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D73

Fandom: Record of ragnarok

Criado: 02/08/2026

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O Trono de Veludo e o Veneno de Vidro

A brisa noturna de Mônaco trazia o cheiro de salitre e dinheiro antigo, mas para Qin Shi Huang, aquilo era apenas mais um cenário onde ele, por direito divino e vontade própria, era o centro das atenções. O hotel de luxo onde a "comitiva" de deuses e humanos estava hospedada parecia pequeno demais para o ego coletivo daquele grupo, mas a missão que os trouxera ali era tudo, menos turística.

No saguão privativo, a atmosfera estava carregada. Hermes, com seu sorriso imperturbável e olhos que viam através das intenções, ajustava as luvas brancas enquanto explicava os detalhes da operação. Lorenzo, um magnata do mercado negro internacional, havia conseguido algo que nem os deuses podiam ignorar: fragmentos de armas celestiais e néctar divino roubados dos depósitos do Olimpo.

— A segurança dele é absoluta contra ameaças diretas — explicou Hermes, apontando para um holograma do cassino privativo onde o alvo se encontrava. — Mas ele tem uma fraqueza notória por beleza e... atitude imperial.

Qin, que estava sentado no encosto de uma poltrona de veludo — porque, para ele, qualquer lugar onde decidisse repousar tornava-se instantaneamente um trono —, bocejou. Ele estava usando uma venda ornamentada sobre os olhos, mas sua sinestesia permitia que ele "sentisse" a sala melhor do que qualquer um ali.

— E o que isso tem a ver com o Rei Onde Tudo Começou? — perguntou Qin, a voz carregada de uma arrogância melodiosa.

— Significa que você vai se trocar, Qin — disse Hades, cruzando os braços. O Rei do Submundo exalava uma autoridade fria e nobre, um contraste gritante com a exuberância de Qin. — Você será a nossa isca.

Minutos depois, Qin saiu do vestiário, e o silêncio que se seguiu foi quase cômico. Ele não usava suas armaduras de batalha ou seus trajes imperiais de seda pesada. Em vez disso, vestia uma calça boca de sino de cintura baixa que acentuava sua postura esguia, uma blusa de manga longa propositalmente larga e tênis modernos. O cabelo estava preso de forma despojada, e ele parecia, pela primeira vez em séculos, um jovem adulto comum. Ou o mais próximo disso que um imperador lendário poderia chegar.

— Isso é ridículo — bufou Qin, ajeitando a gola da blusa. — Por que eu? Por que não o Buda? Ele já se veste como um desleixado por natureza.

— Porque o Buda parece um monge que fugiu de um festival de música — respondeu Hades, sua voz profunda e calma não deixando margem para discussões. — E você, Qin, é o único de nós que consegue manter essa aura de superioridade sem parecer um deus antigo ou uma criança. Você tem quase quarenta anos na cronologia humana, mas parece ter vinte. Lorenzo gosta de mistério.

— Eu não sou "isca" — Qin retrucou, apontando um dedo para Hades. — Eu sou o predador. Lembre-se disso, Rei dos Mortos.

Hades apenas inclinou a cabeça, um meio sorriso quase imperceptível surgindo em seus lábios.

— Então vá caçar.


O cassino Le Sceptre era um mar de luzes douradas e fumaça de charutos caros. Qin caminhou pelo salão com uma confiança que fazia as pessoas abrirem caminho sem nem saberem por quê. Ele não precisava ver com os olhos; ele sentia as vibrações de cobiça, luxo e perigo.

Ele sentou-se ao balcão do bar, cruzando as pernas de forma elegante.

— Um martini. Seco como o deserto e frio como o coração de um deus — pediu ao barman, sua voz projetando-se apenas o suficiente para ser ouvida por quem interessava.

Não demorou muito. Lorenzo, um homem de meia-idade com olhos predatórios e um terno que custava mais do que uma vila inteira, estava sentado em uma mesa próxima. Ele observou o jovem de venda nos olhos por dez minutos antes de se levantar. Qin sentia o peso do olhar do homem sobre si, uma sensação morna e pegajosa que sua sinestesia traduzia como "posse".

— Um gosto peculiar para alguém tão jovem — disse Lorenzo, aproximando-se e sinalizando para o barman colocar a bebida na sua conta.

Qin virou o rosto levemente na direção dele, um sorriso enigmático brincando em seus lábios.

— A idade é um conceito para aqueles que não possuem o tempo — respondeu Qin, sua voz baixa e sedutora. — E meu gosto é, invariavelmente, pelo que há de melhor.

— E o que o traz ao meu estabelecimento, se posso perguntar? — Lorenzo inclinou-se, invadindo o espaço pessoal de Qin.

— Tédio — mentiu Qin com perfeição. — O mundo é vasto, mas os tronos são poucos. Estava procurando por algo que valesse o meu interesse.

Lorenzo riu, uma risada gutural. Ele estendeu a mão e, num gesto de audácia que teria custado a vida de qualquer outro homem na China Antiga, colocou a mão na parte inferior das costas de Qin, descendo-a perigosamente para a curva de sua nádega enquanto o puxava para mais perto.

— Eu tenho algo muito mais interessante na área VIP — sussurrou Lorenzo no ouvido de Qin. — Itens que você não encontraria nem nos seus sonhos mais selvagens.

Qin sentiu um lampejo de nojo percorrer sua espinha, mas manteve o sorriso. Ele permitiu que Lorenzo o guiasse através das cordas de veludo até uma sala privada, decorada com ouro e sombras. Assim que se sentaram em um sofá circular, Lorenzo, agindo com a confiança de quem compra tudo o que deseja, puxou Qin para o seu colo.

Qin Shi Huang, o homem que unificou a China, viu-se sentado nas coxas de um traficante de relíquias. Ele podia ouvir, através do ponto eletrônico invisível em seu ouvido, o som de Zeus resmungando e o silêncio tenso de Hades.

— Então, meu belo enigma — disse Lorenzo, passando a mão pelo braço de Qin, sentindo o tecido da blusa larga —, o que você faria por algo... divino?

— Eu não peço — Qin disse, inclinando o corpo para trás e olhando para onde sentia o rosto do homem, a ponta dos dedos tocando o queixo de Lorenzo. — Eu tomo o que é meu por direito. Mas, para você... eu posso abrir uma exceção e ser persuadido.

Enquanto Qin mantinha Lorenzo hipnotizado com um jogo de palavras e toques calculados, o caos silencioso acontecia nos bastidores.

No andar de baixo, Nikola Tesla e Hermes desativavam os sistemas de segurança com uma precisão cirúrgica. Nos corredores de serviço, Sasaki Kojiro e Okita Soji neutralizavam os guardas armados com movimentos tão rápidos que as câmeras nem registravam.

— Onde está o carregamento? — a voz de Hades ecoou no comunicador, fria e focada.

— No cofre atrás da pintura de Caravaggio — sussurrou Tesla. — Mas precisamos que o Qin mantenha a atenção do Lorenzo por mais cinco minutos. Ele tem um sensor biométrico no anel. Se ele se afastar muito da área VIP, o cofre trava permanentemente.

Qin ouviu tudo. Ele soltou uma risadinha leve, que Lorenzo interpretou como flerte.

— Você é fascinante — Lorenzo murmurou, aproximando o rosto do de Qin. — Nunca conheci ninguém com essa... aura. Você parece um rei.

— Porque eu sou o único Rei — Qin respondeu, aproximando-se ainda mais, até que suas respirações se misturassem.

Ele sentia a dor e a ganância emanando de Lorenzo através de sua sinestesia, um gosto amargo, mas ele o engoliu. Ele precisava selar o negócio. Qin inclinou-se e, com uma audácia que faria Brunhilde ter um síncope, selou os lábios de Lorenzo em um beijo profundo e manipulador.

No comunicador, ouviu-se o som de alguém engasgando. Provavelmente Ares.

Enquanto o beijo acontecia, Qin sentiu a vibração no chão. A missão estava concluída. O cofre fora aberto, os itens recuperados, e as evidências plantadas para a polícia internacional.

Qin afastou-se lentamente, deixando Lorenzo sem fôlego.

— Eu preciso ir — disse Qin, levantando-se do colo do homem com uma elegância fluida. — Reis não ficam muito tempo no mesmo lugar.

— Espere! — Lorenzo exclamou, pegando um guardanapo de papel e uma caneta de ouro. — Seu número. Eu preciso te ver de novo.

Qin sorriu, um sorriso que não chegava aos olhos, mas que era devastadoramente belo. Ele pegou a caneta e escreveu uma sequência de números.

— Me ligue quando o mundo for pequeno demais para você — disse Qin, antes de desaparecer pelas sombras da saída de emergência.


Do lado de fora, em um beco isolado onde uma van preta aguardava, o grupo estava reunido. A tensão da missão havia se dissipado, dando lugar à adrenalina do sucesso e, claro, à zombaria.

Assim que Qin apareceu, caminhando como se estivesse em uma passarela, a recepção foi imediata.

— Olha só ele! — gritou Buda, mastigando um pirulito e encostado na van. — O Imperador da China, seduzindo mortais por esporte. Aquele beijo teve língua, Qin?

— Eu esperava mais dignidade de um rei — comentou Leônidas, cruzando os braços e exalando fumaça de seu charuto. — Mas admito, a estratégia foi eficiente.

— A técnica de infiltração foi... interessante — disse Jack, o Estripador, limpando um monóculo inexistente. — A cor da alma daquele homem mudou para um rosa vibrante em segundos. Fascinante.

Qin ignorou a todos, caminhando direto para onde Hades estava. O Rei do Submundo estava encostado na porta da van, observando Qin com um olhar que o Imperador não conseguia decifrar totalmente.

— O número que você deu a ele — começou Hades, a voz baixa. — Era o seu de verdade?

Qin soltou uma risada curta e arrogante.

— Claro que não. É o número da central de denúncias da Interpol. Ele terá uma surpresa adorável pela manhã.

Hades soltou um suspiro que poderia ser interpretado como alívio, embora seu rosto permanecesse uma máscara de nobreza.

— Você se saiu bem, Qin Shi Huang. Embora a parte do... colo... tenha sido desnecessariamente detalhada.

— Inveja, Rei do Submundo? — Qin provocou, aproximando-se de Hades até ficar a poucos centímetros dele, recuperando sua postura de superioridade mesmo naquelas roupas casuais. — Onde eu me sento, torna-se o meu trono. E hoje, o meu trono foi um criminoso de quinta categoria.

— Você é impossível — murmurou Hades, mas não se afastou.

— Eu sou o começo de tudo — corrigiu Qin, abrindo os braços para incluir todos os deuses e humanos ali presentes. — Agora, quem vai pagar o jantar? Porque o Rei está com fome, e eu me recuso a comer qualquer coisa que não seja digna do meu paladar.

— Eu pago — disse Nikola Tesla, animado. — A ciência descobriu um lugar que faz um hambúrguer molecular incrível aqui perto!

— Hambúrguer? — Qin fez uma careta de desgosto. — Alguém me traga seda e vinho, ou eu mesmo vou declarar guerra a este século!

Enquanto o grupo subia na van, entre as piadas de Loki, as risadas de Raiden e o silêncio estoico de Thor, Qin sentou-se ao lado da janela. Ele retirou a venda por um momento, olhando para o reflexo de Hades no vidro. O Rei dos Mortos retribuiu o olhar pelo espelho retrovisor.

A missão fora um sucesso, o mundo estava a salvo de itens celestiais em mãos erradas, e Qin Shi Huang havia provado, mais uma vez, que não importava a roupa, o cenário ou o oponente: ele sempre seria o imperador de qualquer jogo que decidisse jogar.

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