
A força
Fandom: Mestres do universo
Criado: 03/08/2026
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O Eco do Silêncio em Eternia
As torres de Eternos brilhavam sob o sol dourado, mas para Clara, o brilho parecia ofuscante demais. Ela caminhava pelos corredores do palácio com passos discretos, tentando não chamar atenção. Sendo a melhor amiga de Adora — a lendária She-Ra —, Clara muitas vezes se sentia como uma sombra flutuante em um mundo de gigantes e heróis. Ela não tinha a força de Grayskull, não portava espadas mágicas e suas curvas, que Adam tanto jurava amar, eram para ela apenas mais um motivo de insegurança diante das guerreiras esbeltas e impecáveis da guarda real.
Ninguém sabia. Esse era o segredo que ela guardava como um tesouro e uma maldição. Todas as noites, Adam — o príncipe que muitos julgavam ser apenas um jovem despreocupado — escapava para os aposentos dela. Entre lençóis e sussurros, ele não era o herdeiro do trono ou o herói musculoso; ele era apenas dela. E ela era dele. Mas o medo de Clara era uma fera faminta: se Adora descobrisse, se o reino soubesse, a decepção seria fatal. Quem seria Clara perto da grandiosidade de She-Ra? Apenas a amiga comum que "roubou" o tempo do príncipe.
Naquela tarde, Clara buscava Adam para entregá-lo um pequeno amuleto de boa sorte que havia comprado no mercado. Ao se aproximar da varanda real, vozes a fizeram estacar.
— Oh, Adam, você sempre sabe exatamente o que dizer para deixar uma dama sem fôlego — disse uma voz feminina, carregada de um sotaque aristocrático e uma doçura calculada.
Clara escondeu-se atrás de uma pilastra de mármore. O coração batia tão forte que ela temia que os guardas no pátio pudessem ouvi-lo. Espreitando, ela viu Lady Elara, uma nobre de um reino vizinho, aproximar-se perigosamente de Adam.
— Você é muito gentil, Lady Elara — respondeu Adam, soltando uma risada leve, aquele som que Clara costumava ouvir antes de adormecer em seu peito. — Eternia é conhecida por sua hospitalidade.
— E o seu príncipe é conhecido por ser o mais charmoso de todos os mundos — continuou a mulher, passando a mão pelo braço dele de forma possessiva. — Eu me pergunto se essa hospitalidade inclui um passeio privado pelos jardins... sob o luar.
Adam riu de novo. Não foi um riso de negação, nem de desconforto. Foi um riso cúmplice, ou assim pareceu aos ouvidos feridos de Clara.
— Quem sabe o que a noite nos reserva? — disse ele, em tom de brincadeira.
Clara sentiu o chão sumir. Ela recuou, as mãos tremendo. Ele estava rindo. Ele estava flertando. Ele, que jurava que ela era a única, estava ali, sob a luz do dia, permitindo que outra mulher o tocasse daquela maneira.
Ela correu para longe, mas o destino foi ainda mais cruel. Ao passar perto da cozinha real, ouviu duas servas cochichando enquanto poliam a prata.
— Você viu? — uma delas perguntou, rindo baixo. — O Príncipe Adam e Lady Elara no corredor leste, logo após o almoço. Dizem que o beijo foi digno de um conto de fadas.
— Eu não me surpreendo — respondeu a outra. — Ele é um príncipe, afinal. Precisa de alguém à sua altura, não de... bem, você sabe.
Clara não precisou ouvir o resto. O "não de..." ecoou em sua mente como um veredito. "Não de alguém como eu". Gordinha, comum, sem poderes, sem títulos. Uma decepção para Adora, um brinquedo para Adam.
A noite caiu sobre o castelo, mas Clara não acendeu as velas em seu quarto. Ela se sentou na poltrona perto da janela, as lágrimas secas deixando trilhas salgadas em seu rosto. Quando a porta secreta atrás da tapeçaria se abriu e Adam entrou, exalando aquele perfume familiar de sândalo e aventura, ela não se moveu.
— Clara? — Ele chamou em um sussurro, fechando a passagem. — Por que está no escuro, meu amor? Eu senti sua falta o dia todo.
Ele se aproximou para beijar seu pescoço, mas Clara se esquivou bruscamente, levantando-se e acendendo uma pequena lamparina. A luz revelou seus olhos vermelhos e a expressão de puro desprezo.
— Não me toque — disse ela, a voz falhando, mas firme.
Adam parou, a confusão estampada em seu rosto jovem.
— O que aconteceu? — Ele tentou se aproximar novamente, as mãos estendidas. — Alguém te disse algo? Adora descobriu?
— Antes fosse a Adora! — Clara explodiu, as lágrimas voltando a cair. — Pelo menos ela teria um motivo real para se decepcionar comigo. Mas você... como você pôde, Adam?
— Do que você está falando, Clara? Eu não fiz nada!
— Eu vi você com a Lady Elara! — Ela gritou, sem se importar se os guardas ouviriam. — Eu vi como você ria para ela. Eu ouvi os criados falando, Adam. Todo o castelo sabe que você a beijou no corredor leste!
O rosto de Adam mudou instantaneamente. A confusão deu lugar a uma máscara de choque e, logo depois, a uma possessividade sombria que Clara raramente via, mas que sabia existir. Ele deu um passo à frente, fechando o espaço entre eles até que ela estivesse prensada contra a parede.
— Você acredita em fofocas de criados antes de acreditar em mim? — A voz dele baixou um oitavo, tornando-se perigosa. — Eu não beijei ninguém, Clara. Ela tentou, sim, mas eu a afastei. Eu ri porque ela é uma tola, uma peça de diplomacia que eu sou obrigado a tolerar!
— Você riu com ela! — Clara o empurrou, mas ele era como uma rocha. — Você deixou que ela te tocasse. Para você é fácil, não é? Você é o príncipe. Você tem tudo. Eu sou a única que tem algo a perder aqui. Se as pessoas souberem de nós, elas vão rir de você por estar com alguém como eu e vão me odiar por enganar a She-Ra!
— Pare com isso! — Adam segurou os pulsos dela, não com força para machucar, mas com uma intensidade que a imobilizou. — Eu já te disse mil vezes: eu não me importo com o que o reino pensa. E Adora te ama, ela entenderia. É você que não se aceita! É você que se esconde atrás dessa insegurança e agora usa uma mentira para me atacar!
— Uma mentira? — Clara riu, uma risada amarga. — O beijo pode até ser mentira, mas o jeito que você olhou para ela não foi. Você quer uma princesa, Adam. Alguém que brilhe ao seu lado, não alguém que precise se esconder nas sombras porque tem vergonha do próprio corpo e da própria falta de valor.
— Nunca mais diga isso — rosnou Adam, o ciúme brilhando em seus olhos. — Você é minha. De mais ninguém. Eu não permito que você fale de si mesma dessa forma, e não permito que duvide da minha lealdade. Eu passo cada noite aqui, neste quarto, arriscando minha reputação e a paz com meu pai, porque eu não consigo respirar sem você!
— Então talvez seja melhor aprender a respirar sozinho — disse ela, a voz agora fria como gelo. — Saia daqui, Adam.
— Clara, não faça isso. — Ele tentou suavizar o tom, o medo da perda começando a superar a raiva.
— Saia! — Ela apontou para a passagem. — Eu não quero te ver. Eu não quero seus beijos que talvez tenham gosto de Lady Elara. Eu preciso de espaço. Eu preciso de silêncio.
Adam a encarou por um longo tempo. O silêncio entre eles era tenso, carregado de palavras não ditas e de uma possessividade que beirava o sufocamento. Ele queria pegá-la nos braços, trancá-la ali e provar que ela estava errada, mas o olhar de dor profunda nos olhos de Clara o deteve.
— Isso não acabou — disse ele, a voz rouca. — Você pode se esconder de mim agora, mas você é minha, Clara. E eu vou provar que nenhum beijo ou risada no mundo vale um segundo do que temos aqui.
Ele saiu pela passagem secreta, deixando o rastro de sua presença impregnado no ar.
Nos dias que se seguiram, o palácio de Eternos tornou-se um labirinto de tortura para Clara. Ela evitava os lugares onde Adam costumava estar, mas ele era onipresente. Ele não a procurava abertamente, respeitando o espaço que ela pedira, mas ela sentia o olhar dele.
Sempre que ela estava no pátio com Adora, sentia os olhos de Adam queimando em suas costas. Se algum guarda ou nobre se aproximava dela para pedir uma informação ou apenas para ser gentil, Adam surgia do nada, com uma aura de autoridade que afastava qualquer um. Ele não falava com ela, mas o ciúme dele era uma barreira física.
— Clara, você está bem? — perguntou Adora certa manhã, enquanto treinava com a espada. — Você parece... distante. E Adam está agindo como um guardião possessivo ultimamente. Ele mal tira os olhos de você.
Clara forçou um sorriso, o coração apertado.
— É apenas o calor, Adora. E você sabe como o seu irmão é... protetor.
— Protetor é pouco — comentou Adora, guardando a espada. — Ele parece um dragão guardando um tesouro. Se eu não soubesse que vocês são apenas amigos, diria que ele está pronto para desafiar qualquer um que chegue a dois metros de você para um duelo.
Clara sentiu um frio na espinha. O segredo estava se tornando pesado demais. A insegurança a consumia; ela via Lady Elara desfilando pelo castelo com suas sedas e joias, e depois olhava para suas próprias mãos, calejadas apenas pelo serviço doméstico e pela escrita.
Ela passou a não falar mais com ele. Quando ele tentava interceptá-la nos corredores desertos, ela simplesmente mudava de direção. Quando ele enviava flores ou bilhetes através de mensageiros discretos, ela os deixava fechados.
O silêncio era sua única arma, mas também sua maior cela. Ela sentia falta do calor dele, do jeito que ele a fazia sentir que suas curvas eram paisagens que ele desejava explorar para sempre. Mas a imagem dele rindo com a nobre e os sussurros do beijo eram como espinhos em sua carne.
Uma noite, Clara estava na biblioteca, tentando se perder em mapas antigos de Etheria, quando sentiu a presença dele antes mesmo de ouvir seus passos. Ela não levantou a cabeça.
— Você não pode me ignorar para sempre — disse Adam. Ele não estava usando suas roupas de príncipe, mas sim uma túnica simples, parecendo exausto.
— Eu não estou te ignorando — mentiu ela. — Estou apenas ocupada.
Adam caminhou até a mesa e fechou o livro de Clara com firmeza.
— Olhe para mim.
— Não.
Em um movimento rápido, ele a puxou da cadeira, forçando-a a ficar de pé diante dele. A possessividade em seu toque era evidente; ele a segurava pela cintura, puxando-a para perto, eliminando qualquer espaço.
— Eu não beijei aquela mulher — ele sussurrou, o rosto a centímetros do dela. — Eu nunca beijaria ninguém que não fosse você. Você acha que eu sou tão superficial assim? Você acha que o que eu sinto por você é algo que pode ser trocado por um título ou por um rosto bonito de uma corte estrangeira?
— Eu não sei o que pensar, Adam! — Ela tentou se soltar, mas ele a segurou com mais força. — Eu só sei que eu não pertenço a este lugar. Eu não sou uma heroína. Eu sou apenas a Clara. E a She-Ra... ela merece uma amiga melhor, e você merece uma rainha melhor.
— Eu não quero uma rainha — ele rosnou, encostando a testa na dela. — Eu quero você. Com suas dúvidas, com suas inseguranças, com cada centímetro desse corpo que eu conheço melhor do que meu próprio reino. Se você está com medo da Adora, nós contaremos a ela juntos. Mas não use isso como desculpa para me afastar.
Clara soluçou, a resistência começando a desmoronar.
— Todo mundo diz que vocês se beijaram...
— Deixe que digam. Deixe que o mundo inteiro invente histórias. A única verdade que importa é a que acontece entre quatro paredes quando o sol se põe. — Ele deslizou a mão pelo rosto dela, limpando uma lágrima com o polegar. — Você é minha vida, Clara. E eu sou um homem muito ciumento para deixar que você se convença do contrário.
Clara olhou nos olhos azuis dele, buscando a mentira que sua insegurança tanto queria encontrar. Mas não havia nada além de uma adoração feroz e uma possessividade que, embora a assustasse às vezes, era a única coisa que a fazia se sentir verdadeiramente vista.
— Eu tenho tanto medo, Adam — confessou ela, a voz sumindo.
— Eu sei — ele respondeu, puxando-a para um abraço apertado, escondendo o rosto em seus cabelos. — Mas eu estou aqui. E eu não vou a lugar nenhum. E se eu tiver que quebrar o silêncio de todo este palácio para provar isso, eu farei.
Clara fechou os olhos, permitindo-se, por um momento, acreditar que o amor de um príncipe poderia realmente ser o escudo contra a crueldade do mundo e de seus próprios pensamentos. O silêncio ainda pairava sobre eles, mas agora, não era mais um abismo; era apenas uma trégua antes da próxima batalha que, ela sabia, teriam que enfrentar juntos.
