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Fandom: Nenhum

Criado: 02/08/2026

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RomanceDramaAngústiaSombrioPsicológicoGravidez Não Planejada/IndesejadaCiúmesEstudo de PersonagemDor/ConfortoHistória Doméstica
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O Silêncio sob o Tule

A luz do fim de tarde filtrava-se pelas janelas altas do estúdio de ballet, desenhando retângulos dourados no piso de madeira clara. Eduarda terminou a última sequência de pliés com as alunas do infantil, sentindo o peso habitual em seu ventre, um peso que agora parecia triplicado pela ansiedade. Aos vinte anos, sua silhueta esguia e delicada, sempre envolta em camadas de tule e malhas leves, começava a traí-la. Os cinco meses de gestação não podiam mais ser disfarçados apenas com roupas largas e uma postura encolhida.

Amélie. O nome ecoava em sua mente como uma canção de ninar.

Ela se despediu das crianças com um sorriso doce, embora seus olhos castanhos carregassem uma melancolia profunda. Eduarda sempre fora a menina protegida, a estudante de História da Arte que preferia o silêncio das bibliotecas ao barulho do mundo. E, acima de tudo, ela era a menina de Emanuel. Ou, pelo menos, era assim que ela se sentia desde a infância, quando ele a defendia dos garotos maiores e limpava seus joelhos ralados.

O problema era que Emanuel pertencia a outra. E essa outra não era uma estranha, mas Sara — a força da natureza loira, exuberante e grávida de Valentina.

Eduarda caminhou até o vestiário, sentindo o coração acelerar. Ela sabia que precisava contar. O segredo queimava em sua garganta, uma mistura de amor, medo e a lembrança daquela noite em que Emanuel a tomara em seus braços, tirando-lhe a inocência com uma possessividade que ela nunca imaginou que ele sentisse por ela.

O que ela não sabia era que o destino tinha pressa.

Ao sair da escola de ballet, Eduarda congelou. O SUV preto e imponente de Emanuel estava estacionado em frente à calçada. Ele estava encostado na porta, os braços fortes cruzados sobre o peito, vestindo uma camiseta preta simples que destacava as tatuagens que subiam pelo seu pescoço. Sua expressão, no entanto, não era a de proteção habitual. Era uma máscara de fúria contida, os olhos escuros faiscando de uma forma que a fez recuar um passo.

— Entre no carro, Eduarda. — A voz dele saiu baixa, rouca, carregada de uma autoridade que não admitia contestação.

— Emanuel... o que você está fazendo aqui? — Ela sussurrou, apertando a alça da bolsa contra o corpo, tentando esconder a barriga de forma instintiva.

— Eu disse: entre no carro. Agora.

O trajeto até o apartamento de Emanuel foi feito em um silêncio sufocante. Eduarda olhava pela janela, as lágrimas pinicando seus olhos. Ela sentia a tensão emanando dele, uma energia pesada que parecia diminuir o oxigênio dentro do veículo. Emanuel dirigia com uma rigidez assustadora, as juntas dos dedos brancas de tanto apertar o volante.

Quando chegaram à cobertura luxuosa, Sara estava lá. Ela usava um vestido de seda vermelho justo, que realçava sua barriga de cinco meses e suas curvas acentuadas pelo silicone. Ela segurava uma taça de suco, observando a cena com uma calma quase perturbadora.

— Oi, querida — Sara disse, a voz tingida de uma simpatia genuína, mas carregada de ironia. — O clima está pesado aqui, não é? O seu "protetor" descobriu o que você andou escondendo.

Emanuel fechou a porta com um estrondo que fez Eduarda pular. Ele caminhou até o centro da sala, parando a poucos centímetros dela. Ele era muito mais alto, sua presença física sempre fora um porto seguro, mas agora parecia uma muralha prestes a desabar sobre ela.

— Cinco meses, Eduarda? — Ele perguntou, a voz subindo de tom, a racionalidade que ele tanto prezava começando a trincar. — Cinco meses você me olhou nos olhos, deixou que eu cuidasse de você, deixou que eu me preocupasse com a sua "anemia" e o seu "cansaço", enquanto carregava um filho meu?

— Eu... eu ia contar, Emanuel... eu juro... — Eduarda começou a soluçar, o corpo esguio tremendo violentamente.

— Ia contar quando? Quando a criança nascesse? — Ele explodiu, dando um passo à frente, o que a fez recuar até bater as costas na parede. Ele socou a lateral da estante de livros, fazendo os objetos chocalharem. — Você tem noção do que fez? Você escondeu minha filha de mim! Você me tratou como um estranho, como se eu não tivesse o direito de saber!

— Eu tive medo! — Ela gritou de volta, uma rara explosão de emoção. — Você tem a Sara! Vocês estão esperando a Valentina! Eu não queria atrapalhar, eu não queria ser um fardo... eu sou só a Eduarda, a menina que você cuida por obrigação!

Emanuel soltou uma risada amarga, desprovida de qualquer humor. Ele agarrou os ombros dela, não com delicadeza, mas com uma firmeza que beirava a agressividade, obrigando-a a olhar para ele.

— Por obrigação? Você acha que eu te toquei por obrigação? Você acha que eu passo noites em claro pensando em como te manter segura porque as nossas mães são amigas? — Ele a sacudiu levemente, a fúria obscurecendo o amor que ele nutria. — Eu amo a Sara, ela é minha mulher. Mas você... você é minha desde que nasceu, Eduarda. E o fato de você ter escondido isso de mim, de ter me privado de cuidar de você e da Amélie... isso eu não vou perdoar tão cedo.

Sara se aproximou, colocando a mão no ombro de Emanuel. Seu toque era o único que conseguia, às vezes, acalmá-lo.

— Calma, Manu. Você está assustando a menina — Sara disse, embora seu olhar sobre Eduarda fosse analítico. — Eduarda, querida, eu já sabia que o Emanuel tinha esse fogo por você. Ele me contou tudo. Eu não me importo. Se ele quer as duas, ele terá as duas. Mas mentir... isso foi um erro estratégico muito feio da sua parte.

Eduarda olhou de um para o outro, sentindo-se pequena, perdida em uma dinâmica que ela não compreendia totalmente. Ela sempre fora a menina doce e tímida, e agora estava presa entre um homem possessivo e furioso e uma mulher que parecia orquestrar a própria felicidade através da poligamia emocional.

— Amélie... — Emanuel repetiu o nome, sua voz suavizando apenas um milímetro, embora o olhar continuasse gélido. — Então esse é o nome dela.

— Sim — sussurrou Eduarda, as lágrimas escorrendo livremente. — Se você concordasse...

— Eu não concordo com nada agora, Eduarda — Emanuel disse, soltando-a bruscamente. Ele se afastou, passando a mão pelo cabelo curto, a tensão acumulada fazendo seus ombros doerem. — A partir de hoje, as coisas mudam. Você não volta para a casa dos seus pais para morar. Você vai ficar onde eu possa te ver. Onde eu possa controlar cada passo seu até que essa criança nasça.

— Meus pais não vão deixar! — Ela protestou, a insegurança aflorando.

— Seus pais são modernos, Eduarda. E eles confiam em mim — Emanuel retrucou, virando-se para ela com um olhar que prometia tempestades. — Eles sabem que você está segura comigo. O que eles não sabem é que a filha "perfeita" deles mentiu por cinco meses. Quer que eu conte a eles ou você vai subir e escolher um quarto?

Eduarda baixou a cabeça, o peso do segredo agora substituído pelo peso da submissão. Ela buscou o olhar de Sara, esperando encontrar algum tipo de rivalidade, mas a loira apenas sorriu, um sorriso de quem tinha exatamente o que queria.

— Não chore, bonequinha — Sara disse, caminhando até ela e limpando uma lágrima do rosto de Eduarda com sua unha perfeitamente feita. — Vai ser divertido. Duas barrigas, um homem para nos sustentar e todo o amor que ele tem para dar. Só não tente enganá-lo de novo. O Emanuel tem um lado... difícil, quando perde o controle.

Emanuel não disse mais nada. Ele foi até o bar da sala, servindo-se de um whisky puro, as mãos ainda tremendo levemente de raiva. Ele observou o reflexo de Eduarda no espelho da parede. Ela parecia tão frágil, tão quebradiça em sua roupa de ballet, que uma parte dele queria correr e abraçá-la, pedindo perdão pela rispidez. Mas a parte controladora, o homem que construiu impérios de tinta e agulha, não conseguia deixar passar a traição do silêncio.

— Vá para o quarto, Eduarda — ele ordenou, sem olhar para trás. — Sara vai te ajudar com o que precisar. Amanhã, buscaremos suas coisas. E não pense em fugir ou se esconder atrás da sua timidez. O tempo de esconder acabou.

Eduarda caminhou lentamente em direção ao corredor, sentindo o olhar de Emanuel queimando em suas costas. Ela sabia que sua vida de paz e simplicidade havia terminado naquele momento. Ela agora era parte do mundo complexo e intenso de Emanuel e Sara. E, embora o medo a dominasse, uma pequena parte de seu coração, lá no fundo, sentia um alívio doentio por não ter mais que carregar o peso de Amélie sozinha.

Mesmo que o preço desse alívio fosse a fúria do homem que ela amava.

No silêncio da sala, Emanuel virou o copo de uma vez. O ardor da bebida não era nada comparado ao incêndio que ardia em seu peito. Ele olhou para Sara, que o observava com um brilho de triunfo nos olhos.

— Você está feliz agora? — Ele perguntou, a voz cansada.

— Estamos todos juntos, Manu — ela respondeu, aproximando-se e abraçando-o pela cintura, encostando sua barriga na dele. — É assim que deve ser. Você não consegue viver sem ela, e eu não pretendo viver sem você. Valentina e Amélie vão crescer como irmãs.

Emanuel fechou os olhos, a imagem de Eduarda grávida e acuada gravada em sua mente. Ele a teria. Ele teria as duas. Mas a cicatriz daquela mentira permaneceria, uma tatuagem invisível que ele lembraria a Eduarda de carregar todos os dias daquela nova e conturbada vida.

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