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Fandom: estilhaça me
Criado: 03/08/2026
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O Silêncio entre as Cicatrizes
O corredor do Setor 45 estava mergulhado em um silêncio sepulcral, interrompido apenas pelo som rítmico das botas de Clara contra o metal frio. Ela conhecia cada sombra daquele lugar, cada segredo escondido sob a fachada de ordem e terror. Mas nenhum segredo pesava tanto quanto o que ela carregava no peito: o amor por Aaron Warner.
Clara nunca se encaixou no padrão das soldados esguias e letais que Warner mantinha sob seu comando. Ela era curvilínea, com formas suaves que ele parecia adorar traçar com as pontas dos dedos nas madrugadas em que o mundo lá fora deixava de existir. Mas aquele amor era uma ilha cercada por um oceano de proibições. "Ninguém pode saber", ele dizia, com a voz rouca contra o pescoço dela. E ela aceitava, porque ser o segredo dele era melhor do que ser nada para ele.
Naquela noite, porém, a ilha afundou.
Clara estava a poucos metros da sala de interrogatório quando viu a cena que ficaria gravada em sua mente como um ferro em brasa. Através da fresta da porta, ela viu Juliette Ferrars. A garota que era um mito, uma arma, um monstro ou um milagre. E viu Aaron. Ele não a olhava com a frieza de um comandante; havia algo mais ali, uma obsessão, uma faísca que Clara nunca tinha conseguido acender daquela forma.
Então, o beijo aconteceu. Foi rápido, carregado de uma tensão que Clara sentiu vibrar no ar. E, em seguida, o estrondo.
O som do tiro ecoou pelas paredes metálicas, perfurando o coração de Clara antes mesmo de atingir o alvo. Ela viu Juliette correr, a força da garota derrubando o que quer que estivesse em seu caminho. Clara não tentou detê-la. Seus pés a levaram, em um instinto desesperado, para dentro da sala.
Aaron estava no chão. O sangue, vermelho demais contra o uniforme impecável, começava a manchar o piso.
— Aaron! — O grito morreu em sua garganta, substituído por um soluço abafado.
Ela se ajoelhou ao lado dele, as mãos trêmulas pressionando o ferimento. Ele estava pálido, a respiração errática. Por um momento, os olhos dele encontraram os dela, mas não havia o brilho das noites compartilhadas. Havia apenas dor e a sombra da rejeição que ele acabara de sofrer.
— Clara... — ele murmurou, a voz falhando.
— Shh, não fale. Eu vou tirar você daqui — ela disse, as lágrimas escorrendo por suas bochechas redondas.
Nas semanas que se seguiram, o Setor 45 tornou-se um campo de batalha interno. Enquanto os soldados buscavam pela fugitiva, Clara se tornou a sombra de Warner. Ela era a única em quem ele confiava para trocar seus curativos, a única que tinha permissão para entrar em seus aposentos privados durante a recuperação.
Mas algo havia mudado. O beijo de Juliette e a bala que ela cravou nele haviam erguido um muro que Clara não sabia como escalar.
Naquela manhã, o sol pálido tentava atravessar a janela blindada do quarto de Warner. Ele estava sentado na beira da cama, sem camisa, as bandagens envolvendo seu torso. Clara entrou com a bandeja de medicamentos e novos curativos. Seu rosto estava inexpressivo, uma máscara de eficiência que ela vinha cultivando com esforço.
— Bom dia — disse ela, mantendo a voz plana. — É hora de trocar o curativo.
Warner a observou. Ele parecia mais magro, os olhos verdes mais profundos e sombrios.
— Você está atrasada, Clara — comentou ele, o tom carregado daquela arrogância que costumava ser um jogo entre eles, mas que agora soava apenas como uma ordem.
— Sinto muito, Comandante Warner — respondeu ela, aproximando-se com a gaze. — Tivemos problemas no inventário médico no nível inferior.
Ele franziu o cenho ao ouvir o título.
— "Comandante Warner"? — Ele repetiu, a voz baixa. — Desde quando você me chama assim quando estamos sozinhos neste quarto?
Clara não vacilou. Suas mãos, embora ainda sentissem o calor da pele dele, moviam-se com uma precisão cirúrgica.
— Desde que percebi que as linhas entre o dever e a vida pessoal ficaram borradas demais, senhor.
Warner soltou um riso seco, que terminou em um gemido de dor quando ela puxou a fita adesiva.
— Você está me punindo, Clara? Por causa daquela garota? — Ele tentou segurar o pulso dela, mas ela se esquivou com delicadeza, focada apenas na ferida.
— Não sou ninguém para punir o senhor, Comandante — disse ela, limpando a pele ao redor da cicatriz. — Meu trabalho é garantir que o senhor esteja apto para liderar o Setor 45. O que o senhor faz com suas prisioneiras ou com seus sentimentos não me diz respeito.
— Você sabe que não é assim — ele insistiu, a voz perdendo a força. — Você sabe o que temos.
Clara parou por um segundo. A dor em seu peito era tão física quanto o buraco de bala no peito dele. Ela se lembrou de como o chamava de "amor" sob os lençóis, de como sussurrava seu nome, "Aaron", como se fosse uma oração. Mas aquela oração não tinha sido ouvida.
— O que nós temos, Comandante, é um acordo de confidencialidade não escrito — ela disse, finalmente encontrando os olhos dele. — O senhor deixou bem claro que ninguém poderia saber. Que eu deveria ser invisível. Eu apenas estou levando essa invisibilidade a sério agora.
— Clara, eu...
— Por favor, fique parado — ela o interrompeu, a voz firme apesar da vontade de chorar. — O ferimento ainda está fechando. O senhor não quer que a cicatriz fique pior do que já vai ficar.
Ela terminou o serviço em silêncio. Cada toque era puramente profissional, desprovido do carinho que costumava oferecer. Quando terminou, ela recolheu os materiais e deu um passo para trás, mantendo a distância regulamentar.
— O senhor deve descansar por mais duas horas antes da reunião com os oficiais — disse ela, fazendo uma breve reverência.
— Clara, espere — ele pediu, estendendo a mão no ar, mas sem coragem de alcançá-la. — Eu precisava dela. Juliette é... ela é a chave para tudo.
Clara sentiu o golpe. Ele ainda falava dela. Mesmo depois do tiro, mesmo depois de Clara ter passado noites em claro cuidando de sua febre, o pensamento dele ainda orbitava a garota que o odiava.
— Eu entendo, Comandante — disse ela, com um sorriso triste que não chegou aos olhos. — Ela é a chave. E eu sou apenas a pessoa que cuida das fechaduras.
— Não diga isso — ele rosnou, a frustração brilhando em seu olhar. — Você sabe que é mais do que isso para mim.
— Então por que nunca me deixou dizer o seu nome em público? — Ela perguntou, a voz subindo apenas um tom. — Por que eu ainda sou apenas a "assistente de saúde" quando alguém bate à porta? Se eu sou mais, Warner, por que eu me sinto tão menos que nada quando ela está na mesma sala que você?
Warner desviou o olhar. O silêncio dele foi a resposta que ela já esperava, mas que ainda assim doía como uma nova ferida.
— Com licença, Comandante Warner — disse ela, caminhando em direção à porta.
— Clara! — Ele chamou, sua voz ecoando pelo quarto luxuoso e frio.
Ela parou com a mão na maçaneta, mas não se virou.
— Sim, senhor?
— Você vai voltar à noite?
Clara fechou os olhos por um momento, sentindo o peso do amor que ainda sentia por ele, lutando contra o orgulho que tentava protegê-la.
— O Comandante tem outros enfermeiros capacitados à disposição — respondeu ela. — Mas se o senhor exigir minha presença profissional, eu estarei aqui.
— Eu quero você aqui. Clara... por favor.
O "por favor" quase a quebrou. Era tão raro ouvir vulnerabilidade naquela voz. Mas ela se lembrou da imagem dele se inclinando para Juliette, da expressão de desejo que ele nunca tinha mostrado de forma tão pública por ela.
— Estarei aqui às vinte horas para a medicação noturna, Comandante. Nada mais.
Ela saiu e fechou a porta, encostando as costas no metal frio do corredor. O choro veio silencioso, as lágrimas molhando a gola de seu uniforme. Ela o amava tanto que chegava a doer, mas tinha aprendido a lição da maneira mais difícil.
No Setor 45, o amor era uma fraqueza que Warner não podia se dar ao luxo de ter, e Clara não podia mais se dar ao luxo de ser a fraqueza que ele escondia no escuro enquanto buscava a luz de outra pessoa no claro.
Daquele dia em diante, Aaron Warner teria o seu melhor serviço, sua lealdade inabalável e sua eficiência profissional. Mas ele nunca mais teria o seu "amor". Ele tinha escolhido a garota que atirou nele, e Clara, com o coração em pedaços, escolheu a si mesma.
Enquanto caminhava pelo corredor, ela limpou o rosto e ergueu o queixo. Ela era gordinha, era comum, era apenas uma engrenagem na máquina dele. Mas ela era a única coisa que o mantinha inteiro, e ele só perceberia isso quando o silêncio entre eles se tornasse permanente.
Ao chegar ao posto médico, uma colega perguntou:
— Como ele está, Clara? O Comandante vai se recuperar?
Clara abriu o prontuário, a caneta firme na mão.
— O Comandante Warner está em plena recuperação — respondeu ela, sem emoção. — Ele é um homem forte. Ele sobrevive a tudo.
Inclusive, pensou ela, ao vazio que eu estou deixando para trás.
