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Fandom: Nenhum
Criado: 02/08/2026
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O Equilíbrio do Desejo e a Delicadeza do Traço
A casa de campo da família de Sara exalava aquele perfume típico de grama cortada e madeira antiga, um cenário que contrastava drasticamente com a aura urbana e imponente de Emanuel. Ele caminhava pelo jardim com uma das mãos pousada protetoramente na curva das costas de Sara. Ela, exuberante como sempre, usava um vestido justo de seda vermelha que realçava a barriga de cinco meses, onde Valentina crescia. O loiro platinado de seus cabelos brilhava sob o sol da tarde, e cada passo que dava em seus saltos finos parecia um desafio à gravidade e às convenções.
— Emanuel, querido, tente relaxar — Sara disse, a voz carregada de um sarcasmo carinhoso enquanto se virava para ele. — Você está com essa cara de quem está prestes a tatuar um cliente difícil. É apenas um almoço de família.
Emanuel soltou um suspiro pesado, ajustando a gola da camisa escura.
— Você sabe que eu não lido bem com multidões, Sara. Especialmente quando metade dessas pessoas quer me pedir conselhos de investimento ou uma tatuagem de graça.
— Bobagem. Eles têm medo de você, o que eu acho deliciosamente sexy — ela piscou, rindo antes de parar bruscamente ao ver alguém se aproximando da varanda. — Oh, olhe só. Minha prima chegou.
Emanuel seguiu o olhar dela e, por um instante, o mundo ao seu redor pareceu perder o foco, como se a lente de uma câmera se ajustasse apenas para capturar a figura que descia os degraus de madeira.
Eduarda vestia um vestido de linho branco, leve e fluido, que batia nos joelhos. Seus cabelos castanhos caíam em ondas naturais sobre os ombros esguios. Ela tinha uma expressão suave, quase etérea, e carregava uma sapatilha de ballet pendurada pela fita em uma das mãos, indicando que provavelmente estava praticando antes de se juntar ao evento. Ao notar a presença de Sara e do desconhecido ao lado dela, Eduarda parou, os olhos grandes e expressivos revelando uma timidez imediata.
— Duda! — Sara exclamou, acenando com entusiasmo. — Venha aqui, quero que conheça o homem que me aguenta todos os dias.
Eduarda aproximou-se lentamente, a postura impecável de bailarina conferindo-lhe uma elegância que parecia não exigir esforço. Emanuel sentiu um aperto estranho no peito. Ele era um homem prático, racional, acostumado a controlar impérios e a lidar com a dor física das agulhas, mas a presença de Eduarda era como uma nota musical pura em meio ao ruído.
— Oi, Sara — a voz de Eduarda era baixa, doce. Ela abraçou a prima com cuidado, evitando apertar a barriga. — Você está linda. A gravidez te deixou ainda mais radiante.
— Eu sei, eu sou um espetáculo — Sara brincou, puxando Emanuel para mais perto. — Este é o Emanuel. Emanuel, esta é a Eduarda. Minha prima favorita, futura historiadora da arte e a melhor professora de ballet da região.
Emanuel estendeu a mão, sentindo os dedos de Eduarda tocarem os seus. A pele dela era fria e macia, uma fragilidade que despertou nele um instinto de proteção instantâneo e avassalador.
— É um prazer, Eduarda — disse ele, a voz soando mais rouca do que o pretendido.
— O prazer é meu — ela respondeu, desviando o olhar rapidamente para o chão, as bochechas ganhando um tom rosado. — Eu... eu vou ver se minha mãe precisa de ajuda na cozinha. Com licença.
Ela se retirou quase como se estivesse fugindo, e Emanuel a observou até que ela desaparecesse pela porta de vidro.
— Cuidado, Emanuel — Sara disse, o tom de voz mudando para algo mais baixo e perceptivo. — Seus olhos estão entregando segredos que você ainda nem processou.
Ele pigarreou, tentando retomar o controle.
— Ela é apenas... diferente do que eu esperava.
— Ela é um anjo, Emanuel. E eu conheço você. Sei exatamente o que passou por essa sua cabeça racional e possessiva.
O resto da tarde foi uma tortura silenciosa para Emanuel. Ele cumpriu seu papel de parceiro de Sara, conversando com os pais dela — que eram surpreendentemente modernos e descontraídos —, mas sua atenção estava constantemente voltada para os cantos da sala ou para o jardim, procurando a silhueta esguia de Eduarda. Ele a viu brincando com uma das crianças da família, a paciência e o carinho transbordando em cada gesto.
Mais tarde, quando a maioria dos convidados estava envolvida em uma conversa barulhenta na sala de jantar, Emanuel encontrou Eduarda na biblioteca da casa de campo. Ela estava sentada em uma poltrona larga, folheando um livro grosso sobre o Renascimento italiano.
— História da Arte? — ele perguntou, encostando-se no batente da porta.
Eduarda deu um pequeno salto, fechando o livro rapidamente.
— Sim. É para um trabalho da faculdade. Eu... eu não queria incomodar lá fora.
— Você não incomoda — Emanuel deu alguns passos para dentro da sala. — Na verdade, é o elemento mais pacífico desta casa hoje.
Eduarda sorriu timidamente, ajeitando uma mecha de cabelo atrás da orelha.
— Sara disse que você é tatuador. Deve ser um trabalho fascinante, misturar arte com a permanência da pele.
— É uma forma de controle — Emanuel explicou, observando-a intensamente. — Você decide o que quer carregar para sempre. Mas o que você faz, o ballet... é efêmero. É movimento que desaparece assim que termina. Acho que isso exige muito mais coragem.
— Nunca pensei por esse lado — ela sussurrou, sentindo-se pequena sob o olhar dele. — Eu apenas... gosto de como me sinto quando danço. Parece que o mundo fica mais silencioso.
— Eu entendo — ele disse, e por um momento, houve uma conexão silenciosa, um entendimento que ia além das palavras.
A tensão foi quebrada pela entrada de Sara. Ela não parecia nem um pouco incomodada por encontrá-los sozinhos; pelo contrário, havia um brilho de diversão em seus olhos.
— Aí estão vocês. Duda, seus pais estão te chamando para as fotos. Vá lá.
Eduarda assentiu, lançando um último olhar confuso e intenso para Emanuel antes de sair apressada.
Quando ficaram sozinhos, Sara caminhou até Emanuel e passou os braços pelo pescoço dele, ignorando por um momento a barreira da barriga.
— Você está encantado por ela, não está? — ela perguntou, sem qualquer traço de ciúme, apenas uma curiosidade pragmática.
Emanuel suspirou, fechando os olhos por um segundo. Ele amava Sara. Amava a força dela, a vulgaridade honesta, a maneira como ela dominava qualquer ambiente e a vida que eles estavam construindo juntos. Mas a faísca que Eduarda acendeu era algo novo, uma necessidade de cuidar de algo delicado que ele nem sabia que possuía.
— Eu amo você, Sara. Isso não muda nada.
— Eu sei que você me ama, seu bobo — ela riu, puxando o rosto dele para um beijo rápido. — Mas eu também sei que você é um homem de apetites grandes. E eu conheço a Duda. Ela é doce, é pura... é tudo o que eu não sou. E sabe de uma coisa? Eu não me importo de dividir, se isso significar que teremos essa doçura na nossa vida.
Emanuel franziu a testa, surpreso pela franqueza dela.
— Você está falando sério?
— Emanuel, eu quero que você seja feliz. E se para ser plenamente feliz você precisa de nós duas, então nós daremos um jeito. Valentina terá dois pilares de força e uma fada madrinha como segunda mãe. Eu até acho que ela seria uma adição maravilhosa para nós.
— Ela nunca aceitaria, Sara. Ela é tímida, tradicional de certa forma... e ela foge de mim como se eu fosse um predador.
— Então seja o predador que sabe esperar — Sara deu um tapinha no rosto dele. — Vá falar com ela. Seja honesto. Não existem segredos entre nós, lembra? Se você a quer, conquiste-a. Eu dou a minha benção.
Nos dias que se seguiram, a rotina de Eduarda foi invadida pela presença constante, ainda que discreta, de Emanuel. Ele começou a aparecer na saída de suas aulas de ballet, alegando que estava por perto para resolver negócios de seus estúdios. Ele trazia flores pequenas e simples, nada que chamasse muita atenção, mas que faziam o coração de Eduarda disparar.
Em uma tarde de chuva, ele a esperou no estacionamento da faculdade. Eduarda tentou caminhar rápido, mas ele a alcançou com um guarda-chuva grande.
— Você vai se resfriar, Eduarda.
— Por que você está fazendo isso, Emanuel? — ela perguntou, parando e encarando-o com aqueles olhos sensíveis que pareciam ler a alma dele. — Você tem a Sara. Vocês vão ter um bebê. Por que está sempre aqui?
Emanuel suspirou, a rigidez de sua postura relaxando apenas para ela.
— Porque eu não consigo parar de pensar em você. Porque a Sara sabe que eu estou aqui e ela quer que eu esteja.
Eduarda recuou um passo, chocada.
— O quê? Isso é... isso é loucura. Ela é minha prima!
— Ela te ama, Eduarda. E eu... eu estou descobrindo que sinto algo por você que não anula o que sinto por ela, mas que completa um espaço que eu nem sabia que estava vazio.
— Eu não posso — ela sussurrou, as lágrimas começando a embaçar sua visão. — Eu não sou como a Sara. Eu sou insegura, eu sou... eu não sei lidar com essas coisas modernas.
Emanuel deu um passo à frente, fechando o espaço entre eles. Ele não a tocou, mas sua presença era como um abraço.
— Você não precisa ser como a Sara. Eu não quero outra Sara. Eu quero a Eduarda. Quero a sua delicadeza, a sua arte, a maneira como você olha para o mundo. Eu quero proteger você, se você me permitir.
— E a Valentina? — a voz dela falhou.
— Valentina terá a melhor família do mundo. Uma família que não se baseia em regras escondidas, mas em uma verdade absoluta.
Eduarda olhou para ele, vendo a exaustão do estresse acumulado em seus olhos, mas também uma firmeza que a fazia se sentir segura, algo que ela sempre buscou. Ela sentia uma atração magnética por ele, uma vontade de se apoiar naquele peito largo e esquecer o resto do mundo.
— Eu tenho medo — ela admitiu, a voz mal saindo.
— Eu também — Emanuel confessou, estendendo a mão para secar uma lágrima que escorria pelo rosto dela. — Mas eu sou muito bom em lidar com crises. Deixe-me cuidar disso. Deixe-me cuidar de você.
Eduarda não disse sim, mas também não fugiu. Ela permitiu que ele a guiasse até o carro, sentindo que sua vida, antes feita de tons pastéis e movimentos ensaiados, estava prestes a ganhar cores muito mais intensas e uma coreografia que ela ainda teria que aprender a dançar. Enquanto isso, em sua loja de roupas, Sara sorria para o reflexo no espelho, acariciando a barriga e sabendo que, no final, sua família seria exatamente como ela queria: completa, intensa e sem limites para o amor.
