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Uma fada que ficou obcecado pela humana

Fandom: Fairy folk, Brian Freud, Vincent coviello

Criado: 31/07/2026

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O Aroma das Amoras e o Sussurro do Pântano

A luz da manhã filtrava-se pelas copas das árvores centenárias, criando um mosaico de ouro e esmeralda sobre o tapete de musgo que cobria o solo da floresta. Para a maioria dos habitantes da vila, aquele lugar era um labirinto de superstições e perigos ocultos, mas para ela, a floresta era um santuário de quietude. Aos trinta e quatro anos, ela carregava consigo uma serenidade que muitos confundiam com fragilidade, mas que, na verdade, era a manifestação de um coração transbordante de empatia.

Ela caminhava com passos leves, segurando sua cesta de vime com as duas mãos, como se protegesse um tesouro. O vilarejo passava por dias cinzentos; a colheita minguada havia deixado os rostos dos vizinhos vincados pela preocupação e as despensas vazias. Como uma "mãe-urso" silenciosa, ela sentia a dor de cada família como se fosse sua. Por isso, decidira preparar o maior ensopado que sua cozinha pudesse comportar, acompanhado de um bolo de frutas silvestres capaz de arrancar sorrisos até dos anciãos mais ranzinzas.

— Por favor, senhoras árvores, permitam-me apenas algumas amoras — sussurrou ela, as bochechas corando levemente ao perceber que falava sozinha. — É para as crianças. Elas estão com tanta fome...

Antes de sair de casa, ela havia enchido os pais de mimos. Beijara a testa de seu pai, cujas mãos estavam calejadas pelo trabalho na terra, e abraçara sua mãe com uma força que dizia tudo o que as palavras não conseguiam expressar. Eles eram seu mundo, e a gratidão por ter sido criada em um lar tão repleto de amor era o combustível que a impulsionava a cuidar de todos ao seu redor.

À medida que se aprofundava na mata, o ar tornava-se mais úmido e o cheiro de terra molhada e decomposição vegetal — aquela "decadência viva" que Brian Froud tão bem descreveria — tornava-se mais intenso. Ela não se importava com a lama que manchava a barra de seu vestido ou com as folhas secas que se prendiam ao seu cabelo. Para ela, havia beleza na forma como a vida se transformava em adubo para o novo.

Subitamente, um movimento frenético entre os juncos de um riacho próximo chamou sua atenção. Ela parou, prendendo a respiração. De trás de uma raiz retorcida, uma figura esguia saltou com a agilidade de um salmão vencendo a correnteza. Tinha cerca de quarenta centímetros de altura, pernas que pareciam gravetos de salgueiro e uma pele de um tom verde-oliva que se camuflava perfeitamente com o ambiente. Na cabeça, uma estrutura orgânica que lembrava uma vagem seca formava um capuz pontudo e excêntrico.

Era Skitter. Pelo menos, era assim que ela o chamava em seus pensamentos.

O Pixie parou sobre uma pedra escorregadia, seus grandes olhos âmbar com pupilas verticais fixos nela. Ele inclinou a cabeça triangular, as orelhas pontiagudas movendo-se para captar o som da respiração da humana. Skitter era uma criatura da Corte Unseelie, moldado pela aspereza do outono e pela lógica amoral das fadas, mas, por algum motivo que desafiava as leis daquele reino, ele desenvolvera uma curiosidade obsessiva por aquela mulher específica.

— Olá, pequeno — disse ela, sua voz baixando para um tom melódico e doce, o tipo de voz que ela guardava apenas para os seres mais puros. — Você está com fome hoje?

Ela tateou o bolso de seu avental e retirou um pequeno pedaço de favo de mel embrulhado em uma folha de parreira. Com movimentos lentos para não assustá-lo, ela colocou a oferenda sobre um tronco caído.

O Pixie soltou um ruído agudo, algo entre um guincho e uma risada metálica. Ele saltou, percorrendo a distância em um piscar de olhos, e agarrou o mel com dedos longos e garras escuras.

— Skitter... — ela murmurou, um sorriso tímido iluminando seu rosto. — Eu preciso encontrar as amoras grandes. Você sabe onde elas estão, não sabe? As crianças precisam de um pouco de doçura.

A criatura parou de lamber o mel e olhou para ela. Seus dentes afiados e espaçados brilharam quando ele abriu um sorriso que rasgava o rosto de orelha a orelha. Para qualquer outro humano, aquela expressão seria aterrorizante, um prenúncio de que seriam "levados por pixies" para o meio de um pântano traiçoeiro. Mas ela apenas viu um ser que vivia sob regras diferentes das dela.

— Amoras... — o Pixie sibilou, sua voz soando como o atrito de folhas secas. — Doces... vermelhas... sangue da terra...

Ele começou a saltar de pedra em pedra, gesticulando para que ela o seguisse. Ela hesitou por um segundo. Sabia que as fadas eram caprichosas. Sabia que um passo em falso no reino delas poderia significar anos de desaparecimento no mundo dos homens. Mas a imagem dos bebês da vila, com seus rostos pálidos pela falta de nutrientes, deu-lhe a coragem que lhe faltava para si mesma.

— Espere por mim! — pediu ela, tropeçando levemente enquanto tentava acompanhar a agilidade sobrenatural da criatura.

Eles caminharam por uma clareira onde o espaço parecia se curvar. As árvores ali tinham rostos esculpidos pela própria natureza, e o som de sinos distantes parecia vir debaixo da terra. Skitter a levou até uma encosta úmida, onde os arbustos de amora eram tão carregados que os galhos tocavam o chão. As frutas eram enormes, de um roxo tão profundo que pareciam joias negras.

— Oh, são perfeitas! — exclamou ela, as mãos já se movendo para colhê-las com delicadeza. — Muito obrigada, Skitter. Você é muito gentil.

O Pixie soltou uma gargalhada estridente e pendurou-se de cabeça para baixo em um galho acima dela, observando-a trabalhar.

— Gentil? — ele repetiu, a palavra soando estranha em sua língua. — Pixie não é gentil. Pixie é livre. Pixie gosta do seu canto. Cante. Cante para a terra acordar.

O rosto dela ferveu instantaneamente. Ela olhou para os lados, o hábito da timidez extrema fazendo-a querer se esconder dentro da própria cesta.

— Eu... eu não posso. Alguém pode ouvir — gaguejou ela, apertando as mãos contra o peito.

— Ninguém ouve aqui — sibilou Skitter, aproximando seu rosto triangular do dela. Seus olhos dourados brilhavam com uma intensidade hipnótica. — Só as pedras. Só o musgo. Cante, ou as amoras ficarão amargas.

Ela sabia que as fadas adoravam testes e trocas. Se ela se recusasse, ele poderia muito bem transformar as frutas em cinzas ou fazê-la se perder no caminho de volta. Suspirando, ela fechou os olhos, buscando o amor que sentia por sua mãe, a paciência que tinha com os animais feridos e a esperança que queria levar para a vila.

Sua voz surgiu pequena, mas logo ganhou corpo. Era uma canção de ninar antiga, uma melodia que falava sobre o ciclo das sementes e o abraço do luar. Enquanto cantava, sua postura mudou; a timidez desapareceu, dando lugar a uma confiança maternal que parecia irradiar calor.

Skitter ficou imóvel. Suas orelhas pararam de tremer. Até os insetos da floresta pareceram silenciar para ouvir aquela humana que possuía a alma de uma criatura da luz, apesar de sua forma mortal.

— Você tem uma voz de água clara — disse o Pixie quando ela terminou, sua voz agora desprovida de deboche. — Quase me faz esquecer de pregar peças. Quase.

Ele saltou para o chão e, com um movimento rápido, começou a trançar as crinas de um pônei selvagem que pastava ali perto, um hábito travesso que ele não conseguia evitar.

— Eu preciso ir agora — disse ela, sentindo o peso da cesta cheia. — O ensopado precisa de tempo para cozinhar.

— Vá, humana-mãe — Skitter acenou com uma mão longa e fina. — Mas cuidado com o nevoeiro. Ele gosta de morder quem não sabe para onde vai.

— Eu saberei o caminho. Meu coração está em casa — respondeu ela com doçura.

No entanto, antes que pudesse se afastar, um grito agudo ecoou vindo da direção da vila. Não era um grito de alegria, mas de puro terror. Pássaros levantaram voo em massa, escurecendo o céu por um instante.

A expressão dela mudou instantaneamente. A doçura foi substituída por uma rigidez de aço. Seus olhos, antes suaves, tornaram-se aguçados.

— Algo está errado — afirmou ela, sua voz agora firme e desprovida de qualquer gagueira.

— Homens de ferro — comentou Skitter, subindo em seu ombro com a naturalidade de um gato. — Eles trazem fogo. Eles trazem medo.

— Não na minha vila — declarou ela, começando a correr em direção ao som, ignorando o perigo e a própria segurança.

A timidez havia morrido no momento em que a ameaça surgiu. Naquele momento, ela não era apenas uma moradora da floresta; ela era a protetora de todos os bebês, de todos os idosos e de cada ser indefeso que chamava aquele vale de lar. E, para a surpresa de Skitter, o Pixie sentiu-se compelido a segui-la, não para pregar uma peça, mas para ver até onde a fúria de uma "mãe-urso" humana poderia chegar.

O caminho de volta parecia mais curto sob a urgência do medo alheio. Ela atravessou riachos e saltou sobre troncos com uma determinação que faria um cavaleiro hesitar. Quando finalmente alcançou a orla da floresta, a visão que encontrou fez seu sangue ferver: cobradores de impostos do rei, montados em cavalos imponentes, cercavam a praça central. Eles derrubavam cestas de grãos — o pouco que havia restado da colheita — e gritavam ordens rudes para os aldeões encolhidos.

Um dos soldados, um homem de rosto avermelhado e armadura barulhenta, segurava o braço de uma jovem mãe que tentava proteger seu bebê.

— Se não há ouro, levaremos o gado! E se não houver gado, levaremos os braços fortes para as minas! — bramou o soldado.

Ela não parou para pensar. Ela não gaguejou. Ela não se escondeu.

— Solte-a agora! — a voz dela chicoteou pelo ar, tão clara e autoritária que até os cavalos dos soldados recuaram um passo, inquietos.

Os aldeões olharam para trás, chocados ao verem a mulher mais tímida da região caminhando em direção ao perigo com os olhos faiscando como brasas. Skitter, escondido nas sombras de sua nuca, soltou um risinho malicioso. Ele adorava o caos, mas, acima de tudo, estava começando a adorar aquela humana em particular.

— Ora, o que temos aqui? — debochou o soldado, soltando a mulher, mas desembainhando a espada. — Uma camponesa com excesso de coragem?

— Eu disse para soltá-la — repetiu ela, parando a poucos metros dele. Sua postura era firme, os ombros largos, uma barreira intransponível entre o predador e a presa. — Vocês já tiraram o suficiente desta terra. Não permitirão que toquem em mais ninguém aqui.

— E quem vai me impedir? Você e sua cesta de frutinhas? — o homem riu, avançando um passo.

Nesse momento, Skitter decidiu que a diversão humana precisava de um toque de Dartmoor. O Pixie saltou do ombro dela, invisível para os olhos dos soldados, e começou a soprar nos ouvidos dos cavalos, sussurrando palavras de pânico na língua das fadas. Os animais começaram a empinar e a relinchar descontroladamente, jogando seus cavaleiros ao chão.

A confusão instalou-se. Panelas começaram a voar "sozinhas" das janelas das casas, atingindo os soldados com precisão milimétrica. O creme de leite guardado nas despensas azedou instantaneamente, e as lâmpadas de óleo, mesmo sob a luz do dia, apagaram-se em um sopro sobrenatural.

— Bruxaria! — gritou um dos guardas, tentando se levantar da lama.

Ela, aproveitando a distração, correu até a jovem mãe e o bebê, envolvendo-os em um abraço protetor e conduzindo-os para a segurança de sua casinha afastada.

— Vão! Entrem na floresta! — ordenou ela aos outros aldeões. — Eles não podem segui-los lá!

— Mas e você? — perguntou seu pai, que surgira da multidão, o rosto pálido de preocupação.

— Eu vou ficar. Eu vou garantir que eles não passem da ponte — disse ela, beijando a mão do pai com rapidez antes de empurrá-lo para o caminho seguro.

Ela voltou-se para os soldados desorientados. Skitter reapareceu ao lado dela, sentado sobre uma pilha de lenha, debulhando um grão de milho com indiferença cínica.

— Eles são barulhentos, humana-mãe — comentou o Pixie. — Quer que eu os leve para o pântano? O pântano está com fome.

Ela olhou para os homens caídos, que agora pareciam mais patéticos do que ameaçadores. Seu pacifismo inato lutou contra sua fúria protetora.

— Não os mate — disse ela a Skitter, e os soldados estremeceram ao perceberem que ela falava com o ar. — Apenas... certifique-se de que eles nunca mais queiram encontrar o caminho para esta vila.

O Pixie abriu seu sorriso mais largo e assustador.

— Ah, isso eu sei fazer muito bem. Eles serão "levados por pixies" até que esqueçam os próprios nomes.

Enquanto Skitter começava seu trabalho de desorientação mágica, conduzindo os soldados para longe com vozes ilusórias e trilhas que não levavam a lugar nenhum, ela finalmente permitiu que seus ombros relaxassem. O tremor da adrenalina começou a atingir suas mãos. Ela olhou para a cesta de amoras, ainda intacta em meio ao caos.

O ensopado e o bolo ainda seriam feitos. A vila ainda teria seu momento de doçura. E, embora ela voltasse a gaguejar se alguém lhe agradecesse pelo que fizera, no fundo de sua alma, ela sabia que a floresta e seus habitantes mais estranhos agora cuidariam dela, assim como ela cuidava de todos os outros.

Afinal, na terra de Brian Froud e dos Pixies de Dartmoor, a bondade pura era a magia mais rara e poderosa de todas — uma magia que até as fadas mais sombrias eram obrigadas a respeitar.

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