
Meu namorado é um morto vivo
Fandom: Maze runner
Criado: 06/08/2026
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O Eco de um Coração de Ouro
O cheiro do fim do mundo era uma mistura metálica de ferrugem, poeira seca e o odor adocicado de carne em decomposição que o vento trazia das cidades mortas. Priscilla ajustou a alça da mochila em seus ombros, sentindo o peso das poucas latas de conserva que conseguira saquear em um posto de gasolina abandonado. Seus dedos, sujos de graxa e terra, apertavam o cabo da faca de caça presa ao cinto. No deserto que o mundo se tornara, o silêncio era seu único aliado, mas também o seu maior inimigo.
A luz do sol estava morrendo, pintando o céu com tons de laranja e roxo que pareciam sangrar sobre as ruínas de um viaduto próximo. Priscilla sabia que não podia ficar a céu aberto quando a escuridão caísse. Os "Cranks" — aquelas abominações que um dia foram humanas antes do vírus Fulgor devorar seus cérebros — tornavam-se mais ousados e rápidos no escuro.
Ela avistou um antigo contêiner de carga, tombado perto de uma encosta de areia. Parecia um abrigo sólido o suficiente para uma noite. No entanto, ao se aproximar, seus sentidos entraram em alerta máximo. Havia um rastro fresco na areia. Não eram as pegadas arrastadas e irregulares de um infectado, mas sim o desenho nítido de uma bota.
Priscilla desembainhou a faca, o coração martelando contra as costelas. Ela contornou o contêiner com passos leves, quase flutuando sobre os detritos. Quando dobrou a quina metálica, congelou.
Sentado contra a chapa de aço, com uma perna esticada e a outra dobrada, estava um rapaz. Ele parecia ter pouco mais de vinte anos. Era magro, de uma forma que sugeria agilidade, mas também privação. Sua pele era clara, embora manchada pela fuligem da estrada, e seus cabelos loiros, um pouco compridos e bagunçados, brilhavam sob os últimos raios de sol. Ele não parecia um sobrevivente endurecido como os saqueadores que ela evitava; havia algo de melancólico em sua postura.
Ao ouvir o leve ranger de uma pedra sob a bota de Priscilla, ele ergueu o rosto. Seus olhos eram de um castanho tão profundo que, naquela luz, pareciam quase pretos. Ele não pegou uma arma imediatamente. Apenas a observou com uma calma cansada.
— Você não parece um Crank — disse ele, a voz rouca, mas com um sotaque que Priscilla não conseguia identificar de imediato. — Embora a faca diga que você é quase tão perigosa quanto um.
Priscilla não baixou a guarda. Ela manteve a lâmina erguida, os olhos percorrendo o corpo dele em busca de mordidas ou manchas escuras nas veias, os sinais clássicos da infecção.
— Quem é você? — perguntou ela, a voz firme apesar do tremor interno. — E por que está sozinho aqui fora? Ninguém sobrevive sozinho por muito tempo.
O rapaz soltou um suspiro curto, que quase pareceu uma risada sem humor. Ele se apoiou no contêiner para tentar se levantar, e Priscilla notou que ele mancava levemente. Ele era alto, devia ter um pouco mais de um metro e setenta, e vestia roupas em tons de terra que pareciam ter visto dias melhores.
— Meu nome é Newt — respondeu ele, limpando as mãos nas calças. — E sobre estar sozinho... digamos que eu me perdi do meu grupo. Ou talvez o mundo tenha se perdido de mim. É difícil dizer hoje em dia.
— Newt — ela repetiu o nome, testando o som. — Você está infectado?
Newt parou por um segundo, seus olhos castanhos encontrando os dela com uma sinceridade desarmadora. Havia uma sombra de tristeza ali, uma profundidade que fez Priscilla hesitar.
— Ainda não perdi o juízo, se é isso que quer saber — disse ele com um meio sorriso triste. — E você? Tem nome ou prefere ser apenas a garota que vai me esfaquear antes do jantar?
Priscilla relaxou os ombros, embora não tenha guardado a faca. O sarcasmo dele era estranhamente reconfortante em um mundo onde a maioria das pessoas só gritava ou rosnava.
— Priscilla — disse ela. — E não pretendo esfaquear ninguém hoje, a menos que me deem um motivo.
— Ótimo — Newt deu um passo para o lado, indicando o espaço dentro do contêiner que ele havia começado a limpar. — O sol está baixando, Priscilla. Se ficarmos aqui fora discutindo currículos, os Cranks vão decidir o menu. Quer dividir o teto?
Priscilla olhou para o horizonte, onde as sombras se alongavam como dedos famintos, e depois voltou a olhar para Newt. Ele parecia vulnerável, mas havia uma resiliência silenciosa nele. Ela assentiu e entrou no contêiner.
O interior era abafado e cheirava a ferro velho, mas era seguro. Newt já havia preparado um pequeno fogareiro improvisado com latas de metal. Eles se sentaram em lados opostos, o silêncio entre eles preenchido apenas pelo som do vento uivando lá fora.
— De onde você veio? — perguntou Priscilla, enquanto abria uma lata de pêssegos em calda. — Suas roupas... não parecem com as que o pessoal das colônias usa.
Newt observou as chamas baixas do fogareiro. Ele parecia estar buscando memórias que preferia deixar enterradas.
— De um lugar cercado por muros — respondeu ele em voz baixa. — Um lugar que deveria nos manter seguros, mas que acabou sendo apenas uma gaiola diferente. Depois disso, foi só areia, fogo e o Fulgor.
— O Labirinto? — Priscilla deixou escapar. Ela já tinha ouvido boatos, lendas contadas por viajantes sobre jovens que foram usados como ratos de laboratório por uma organização chamada CRUEL.
Newt olhou para ela, surpreso.
— Você ouviu falar de nós? — Ele balançou a cabeça, o cabelo loiro caindo sobre a testa. — Éramos só peças em um tabuleiro, Priscilla. Tentando encontrar uma cura que parece fugir de todos nós.
— E você encontrou? — ela perguntou, estendendo a lata de pêssegos para ele. — A cura?
Newt aceitou a lata, seus dedos roçando os dela por um breve segundo. A pele dele era fria, mas o toque foi eletrizante para alguém que não sentia o calor humano há meses.
— Não existe cura para o que o mundo se tornou — disse ele, pegando um pedaço da fruta. — Existe apenas o tempo que nos resta. E o que decidimos fazer com ele.
Priscilla sentiu um aperto no peito. Ela olhou para o rapaz à sua frente. Newt tinha uma beleza melancólica, uma fragilidade que contrastava com a dureza do mundo ao redor. Ele parecia um príncipe de um reino que já não existia mais, um loiro de olhos escuros perdido em um pesadelo de poeira.
— Por que você não tentou me atacar? — perguntou ela, mudando de assunto. — Eu poderia ter comida, armas... eu poderia ser uma ameaça.
Newt deu de ombros, um gesto elegante apesar das circunstâncias.
— Eu cansei de lutar contra as pessoas erradas. Além disso — ele olhou nos olhos dela, e Priscilla sentiu como se ele estivesse lendo sua alma —, você tem olhos de quem ainda se lembra de como é ser humana. É raro hoje em dia.
— Às vezes eu esqueço — admitiu ela, baixando a cabeça. — Às vezes sinto que sou apenas uma engrenagem tentando não quebrar.
— Então somos dois — disse Newt. — Mas, olhe pelo lado positivo. Sobrevivemos a mais um dia. No meu antigo grupo, tínhamos uma regra: nunca parar de correr. Mas às vezes, parar um pouco e dividir pêssegos com alguém estranhamente gentil é a melhor forma de resistência.
Priscilla sorriu. Foi um sorriso pequeno, quase esquecido, mas Newt retribuiu. Naquele momento, dentro de um contêiner enferrujado no meio do nada, o apocalipse pareceu um pouco mais distante.
— Você manceia — observou ela, apontando para a perna dele. — É um ferimento antigo?
— Um lembrete de que a gravidade nem sempre é nossa amiga — respondeu ele, com um brilho de ironia nos olhos castanhos. — E de que eu fiz algumas escolhas estúpidas no passado. Mas eu ainda consigo andar. E ainda consigo fugir se você decidir que quer aquela faca de volta.
— Fique tranquilo, Newt — disse Priscilla, ajeitando-se para dormir sobre seu casaco forrado. — Acho que prefiro sua companhia ao silêncio.
— Fico feliz em ouvir isso, Priscilla — ele murmurou, encostando a cabeça contra a parede de metal. — Boa noite, Tommy... quer dizer, Priscilla.
Ela franziu a testa diante do nome desconhecido, mas não perguntou. Havia muitos fantasmas na vida de Newt, ela percebeu. Fantasmas que ele carregava com uma dignidade silenciosa.
A noite avançou fria e impiedosa. Do lado de fora, os gritos distantes dos Cranks ecoavam, lembrando-os de que o horror estava à espreita. Mas ali dentro, o ritmo da respiração de Newt era um metrônomo de vida.
Priscilla não conseguia parar de olhar para ele. A luz da lua que entrava por uma fresta no teto iluminava seu perfil. Ele parecia tão jovem, tão cansado. Ela sentiu um impulso súbito de protegê-lo, de garantir que ele não se perdesse novamente naquela imensidão cinzenta.
Horas depois, Newt começou a se agitar no sono. Pequenos gemidos de angústia escapavam de seus lábios, e ele murmurava palavras desconexas sobre "o Labirinto" e "o Fulgor".
— Não... eu não quero... — ele sussurrou, a testa franzida em dor.
Priscilla se aproximou cautelosamente. Ela hesitou, mas acabou colocando a mão sobre o ombro dele.
— Newt — chamou ela baixinho. — Acorde. É só um sonho.
Ele despertou com um sobressalto, os olhos castanhos arregalados e úmidos. Por um momento, ele não pareceu saber onde estava. Ele olhou para Priscilla, e a vulnerabilidade em seu rosto quebrou o coração dela.
— Desculpe — disse ele, a voz falhando. Ele passou a mão pelo cabelo loiro, tentando recuperar a compostura. — Às vezes o passado não quer ficar no passado.
— Tudo bem — disse Priscilla, permanecendo perto dele. — Eu também tenho pesadelos.
Newt olhou para a mão dela, que ainda repousava em seu ombro. Ele não se afastou. Em vez disso, ele cobriu a mão dela com a sua. A palma dele era áspera, mas o gesto foi de uma ternura infinita.
— Obrigado, Priscilla — disse ele suavemente. — Por estar aqui.
— Não vou a lugar nenhum — prometeu ela, e pela primeira vez em muito tempo, ela sentiu que tinha um propósito que ia além da simples sobrevivência.
Eles ficaram ali, sentados no escuro, as mãos unidas como uma pequena ilha de humanidade em um oceano de caos. Newt era um mistério, um sobrevivente de um mundo que tentou quebrá-lo de todas as formas possíveis, mas ele ainda mantinha uma faísca de bondade.
— O que vamos fazer amanhã? — perguntou Newt, sua voz agora mais calma.
Priscilla olhou para a fresta no teto, onde as primeiras luzes do amanhecer começavam a surgir, pálidas e frias.
— Vamos continuar andando — respondeu ela. — Mas desta vez, não precisamos fazer isso sozinhos.
Newt apertou levemente a mão dela e deu um pequeno sorriso, o primeiro que parecia alcançar seus olhos.
— Parece um bom plano para mim.
Enquanto o sol nascia sobre as ruínas da civilização, dois estranhos, unidos pelo acaso e pela necessidade, preparavam-se para enfrentar o que quer que o mundo infectado lhes reservasse. Priscilla sabia que o caminho seria perigoso e que a sombra do Fulgor pairava sobre todos, mas enquanto olhava para o rapaz loiro ao seu lado, ela sentiu que, talvez, a esperança não fosse apenas um resíduo do passado. Talvez a esperança fosse exatamente aquilo: encontrar alguém que fizesse o fim do mundo parecer um pouco menos solitário.
Eles saíram do contêiner juntos, o vento do deserto soprando seus cabelos. Newt mancou levemente, mas sua cabeça estava erguida. Priscilla ajustou sua mochila, sentindo-se mais leve do que no dia anterior.
— Ei, Newt? — chamou ela, enquanto caminhavam pela estrada rachada.
— Sim? — ele respondeu, olhando para ela.
— Tente não se perder de mim.
Newt soltou uma risada curta, um som que pareceu música em meio ao silêncio das ruínas.
— Vou tentar, Priscilla. Eu prometo.
E assim, entre os escombros e o perigo, uma nova história começou a ser escrita na areia, uma história de um coração de ouro e de uma sobrevivente que redescobriu o que significava lutar por algo — ou alguém — além de si mesma.
