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Fandom: Nenhum
Criado: 01/08/2026
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Entre o Traço e a Tinta
O estúdio de tatuagem de Emanuel, localizado no vigésimo andar de um prédio comercial de luxo, era um refúgio de silêncio e luz baixa que contrastava com o caos da metrópole lá fora. Emanuel, com as mangas da camisa social dobradas até os cotovelos, revelando as tatuagens que subiam por seus braços como rios de tinta preta, observava o movimento da rua através do vidro. Aos vinte e cinco anos, ele construíra um império, mas sentia que o controle que tanto prezava estava escorregando por entre seus dedos.
O peso da responsabilidade era constante. Sara, sua esposa, estava grávida de cinco meses de Valentina. Ele a amava com uma intensidade que beirava a obsessão; amava sua ousadia, o jeito como ela não pedia permissão para existir, e até mesmo a vulgaridade calculada que ela usava como armadura. Sara era o fogo que o mantinha alerta.
Mas havia Eduarda.
Eduarda, a amiga de sua irmã, a menina de traços finos e olhar de bicho acuado que parecia carregar o mundo nas costas desde que o pai de sua filha a abandonara. Ela também estava de cinco meses. Amélie, ela pretendia chamar a bebê. Emanuel fechou os olhos, sentindo uma pontada de irritação e desejo. Ele não deveria se importar tanto com o fato de Eduarda ser bailarina, ou com o jeito que ela movia as mãos quando falava de História da Arte. Mas ele se importava. E, por se importar tanto, ele a tratava com uma frieza cortante, esperando que o gelo apagasse a chama que começava a arder em seu peito.
A porta do estúdio se abriu com um estrondo familiar. Sara entrou, os saltos agulha estalando contra o piso de porcelanato. Ela usava um vestido justo de seda vermelha que acentuava a barriga de cinco meses e os seios volumosos, destacados pelo silicone e pela gravidez.
— Você está com aquela cara de quem está tentando resolver uma equação impossível, Manu — disse Sara, jogando a bolsa de grife sobre a mesa de desenho dele. Ela se aproximou e sentou-se no colo dele, sem se importar com o espaço de trabalho.
Emanuel suspirou, as mãos indo automaticamente para a cintura dela, protegendo-a.
— É apenas o trabalho, Sara. Muitos estúdios para gerenciar.
Sara riu, um som rouco e provocador. Ela segurou o rosto dele, forçando-o a olhá-la nos olhos.
— Mentira. É a Eduarda. Você está sendo um idiota com ela porque está morrendo de vontade de cuidar daquela barriga também.
Emanuel endureceu o maxilar, a racionalidade tentando assumir o controle.
— Eu amo você. Valentina é minha prioridade.
— Eu sei que você me ama, seu bobo — ela deu um selinho demorado nele, deixando o rastro de um batom forte. — Mas eu te conheço. Eu não ligo, Manu. Ela é uma boa menina, é doce, e está sozinha. Se você quer ela, pegue ela. Eu não vejo a Duda como uma ameaça. Ela é como um passarinho ferido, e você sempre teve esse complexo de salvador.
— Não é tão simples — murmurou ele, desviando o olhar.
— É simples se você parar de ser um carrasco com ela. Ela veio na minha loja hoje comprar roupas para a bebê. Estava quase chorando porque não conseguia decidir entre o rosa e o branco. Ela precisa de você, e você está aí, fingindo que ela é invisível.
Emanuel não respondeu, mas o conselho de Sara ficou ecoando em sua mente.
No dia seguinte, Emanuel foi buscar a irmã na academia de ballet. O ar no local era impregnado com o cheiro de resina e o som rítmico de sapatilhas batendo contra o piso de madeira. Ele viu Eduarda antes que ela o visse.
Ela estava sentada no chão, encostada na barra, vestindo um colante preto e uma saia de tule clara que mal escondia a curva suave de sua barriga. Ela parecia exausta. O cabelo castanho estava preso em um coque frouxo, e algumas mechas caíam sobre seu rosto pálido. Ela acariciava o ventre com uma delicadeza que fez o coração de Emanuel apertar.
Ele se aproximou com passos lentos. A frieza que ele costumava usar como escudo estava lá, pronta para ser disparada.
— Você não deveria estar fazendo tanto esforço — disse ele, a voz saindo mais rígida do que pretendia.
Eduarda deu um sobressalto, olhando para cima com os olhos grandes e expressivos. Ela rapidamente tentou se levantar, mas o equilíbrio estava diferente devido à gestação. Emanuel, por puro instinto, estendeu a mão e a segurou pelo antebraço, puxando-a para cima com firmeza.
— Emanuel... — ela sussurrou, a voz pequena e manhosa. — Eu só estava dando a aula das crianças. Não é esforço demais.
— É o suficiente para você estar pálida — rebateu ele, soltando o braço dela como se tivesse se queimado. — Onde está o pai dessa criança? Ele deveria estar te levando para casa.
Eduarda baixou o olhar, as pontas dos dedos brincando com a saia. A menção ao ex-namorado sempre trazia uma sombra de tristeza profunda.
— Você sabe que ele não está mais aqui, Emanuel. Eu dou conta sozinha.
— Não parece — disse ele, cruzando os braços. — Você parece que vai desmaiar a qualquer momento.
— Por que você é sempre tão bravo comigo? — perguntou ela, a voz embargada. — Eu não fiz nada para você. Se minha presença te incomoda tanto, eu posso sair.
Ela fez menção de passar por ele, mas Emanuel bloqueou o caminho. O perfume dela, algo que lembrava flores brancas e talco de bebê, o atingiu em cheio. Ele queria ser gentil, queria dizer que ela era a criatura mais linda que ele já vira em uma sala de dança, mas sua boca apenas se apertou em uma linha fina.
— Eu não sou bravo. Sou prático. Você está grávida e sozinha. É uma situação estúpida.
— Eu não sou estúpida! — Eduarda rebateu, uma rara faísca de defesa brilhando em seus olhos, embora as lágrimas já estivessem se formando. — Eu amo a Amélie. E eu vou ser uma ótima mãe, mesmo que eu tenha que fazer tudo sem ajuda.
Emanuel sentiu uma onda de culpa. Ele a viu tremer levemente e, antes que pudesse se conter, sua mão subiu para o rosto dela, o polegar acariciando a maçã do rosto de Eduarda. O toque foi um choque para ambos. A pele dela era tão macia quanto ele imaginara.
— Eduarda... — o tom de voz dele mudou, tornando-se mais baixo, quase um rosnado de proteção.
— O que foi? — ela perguntou, ficando imóvel sob o toque dele, inclinando o rosto levemente para a palma da mão dele, buscando aquele calor.
— Nada. Vá pegar suas coisas. Eu vou te levar para casa.
— Não precisa, meus pais...
— Eu disse que vou te levar — interrompeu ele, a autoridade de quem comanda impérios voltando à tona. — Não discuta comigo.
O trajeto no carro de luxo de Emanuel foi silencioso. Eduarda estava encolhida no banco do carona, olhando para a janela, sentindo-se pequena e confusa. Emanuel dirigia com uma mão no volante, a outra apertando o câmbio com força excessiva.
— Sara me contou que você esteve na loja dela — disse ele, quebrando o silêncio.
— Ela foi muito gentil — respondeu Eduarda timidamente. — Ela me deu um desconto enorme em um conjunto de saída de maternidade. Ela é... ela é incrível, Emanuel. Você tem sorte.
— Eu sei que tenho — disse ele, e era verdade. Ele amava Sara. Mas o espaço que Eduarda estava ocupando em sua mente não diminuía o que sentia pela esposa; apenas criava uma nova e complexa geografia emocional.
Quando ele parou o carro em frente à casa dos pais de Eduarda, ele não destravou as portas imediatamente. Ele ficou olhando para o perfil dela.
— Por que você não pede ajuda? — perguntou ele. — Minha irmã, minha mãe... eu.
Eduarda finalmente olhou para ele, uma lágrima solitária escapando.
— Porque você me olha como se eu fosse um problema que você precisa resolver, não uma pessoa. E porque você tem a sua vida, a sua esposa, a sua filha que vai nascer. Eu não quero ser um fardo.
Emanuel sentiu um aperto no peito. Ele desligou o motor.
— Você não é um fardo, Eduarda. Você é... — ele hesitou. Como dizer a ela que ele passava noites em claro pensando em como seria cuidar de duas casas, de duas mulheres, de duas filhas? Como explicar que o racional Emanuel estava perdendo a luta contra o instinto possessivo de tê-la sob sua asa? — Você é importante. Só que eu tenho um jeito difícil de demonstrar.
Ele se inclinou para o lado dela. Eduarda prendeu a respiração, o coração batendo tão forte que ela achou que ele pudesse ouvir. Emanuel não a beijou, mas colocou a mão espalmada sobre a barriga dela, sentindo a vida de Amélie pulsar ali dentro.
— Eu vou cuidar de você — afirmou ele, os olhos fixos nos dela. — Não importa o que você pense ou o quanto eu tente lutar contra isso. De agora em diante, você não está mais sozinha.
Eduarda sentiu um calafrio percorrer sua espinha. Havia algo de sombrio e intenso na promessa dele, algo que a assustava, mas que também a fazia se sentir, pela primeira vez em meses, segura.
— Mas e a Sara? — sussurrou ela.
— Sara sabe — respondeu ele, a voz firme. — Sara quer que eu seja feliz. E, aparentemente, minha felicidade agora depende de garantir que você e essa criança fiquem bem.
Ele se afastou, destravando as portas.
— Vá para dentro. Amanhã eu venho te buscar para a faculdade. E não ouse ir de ônibus.
Eduarda saiu do carro em transe. Ela caminhou até a porta de casa e olhou para trás, vendo o carro de Emanuel ainda parado ali, vigiando-a até que ela entrasse.
Dentro de casa, seus pais, jovens e sempre dispostos a ouvir, notaram seu estado.
— Tudo bem, querida? — perguntou a mãe, vindo da cozinha.
— Eu não sei, mamãe — disse Eduarda, tocando a barriga onde a mão de Emanuel estivera segundos antes. — Eu acho que a minha vida acabou de ficar muito mais complicada.
Enquanto isso, Emanuel dirigia de volta para sua cobertura. Ao entrar, encontrou Sara deitada no sofá imenso, comendo morangos e assistindo a um reality show qualquer. Ela olhou para ele e sorriu, vendo a expressão perturbada no rosto do marido.
— Você contou para ela? — perguntou ela, estendendo um morango em direção a ele.
Emanuel aceitou a fruta, sentando-se aos pés de Sara e começando a massagear os pés dela, que estavam inchados.
— Não exatamente. Mas ela sabe que eu não vou mais deixá-la em paz.
— Ótimo — disse Sara, fechando os olhos de prazer com a massagem. — Eu já escolhi o berço da Valentina, e vi um igualzinho em azul-claro que ficaria lindo para a Amélie. A gente podia comprar os dois amanhã, o que acha?
Emanuel olhou para a esposa, admirando a falta de ciúme e a praticidade quase amoral com que ela lidava com a situação. Ele era um homem de sorte, ou talvez um homem condenado a viver em um equilíbrio precário entre duas forças opostas.
— Você é louca, Sara — murmurou ele, com um sorriso de canto.
— Sou prática, Manu. Como você. Se você quer as duas, nós teremos as duas. Eu só quero que essa casa seja cheia de risadas e que ninguém sinta falta de nada. Especialmente de amor.
Emanuel inclinou-se e beijou a barriga de Sara, sentindo Valentina chutar. Naquele momento, ele visualizou o futuro: um estúdio de tatuagem, uma loja de roupas, uma academia de ballet e duas meninas crescendo juntas. O caos era iminente, mas, pela primeira vez em semanas, a tensão em seus ombros pareceu diminuir.
Ele ainda seria frio com Eduarda às vezes, porque era sua natureza resistir ao que o vulnerabilizava. Mas ele a teria. Ele cuidaria dela com a mesma ferocidade com que protegia Sara. O mundo poderia não entender, mas no império de Emanuel, as regras eram ditadas pelo que ele era capaz de conquistar e manter. E ele estava prestes a conquistar o coração frágil da bailarina, mesmo que tivesse que fazer isso um traço de cada vez.
