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Fandom: Nenhum
Criado: 01/08/2026
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Entre Tintas e Sapatilhas
O salão de festas estava mergulhado em um caos colorido de balões, gritos infantis e o cheiro doce de algodão-doce. Emanuel sentia a tensão latejar em suas têmporas, um reflexo habitual de quem lidava com a gestão de estúdios de tatuagem em três continentes e uma agenda que nunca parava. Ele segurava Valentina no colo, a bebê de oito meses que era a imagem cuspida de Sara, embora com um temperamento que já demonstrava ser tão exigente quanto o da mãe.
Sara, ao seu lado, era um ponto de luz — ou de alerta — no ambiente. Usando um vestido vermelho extremamente justo que realçava suas curvas acentuadas pelo silicone e o cabelo loiro platinado impecavelmente escovado, ela não passava despercebida. Ela segurava uma taça de champanhe, observando a festa com um olhar de quem comandava o recinto, mesmo não sendo a anfitriã.
O grito agudo de Valentina rompeu o burburinho.
Emanuel sentiu a fisgada no braço da filha e, em um segundo, o choro estridente da bebê ecoou. Valentina apontava para a pequena menina à sua frente, cujos olhos grandes e castanhos estavam arregalados de susto.
— O que aconteceu? — Emanuel rosnou, a voz profunda e carregada de uma irritação defensiva. Ele olhou para o braço de Valentina e viu a marca vermelha de uma mordida pequena, mas firme. — Ela mordeu a minha filha?
Do outro lado do tapete de E.V.A., uma jovem mulher se aproximou quase deslizando, a expressão transbordando pânico e desculpas. Eduarda parecia ter saído de um quadro impressionista. Vestia um vestido de linho bege, leve e fluido, que contrastava com a pele alva e os cabelos castanhos que caíam em ondas naturais pelos ombros. Ela pegou a pequena Amélie no colo, que imediatamente escondeu o rosto no pescoço da mãe, soltando um ganido manhoso.
— Meu Deus, eu sinto muito! — Eduarda exclamou, a voz suave e trêmula. — Amélie, por que você fez isso? Ela nunca morde, eu... eu realmente peço mil desculpas.
Emanuel ergueu os olhos para encarar a mulher que falava. O sermão que ele tinha preparado na ponta da língua morreu instantaneamente.
Havia algo na fragilidade de Eduarda, na forma como ela se encolhia diante da sua autoridade rígida, que o atingiu como um soco no estômago. Ela exalava um perfume suave de lavanda e talco, e o brilho de lágrimas não derramadas em seus olhos despertou nele um instinto de proteção que ele normalmente reservava apenas para Valentina e Sara. Ele, um homem acostumado com o controle, com o asfalto, com agulhas e negócios brutos, sentiu-se subitamente desarmado pela doçura acuada daquela estranha.
— Você deveria prestar mais atenção — Emanuel disse, embora o tom tivesse perdido metade da agressividade inicial. — Valentina é pequena, poderia ter machucado sério.
— Eu sei, você tem toda a razão — Eduarda respondeu, aproximando-se um passo, a postura tímida e submissa. — Eu sou a Eduarda. A Amélie é... ela é muito calma, geralmente. Acho que ela se assustou com o barulho. Por favor, me deixe ver se ela está bem.
Sara, que observava a cena com uma sobrancelha arqueada, deu um passo à frente, balançando os quadris. Ela avaliou Eduarda de cima a baixo. Não havia ódio em seu olhar, apenas uma curiosidade analítica. Para Sara, aquela mulher de aparência de "fada da floresta" não representava uma ameaça ao seu posto; ela era a namorada, a mãe da herdeira, a mulher que Emanuel escolhera para dividir o império.
— Relaxa, Manu — Sara disse, a voz rouca e carregada de ironia. — Crianças são pequenos monstros às vezes. Olha o estado da garota, ela está quase desmaiando de vergonha.
Emanuel não respondeu. Ele estava ocupado demais observando como os dedos finos de Eduarda acariciavam as costas da filha, e como o corpo esguio dela parecia buscar apoio no ar. Havia uma beleza melancólica nela que o fascinava.
A festa continuou, mas o eixo de Emanuel havia mudado.
Semanas se passaram, mas a imagem de Eduarda — a professora de ballet e estudante de História da Arte que morava com os pais modernos no centro da cidade — não abandonou a mente de Emanuel. Ele descobriu onde ela dava aulas. Ele descobriu que o pai de Amélie a abandonara durante a gravidez. E, quanto mais ele descobria, mais o desejo de "cuidar" daquela fragilidade crescia.
Naquela noite, no luxuoso apartamento do casal, o silêncio era interrompido apenas pelo som da chuva contra as janelas de vidro do chão ao teto. Emanuel estava sentado no sofá de couro, um copo de uísque na mão, enquanto Sara retocava o esmalte das unhas, sentada no tapete felpudo.
— Você está distraído há dias — Sara comentou, sem desviar os olhos das unhas. — E eu sei exatamente o porquê. É a garota do ballet, não é? A do incidente da mordida.
Emanuel suspirou, fechando os olhos. Ele nunca mentia para Sara. A relação deles era construída em uma honestidade bruta, quase animalesca.
— Ela não sai da minha cabeça, Sara — confessou ele, a voz rouca. — É estranho. Eu olho para você e sinto esse fogo, essa parceria, eu te amo. Você é minha mulher. Mas quando eu vi a Eduarda... eu senti que precisava proteger ela do mundo. Ela é tão... doce. Tão perdida.
Sara parou de pintar a unha e olhou para ele. Um sorriso lento e provocador surgiu em seus lábios carnudos. Ela se levantou, caminhando com a graça de um predador até se sentar no colo dele, ignorando o uísque.
— E por que você está sofrendo por isso, meu amor? — Ela passou os braços pelo pescoço dele, o cheiro de perfume importado inundando os sentidos de Emanuel. — Você é um homem de posses, Emanuel. Você tem o mundo. Se o seu coração é grande o suficiente para nós duas, quem sou eu para dizer não?
Emanuel franziu a testa, surpreso.
— Você não se importa?
— Eu? — Sara soltou uma risada curta. — Ela é uma gracinha, Manu. Meio sem sal, admite, mas fofa. Se ela te faz sentir esse instinto de herói, então traga ela para perto. Eu não me sinto ameaçada por uma bailarina tímida. Eu sou a sua rainha. Mas se você quer uma princesa para cuidar nos dias de folga... eu apoio. Eu quero que você seja feliz. E, sinceramente? A Valentina precisa de uma amiga, e eu adoraria ter alguém para ensinar a se vestir melhor.
Emanuel puxou Sara para um beijo intenso, sentindo o alívio lavar sua consciência.
— Você é inacreditável — murmurou ele contra os lábios dela.
— Eu sou prática — Sara corrigiu, piscando. — Agora, vai atrás dela. Conte a verdade. Eduarda parece o tipo de garota que precisa ser guiada. Mostre o caminho para ela.
Dois dias depois, Emanuel estacionou seu SUV preto em frente à escola de ballet. Ele esperou até que a última aluna saísse. Quando Eduarda apareceu na porta, carregando Amélie no colo e uma bolsa de dança pendurada no ombro, ela parecia exausta, mas ainda assim, etérea.
— Eduarda — ele chamou, descendo do carro.
Ela parou, os olhos castanhos se arregalando.
— Emanuel? Aconteceu alguma coisa com a Valentina?
— Não, Valentina está ótima — ele disse, aproximando-se com passos firmes, sua presença preenchendo o espaço calmo dela. — Eu vim falar com você.
Eduarda recuou um passo, instintivamente manhosinha, apertando Amélie contra o peito.
— Comigo? Eu fiz algo errado?
— Pelo contrário — Emanuel suavizou a voz, algo que raramente fazia com estranhos. — Eu não consegui parar de pensar em você desde aquele dia. E eu não sou um homem que ignora o que quer.
Ele explicou tudo. Falou sobre Sara, sobre a posição deles, sobre o desejo de tê-la em sua vida, de protegê-la, de prover para ela e para Amélie. Eduarda ouvia tudo em um silêncio atordoado, as bochechas corando intensamente.
— Mas... você tem a Sara — Eduarda sussurrou, a voz falhando. — Ela é linda, ela é... tudo o que eu não sou. Por que eu?
— Porque você é a paz que eu não sabia que precisava — Emanuel deu um passo final, reduzindo a distância entre eles. Ele tocou o rosto dela com a mão calejada, e Eduarda fechou os olhos, inclinando a cabeça para o toque, incapaz de resistir ao calor daquela proteção. — E Sara sabe. Ela quer você conosco.
— Eu não sei se consigo... — Eduarda murmurou, embora seu corpo já estivesse cedendo, buscando o abrigo do peito dele. — Eu sou apenas uma professora de ballet, Emanuel. Minha vida é simples. Meus pais...
— Seus pais vão entender que você está sendo cuidada pelo melhor — Emanuel cortou, com a arrogância natural de quem tinha sucesso em tudo o que fazia. — Eu quero te dar o mundo, Eduarda. Quero que a Amélie tenha tudo. Só preciso que você aceite que pode ser amada por nós dois.
Eduarda olhou para Amélie, que agora brincava com os botões da camisa de Emanuel, e depois para o homem à sua frente. Havia uma força nele que a assustava, mas que também a atraía como um ímã. Ela sempre se sentira pequena demais para o mundo; talvez, ao lado de Emanuel e da exuberante Sara, ela finalmente encontrasse o seu lugar.
— A Sara... ela realmente não me odeia? — Eduarda perguntou, a insegurança brilhando em seu olhar.
Emanuel sorriu, um gesto raro e genuíno.
— Ela está em casa agora mesmo escolhendo roupas que quer te dar de presente. Ela disse que seu guarda-roupa é "neutro demais".
Eduarda soltou uma risadinha tímida, escondendo o rosto no ombro dele. Era o começo de algo complexo, intenso e, para aqueles três, perfeitamente certo. Emanuel abraçou a bailarina e a criança, sentindo que, pela primeira vez, o seu império estava finalmente completo.
