
Aposta
Fandom: Mundo real
Criado: 31/07/2026
Tags
O Reflexo de um Jogo Perigoso
A luz do entardecer filtrava-se pelas janelas da sala de estar, mas Kuro Hatake mal prestava atenção ao pôr do sol. Seus olhos castanhos escuros estavam fixos no grupo de cinco rapazes à sua frente, todos com sorrisos cínicos e maços de dinheiro sobre a mesa de centro. Kuro, com seus 1,80m de altura, o corpo definido sob a camiseta justa e o cabelo branco repicado que sempre parecia bagunçado de um jeito charmoso, era o centro das atenções. Ele era o "engraçadinho", o cara que nunca perdia uma piada e, muito menos, um desafio.
— Então está fechado, Kuro — disse Hiro, o líder informal do grupo, jogando uma nota de cem sobre a pilha. — Você faz a Tatsuyo se apaixonar por você. Fica com ela, grava a prova do crime na cama e, depois que ela estiver totalmente entregue, você quebra o coração dela. Se provar que ela te amava antes do fim, o dinheiro é todo seu.
Kuro soltou uma risada anasalada, passando a mão pelo cabelo branco. Para ele, aquilo era como tirar doce de criança.
— Vocês estão jogando dinheiro fora — zombou Kuro, com um brilho malicioso nos olhos. — Aquela garota é tão carente que se eu der um "bom dia" mais caloroso, ela já começa a planejar o casamento. Vai ser fácil demais.
— Veremos — rebateu outro amigo. — Ela é estranha, Kuro. Tem aqueles ataques de pânico, vive deprimida. Não vai ser tão simples quanto as garotas que você costuma levar para o quarto.
— Apostado — finalizou Kuro, selando o destino de Tatsuyo Nakamura sem um pingo de remorso. Naquele momento, seu orgulho falava mais alto que qualquer moralidade.
Um mês e meio se passou. Kuro tinha se tornado a sombra de Tatsuyo. Ele a defendia do bullying pesado na escola, afastava os idiotas que jogavam papéis nela ou que riam de suas crises de ansiedade nos corredores. Para Tatsuyo, Kuro era um anjo caído do céu. Ela, uma menina de 1,63m, pele parda e cabelos pretos longos que pareciam servir de escudo para o mundo, nunca tinha recebido tanta atenção. Ela aceitava cada pequeno gesto — um chocolate, um elogio bobo, um abraço — como se fossem tesouros inestimáveis.
Naquela tarde de sexta-feira, Kuro finalmente cruzaria a soleira da porta da casa dela.
— Minha mãe fez bolo — disse Tatsuyo, a voz baixa e trêmula, enquanto abria a porta da frente. Ela não olhava diretamente para ele, um hábito vindo da insegurança profunda. — Meu irmão, Yuki, está no quarto jogando.
— Relaxa, Tatsu — Kuro sorriu, aquele sorriso que ele sabia que desarmava qualquer um. — Eu adoro bolo. E adoro passar tempo com você.
Eles subiram para o quarto dela após um lanche rápido e silencioso. Quando Tatsuyo abriu a porta do seu refúgio, Kuro parou abruptamente. O impacto visual foi como um soco no estômago.
O quarto não era apenas um quarto de adolescente. Era um santuário de sobrevivência. Nas paredes, dezenas de cartazes coloridos feitos à mão diziam frases como: "Você é forte, Tatsuyo", "Respire, nós amamos você" e "O papai estaria orgulhoso da mulher que você se tornou". Havia fotos dela sorrindo com o irmão de 12 anos e bilhetinhos colados no espelho, escritos com letra infantil: "Mana, não chore hoje, eu te dou meu doce".
Kuro sentiu um nó estranho na garganta. Ele sabia da história do pai dela — que ele havia morrido nos braços dela quando ela tinha apenas onze anos. Mas ver a materialização daquela dor e o esforço hercúleo da família para mantê-la viva, para tirá-la da depressão grave, mudou algo dentro dele.
— É meio bobo, né? — Tatsuyo murmurou, encolhendo os ombros e sentando-se na beira da cama. — Minha mãe e o Yuki... eles tentam ajudar. Eu sou um fardo às vezes.
Kuro caminhou lentamente até ela, sentando-se ao seu lado. O silêncio no quarto era denso, quebrado apenas pelo som da respiração ansiosa de Tatsuyo.
— Não é bobo — disse Kuro, e pela primeira vez em semanas, sua voz não tinha o tom de deboche que ele costumava usar com os amigos. — É... é bonito. Eles amam você de verdade.
Tatsuyo finalmente levantou os olhos pretos e profundos para ele. Havia uma vulnerabilidade ali que o assustava.
— Você também me ama, Kuro? — perguntou ela, com a ingenuidade de quem busca desesperadamente um porto seguro. — Todo mundo na escola diz que você é bom demais para ser verdade. Que você vai me deixar.
Kuro sentiu o peso da aposta esmagar seus ombros. Ele deveria dizer que sim, deveria seduzi-la, deveria preparar o terreno para a gravação que ganharia o dinheiro. Mas, ao olhar para aqueles olhos que já tinham visto tanta morte e tristeza, a máscara de "tarado engraçadinho" começou a rachar.
— Eu estou aqui, não estou? — Ele desviou do assunto, aproximando-se mais.
Tatsuyo se inclinou, buscando o calor dele. Ela era "grudenta", como ele mesmo previra, mas agora aquele contato não parecia irritante. Parecia necessário.
— Eu tenho tanto medo, Kuro — sussurrou ela, as mãos pequenas agarrando a camiseta dele. — Às vezes sinto que vou sumir. Mas quando você me abraça, eu sinto que tenho um chão.
Kuro não aguentou. Ele a puxou para um beijo. Foi o primeiro beijo deles. Não foi o beijo predatório que ele imaginou que daria para ganhar a aposta. Foi algo lento, carregado de uma culpa que ele não conseguia mais ignorar e de um sentimento novo, ardente, que florescia no peito dele contra a sua vontade.
Os lábios de Tatsuyo eram macios e ela beijava com uma entrega total, como se estivesse entregando sua própria alma nas mãos dele. Quando se separaram, ela tinha um leve sorriso, o primeiro sorriso genuíno que ele via em dias.
— Eu te amo, Kuro — ela disse, a voz firme apesar da timidez.
Aquelas palavras foram como uma sentença. Kuro sentiu o coração acelerar, não pela excitação da conquista, mas pelo pânico da percepção. Ele estava apaixonado. Ele, o cara que nunca se apegava, tinha caído na própria armadilha.
— Tatsu... eu... — Ele travou.
Ele queria contar a verdade. Queria dizer que tudo começou com uma aposta idiota entre garotos imaturos. Mas ele olhou ao redor, viu os cartazes de "Você é forte" e soube, com uma clareza aterrorizante, que se ele contasse agora, ela não suportaria. Tatsuyo já vivia no limite. A traição dele seria o empurrão final para o abismo.
— Eu também... gosto muito de você — ele conseguiu dizer, omitindo a palavra "amor" por puro medo da magnitude do que sentia.
— Você nunca vai me deixar, né? — Ela se aninhou no peito dele, ouvindo as batidas descompassadas do coração de Kuro. — Se você me deixasse, eu acho que não teria mais motivo para tentar.
Kuro fechou os olhos, abraçando-a com força, sentindo o perfume do cabelo dela. O orgulho dele ainda gritava que ele não podia perder a aposta, que não podia ser o "frouxo" que desistiu por causa de uma garota. Mas o seu coração, agora irremediavelmente ligado àquela menina quebrada, implorava por uma saída.
Ele sabia que estava em um beco sem saída. Se continuasse com a aposta e gravasse o que os amigos queriam, ele a destruiria para sempre. Se parasse agora e terminasse com ela, os amigos contariam sobre a aposta por pura maldade, e ela descobriria que o único mês feliz de sua vida foi uma mentira.
— Eu não vou a lugar nenhum agora — sussurrou Kuro, embora soubesse que cada segundo que passava ao lado dela era um passo a mais em direção a um desastre inevitável.
Ele olhou para a parede, para um bilhete escrito pela mãe de Tatsuyo que dizia: "O amor cura tudo". Kuro sentiu uma lágrima solitária queimar em seu olho, mas a limpou antes que ela pudesse ver. Ele a amava, e era exatamente por amá-la que ele sabia que tinha se tornado o vilão da história dela. Ele queria protegê-la do mundo, mas o mundo do qual ela mais precisava de proteção, agora, era o dele.
— Kuro? — chamou ela, baixinho.
— Oi, pequena.
— Obrigada por me escolher.
Kuro engoliu em seco, o gosto amargo da mentira misturado ao doce do beijo.
— Não precisa agradecer — ele respondeu, enquanto em sua mente, ele já começava a planejar como ganharia tempo, como manteria aquela farsa por tempo suficiente para talvez, apenas talvez, encontrar uma forma de transformar aquela aposta maldita em algo real, antes que o tempo acabasse e o dinheiro dos seus amigos se tornasse o preço da vida dela.
Ele não desistiria da aposta ainda, não por dinheiro, mas porque a aposta era o único fio que o mantinha perto dela sem que a verdade viesse à tona. Ele precisava de mais tempo. Mais tempo para amá-la, mesmo que fosse um amor nascido no solo podre de uma traição.
