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Fandom: Nenhum

Criado: 03/08/2026

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Espelhos e Contrastes

O som da máquina de tatuagem costumava ser o único ruído que acalmava a mente de Emanuel. O zumbido constante, o foco na agulha penetrando a pele e a criação de arte eram seu refúgio do caos do mundo. Mas hoje, nem mesmo o sucesso de seus estúdios ou o saldo bancário invejável pareciam conter a irritação que pulsava em suas têmporas. Ele jogou as chaves sobre a mesa de centro de mármore assim que entrou na cobertura, o som metálico ecoando pelo ambiente vasto e luxuoso.

— Sara! — a voz de Emanuel saiu mais grossa do que ele pretendia.

Não houve resposta imediata, apenas o som distante de uma música pop agitada vindo de um dos quartos e o choro baixo e persistente de Maya na sala de estar.

Eduarda estava sentada no tapete felpudo, balançando Maya suavemente nos braços. A bebê, com seus fios castanhos grudados na testa pelo suor do choro, escondia o rosto no peito de Duda, buscando o refúgio que só a doçura da jovem bailarina parecia proporcionar. Eduarda olhou para Emanuel com aqueles olhos grandes e expressivos, cheios de uma empatia que, naquele momento, só o irritava mais por fazê-lo se sentir um ogro.

— Ela está com cólica, Manu — sussurrou Eduarda, a voz doce e mansa funcionando como um bálsamo que ele tentava rejeitar. — E a Sara está terminando de se arrumar. Ela tem aquele evento na loja hoje, lembra?

— Eu lembro, Duda. O que eu não lembro é de ter concordado em ser o único a lidar com a logística dessa casa enquanto ela decide qual decote vai usar para chocar os investidores — Emanuel bufou, afrouxando a gola da camiseta preta que marcava seus braços tatuados.

Nesse momento, a porta do corredor se abriu e Sara surgiu como um furacão de autoconfiança e perfume caro. O cabelo loiro estava impecavelmente ondulado, o batom vermelho era uma declaração de guerra e o vestido justo de paetês gritava que ela não aceitaria passar despercebida. Em um dos braços, ela equilibrava Ágata. A pequena, uma versão miniatura e loira da mãe, usava um laço gigante na cabeça e não parecia nem um pouco incomodada com o barulho ou a agitação; pelo contrário, batia palmas e tentava alcançar o colar brilhante de Sara.

— Menos drama, Emanuel. Você fica horrível quando tenta ser o mártir da família — Sara disse, sem nem olhar para ele, enquanto conferia o visual no espelho de corpo inteiro da sala. — Ágata, solta o colar da mamãe, querida. Isso custa mais do que o curso de ballet da sua tia Duda.

— Sara, a Maya está chorando há meia hora e você está preocupada com brilho? — Emanuel caminhou até ela, a postura rígida. — Eu tive problemas em três estúdios hoje, estou exausto e chego em casa e parece que a única pessoa sã aqui é a Eduarda, que nem mãe dessas meninas é, mas carrega o piano sozinha!

Sara finalmente se virou, arqueando uma sobrancelha perfeitamente desenhada. O olhar dela era afiado, desprovido da insegurança que costumava paralisar outras mulheres diante da raiva de Emanuel.

— Primeiro: a Duda ama cuidar da Maya, porque as duas são feitas do mesmo algodão-doce emocional. Segundo: eu não estou ignorando ninguém. A Ágata já comeu, já tomou banho e está pronta para ser a estrela da inauguração da minha nova seção de luxo. E terceiro: abaixa o tom. Você sabe que eu não funciono sob pressão de homem irritadinho.

— Você vai levar um bebê de oito meses para um coquetel de loja? — Emanuel perguntou, incrédulo.

— Ela adora o movimento, Emanuel! Olha para ela — Sara apontou para Ágata, que sorria para o próprio reflexo no espelho, cheia de atitude. — Ela é uma diva. Ao contrário da Maya, que parece que vai quebrar se eu falar um pouco mais alto.

Eduarda, que assistia à cena encolhida no tapete com Maya dormitando em seu colo, sentiu a pontada familiar de tristeza. Ela odiava quando Sara falava da sensibilidade de Maya como se fosse um defeito.

— Ela não é quebradiça, Sara — disse Duda, com a voz falhando levemente, mas firme em sua defesa. — Ela só sente as coisas de um jeito mais profundo. Ela precisa de calma, de silêncio...

— Ela precisa é de um pouco de fibra, Duda — Sara retrucou, embora o tom não fosse de ódio, mas de uma impaciência prática. — Mas tudo bem, cada uma com seu cada qual. Você fica com a "manhosa número dois" e eu levo a minha parceira de negócios.

Emanuel passou a mão pelo rosto, sentindo a tensão latejar. Ele amava Sara justamente por essa força indomável, por essa vulgaridade assumida que desafiava o mundo, mas às vezes, a falta de filtro dela o esgotava. E ele amava Eduarda pela paz, pela doçura que o fazia sentir que o mundo não era apenas feito de tinta e dor. Ter as duas era ter o equilíbrio, mas manter esse equilíbrio era como caminhar em uma corda bamba sobre um abismo de estresse.

— Você não vai levar a Ágata — Emanuel sentenciou, cruzando os braços. — Está frio lá fora e ela precisa de rotina.

— Ah, agora o tatuador virou especialista em pediatria? — Sara riu, uma risada seca e provocativa. — Emanuel, querido, a loja é minha. As regras são minhas. E a Ágata é a cara da marca.

— Chega! — Emanuel explodiu, fazendo Maya acordar com um sobressalto e começar a chorar novamente.

Imediatamente, o arrependimento o atingiu. Eduarda começou a ninar a bebê freneticamente, lançando a Emanuel um olhar de reprovação silenciosa que doeu mais do que qualquer grito de Sara.

— Viu só? — Sara disse, entregando Ágata para Emanuel de repente. — Fica aí com as suas "regras". Eu vou para a loja. Se eu ficar mais cinco minutos aqui, vou acabar rasgando esse vestido de ódio da sua cara de poucos amigos.

Sara pegou a bolsa, deu um beijo rápido no topo da cabeça de Ágata e, surpreendentemente, um beijo estalado na bochecha de Eduarda.

— Boa sorte com o ogro, Duda. Tenta não deixar ele morder a bebê.

E com um bater de saltos rítmico, ela saiu, deixando para trás o rastro de seu perfume e o silêncio tenso da sala.

Emanuel ficou parado, segurando Ágata, que agora puxava sua barba com força, soltando gritinhos de satisfação. Ele olhou para Eduarda, que ainda tentava acalmar Maya. A diferença entre as duas filhas era gritante. Ágata era o fogo, a agitação, o desafio; Maya era o lago calmo, o sussurro, a necessidade de proteção.

— Desculpe — Emanuel murmurou, sentando-se no sofá e trazendo Ágata para o seu colo. — Eu perdi a mão.

Eduarda suspirou, ajeitando Maya em seu ombro. Ela se levantou com a elegância natural de uma bailarina e caminhou até ele, sentando-se ao seu lado. O contraste entre eles era quase poético: ele, um homem de pele marcada por desenhos escuros e expressão dura; ela, uma jovem de traços finos, pele clara e uma aura de pureza.

— Você está estressado, Manu. Eu entendo — disse ela, encostando a cabeça no ombro dele. — Mas a Sara é assim. Ela expressa o amor dela através do orgulho. Ela vê a Ágata como uma extensão da força dela. E ela tem medo da Maya porque a Maya lembra a ela que o mundo pode ser doloroso para quem é sensível.

— E você? Como aguenta ela falando essas coisas? — Emanuel perguntou, sentindo a raiva se dissipar e ser substituída por um cansaço profundo.

— Porque eu sei que ela não faz por mal — Eduarda sorriu fraco, olhando para Maya, que finalmente havia dormido. — E porque eu sei que a Maya me escolheu por um motivo. Eu sou o porto dela, assim como você é o nosso.

Emanuel olhou para as duas mulheres de sua vida — uma presente fisicamente, a outra ainda ecoando no ambiente com sua energia caótica. Ele olhou para as filhas, tão iguais no sangue e tão diferentes na alma.

— Às vezes eu acho que não sou bom o suficiente para gerenciar tudo isso — confessou ele, a voz baixa. — Duas casas, dez estúdios, duas mulheres que são o oposto uma da outra e duas bebês que já mostram que vão me dar cabelos brancos antes dos trinta.

— Você não precisa gerenciar o amor, Manu — Eduarda disse, pegando a mão dele e entrelaçando seus dedos. — Você só precisa vivê-lo. A Sara vai voltar da loja daqui a pouco, provavelmente arrependida de ter saído brigada, trazendo presentes caros para as meninas e querendo sua atenção. E eu vou estar aqui para fazer um chá e te ajudar a relaxar.

Ágata soltou um bocejo sonoro e deitou a cabeça no peito do pai, finalmente cedendo ao sono. Emanuel sentiu o peso das duas filhas, o calor de Eduarda ao seu lado e o cheiro do perfume de Sara que ainda pairava no ar.

— Ela é impossível — Emanuel comentou sobre Sara, mas agora havia um traço de admiração em sua voz.

— Ela é necessária — corrigiu Eduarda. — Sem ela, a gente esqueceria como é lutar. E sem mim, você esqueceria como é descansar.

Emanuel fechou os olhos por um momento. Ele era um homem de sorte, ainda que uma sorte barulhenta e complicada. O relacionamento deles desafiava qualquer lógica social, qualquer norma daquelas famílias tradicionais que frequentavam os vernissages de Eduarda ou as inaugurações de Sara. Mas ali, naquele silêncio compartilhado entre fraldas, tatuagens e sapatilhas de ballet, tudo fazia um sentido absoluto.

Cerca de duas horas depois, o som do elevador privativo anunciou o retorno da "tempestade loira". Sara entrou com várias sacolas, os sapatos na mão e o cabelo um pouco menos perfeito do que quando saiu. Ela parou na entrada da sala e viu a cena: Emanuel dormindo sentado no sofá, com Ágata espalhada sobre ele, e Eduarda deitada com a cabeça no colo de Emanuel, mantendo Maya protegida em seus braços.

Sara sentiu um aperto no peito, uma mistura de amor e uma pontada de exclusão que ela logo tratou de afastar com seu sarcasmo habitual. Ela caminhou silenciosamente, deixou as sacolas no chão e aproximou-se do trio.

— Que cena mais patética e adorável — sussurrou para si mesma.

Ela se inclinou e beijou a testa de Maya, notando como a pele da bebê era macia. Por um segundo, seu olhar suavizou. Ela não entendia a manha da filha, mas daria a vida para que ninguém nunca machucasse aquela sensibilidade. Depois, tocou o rosto de Ágata, sua pequena guerreira.

Emanuel abriu os olhos, despertando do sono leve. Ele viu Sara ali, desarmada pela primeira vez no dia.

— Voltou cedo — ele disse, a voz rouca.

— O evento estava um tédio. Muita gente fingindo que entende de moda e pouca gente com personalidade — ela deu de ombros, sentando-se no braço do sofá. — E eu fiquei pensando que talvez... só talvez... eu tenha sido um pouco grossa.

— Um pouco? — Emanuel arqueou a sobrancelha.

— Não abuse da minha boa vontade, Emanuel — ela sibilou, mas havia um sorriso brincando nos lábios. — Cadê o meu lugar nesse ninho?

Eduarda acordou com o movimento, sorrindo ao ver Sara. Ela se ajeitou, abrindo espaço no sofá luxuoso. Sara se acomodou ao lado de Emanuel, completando o quebra-cabeça humano.

— A Maya deu muito trabalho? — Sara perguntou, tentando soar casual enquanto olhava para a filha nos braços de Duda.

— Ela sentiu sua falta — mentiu Eduarda, sabendo que era disso que Sara precisava ouvir. — Ela só se acalmou quando sentiu o cheiro do seu perfume no sofá.

Sara desviou o olhar, as bochechas levemente coradas sob a maquiagem cara.

— Sei. Ela é uma boba, isso sim.

— Ela é sua filha, Sara — disse Emanuel, puxando-a para um beijo rápido e possessivo. — E você é doida por ela.

— Sou doida por todos vocês — Sara admitiu, em um raro momento de vulnerabilidade, antes de voltar à sua postura habitual. — Agora, Emanuel, espero que você tenha pedido comida, porque eu estou faminta e não pretendo tirar esse vestido para cozinhar nada.

Emanuel riu, a irritação de antes completamente esquecida. Naquela casa, o amor não seguia regras, não tinha manual e, muitas vezes, não tinha paz. Mas tinha verdade. E, para ele, isso era mais do que qualquer fortuna ou prestígio poderia comprar. Entre a doçura de Eduarda e a força de Sara, entre a sensibilidade de Maya e a atitude de Ágata, Emanuel encontrou o seu próprio caos perfeito.

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