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Aposta

Fandom: Mundo real

Criado: 31/07/2026

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O Preço do Sentimento

Os corredores do Colégio Saint Mary cheiravam a cera de chão e a uma ansiedade latente que Kuro Hatake raramente sentia. Para ele, a escola era um playground. Com seu 1,80m de altura, o abdômen definido que fazia questão de marcar sob as camisetas levemente apertadas e aquele sorriso de lado que exalava uma confiança beirando a arrogância, ele era o centro das atenções. O cabelo branco curto e repicado brilhava sob as luzes fluorescentes, e seus olhos castanhos escuros varriam o pátio em busca de entretenimento.

— Então, Kuro, vai arregar agora? — provocou Kenji, um de seus cinco melhores amigos, cruzando os braços enquanto se encostava nos armários.

Os outros quatro riram, formando um círculo de pressão e testosterona. A aposta estava na mesa: uma quantia em dinheiro que faria qualquer adolescente sorrir de orelha a orelha, mas para Kuro, era mais sobre o ego.

— A regra é clara — disse Ren, o mais cínico do grupo. — Você tem que fazer a Nakamura se apaixonar por você. Tem que ficar com ela, gravar uma prova de que vocês foram para a cama e, o mais importante, provar que ela te ama. Depois disso... você quebra o coração dela da forma mais pública possível.

Kuro soltou uma risada anasalada, passando a mão pelos fios brancos.

— Vocês estão falando daquela garota parda que vive escondida atrás do cabelo? A que treme se alguém fala "oi"? — Ele olhou para o fundo do corredor, onde Tatsuyo Nakamura caminhava de cabeça baixa, abraçando os próprios livros como se fossem um escudo. — Isso vai ser mais fácil do que tirar doce de criança. Ela é desesperada por atenção.

— O dinheiro está aqui, Hatake — Kenji balançou o celular com o aplicativo do banco aberto. — Mas duvido que você aguente o "grude" dela. Dizem que ela é depressiva e surta por qualquer coisa.

— Eu dou conta — afirmou Kuro, os olhos brilhando com uma malícia predatória. — Em um mês, ela vai estar comendo na minha mão.

Tatsuyo não viu a aproximação. Ela nunca via. Sua mente era um campo de batalha constante entre a ansiedade e as memórias que ela tentava enterrar. Aos dezessete anos, ela carregava o peso de um luto que nunca cicatrizou; a imagem de seu pai morrendo em seus braços quando ela tinha apenas onze anos era o fantasma que a perseguia em cada ataque de pânico.

Ela sentiu um esbarrão no ombro e seus livros caíram no chão.

— Ei, olha por onde anda, sua esquisita! — gritou uma das meninas que praticava bullying com ela diariamente.

Tatsuyo não respondeu. Ela apenas se ajoelhou, sentindo as lágrimas pinçarem seus olhos pretos. O cabelo liso e longo caía sobre seu rosto, escondendo sua expressão. Foi quando uma mão grande e de pele alva entrou em seu campo de visão, pegando seu caderno de biologia.

— Esses caras não têm nada melhor para fazer, não é? — A voz era profunda, vibrante e, para a surpresa de Tatsuyo, gentil.

Ela levantou o olhar lentamente. Kuro Hatake estava agachado na frente dela, um sorriso pequeno e reconfortante nos lábios.

— O-obrigada — sussurrou ela, a voz falhando.

— Eu sou o Kuro. E você é a Tatsuyo, certo? — Ele entregou o livro, deixando seus dedos roçarem nos dela por um segundo a mais do que o necessário.

Tatsuyo sentiu um choque elétrico percorrer sua espinha. Ninguém nunca falava com ela, a menos que fosse para zombar. A carência que ela tentava esconder floresceu instantaneamente.

— Como você sabe meu nome? — perguntou ela, ajeitando uma mecha de cabelo atrás da orelha, revelando a pele parda delicada.

— É difícil não notar a garota mais interessante da sala — mentiu Kuro com uma facilidade assustadora. — Você parece estar sempre em outro mundo. Eu gostaria de conhecer esse mundo algum dia.

Tatsuyo sentiu o rosto esquentar. A depressão costumava deixá-la cinza, mas aquele elogio barato injetou uma cor vibrante em suas veias.

As semanas seguintes foram um estudo de caso sobre manipulação. Kuro era um mestre. Ele a encontrava no intervalo, levava lanches que sabia que ela gostava e a defendia dos valentões com uma possessividade que fazia o coração de Tatsuyo disparar. Para ele, era tudo um jogo. Ele observava a forma como ela se apegava a cada palavra dele, como ela mandava mensagens de "bom dia" e "boa noite" repletas de emojis de coração, e como ela parecia florescer sob sua atenção.

— Você é tão bom para mim, Kuro — disse ela certa tarde, enquanto estavam sentados em um banco isolado do parque perto da escola.

Tatsuyo estava sentada quase no colo dele, segurando sua mão com as duas mãos dela, como se ele fosse seu único ancoradouro em um mar revolto.

— Eu só trato você como você merece, Tatsy — respondeu ele, sentindo o peso da cabeça dela em seu ombro.

Kuro sentiu um desconforto momentâneo. Ele era um cara "tarado", como seus amigos diziam, e seu plano inicial era levá-la para a cama o mais rápido possível. Mas havia algo em Tatsuyo que o atrasava. Talvez fosse a fragilidade dela. Ou talvez fosse a forma como ela falava do irmão de doze anos e da mãe, e de como ela se sentia responsável por eles desde que o pai se fora.

— Às vezes eu acho que não mereço ser feliz — continuou ela, a voz embargada. — A ansiedade... parece que tem um monstro no meu peito. Mas quando você está perto, o monstro dorme.

Kuro engoliu em seco. Aquele era o momento perfeito para avançar, para garantir a vitória da aposta.

— Então deixa eu cuidar de você hoje à noite? Minha mãe não vai estar em casa.

Tatsuyo olhou para ele com uma adoração pura, algo que Kuro nunca tinha visto no rosto de nenhuma outra garota.

— Eu faria qualquer coisa por você, Kuro. Eu te amo tanto.

A confissão atingiu Kuro como um soco no estômago. Deveria ser sua vitória, o sinal verde para o ato final. Mas, em vez de triunfo, ele sentiu uma pontada de culpa que nunca havia experimentado.

Naquela noite, o quarto de Kuro estava na penumbra. O celular dele estava escondido em cima da estante, a câmera estrategicamente posicionada para captar o que aconteceria na cama. Era a prova final para Kenji e os outros.

Tatsuyo estava nervosa. Suas mãos tremiam e ela teve um leve início de hiperventilação quando começou a tirar a blusa.

— Ei, calma — disse Kuro, aproximando-se. — Se você não quiser...

— Eu quero — interrompeu ela, os olhos pretos brilhando com lágrimas. — Eu quero ser sua de todas as formas. Você é a única pessoa que não me abandonou.

Kuro a beijou. O toque dela era urgente, carente, quase desesperado. Enquanto ele percorria a pele parda dela com as mãos, sentindo a maciez de seu corpo, ele tentou manter a mente no dinheiro, no orgulho, na risada dos amigos. Mas quando Tatsuyo o abraçou com força, sussurrando que ele era sua salvação, algo dentro de Kuro se quebrou.

Ele a possuiu, e cada gemido dela era uma adaga em sua consciência. Ele sabia que a câmera estava gravando. Ele sabia que, tecnicamente, ele tinha acabado de ganhar a aposta.

Depois, enquanto ela dormia profundamente com o rosto aninhado em seu peito, Kuro ficou olhando para o teto. Ele se levantou silenciosamente e pegou o celular. O vídeo estava lá. Ele tinha a prova. Tinha o amor dela, tinha o ato, tinha tudo.

Ele olhou para a tela, depois para Tatsuyo. Ela parecia tão pequena sob os lençóis, tão vulnerável. Se ele mostrasse aquele vídeo, se ele terminasse com ela na frente de todos como planejado, ele a destruiria. Com a depressão e a ansiedade que ela tinha, Kuro sabia que aquilo poderia ser o fim dela. Literalmente.

Seu telefone vibrou. Era uma mensagem no grupo dos amigos.

"E aí, Hatake? O vídeo já está pronto ou a esquisita te deu um ataque de pânico antes da hora? Hahaha!"

Kuro sentiu uma náusea súbita. Ele olhou para o tanquinho que tanto se orgulhava, para o reflexo do "cara legal e engraçadinho" no espelho, e sentiu nojo.

No dia seguinte, Kuro chegou à escola com as olheiras profundas. Seus amigos o cercaram imediatamente no pátio, longe dos ouvidos alheios.

— E então? — Kenji estendeu a mão. — Cadê o vídeo? Cadê a prova de que a Nakamura é sua cadelinha?

Kuro olhou para os cinco rapazes. Ele viu Tatsuyo entrando pelo portão, os olhos procurando por ele com aquele brilho de esperança que ele mesmo tinha acendido.

— Eu não fiz — disse Kuro, a voz firme.

Houve um silêncio chocado, seguido por gargalhadas.

— Como assim não fez? Você passou um mês com aquela grudenta! — Ren exclamou. — Não me diga que você brochou?

— Eu apaguei tudo — mentiu Kuro, embora na verdade nunca tivesse tido coragem de enviar. — A aposta acabou. Eu perdi. Não vou fazer isso.

— Você está brincando, né? — Kenji se aproximou, o rosto ficando vermelho. — É muito dinheiro, Hatake. E o seu orgulho? Você vai deixar uma garota depressiva acabar com a sua reputação?

— A reputação de ser um lixo como vocês? — Kuro deu um passo à frente, sua altura intimidando o grupo. — Podem ficar com o dinheiro. Eu não quero um centavo. E se algum de vocês chegar perto dela ou contar qualquer coisa sobre essa aposta idiota... eu juro que vou fazer vocês se arrependerem de terem nascido.

Os amigos recuaram, surpresos com a agressividade genuína na voz de Kuro. Ele nunca fora de levar as coisas a sério.

Kuro se virou e caminhou em direção a Tatsuyo. Ela o viu e abriu um sorriso radiante, correndo para abraçá-lo.

— Kuro! — Ela se pendurou no pescoço dele, sendo a garota "grudenta" que todos desprezavam.

Ele a abraçou de volta, enterrando o rosto no cabelo preto dela. O cheiro de baunilha dele o acalmou.

— Oi, Tatsy — sussurrou ele.

— Você está bem? Parece triste — perguntou ela, afastando-se um pouco para olhar em seus olhos, a preocupação genuína estampada no rosto.

Kuro sentiu o coração apertar. Ele a amava. A percepção o atingiu como um raio. O que começara como uma piada cruel tinha se tornado a única coisa real em sua vida de aparências.

— Eu estou bem agora — disse ele, pegando a mão dela e entrelaçando seus dedos. — Só percebi que sou um idiota por ter demorado tanto para te encontrar.

Tatsuyo sorriu, encostando a cabeça em seu braço.

— Você é meu herói, Kuro.

Ele caminhou com ela pelo corredor, sentindo os olhares de julgamento e confusão dos amigos e dos outros alunos. Pela primeira vez, Kuro Hatake não se importava com o que pensavam dele. Ele sabia que o caminho à frente seria difícil. Teria que lidar com a insegurança dela, com suas crises de pânico e com o segredo da aposta que ele teria que levar para o túmulo para não perdê-la.

Mas, enquanto sentia o aperto firme da mão de Tatsuyo na sua, ele soube que o preço do sentimento era alto, mas era o único que ele estava disposto a pagar.

— Vamos sair daqui? — sugeriu Kuro. — Vamos para algum lugar onde seja só a gente.

— Para onde você quiser — respondeu ela, confiando cegamente no homem que, sem que ela soubesse, tinha acabado de abdicar de tudo por ela.

Kuro sorriu, um sorriso que não tinha nada de malícia e tudo de redenção. Ele não era mais o garoto da aposta. Ele era o porto seguro de Tatsuyo, e, de alguma forma, ela tinha se tornado o dele.

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