Fanfy
.studio
Imagem de fundo

Amor

Fandom: Mundo real

Criado: 01/08/2026

Índice

Gelo Quebradiço e Chão Firme

A luz da manhã de Vancouver entrava pelas janelas do chão ao teto da cobertura, banhando o mármore da cozinha em um tom dourado pálido. Eram cinco e meia da manhã. Kuro Hatake, o ala-esquerdo estrela do Vancouver Wolves, estava acostumado a ser o primeiro a acordar. Sua rotina era sagrada: café preto puro, um shake de proteína e o silêncio absoluto antes de enfrentar o caos do rinque de hóquei.

Ele saiu do quarto vestindo apenas uma calça de moletom cinza, que repousava perigosamente baixa em seus quadris, revelando a linha do abdômen definido que fazia suas seguidoras no Instagram perderem o juízo. Ele passou a mão pelos cabelos brancos curtos e repicados, bocejando, mas parou abruptamente no corredor.

O cheiro de café fresco e ovos com bacon não deveria estar ali.

Ao entrar na cozinha, ele viu Tatsuyo. Ela parecia pequena contra a bancada de granito, os cabelos pretos lisos caindo como uma cascata até o meio das costas, contrastando com sua pele parda e delicada. Ela estava concentrada, mexendo algo na frigideira com uma precisão quase militar.

— Tatsuyo? — Kuro perguntou, a voz rouca pelo sono. — O que você está fazendo acordada a essa hora?

A reação dela foi instantânea e dolorosa de assistir. Tatsuyo deu um sobressalto, os ombros subindo até as orelhas, e por um segundo, o pânico brilhou em seus olhos pretos antes de ela se recompor.

— Desculpe! — A voz dela saiu apressada, quase um sussurro desesperado. — Eu... eu ainda não terminei. Eu achei que teria mais tempo antes de você acordar. Por favor, me dê só cinco minutos, o café já está pronto e os ovos estão quase no ponto que você... que eu imaginei que você gostaria.

Kuro franziu o cenho, sentindo um aperto no peito. Ele a conhecia desde sempre, mas a Tatsuyo que morava com ele agora era uma sombra da menina vibrante que ele amava em segredo há anos. O relacionamento abusivo com o ex-namorado — aquele maldito que a família dela idolatrava — tinha deixado cicatrizes que não eram apenas físicas.

— Ei, calma — Kuro disse, aproximando-se lentamente, mantendo uma distância segura para não assustá-la. Ele exibiu um de seus sorrisos de canto, tentando aliviar a tensão. — Você não precisa fazer café para mim, Tats. Você é minha convidada, não minha funcionária. E, aliás, eu costumo tomar café solúvel horrível. Isso aqui cheira a paraíso.

Tatsuyo não relaxou. Ela continuou mexendo a comida, os nós dos dedos brancos de tanto apertar a espátula.

— Eu quero ser útil, Kuro. Você está me deixando ficar aqui, e... eu insisti em pagar, eu sei, mas sinto que devo fazer mais. Minha mãe sempre disse que um homem como você, com uma carreira importante, não pode perder tempo com tarefas domésticas. Eu devia ter acordado às cinco.

Kuro sentiu uma onda de raiva — não dela, mas do lixo que tinha colocado essas ideias na cabeça dela. Ele sabia que a família de Tatsuyo a tinha abandonado, chamando-a de ingrata por terminar com o "genro perfeito" que, na verdade, era um monstro.

— Tatsuyo, olhe para mim — ele pediu suavemente.

Ela hesitou, mas virou o rosto. A vulnerabilidade naqueles olhos escuros quase quebrou a resolução de Kuro de manter as coisas "apenas como amigos". Ele queria abraçá-la, protegê-la do mundo, mas sabia que, agora, ela precisava de espaço e autonomia, não de mais um homem tentando controlá-la.

— Você não me deve nada além daquela fração do aluguel que combinamos — ele mentiu descaradamente, sentindo-se um pouco culpado por cobrar apenas um quinto do valor real, mas era o único jeito de ela aceitar. — Se você quer cozinhar porque gosta, tudo bem. Mas se estiver fazendo isso por medo ou obrigação... por favor, pare. Aqui você só precisa ser você.

— Eu só... eu quero que tudo esteja perfeito — ela murmurou, desviando o olhar para a frigideira. — Se não estiver perfeito, as coisas ficam... complicadas.

Kuro engoliu em seco. Ele sabia o que "complicado" significava no vocabulário do ex dela. Significava gritos. Significava hematomas.

— Aqui nunca vai ser complicado, Tats. Eu prometo. — Ele deu um passo à frente e pegou uma torrada, dando uma mordida grande. — Puta merda, isso está incrível! Você é oficialmente a melhor colega de quarto do mundo. As minhas fãs iam morrer de inveja se soubessem que eu tenho um anjo cozinhando para mim enquanto elas só ganham fotos de tanquinho no espelho.

Tatsuyo soltou um riso curto e nervoso, o primeiro sinal de leveza da manhã.

— Você é um convencido, Kuro Hatake.

— É por isso que me pagam milhões para deslizar no gelo, boneca — ele piscou, pegando sua bolsa de treino. — Vou para o treino. Não se mate de trabalhar, ok? A cobertura é grande, mas não foge do lugar.


O treino foi intenso. Kuro descontou sua frustração e sua preocupação no puck, disparando tiros tão potentes que o goleiro reserva reclamou de dor no pulso mesmo através da proteção. Ele não conseguia tirar Tatsuyo da cabeça. A imagem dela encolhida na cozinha o perseguia.

Quando ele finalmente voltou para casa, por volta das duas da tarde, ele esperava encontrar o silêncio habitual. Em vez disso, ao abrir a porta da cobertura, ele parou na entrada, boquiaberto.

O lugar estava irreconhecível.

A cobertura de Kuro sempre foi o estereótipo de um atleta rico e solteiro de 21 anos: pilhas de correspondência na entrada, roupas de treino jogadas no sofá de couro, caixas de pizza vazias na bancada e uma camada fina de poeira sobre os troféus.

Agora, o chão de madeira brilhava. O sofá estava perfeitamente alinhado, com as almofadas fofas. O cheiro de produtos de limpeza cítricos misturava-se ao aroma de algo assando no forno. Não havia uma única peça de roupa fora do lugar.

Ele caminhou até a cozinha e encontrou Tatsuyo de costas, cantarolando baixinho enquanto cortava legumes. Ela já tinha tomado banho; o cabelo preto estava úmido e ela vestia um suéter grande demais que, Kuro percebeu com um salto no coração, era dele.

— Tats? — ele chamou, tentando não soar alarmado.

Ela girou, a faca parando sobre a tábua. Dessa vez ela não pulou, mas havia uma ansiedade palpável em seu sorriso.

— Kuro! Você chegou cedo. Eu já limpei a sala, os banheiros e a lavanderia. O almoço sai em dez minutos. Eu espero que você não se importe, eu organizei seu closet também... estava um pouco bagunçado, então separei por cores.

Kuro olhou em volta, sentindo uma mistura de gratidão e profunda tristeza.

— Você limpou tudo isso... hoje? Sozinha?

— Sim! — Ela limpou as mãos no avental, aproximando-se dele com uma expectativa quase infantil, como se esperasse um julgamento. — Está do seu agrado? Se tiver algo que você não gostou, eu posso refazer. Eu não queria que você chegasse e encontrasse desordem. Eu sei que homens como você gostam de ordem total.

Kuro largou a bolsa de hóquei no chão e caminhou até ela. Ele tinha 1,80m e uma presença física imponente, mas tentou se tornar o menor possível para não intimidá-la.

— Tatsuyo, olha para mim — ele disse, com a voz séria, mas doce. — A casa está impecável. De verdade, parece um hotel cinco estrelas. Mas você não precisava ter feito nada disso. Você passou o dia inteiro limpando minha sujeira?

— Eu... eu não me importo — ela disse, a voz vacilando. — É o mínimo que eu posso fazer. Meus pais disseram que eu era um peso, que ninguém me suportaria se eu não fosse útil. E ele... ele dizia que eu era preguiçosa se sentasse por dez minutos.

Kuro sentiu o sangue ferver. Ele queria encontrar o ex dela e mostrar o que um taco de hóquei podia fazer com as costelas de um covarde. Mas, em vez disso, ele apenas suspirou e colocou as mãos nos ombros dela, sentindo como ela ainda era tensa.

— Ouça bem o que eu vou dizer — Kuro começou, fixando seus olhos castanhos nos dela. — Você não é um peso. Você é minha amiga. Eu te chamei para morar aqui porque eu queria você por perto, porque eu me importo com você. Não porque eu queria uma empregada doméstica gratuita.

Tatsuyo baixou a cabeça, uma lágrima solitária escorrendo pelo rosto pardo.

— Mas eu não tenho para onde ir, Kuro. Se você se cansar de mim...

— Eu nunca vou me cansar de você — ele interrompeu, a intensidade de suas palavras quase revelando o segredo que ele guardava no peito. — Se você quiser limpar porque isso te faz sentir bem, tudo bem. Mas se você estiver fazendo isso por medo de ser expulsa, pare agora. Este é o seu lar tanto quanto é o meu. Você pode passar o dia inteiro deitada naquele sofá assistindo série e comendo salgadinho, e eu ainda vou ficar feliz de chegar em casa e te ver aqui.

Tatsuyo soltou um soluço contido e, para a surpresa de Kuro, ela se inclinou para frente, encostando a testa no peito dele. Ele congelou por um segundo, o coração martelando contra as costelas, antes de envolvê-la em um abraço protetor, enterrando o rosto no topo da cabeça dela.

— Obrigada, Kuro — ela sussurrou contra a pele dele. — Por que você é tão bom para mim?

Kuro fechou os olhos, sentindo o perfume do shampoo dela e o calor do seu corpo. Ele é um tarado confesso, suas fãs sabiam disso pelas piadas de duplo sentido que ele fazia nas lives, mas com Tatsuyo era diferente. O desejo estava lá, latente e poderoso, mas o amor e a necessidade de vê-la curada eram maiores.

— Porque você merece o mundo, Tats — ele disse baixinho, soltando-a apenas o suficiente para olhar em seu rosto. — E porque, honestamente? Eu sou um desastre total. Se você não estivesse aqui, eu provavelmente estaria jantando cereal vencido. Então, tecnicamente, você está me salvando.

Ela deu um sorriso tímido, limpando as lágrimas.

— O almoço é frango ao curry. E eu fiz arroz japonês, do jeito que você gostava quando éramos crianças.

— Curry? — Kuro abriu um sorriso largo, seus olhos brilhando. — Viu só? Você é um anjo. Agora, chega de trabalho por hoje. Nós vamos comer, e depois você vai sentar naquele sofá e eu vou te obrigar a assistir o jogo de ontem comigo enquanto eu reclamo do juiz. É uma ordem do seu novo colega de quarto.

Tatsuyo riu, uma risada real dessa vez, que iluminou o rosto dela e fez o estômago de Kuro dar voltas.

— Tudo bem, Capitão. Mas só se você me deixar criticar sua técnica de patinação.

— Ei! — Kuro exclamou, fingindo ofensa enquanto a seguia até a mesa. — Eu sou um profissional!

— E eu te conheço desde que você caía de bunda no gelo toda vez que tentava impressionar as meninas — ela provocou, servindo os pratos.

Kuro sentou-se, observando-a. O caminho para a recuperação dela seria longo. Haveria dias em que ela ainda se sentiria um peso, dias em que o trauma falaria mais alto que a razão. Mas, enquanto ela estivesse sob o teto dele, ele faria questão de que cada centímetro daquela cobertura fosse um lugar seguro.

Ele olhou para o prato de comida caseira, para a casa limpa e, principalmente, para a mulher à sua frente. Pela primeira vez em muito tempo, aquela cobertura não parecia apenas um imóvel de luxo. Parecia um lar.

— Sabe, Tatsuyo — Kuro disse, antes de dar a primeira garfada —, você pagando um quinto das contas é o maior roubo da história. Eu definitivamente saí ganhando nesse negócio.

Tatsuyo sorriu, e pela primeira vez naquele dia, a sombra em seus olhos parecia um pouco menos densa.

— Coma logo, Kuro. O treino de amanhã não vai se ganhar sozinho.

— Sim, senhora — ele respondeu, piscando para ela, feliz por ver que, entre as rachaduras do trauma, a verdadeira Tatsuyo ainda estava lá, esperando para florescer novamente.

Índice

Quer criar seu próprio fanfic?

Cadastre-se na Fanfy e crie suas próprias histórias!

Criar meu fanfic