
Las primas
Fandom: Camren
Criado: 31/07/2026
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Encontros de Vidro e Seda
O sol mal tinha se posto quando Camila sentiu o peso habitual no peito. O "Las Primas" não era apenas um bordel; para ela, era um purgatório com luzes neon cor-de-rosa e cheiro de perfume barato misturado a álcool. Aos 19 anos, sua pele ainda carregava o viço da juventude, mas seus olhos, castanhos e profundos, guardavam uma fadiga que pertencia a alguém com o triplo da sua idade.
Antes de sair de casa, o cenário fora o de sempre. O barraco de três cômodos na periferia parecia menor a cada dia. Sua mãe, Sinuhe, estava sentada à mesa, contando as moedas que restavam, com o rosto retorcido em uma amargura que ela despejava em Camila como se fosse veneno.
— Já vai se arrumar, sua inútil? — Sinuhe nem sequer olhou para a filha. — Espero que hoje traga algo que preste. O aluguel não vai se pagar sozinho e sua irmã precisa de sapatos novos. Mas claro, você só pensa em si mesma, não é?
Camila não respondeu. Apenas engoliu a seco, acariciou o topo da cabeça de Sofia, que desenhava em um caderno velho no chão, e saiu. O silêncio era sua única defesa contra o narcisismo da mãe, que a culpava pela ausência de um pai que Camila nunca conheceu.
No Las Primas, o movimento estava começando. Camila se sentou no canto do bar, tentando ser invisível, embora sua beleza natural — o cabelo ondulado caindo sobre os ombros e o corpo curvilíneo — tornasse a tarefa impossível. Foi então que ela a viu.
Lauren Jauregui entrou no recinto como se fosse a dona do mundo. Aos 21 anos, ela exalava um poder que vinha não apenas da conta bancária herdada, mas de uma inteligência que brilhava em seus olhos verdes felinos. Lauren era uma lenda local; frequentava o lugar todas as noites, observava tudo, pagava bebidas caras, mas nunca subia com ninguém. Ela era uma colecionadora de momentos, uma observadora de almas quebradas, alimentando um vício em luxúria que nunca parecia ser satisfeito.
Até que seus olhos encontraram os de Camila.
Naquela primeira noite, o ar pareceu fugir dos pulmões de Camila. Lauren caminhou em sua direção, ignorando as outras mulheres que se jogavam em seu caminho.
— Como você se chama? — A voz de Lauren era um veludo rouco.
— Camila — sussurrou ela, sentindo o cheiro de Lauren: uma mistura inebriante de sândalo e algo caro, cítrico.
— Vamos subir, Camila.
A primeira noite foi uma explosão de sentidos. Lauren não foi bruta; pelo contrário, ela tocou Camila com uma curiosidade quase científica, mas carregada de uma paixão latente. Camila, que odiava o toque de qualquer homem que passasse por ali, sentiu-se, pela primeira vez, vista. Não como um pedaço de carne, mas como algo precioso. Quando Camila acordou na manhã seguinte, a cama estava fria. Ao lado, no criado-mudo, um maço de notas de cem dólares e um bilhete curto: "Até logo".
A rotina se estabeleceu com uma precisão matemática. Durante dez dias seguidos, Lauren voltava.
Na segunda noite, elas pouco falaram. Foi uma dança de corpos, Lauren explorando cada centímetro da pele de Camila com uma sede insaciável.
Na terceira, Lauren trouxe um chocolate importado. Elas comeram na cama, rindo de bobagens, antes de Lauren a possuir com uma urgência que deixou Camila sem fôlego.
Na quarta noite, Camila contou sobre seu amor por música, e Lauren ouviu, fascinada pela inteligência que a garota escondia atrás da fachada de "trabalhadora da noite".
Na quinta, sexta e sétima noites, o sexo se tornou mais íntimo, quase desesperado. Lauren parecia buscar em Camila uma fuga para as pressões de gerir o império do pai, enquanto Camila buscava em Lauren o refúgio do inferno que vivia em casa.
Na oitava e nona noites, Lauren começou a chegar mais cedo. Elas passavam horas apenas deitadas, a cabeça de Camila no peito de Lauren, ouvindo o coração da empresária bater com uma força que parecia querer dizer algo que as palavras não alcançavam.
Mas a décima primeira noite foi diferente.
Quando Lauren entrou no Las Primas, ela não tinha o habitual brilho de comando no olhar. Seus ombros estavam levemente caídos, e havia uma sombra sob seus olhos verdes. Ela nem sequer parou no bar; seus olhos buscaram Camila imediatamente, e com um aceno de cabeça, elas subiram.
Ao fecharem a porta do quarto, Camila esperou o toque, o beijo, o ritual de tirar as roupas. Mas Lauren apenas se sentou na beira da cama e cobriu o rosto com as mãos.
— Lauren? — Camila aproximou-se cautelosamente, sentando-se ao lado dela. — O que aconteceu?
Lauren soltou um suspiro longo, retirando as mãos do rosto. Ela parecia vulnerável, uma rainha sem coroa.
— Às vezes, o peso de ser quem todos esperam que eu seja é demais, Camila — disse ela, a voz falhando levemente. — Hoje, eu só... eu não quero ser a Lauren Jauregui, a CEO. Eu só quero ser eu.
Camila, movida por um instinto de puro carinho, envolveu Lauren em seus braços.
— Então seja só você. Aqui, você não deve nada a ninguém.
Elas não fizeram sexo naquela noite. Passaram as horas conversando em sussurros. Lauren falou sobre a pressão do pai, sobre como se sentia sozinha em sua mansão imensa, e Camila, pela primeira vez, abriu o coração sobre a mãe narcisista e o medo de nunca conseguir tirar sua irmã daquela vida.
— Você é brilhante, Camila — disse Lauren, acariciando o rosto da latina. — Você não pertence a este lugar.
— Eu não tenho escolha, Lauren. Nem todos nascem com o destino traçado em ouro.
— O destino pode ser reescrito.
Camila adormeceu sentindo o calor do corpo de Lauren. Foi a primeira vez que ela não acordou sozinha. Quando a luz da manhã filtrada pelas cortinas baratas do bordel atingiu seus olhos, Lauren ainda estava lá, observando-a dormir.
— Bom dia, Camz — sussurrou Lauren.
O apelido fez o coração de Camila dar um solavanco.
— Bom dia, Lo.
— Vamos. Eu te levo em casa. E não aceito um não como resposta.
O trajeto no carro de luxo de Lauren foi silencioso, mas um silêncio confortável. No entanto, à medida que se aproximavam da favela, a ansiedade de Camila crescia. Ela olhava para suas próprias mãos, sentindo uma vergonha corrosiva. Lauren, com sua mente excepcional, percebeu a mudança de humor.
— O que foi? — perguntou Lauren, parando o carro a uma quadra do barraco de Camila, a pedido da garota.
— Eu... eu só não queria que você visse onde eu moro. Não é um lugar para alguém como você. E minha mãe... ela não é uma pessoa fácil.
Lauren desligou o motor e olhou seriamente para Camila.
— Eu não me importo com paredes de tijolo aparente ou telhados de zinco, Camila. Eu me importo com quem está dentro da casa.
Ela pegou um envelope pesado do porta-luvas e o entregou à Camila.
— O que é isso? — Camila abriu e arregalou os olhos. Havia muito mais dinheiro ali do que nos últimos dez dias somados. — Lauren, eu não posso aceitar isso. É demais.
— Não é pelo que fizemos, ou melhor, pelo que não fizemos ontem — Lauren disse, segurando a mão de Camila. — É para você. Para sua irmã. Para que talvez hoje, você não precise ouvir os gritos da sua mãe com tanto medo.
— Você não entende — disse Camila, as lágrimas começando a brotar. — Ela vai tirar tudo de mim se vir que eu tenho isso. Ela acha que eu sou a conta bancária dela.
— Então guarde para você. Esconda. Comece a planejar sua saída, Camila.
Camila saiu do carro, sentindo o peso do envelope contra o corpo. Ela caminhou até seu barraco, sentindo os olhos de Lauren em suas costas até atravessar a porta.
Lá dentro, o cheiro de mofo e café queimado a recebeu. Sinuhe estava de pé, com os braços cruzados.
— Onde você estava? Passou a noite fora? — a mulher gritou, aproximando-se com os olhos semicerrados. — Espero que tenha valido a pena. Cadê o dinheiro?
Camila entregou apenas uma parte, a quantia habitual, escondendo o restante no fundo de sua bota.
— É só isso? — Sinuhe bufou, jogando as notas na mesa. — Você é uma inútil mesmo. Nem para vender o corpo serve direito. Olha para esse lugar, Camila! Você acha que eu mereço viver assim?
— Eu faço o que posso, mãe — Camila respondeu, a voz baixa, sentindo a queimação na garganta.
— Não faz o suficiente! Se seu pai estivesse aqui...
— Meu pai não está aqui! — Camila explodiu, surpreendendo a si mesma. — Ele nunca esteve! E eu sou a única que coloca comida nessa mesa!
Sinuhe avançou e deu um tapa estalado no rosto de Camila. O silêncio que se seguiu foi cortado apenas pelo soluço abafado de Sofia, que assistia a tudo de um canto.
— Não ouse levantar a voz para mim — sibilou Sinuhe. — Agora vá limpar essa cozinha. Você cheira a pecado.
Camila foi para o banheiro minúsculo, lavou o rosto com a água fria e olhou-se no espelho rachado. A marca dos dedos da mãe estava vermelha em sua bochecha, mas em sua mente, ela ainda sentia o toque suave de Lauren.
Ela tocou o envelope escondido em sua bota. Aquele dinheiro não era apenas papel; era a promessa de uma fuga. Pela primeira vez em dezenove anos, Camila sentiu que o vidro que a cercava poderia, finalmente, começar a quebrar. E Lauren Jauregui, com seus olhos verdes e sua tristeza oculta, era a pedra que ela nunca esperou encontrar.
