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Amor incodicional

Fandom: BL

Criado: 06/08/2026

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DramaAngústiaDor/ConfortoFatias de VidaPsicológicoEstudo de PersonagemCenário Canônico
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O Silêncio entre Paredes de Vidro

O corredor do dormitório masculino da prestigiada Academia Saint Jude cheirava a cera de assoalho e a uma expectativa sufocante que Miller detestava. Aos dezessete anos, ele já havia aprendido que o dinheiro de sua família comprava privacidade em quase todos os lugares, exceto ali. Por algum erro administrativo ou uma nova política de "integração social" da diretoria, seu quarto individual havia sido transformado em um compartilhado.

Miller parou diante da porta 302, a expressão gélida e as sobrancelhas franzidas em um vinco de impaciência. Ele não queria um colega de quarto. Ele não queria ninguém invadindo seu espaço, mexendo em seus livros de cálculo avançado ou quebrando o silêncio que ele cultivava como uma armadura.

Ao girar a chave e empurrar a porta, o impacto foi imediato. O quarto, antes meticulosamente organizado, agora tinha uma metade ocupada por malas ainda fechadas e uma figura encolhida no canto da cama oposta.

— Que diabos é isso? — Miller murmurou para si mesmo, sua voz saindo mais grossa do que pretendia.

A figura na cama sobressaltou-se violentamente. Era um garoto que parecia jovem demais para estar no ensino médio, quanto mais em um dormitório de veteranos. Ele usava óculos de armação grossa que escorregavam pelo nariz pálido e abraçava os próprios joelhos com uma força que deixava os nós dos dedos brancos.

Théo não respondeu. Ele nem sequer olhou para Miller. Seus olhos estavam fixos em um ponto qualquer no chão, e ele balançava o corpo levemente para frente e para trás, um movimento rítmico e quase imperceptível.

Miller soltou um suspiro pesado, jogando sua mochila sobre a própria escrivaninha. O estrondo do objeto batendo na madeira fez o garoto menor soltar um ganido baixo, um som de puro pavor.

— Ei, eu não vou te morder — disse Miller, embora seu tom não fosse exatamente acolhedor. — Quem é você? E por que colocaram um calouro no bloco dos veteranos?

Théo continuou em silêncio. O ar parecia vibrar com a ansiedade dele. Ele apertou os olhos com força, e Miller notou que ele usava abafadores de ruído pendurados no pescoço, mas não os estava usando nas orelhas naquele momento.

— Eu estou falando com você — Miller deu um passo à frente, a paciência já no limite. — Você é surdo?

Théo estremeceu, encolhendo-se ainda mais contra a parede, como se tentasse se fundir ao concreto. Uma lágrima solitária escorreu por trás das lentes dos óculos.

— N-não... — a voz de Théo era tão baixa que Miller teve que se inclinar para ouvir. — Desculpa.

Miller parou. Ele era frio, sim. Era arrogante e raramente se importava com os sentimentos alheios, mas havia algo na forma como aquele garoto reagia que disparou um alerta em sua mente inteligente. Não era apenas timidez. Era medo. Um medo visceral, do tipo que Miller só tinha visto em animais acuados.

Ele se afastou, decidindo ignorar a presença do outro por enquanto. Abriu seu notebook e começou a digitar, mas o som das teclas parecia ecoar como tiros no silêncio do quarto. De soslaio, ele viu Théo cobrir as orelhas com as mãos, os olhos apertados com força.

— O que foi agora? — Miller perguntou, fechando o laptop com um estalo.

Théo soltou um soluço sufocado. Ele não conseguia explicar. Como explicaria para aquele veterano alto, rico e de aparência severa que o som das teclas era como agulhas perfurando seus ouvidos? Que a luz fluorescente do teto estava machucando seus olhos? Que o simples fato de estar em um lugar novo, longe do pouco de segurança que conhecia, o estava fazendo desmoronar?

— Barulho — sussurrou Théo, a voz embargada pelo choro iminente. — Muito... muito barulho.

Miller franziu o cenho. O quarto estava silencioso para qualquer padrão normal. Ele olhou para Théo, observando os detalhes: as roupas largas demais, as marcas roxas quase invisíveis sob a gola da camiseta e o jeito como ele evitava qualquer tipo de contato visual. Miller se lembrou de ter lido algo sobre hipersensibilidade sensorial.

— Você é... — Miller hesitou, buscando a palavra. — Você tem aquela coisa? Autismo?

Théo assentiu levemente, sem soltar os joelhos. Ele esperava o de sempre: a risada, o escárnio ou, pior, a irritação que levaria a algum tipo de castigo. Seu pai sempre dizia que ele era "defeituoso" e que precisava aprender a ser homem na base da força.

Miller soltou um ruído que poderia ser um bufo de irritação, mas se levantou e caminhou até o interruptor, desligando a luz principal e deixando apenas o abajur de sua mesa aceso, que emitia uma luz amarela suave. Depois, ele pegou um par de fones de ouvido de última geração de sua gaveta e caminhou até a cama de Théo.

— Pega — disse Miller, estendendo o objeto. — Esses cancelam o ruído melhor que esses seus aí no pescoço.

Théo olhou para a mão de Miller como se fosse uma armadilha. Ele levou longos segundos até estender a mão trêmula e pegar os fones. Quando os colocou, o mundo finalmente ficou silencioso. O caos em sua mente diminuiu um pouco.

— Obrigado — Théo articulou, os lábios tremendo.

— Não se acostuma — Miller resmungou, voltando para sua cadeira. — Eu só quero estudar em paz e não consigo fazer isso com você choramingando no meu ouvido.

As horas passaram. Miller mergulhou em seus livros, mas sua atenção divagava constantemente para o outro lado do quarto. Théo havia conseguido abrir uma de suas malas. Ele não tinha muitas coisas: alguns livros de física quântica — o que surpreendeu Miller, dada a idade do garoto —, um dinossauro de pelúcia encardido e vários cadernos de desenho.

Théo se sentou no chão, organizando seus livros por cor e tamanho com uma precisão cirúrgica. Ele parecia mais calmo agora, embora ainda saltasse a qualquer movimento brusco de Miller.

— Você gosta de física? — Miller perguntou de repente, sem tirar os olhos de seu próprio livro.

Théo parou o que estava fazendo. Ele olhou para o livro em suas mãos e depois para Miller.

— Os números... eles não mudam — Théo respondeu, a voz ganhando um tom quase melódico, embora ainda muito baixo. — Eles são seguros. Um mais um é sempre dois. Não importa se o dia está barulhento ou se as pessoas estão bravas. A física explica o porquê das coisas caírem. Eu gosto de saber por que as coisas caem.

Miller fechou o livro de vez, virando a cadeira para encarar o colega. Pela primeira vez, ele viu Théo sem a máscara de terror absoluto. O garoto era inteligente. Brilhante, talvez.

— Eu sou o Miller — ele se apresentou, o tom de voz um pouco menos áspero. — Terceiro ano. Se você vai ficar aqui, tem que seguir minhas regras. Nada de mexer nas minhas coisas, nada de luz forte depois das dez e, se for chorar, tente fazer isso em silêncio.

Théo assentiu, ajustando os óculos.

— Eu sou o Théo. Eu... eu vou tentar.

— Por que você veio para cá no meio do semestre? — Miller perguntou, a curiosidade vencendo sua frieza habitual.

O corpo de Théo ficou rígido instantaneamente. Ele desviou o olhar, as mãos começando a tremer novamente. Ele se lembrou das mãos do pai, do cheiro de álcool e da dor nas costas quando era empurrado contra a parede porque não conseguia parar de "fazer gestos estranhos".

— Minha mãe... ela me mandou — Théo mentiu, mas sua voz falhou. — Ela disse que aqui eu estaria seguro.

Miller não era idiota. Ele viu o medo voltar aos olhos de Théo e notou como ele instintivamente protegeu o lado esquerdo do rosto. Miller vinha de uma família rica onde a aparência era tudo, mas ele conhecia os segredos que as pessoas escondiam atrás de portas fechadas. Sua própria frieza era um subproduto de um pai que só aceitava a perfeição.

— Ninguém vai encostar em você aqui — Miller disse, sua voz soando mais como uma promessa do que ele pretendia. — Este quarto é meu território. E, por extensão, agora é seu também. Entendeu?

Théo olhou para Miller, e pela primeira vez, seus olhos se encontraram por mais de um segundo. Théo viu a seriedade no rosto do veterano. Ele não viu pena, o que era um alívio. Ele viu uma espécie de proteção bruta e impessoal.

— Entendi — Théo sussurrou.

— Ótimo. Agora, termine de arrumar essa bagunça. Eu vou buscar o jantar. Você come o quê?

Théo hesitou.

— Macarrão. Sem molho. Só com manteiga.

Miller revirou os olhos, levantando-se e pegando sua jaqueta.

— Paladar infantil, sério?

— É a textura — Théo explicou, parecendo pequeno novamente. — O molho tem pedaços. Eu não gosto de pedaços inesperados.

Miller parou na porta, olhando para o garoto loiro e frágil sentado no chão entre livros de física e pelúcias. Algo em seu peito, algo que ele mantinha congelado há muito tempo, deu um pequeno sinal de vida.

— Macarrão na manteiga. Sem pedaços — Miller repetiu. — Não abra a porta para ninguém enquanto eu estiver fora.

Quando a porta se fechou, Théo finalmente soltou o ar que não sabia que estava prendendo. Ele se encolheu na cama de Miller por um momento, sentindo o cheiro de perfume caro e sabonete neutro que emanava dos lençóis organizados. Era um cheiro limpo. Um cheiro seguro.

Pela primeira vez em meses, Théo não sentiu que o mundo ia desabar sobre sua cabeça a qualquer segundo.

Enquanto isso, no corredor, Miller caminhava em direção ao refeitório com as mãos nos bolsos. Ele estava furioso por terem colocado um "garoto quebrado" em seu quarto, mas, ao mesmo tempo, a inteligência silenciosa de Théo e sua vulnerabilidade extrema haviam despertado algo que Miller não sentia há anos: um propósito.

Ele não seria apenas um veterano rico e frio. Ele seria a parede de vidro que protegeria Théo do resto do mundo barulhento. E, talvez, no processo, Théo pudesse ensiná-lo que nem todo silêncio precisava ser solitário.

Ao chegar ao refeitório, Miller passou direto pela fila principal e foi até a cozinha, onde os funcionários o conheciam pelo sobrenome influente.

— Quero uma porção de massa — ele disse à cozinheira, o tom autoritário de sempre. — Só na manteiga. E se eu encontrar um único pedaço de erva ou tempero nisso, eu devolvo.

— Para você, senhor Miller? — a mulher perguntou, estranhando o pedido simples.

— Não — Miller respondeu, olhando para o caminho que levava de volta ao quarto 302. — Para o meu colega de quarto.

Aquele era o início de algo que nenhum dos dois sabia nomear. Entre o veterano que odiava o mundo e o calouro que tinha medo dele, um novo tipo de idioma estava começando a ser escrito. Um idioma feito de luzes baixas, fones de ouvido e macarrão sem molho. E para Théo, pela primeira vez, a física não era a única coisa que explicava por que ele ainda estava de pé.

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