
D74
Fandom: Record of ragnarok
Criado: 02/08/2026
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O Eco do Silêncio no Trono de Vidro
A luz do entardecer em Valhalla tinha um tom de ouro envelhecido, filtrando-se pelas janelas altas do palácio de Hades. Para Qin Shi Huang, no entanto, as cores pareciam um pouco menos vibrantes naquele dia. Ele caminhava pelos corredores com sua elegância habitual, o queixo erguido e os passos leves, mas seus dedos brincavam nervosamente com as bordas de suas mangas longas.
Ele acabara de voltar de sua sessão semanal com o Dr. Aristhos, um terapeuta recomendado pelo próprio conselho divino para lidar com os resquícios do trauma de Mônaco. Qin entrou na sala de estar principal, onde Hades estava sentado, revisando alguns documentos do Helheim.
— Hao! — exclamou Qin, abrindo um sorriso que não alcançava totalmente seus olhos vendados. — Onde está o meu trono hoje? Ah, qualquer lugar onde eu me sente servirá, pois eu sou o início e o fim.
Hades fechou o pergaminho e fixou seus olhos profundos no Imperador. Ele conhecia cada nuance da postura de Qin. Havia uma rigidez em seus ombros que não deveria estar lá.
— Você está atrasado, Ying Zheng — observou Hades, sua voz suave, mas carregada de uma preocupação vigilante. — Como foi a sessão?
Qin deu de ombros, sentando-se no braço da poltrona de Hades com uma confiança forçada.
— O de costume. Palavras, perguntas, o homem tentando entender a mente de um rei. Nada que eu não pudesse manejar. Ele apenas... sugeriu um novo método de "exposição" para as memórias de Lorenzo. Diz que o choque ajuda a cicatrizar.
Hades franziu o cenho, o aperto em sua caneta aumentando.
— Choque? Que tipo de choque?
Qin riu, um som seco.
— Ah, ele apenas me trancou em uma sala escura por alguns minutos e colocou gravações de gritos semelhantes aos daquela noite. Disse que eu precisava "reivindicar o som". Eu disse a ele que era desnecessário, mas ele insistiu que, se eu não fizesse, eu era apenas um covarde fingindo ser rei.
O silêncio que se seguiu foi gélido. Hades levantou-se lentamente, a aura de Helheim ondulando ao seu redor como uma tempestade contida.
— Ele chamou você de quê? — A voz de Hades era um sussurro perigoso.
Qin percebeu tarde demais que havia falado demais. Sua sinestesia toque-espelho captou a fúria fria de Hades, e ele sentiu um arrepio percorrer sua própria espinha.
— Não foi nada, Hades. Eu sou o Imperador, palavras de um servo não me atingem — tentou desconversar Qin, mas sua voz falhou levemente no final.
Nesse momento, a porta se abriu e outros aliados entraram: Adamas, que estava sempre por perto para garantir a segurança do irmão, e Brunhilde, que acompanhava o progresso de Qin. Eles ouviram o final da explicação de Qin.
— Aquele verme grego fez o quê? — rosnou Adamas, batendo com o punho na palma da mão. — Usar o trauma contra ele como "terapia"? Isso não é medicina, é tortura.
— Eu selecionei aquele homem pessoalmente sob recomendação — disse Brunhilde, seus olhos brilhando com uma fúria fria. — Se ele abusou da posição de confiança para humilhar um dos meus guerreiros...
Hades não esperou por mais explicações. Ele caminhou até Qin, colocou uma mão firme, mas gentil, em seu ombro e olhou-o nos olhos, mesmo através da venda.
— Espere aqui, meu querido Imperador. Nós vamos ter uma palavra com o "doutor". Ninguém, absolutamente ninguém, desrespeita o homem que governa o meu coração e o império dos homens dessa forma.
Qin ficou em silêncio enquanto via Hades, Adamas e Brunhilde saírem com a determinação de um exército indo para a guerra. Ele suspirou, sentindo-se estranhamente vazio. Ele se encolheu no sofá grande, puxando um pequeno caderno de capa escura que escondia sob a túnica. Era seu diário, o lugar onde ele despejava as palavras que seu orgulho real não permitia que saíssem por sua boca.
Minutos depois, a porta se abriu novamente. Não eram os deuses, mas sim um grupo de jovens servos e alguns guerreiros menores que passavam para organizar o salão. Entre eles estava Loki, que sempre adorava bisbilhotar onde não era chamado.
Qin estava tão imerso em seus pensamentos, escrevendo freneticamente, que não percebeu a aproximação silenciosa do deus da trapaça.
— O que temos aqui? O grande Imperador da China escrevendo poemas de amor para o Rei do Submundo? — zombou Loki, avançando rapidamente e arrancando o caderno das mãos de Qin.
— Devolva isso! — Qin saltou, mas Loki era ágil e já estava do outro lado da sala, abrindo o diário com um sorriso malicioso.
— Vamos ver... "Hoje a dor nas costas onde as cicatrizes ardem pareceu um peso maior que a coroa. Eu sorrio para Hades porque ele precisa que eu esteja bem, mas por dentro, eu ainda sinto o cheiro daquela sala em Mônaco..." — Loki parou de ler, seu sorriso vacilando levemente ao sentir o peso das palavras, mas a impulsividade o levou a continuar correndo pelo corredor. — "Eu me pergunto se eles me amam pelo que eu sou ou pelo que eu finjo ser..."
— Pare! Isso é uma ordem do Imperador! — gritou Qin, correndo atrás dele. A vulnerabilidade que ele tanto tentara esconder estava sendo exposta como uma ferida aberta.
A perseguição terminou abruptamente no grande salão de entrada, justamente quando Hades e os outros voltavam, com as roupas levemente desalinhadas e expressões de satisfação sombria após terem "resolvido" a questão com o terapeuta.
Loki quase colidiu com o peito de Hades.
— Olhe só, Hades! Seu namorado é um poeta bem melancólico — disse Loki, tentando manter o tom de brincadeira, mas recuando ao ver o olhar no rosto de Hades.
Qin chegou logo atrás, ofegante, o rosto pálido.
— Loki, me dê o caderno. Agora — a voz de Qin não tinha a arrogância habitual; estava quebrada.
Hades olhou de Qin para o caderno nas mãos de Loki. Em um movimento mais rápido do que o olho humano poderia seguir, Hades tomou o diário de Loki. O deus da trapaça tentou protestar, mas Adamas o segurou pelo colarinho.
— Você leu isso em voz alta? — perguntou Hades, sua voz soando como o trovão antes da tempestade.
— Eu... só um pouquinho... — gaguejou Loki, percebendo que tinha cruzado uma linha perigosa.
Hades entregou o caderno para Qin com uma reverência solene, mas seus olhos nunca deixaram Loki.
— Peça desculpas — ordenou Hades.
— O quê? Eu sou um deus, ele é...
— Peça. Desculpas. Agora — rosnou Hades, e o chão do salão tremeu sob o poder de Helheim.
Loki engoliu em seco, olhando para Qin, que abraçava o diário contra o peito como se fosse sua própria alma. A visão do Imperador, sempre tão altivo, parecendo tão pequeno e machucado, fez até mesmo o deus da trapaça sentir um lampejo de remorso.
— Sinto muito, Qin Shi Huang — disse Loki, baixando a cabeça. — Eu não deveria ter tocado em algo tão pessoal.
— Saia daqui — disse Brunhilde, apontando para a saída. — E se uma palavra do que você leu sair desse palácio, eu mesma garantirei que sua próxima travessura seja a última.
Loki saiu apressado. O salão ficou em silêncio. Qin ainda estava parado, os dedos apertando a capa de couro do diário.
Hades aproximou-se lentamente. Ele não tentou tirar o caderno dele novamente. Em vez disso, abriu os braços.
— Zheng... — chamou ele pelo nome de nascimento, algo que só usava em momentos de extrema intimidade.
Qin hesitou, mas então desabou contra o peito de Hades. O diário ficou prensado entre eles.
— Eu não queria que você visse — sussurrou Qin, sua voz abafada pela túnica de Hades. — Um rei não deve ter esses pensamentos. Um rei deve ser o pilar, não o entulho.
— Um rei é um homem, e um homem tem cicatrizes — respondeu Hades, acariciando os cabelos negros de Qin. — O que você escreve não o torna fraco. O fato de você carregar tudo isso e ainda conseguir sorrir é o que o torna o maior imperador que já conheci. Mas você não precisa carregar sozinho.
Adamas limpou a garganta, parecendo desconfortável com a demonstração de afeto, mas sua voz era sincera.
— O terapeuta não vai mais incomodar você, Qin. Digamos que ele foi... permanentemente descredenciado de exercer qualquer função em Valhalla. E se alguém mais tentar mexer com a sua cabeça, terá que passar por todos nós.
Qin se afastou um pouco, limpando uma lágrima trapaceira que escapara por baixo da venda. Ele olhou para o grupo — deuses e valquírias que, contra todas as probabilidades, haviam se tornado sua nova família.
— Vocês são todos muito barulhentos — disse Qin, tentando recuperar sua fachada, mas o sorriso que ele deu desta vez era genuíno, suave e cheio de gratidão. — Mas suponho que, como sou o Imperador, é meu dever tolerar a devoção de meus súditos.
Hades sorriu, beijando a testa de Qin.
— Venha. Vamos queimar aquele diário se você quiser, ou podemos guardá-lo em um cofre onde ninguém mais o verá. Mas, por favor, continue escrevendo. É melhor que as palavras fiquem no papel do que corroendo você por dentro.
Qin olhou para o caderno.
— Não vamos queimar. Ele é um registro da minha vitória. Cada página triste é uma prova de que eu sobrevivi a mais um dia.
Eles caminharam juntos de volta para os aposentos privados. Qin Shi Huang, o homem que sentia a dor do mundo, finalmente estava aprendendo que não precisava senti-la sozinho. As relíquias celestiais e as intrigas políticas de Valhalla podiam esperar; naquela noite, a única coisa que importava era o calor da mão de Hades na sua e a certeza de que seu trono, onde quer que fosse, estava finalmente seguro.
