal do terceiro ano pega pesado com ela. Ela é quebrada, cara. O desafio não é só pegar. A aposta é: fazer ela te amar de verdade, gravar o "vrau" pra provar que ela se entregou, mostrar que ela está na sua mão e, depois, triturar o coração dela.
Kuro inclinou a cabeça, um sorriso de canto surgindo.
— E quanto vocês estão colocando na mesa?
— Se você conseguir tudo isso até o final do semestre... cada um de nós te dá quinhentos reais — disse Ren. — Dois mil e quinhentos no total. Mas se você desistir ou se ela te der um fora, você paga pra gente.
Kuro se levantou, ajeitando a postura, sentindo o peso do orgulho inflar seu peito. Dois mil e quinhentos reais e a glória de ser o mestre da sedução na escola. Para ele, Tatsuyo Nakamura era apenas um alvo fácil, uma garota carente que mal conseguia olhar nos olhos das pessoas.
— Fechado. Preparem a grana. Vou fazer aquela garota comer na minha mão.
Longe dali, no canto mais isolado da biblioteca, Tatsuyo Nakamura apertava as alças de sua mochila contra o peito. Seus cabelos pretos e lisos caíam como uma cortina sobre o rosto pardo, escondendo os olhos negros que, naquele momento, estavam marejados. Ela sentia a falta de ar típica de suas crises de ansiedade. O barulho do corredor, as risadas das outras garotas e as piadas cruéis que ouvira minutos antes sobre suas roupas simples ainda ecoavam em sua mente.
Tatsuyo era uma alma fragmentada. Desde os onze anos, quando viu o pai morrer em seus braços após um infarto fulminante, a vida perdeu as cores vibrantes. Ela cuidava do irmão de doze anos e ajudava a mãe como podia, mas o vazio em seu peito era vasto. Ela era o tipo de pessoa que pedia desculpas por existir, que se apegava a qualquer palavra gentil como se fosse uma boia em um oceano de desespero.
O sinal tocou, anunciando o fim do intervalo. Tatsuyo caminhou para a sala de aula, tentando ser invisível. Ela se sentou na última fileira, mas, para sua surpresa, o lugar ao seu lado, que costumava ficar vazio, foi ocupado por um corpo grande e uma aura de confiança que ela reconheceu imediatamente.
Era Kuro Hatake. O garoto mais popular, o "tarado" engraçadinho que todas as meninas cobiçavam.
— Ei — sussurrou Kuro, inclinando-se para perto dela. O cheiro do perfume dele era forte e caro. — Esse lugar está ocupado, Nakamura?
Tatsuyo estremeceu, os dedos apertando o caderno.
— N-não... — ela respondeu, a voz quase um sussurro.
— Ótimo. Cansei de sentar perto daqueles idiotas. Você parece ser a única pessoa normal nessa sala que não fica gritando o tempo todo.
Tatsuyo olhou para ele, surpresa. Seus olhos negros encontraram os castanhos dele por um breve segundo antes de ela desviar o olhar, corando intensamente. Ninguém nunca a chamava de "normal". Geralmente, os adjetivos eram "esquisita", "deprimida" ou "muda".
— Obrigada — ela murmurou, sentindo o coração acelerar. Não era a aceleração do pânico, mas algo novo. Algo que ela não sentia há muito tempo.
Ao longo da aula, Kuro não parou. Ele fazia piadinhas baixas sobre o professor, desenhava caricaturas bobas na margem do caderno dela e, em certo momento, encostou seu braço no dela "sem querer". Para qualquer outra pessoa, seriam gestos banais. Para Tatsuyo, eram migalhas de atenção que pareciam um banquete.
— Você é muito calada — comentou Kuro, enquanto guardava o material no final da aula. — Devia sair mais dessa concha. Eu podia te ajudar com isso.
— Por que você falaria comigo? — Tatsuyo perguntou, a insegurança transbordando em sua voz trêmula. — Todo mundo diz que eu sou... estranha.
Kuro soltou uma risada charmosa e se aproximou, diminuindo a distância entre eles até que ela pudesse sentir o calor do seu corpo. Ele estendeu a mão e tocou suavemente uma mecha do cabelo preto dela.
— Eu não ligo para o que "todo mundo" diz. Eu acho que você é interessante. Diferente das outras.
Tatsuyo sentiu um nó na garganta. Aquela frase era tudo o que ela sempre quis ouvir. Sua carência era sua maior fraqueza, e Kuro, com seu instinto de predador, sabia exatamente onde atacar.
— Eu... eu preciso ir buscar meu irmão — disse ela, tentando fugir da intensidade do olhar dele.
— Eu te acompanho até o portão — insistiu Kuro, pegando a mochila dela antes que ela pudesse protestar.
Enquanto caminhavam pelo corredor, Tatsuyo sentia os olhares de ódio e surpresa das outras garotas. Ela baixou a cabeça, sentindo a ansiedade subir, mas Kuro passou o braço por cima dos ombros dela, protegendo-a visualmente do resto do mundo.
— Relaxa, Nakamura. Eu estou aqui. Ninguém vai mexer com você enquanto estiver comigo.
Para uma garota que sofria bullying pesado todos os dias, aquelas palavras foram como um bálsamo. Ela se encolheu sob o braço dele, aceitando o contato de forma quase desesperada. Ela era "grudenta" por natureza, uma consequência de ter perdido o pilar masculino de sua vida tão cedo. Se Kuro oferecesse um dedo, ela seguraria a mão inteira.
Na saída da escola, os cinco amigos de Kuro observavam a cena de longe, trocando sorrisos cúmplices e gestos de "positivo". Kuro deu uma piscadela discreta para eles por cima do ombro de Tatsuyo.
— Então, Tatsuyo... — começou Kuro, usando o primeiro nome dela pela primeira vez, o que a fez estremecer. — O que você acha de a gente estudar junto amanhã? Na sua casa ou na minha?
Tatsuyo parou, olhando para ele com uma mistura de medo e esperança.
— Na minha casa... minha mãe trabalha. Meu irmão está lá, mas ele fica no quarto.
— Perfeito — disse Kuro, exibindo seu sorriso mais predatório, que ela interpretou como pura gentileza. — Passo lá às duas.
Ele se inclinou e depositou um beijo demorado na bochecha dela, perto do
