
The debt to the Waraha
Fandom: EngLot
Criado: 02/08/2026
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O Alvo Mais Doce da Morte
O sol de Bangkok parecia zombar da desgraça de Charlotte Austin. O céu estava de um azul impecável, as flores brancas que decoravam a catedral eram de uma pureza ofensiva e o aroma de incenso e jasmim impregnava o ar, tornando tudo ainda mais sufocante. Charlotte ajustou o vestido de seda branca, sentindo o peso do tecido como se fosse uma armadura de chumbo. Ela odiava cada centímetro daquela encenação. Odiava o pai, que a vendera como gado para quitar dívidas de jogo e investimentos fracassados. Odiava a máfia, esse submundo de homens e mulheres que brincavam de Deus com a vida alheia. E, acima de tudo, odiava Engfa Waraha.
Ela nunca a tinha visto pessoalmente até aquele momento. As histórias, porém, eram abundantes. Engfa era o fantasma que assombrava o sudeste asiático, uma mulher de trinta e cinco anos cuja inteligência era tão afiada quanto a lâmina que, diziam, ela usava para marcar seus inimigos. Charlotte, aos seus vinte e seis anos, com sua mente brilhante e língua ferina, sempre se considerou acima de tais selvagens. Mas ali estava ela, prestes a se tornar a propriedade da mulher mais temida do continente.
As portas da catedral se abriram.
A marcha nupcial começou a tocar, uma melodia que soava como um réquiem aos ouvidos de Charlotte. Ela caminhou pelo corredor com a cabeça erguida, o orgulho sendo a única coisa que restava de sua dignidade. Seus olhos castanho-claros varreram a multidão de rostos hipócritas até pararem na figura que a esperava no altar.
Engfa Waraha era mais alta do que Charlotte imaginava. Vestia um terno preto sob medida que exalava autoridade. Os óculos de armação fina conferiam-lhe um ar intelectual, quase inofensivo, se não fosse pela cicatriz pálida que cortava sua bochecha esquerda, um lembrete silencioso de que ela era uma sobrevivente de mil guerras. O cabelo castanho-escuro estava perfeitamente alinhado. Quando seus olhos se encontraram, Charlotte sentiu um arrepio de repulsa. Engfa a observava não como uma noiva, mas como um colecionador observa uma peça rara e cobiçada. Havia uma possessividade imediata naquele olhar.
Charlotte parou ao lado dela. O perfume de Engfa era amadeirado, caro e terrivelmente atraente, o que só fez o ódio de Charlotte queimar com mais força.
— Você é ainda mais bonita do que as fotos sugeriam — sussurrou Engfa, a voz rouca e calma, carregada de uma arrogância que não tentava esconder.
Charlotte não respondeu. Apenas manteve o olhar fixo à frente, a mandíbula tensa.
O padre começou a cerimônia, proferindo palavras vazias sobre união e sacrifício. Para Charlotte, cada palavra era um prego em seu caixão. Ela sentiu a mão de Engfa buscar a sua, um toque possessivo, quente. A pele de Engfa era macia, mas a força em seus dedos deixava claro que ela nunca a soltaria por vontade própria.
— Podeis agora selar vossos votos — disse o padre, o sorriso nervoso denunciando que ele também temia a mulher de óculos ao lado de Charlotte.
Foi nesse instante que o mundo congelou.
Charlotte não esperou pelo beijo. Com um movimento fluido e calculado, ela levantou a saia do vestido, revelando a liga de renda branca em sua coxa direita. Ali, escondida da vista de todos, estava uma pistola compacta. Antes que qualquer segurança pudesse reagir, antes que o sorriso de Engfa pudesse se alargar, Charlotte apontou e disparou.
O estrondo ecoou pela catedral, silenciando o coro e os sussurros.
O impacto jogou o corpo de Engfa ligeiramente para trás. O sangue começou a manchar instantaneamente o tecido impecável da camisa branca sob o paletó, florescendo como uma rosa macabra no lado direito do peito. Charlotte mirou no pulmão, um erro de cálculo deliberado ou talvez um lapso causado pela adrenalina, mas ela queria que a mulher sofresse.
O pânico se instalou. Gritos irromperam, cadeiras foram derrubadas e os seguranças dos Waraha sacaram suas armas, mas pararam ao sinal de mão de uma Engfa cambaleante.
Charlotte esperava ver dor. Esperava ver medo. Em vez disso, quando Engfa levou a mão ao ferimento, ela olhou para os dedos sujos de vermelho e depois voltou o olhar para Charlotte.
Engfa sorriu.
Não era um sorriso de agonia, mas de puro deleite. Um brilho de obsessão maníaca brilhou atrás de seus óculos. Ela parecia encantada, como se o tiro fosse o presente de núpcias mais valioso que poderia ter recebido.
— Que fogo... — murmurou Engfa, a voz falhando levemente pela perda de ar, mas o tom era de absoluta admiração. — Você é perfeita, Charlotte.
— Vá para o inferno, Waraha — cuspiu Charlotte, os olhos brilhando com uma frieza vingativa. — Eu espero que você apodreça antes de o sol se pôr.
Sem olhar para trás, Charlotte virou as costas e caminhou calmamente pelo corredor, passando pelos convidados aterrorizados. Ela não correu. Ela saiu da igreja como a rainha que acabara de decapitar um tirano.
Do lado de fora, o ar quente a atingiu. Ela começou a descer as escadarias de pedra, sentindo o peso da arma ainda em sua mão. Ela deveria ter dado uma coronhada naquela cara arrogante, pensou consigo mesma. O tiro fora rápido demais, clínico demais para o ódio que sentia.
Atrás dela, a porta da catedral se abriu novamente.
Engfa surgiu, cambaleando, uma mão pressionando o peito e a outra apoiada no portal de madeira. O terno preto estava encharcado. Ela ignorava os gritos de seus subordinados que tentavam ampará-la. Seus olhos estavam fixos apenas nas costas da mulher que acabara de tentar matá-la.
— Charlotte! — chamou Engfa, a voz saindo como um suspiro engasgado.
Charlotte parou no último degrau e olhou por cima do ombro. A visão de Engfa Waraha, a mulher mais poderosa do país, sangrando e humilhada em público, deveria ter trazido satisfação. E trouxe. Mas havia algo perturbador na forma como Engfa a olhava. Não havia desejo de retaliação. Havia apenas uma promessa de que aquilo era apenas o começo.
— Morra logo — disse Charlotte, com uma indiferença que cortava mais que a bala.
Engfa tentou dar um passo à frente, mas seus joelhos cederam. O mundo ao redor dela começou a escurecer, as bordas de sua visão se tornando borradas e cinzentas. O sangue escorria por entre seus dedos, quente e implacável. Ela caiu de joelhos, o olhar perdendo o foco, mas ainda buscando a silhueta de Charlotte que se afastava em direção a um carro que a esperava.
A última imagem que Engfa Waraha teve antes de a escuridão a levar completamente foi a de sua noiva entrando no veículo sem um pingo de remorso.
— Minha... — sussurrou Engfa, antes de seu rosto atingir o chão frio da entrada da igreja.
Horas depois, Charlotte estava sentada em um quarto de hotel barato na periferia, longe das mansões e do luxo que sua família tentara comprar com sua vida. Ela limpava a arma com um pano seco, seus movimentos metódicos escondendo o tremor leve em suas mãos.
Ela era inteligente o suficiente para saber que aquilo não acabaria ali. A máfia Waraha não deixaria passar. Mas o que a incomodava não era a ameaça de morte. Era a lembrança do sorriso de Engfa.
— Aquela louca — murmurou Charlotte para o quarto vazio, a ironia ácida pingando de suas palavras. — Ela gostou.
Charlotte Austin não era uma vítima. Ela era uma observadora, uma estrategista que fora encurralada, e o tiro fora sua jogada de abertura. Ela sabia que Engfa provavelmente sobreviveria; o tiro no lado direito fora uma escolha subconsciente de sua própria mente que, mesmo no auge do ódio, hesitara em se tornar uma assassina completa, ou talvez, apenas uma parte dela quisesse prolongar o jogo.
Ela se levantou e foi até o espelho, observando as sardas em seu rosto, a frieza em seus olhos castanhos. Ela odiava Engfa Waraha com cada fibra de seu ser, mas agora, havia um vínculo de sangue entre elas. Um vínculo que Charlotte pretendia usar para destruir o império Waraha de dentro para fora.
Enquanto isso, no hospital particular da família Waraha, o caos reinava. Cirurgiões de renome trabalhavam sob a mira de fuzis. Engfa estava na mesa de operação, a bala sendo removida de seu peito.
Mesmo sob o efeito da anestesia, o subconsciente de Engfa repetia a cena. O brilho da arma, o olhar de desprezo de Charlotte, o cheiro de pólvora misturado ao perfume de flores. Para a mafiosa introvertida que nunca permitira que ninguém se aproximasse o suficiente para feri-la, aquele ato de violência fora a maior prova de intimidade que já recebera.
Engfa Waraha sempre fora possessiva com o que considerava seu. E agora, Charlotte Austin não era apenas sua noiva por contrato. Ela era sua obsessão, sua nêmesis e a única pessoa no mundo inteligente o suficiente para quase matá-la.
Quando Engfa finalmente abriu os olhos, horas depois, a primeira coisa que viu foi o teto branco da UTI. Sua respiração estava pesada, auxiliada por aparelhos, e a dor em seu peito era uma brasa constante.
Ela tentou falar, mas sua garganta estava seca. Sua mão direita tateou o lençol até encontrar o braço de sua assistente de confiança, que estava ao lado da cama.
— Onde... — a voz de Engfa saiu como um arranhão.
— Ela fugiu, senhora. Estamos rastreando o paradeiro de Charlotte Austin. Vamos trazê-la para que a senhora possa decidir a execução.
Engfa soltou uma risada fraca, que terminou em uma careta de dor. Ela fechou os olhos por um momento, sentindo o latejar da cicatriz em seu peito, um novo mapa de sua história com a mulher de cabelos castanho-claros.
— Não — disse Engfa, com uma determinação que gelou o sangue da assistente. — Ninguém toca nela. Ela é minha. Preparem a casa. Quando eu sair daqui, eu mesma vou buscá-la.
Engfa Waraha era teimosa, orgulhosa e extremamente inteligente. Ela sabia que Charlotte a odiava. Ela sabia que Charlotte tentaria matá-la novamente. E era exatamente isso que a tornava a única mulher digna de portar o sobrenome Waraha.
Do outro lado da cidade, Charlotte sentiu um calafrio percorrer sua espinha. Ela olhou para a janela, para as luzes da cidade, e soube.
A guerra estava apenas começando, e ela não pretendia perder.
— Você deveria ter morrido, Engfa — sussurrou Charlotte, guardando a arma na cintura. — Porque na próxima vez, eu não vou errar o lado do coração.
O silêncio do quarto foi a única resposta, mas nas sombras da noite de Bangkok, o destino de ambas já estava selado em sangue e obsessão. Engfa queria possuí-la; Charlotte queria destruí-la. Entre o amor e o ódio, a linha era tão fina quanto o gatilho de uma pistola, e nenhuma das duas estava disposta a recuar.
