
O Silêncio Quebrado por Gritos
O corredor do hospital tinha aquele cheiro estéril de antisséptico e angústia contida. Para Kuro Hatake, cada passo em direção ao quarto 402 parecia carregar o peso de uma tonelada. Ele sempre fora o cara das piadas, o espírito livre de 1,80 de altura que usava o humor como escudo e o cabelo branco repicado como marca registrada. Mas, naquele momento, não havia espaço para brincadeiras. O nó em sua garganta era tão real que ele mal conseguia respirar.
Quando ele empurrou a porta, o cenário que encontrou foi um pesadelo pintado em tons de branco e roxo.
Tatsuyo estava ali, pequena e frágil sob os lençóis. A pele parda, que Kuro sempre achara bonita, agora estava marcada por hematomas escuros e cortes profundos. O rosto delicado de traços japoneses estava inchado. Havia tubos de oxigênio em seu nariz e o bipe rítmico e incessante do monitor cardíaco era o único som que preenchia o vácuo do silêncio dela.
— Tia... — Kuro sussurrou, aproximando-se da mãe de Tatsuyo, que estava sentada ao lado da cama, segurando a mão da filha como se ela pudesse evaporar a qualquer momento.
A mulher levantou os olhos vermelhos e inchados para ele. O desespero em seu rosto era evidente. Ela se sentia culpada, Kuro podia ver. A culpa de não ter notado que, sob o teto da mesma casa, a enteada estava sendo destruída dia após dia.
— Kuro... — A voz dela falhou. — O seu pai...
— Ele ficou preso no trânsito, tia. Mas chega em quarenta minutos. Eu vim o mais rápido que pude. — Ele olhou para Tatsuyo.
Eles não eram irmãos de sangue, e nem se viam como tal. Havia uma distância respeitosa — e talvez algo mais que Kuro nunca soube nomear — entre o veterano do terceiro ano e a caloura do primeiro. Ele sabia que ela era quieta, mas pensava que era apenas a personalidade dela. Nunca, nem em seus piores pensamentos, imaginou que ela estava sendo caçada nos corredores da escola por monstros em pele de adolescente.
Tatsuyo abriu os olhos lentamente. Eram orbes pretos, profundos, mas agora estavam vazios, como se a alma dela tivesse se retirado para um lugar onde a dor não pudesse alcançá-la. Ela não falava. Desde que fora encontrada em um canto esquecido da escola, jogada como lixo após horas de tortura e abuso por dois garotos e duas garotas, ela se trancara em um silêncio absoluto.
Kuro sentiu uma fúria cega queimar em seu peito, mas a suprimiu. Ele precisava ser o apoio agora. Ele se aproximou da cama, tentando oferecer um sorriso reconfortante, embora seus olhos estivessem úmidos.
— Ei, Pequena... — ele murmurou, usando o apelido que ela costumava detestar. — Eu estou aqui. Ninguém vai encostar em você de novo.
Tatsuyo não reagiu. Ela apenas olhava para o teto, a respiração fraca e superficial por causa das costelas quebradas que tornavam cada hausto de ar uma agonia.
O silêncio foi interrompido pelo som de passos pesados no corredor e uma risada masculina abafada que vinha da TV ligada em volume baixo no canto da sala, onde passava um programa de variedades. Na tela, um jovem de boné virado para trás apareceu, e por um segundo, a luz da TV refletiu de uma forma específica na parede.
Foi o gatilho.
Os olhos de Tatsuyo se arregalaram. O bipe do monitor cardíaco disparou, tornando-se um som frenético.
— Tatsuyo? — A mãe dela se inclinou para frente, alarmada. — Filha, o que foi?
A menina começou a tremer. Não era um tremor leve; era uma convulsão de puro terror. Ela viu na sombra da parede, ou talvez na voz da TV, o fantasma de um dos meninos que a haviam destruído horas antes. A lembrança do toque dele, da risada cruel enquanto ela implorava para pararem, voltou como uma onda de ácido.
— Hmmm... hmmm... — Um som gutural e desesperado tentava sair de sua garganta, mas as palavras estavam presas atrás do trauma.
Tatsuyo começou a soluçar, um som dilacerante que parecia rasgar seus pulmões feridos. De repente, o calor úmido se espalhou pelo lençol hospitalar. O medo era tão paralisante, tão absoluto, que seu corpo perdeu o controle básico. Ela havia urinado na cama de puro pavor.
— Calma, meu amor! A mamãe está aqui! — A mãe dela gritou, tentando segurar as mãos da filha.
Mas Tatsuyo entrou em um estado de pânico psicomotor. Ela começou a levar as mãos à cabeça com uma força violenta, fechando os punhos e batendo contra as próprias têmporas, puxando os longos cabelos pretos com uma força que ameaçava arrancá-los da raiz. Ela queria arrancar as memórias de dentro do crânio. Ela queria desaparecer.
— Tatsuyo, para! Você vai se machucar mais! — Kuro exclamou, avançando para segurar os pulsos dela.
Ele era forte, mas o desespero dava a Tatsuyo uma força sobre-humana e errática. Ela se contorcia, ignorando a dor das costelas quebradas, ignorando os acessos nos braços que ameaçavam sair.
— SAI! SAI! — A voz dela finalmente saiu em um grito rouco e ininteligível, que logo se transformou em um choro convulsivo.
— Enfermeiras! Alguém ajude! — A mãe de Tatsuyo gritou, perdendo o controle ao ver a filha naquele estado de colapso total. — Ela está se matando! Ela está se batendo!
A porta se abriu com estrondo e duas enfermeiras entraram correndo, segurando bandejas com sedativos.
— Precisamos contê-la! — disse uma delas, tentando segurar as pernas de Tatsuyo, que chutavam o ar freneticamente.
— Não machuquem ela! Por favor! — A mãe de Tatsuyo soluçava, sendo afastada pela outra enfermeira enquanto Kuro tentava, com toda a delicadeza que seus 1,80 de altura permitiam, imobilizar os braços da menina sem pressionar o tórax lesionado.
— Tatsuyo, olha para mim! — Kuro pediu, a voz embargada. — Sou eu, o Kuro! Você está segura! Eu mato qualquer um que chegar perto de você, eu juro! Por favor, para de se bater!
Os olhos dela encontraram os dele por um segundo. Havia tanta dor, tanta sujeira sentida e tanta traição naqueles olhos pretos que Kuro sentiu como se seu próprio coração estivesse sendo esmagado. Ela não o via como o "irmão engraçadinho". Ela via o mundo como um lugar onde homens eram predadores e ela era a presa.
As enfermeiras conseguiram administrar o sedativo na veia. Aos poucos, a luta de Tatsuyo começou a diminuir. Seus braços perderam a força, caindo pesadamente sobre o colchão. Os soluços foram se tornando suspiros curtos e trêmulos até que seus olhos se fecharam, embora as lágrimas continuassem a escorrer pelos cantos, molhando o travesseiro.
O quarto mergulhou em um silêncio pesado, quebrado apenas pelo choro abafado da mãe dela, que agora estava encolhida em um canto, com o rosto escondido nas mãos.
Kuro continuou ali, em pé ao lado da cama, segurando as mãos de Tatsuyo. Ele olhou para os próprios dedos, que tremiam. Ele nunca tinha visto nada tão brutal. Ele nunca tinha sentido um ódio tão puro quanto o que sentia agora por aqueles que fizeram isso com ela.
— Tia... — ele chamou baixo, sem tirar os olhos da menina sedada.
— Eu não vi, Kuro... — A mulher soluçou, olhando para a filha. — Como eu não vi? Ela estava morrendo por dentro e eu não percebi...
Kuro apertou levemente a mão de Tatsuyo. Ele pensou nas vezes em que a viu passar pelo corredor da escola, com a cabeça baixa e os livros apertados contra o peito. Ele achava que era apenas timidez. Ele, o cara popular, o atleta, o brincalhão... ele estava no mesmo prédio e não a protegeu.
— Eles vão pagar — Kuro disse, e sua voz não tinha mais o tom de um jovem de 18 anos. Era fria, dura como aço. — Eu não sei quem foram, mas eu vou descobrir. E eles vão desejar nunca terem nascido.
Ele se inclinou e beijou a testa de Tatsuyo, sentindo o calor da febre e o cheiro de hospital. Naquele momento, o laço de "irmãos postiços" se transformou em algo inquebrável. Ele seria a voz dela enquanto ela não pudesse falar. Ele seria o escudo dela enquanto ela estivesse quebrada.
Lá fora, a chuva começou a cair, lavando as janelas do hospital, mas nada no mundo parecia capaz de lavar a mancha de horror que agora marcava a vida daquela família. Kuro Hatake, o garoto que sempre tinha uma piada na ponta da língua, descobriu naquela noite que o silêncio pode ser o grito mais alto de todos.
