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Fandom: Grotesquerie

Criado: 06/08/2026

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DramaAngústiaPsicológicoSombrioEstudo de PersonagemDiscriminaçãoDismorfia CorporalRealismoRomanceDor/ConfortoSuspenseGravidez Não Planejada/IndesejadaCiúmes
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O Peso do Silêncio e o Gelo do Toque

As luzes fluorescentes do hospital pareciam vibrar com uma intensidade cruel naquela noite, acentuando cada imperfeição que Clara tentava esconder sob o uniforme azul-claro. Ela ajustou a gola da túnica, sentindo o tecido apertar levemente em seus braços, um lembrete constante de que ela nunca seria a imagem de perfeição que as revistas — ou o homem que ela amava — exigiam.

Clara verificou o prontuário pela terceira vez, mas seus olhos não liam as dosagens de medicação. Ela estava ouvindo o som dos passos no corredor. Passos pesados, autoritários, que faziam seu coração disparar de uma forma que não era saudável, mas sim puramente instintiva.

O Doutor Charlie Mayhew entrou na sala de enfermagem como se fosse o dono do oxigênio que todos respiravam. Ele não olhou para os lados. Não cumprimentou a equipe de limpeza. Ele apenas parou diante da mesa onde Clara estava, sua presença emanando um frio que contrastava com o calor que subia pelo rosto dela.

— Na minha sala, Clara. Agora — disse ele, sem sequer baixar o olhar para encontrá-lo com o dela.

Ele deu meia-volta antes mesmo que ela pudesse responder. Clara engoliu em seco, sentindo o nó na garganta que parecia ser seu companheiro permanente. Ela se levantou, ajeitando a saia do uniforme que insistia em subir, e o seguiu.

Assim que a porta do escritório de Charlie se fechou, o ar mudou. O ambiente era decorado com uma sofisticação estéril, cheirando a couro caro e antisséptico. Charlie já havia tirado o jaleco, jogando-o sobre a poltrona de couro.

— Você demorou — reclamou ele, aproximando-se dela com uma rapidez predatória.

— Eu estava terminando o relatório do leito quatro, Charlie... — começou ela, a voz falhando.

— Eu não quero saber de relatórios.

Ele a puxou pela cintura, as mãos grandes apertando a carne de seus quadris com uma força que beirava a agressão. Clara fechou os olhos, entregando-se ao contato. Por alguns segundos, ela podia fingir que aquele aperto era desejo, que aquela urgência era paixão. Mas, no fundo, ela sabia que era apenas a fome de um homem que via o mundo como um banquete para sua própria satisfação.

O ato foi rápido, mecânico e desprovido de qualquer ternura. Charlie a usava como se ela fosse um instrumento, um objeto necessário para aliviar a tensão de um dia de tirania no hospital. Clara se mantinha em silêncio, os olhos fixos em um ponto na parede, tentando ignorar a sensação de que estava desaparecendo.

Quando terminou, Charlie se afastou imediatamente. Não houve abraço, não houve um "você está bem?". Ele simplesmente abotoou a calça e caminhou até a pia para lavar as mãos, como se estivesse limpando um rastro de algo indesejado.

— Pode ir agora — disse ele, a voz fria e cortante como um bisturi. — Tenho uma cirurgia em vinte minutos e preciso de silêncio para me concentrar.

Clara ainda estava recompondo o uniforme, as mãos tremendo enquanto tentava fechar os botões. Ela olhou para as costas dele, para a rigidez de seus ombros.

— Charlie? — chamou ela, quase num sussurro.

— O que foi? — Ele se virou, a expressão carregada de tédio.

— Eu... eu pensei que talvez pudéssemos jantar algum dia. Fora daqui.

Charlie soltou uma risada curta e seca, um som que fez o estômago de Clara se contrair.

— Jantar? Clara, olhe para você. Olhe para nós. O que temos aqui é uma conveniência. Eu não saio para jantar com a ajuda, e certamente não procuro complicações emocionais.

— Eu não sou apenas "a ajuda" — disse ela, sentindo as lágrimas queimarem o fundo de seus olhos. — Eu trabalho ao seu lado. Eu cuido de você.

— Você faz o seu trabalho — retrucou ele, aproximando-se novamente, mas desta vez não para tocá-la com desejo, mas para intimidá-la. — E seu trabalho inclui ser discreta e não confundir as coisas. Você é uma enfermeira gordinha e insegura que teve a sorte de chamar minha atenção. Não estrague isso tentando ser algo que você nunca será.

Cada palavra era um golpe. Charlie não sabia, e não se importava em saber, que Clara já tinha sido quebrada muito antes de conhecê-lo. Ele não sabia das noites que ela passou escondida no armário de casa enquanto o pai gritava com a mãe, ou de como ela era ridicularizada na escola pelo mesmo corpo que ele agora usava e desprezava. Ele não sabia que ela buscava na comida o conforto que nunca recebeu, e que cada quilo a mais era uma camada de proteção que, no fim, nunca a protegia de nada.

Clara baixou a cabeça, deixando que o cabelo caísse sobre o rosto para esconder a primeira lágrima que escapou.

— Desculpe — murmurou ela.

— Ótimo. Agora saia. E mande o interno trazer o café.

Clara saiu da sala, o som de seus passos agora abafado pelo tapete luxuoso do corredor administrativo. Ela caminhou em direção ao banheiro feminino, trancando-se na última cabine. Ali, no silêncio entrecortado pelo som da ventilação, ela permitiu que o choro viesse.

Ela se odiava por amá-lo. Odiava a forma como ele a tratava como um nada, e odiava ainda mais o fato de que, se ele a chamasse novamente daqui a uma hora, ela voltaria. Charlie Mayhew era um tirano, um homem que acreditava que a empatia era uma fraqueza e que o poder era a única moeda que importava.

— Por que eu não consigo dizer não? — sussurrou para si mesma, abraçando o próprio corpo.

As memórias de sua infância voltaram como sombras. A voz de sua mãe dizendo que ela precisava ser "útil" para ser amada. A sensação de nunca ser o suficiente, de ser sempre o excesso, o erro. No hospital Grotesquerie, onde o horror muitas vezes se manifestava em formas físicas e crimes indescritíveis, Clara percebeu que o maior horror que ela enfrentava era o vazio no peito de Charlie.

Ela lavou o rosto com água gelada, encarando o espelho. Os olhos estavam vermelhos, as bochechas inchadas. Ela aplicou um pouco de pó para disfarçar a palidez e respirou fundo. O turno ainda não tinha acabado.

Ao voltar para o posto de enfermagem, ela viu Charlie caminhando em direção ao centro cirúrgico. Ele passou por ela sem um segundo olhar, conversando animadamente com outro cirurgião sobre um novo equipamento. Ele parecia radiante, cheio de vida, enquanto ela se sentia como uma casca vazia.

— Enfermeira Clara? — Uma voz a tirou de seus pensamentos. Era uma das pacientes idosas, a Sra. Gable.

— Sim, Sra. Gable? Em que posso ajudar? — Clara forçou um sorriso, o sorriso de enfermeira que ela treinara para ser perfeito.

— Você tem mãos tão gentis, querida — disse a velha senhora, apertando a mão de Clara. — Mas seus olhos estão tão tristes. Alguém está machucando você?

Clara sentiu o coração falhar uma batida. Ela olhou para a mão da Sra. Gable sobre a sua e, por um momento, quis contar tudo. Quis dizer que estava morrendo por dentro, que o homem que todos admiravam era um monstro de indiferença.

— É apenas o cansaço, Sra. Gable — mentiu Clara, a voz firme apesar da dor. — O turno foi longo.

— Cuidado, menina — avisou a idosa, os olhos sábios e cansados. — Algumas pessoas se alimentam da luz dos outros porque não têm nenhuma própria. Não deixe que ele apague a sua.

Clara apenas assentiu e se afastou, levando o carrinho de medicação. Ela sabia que a Sra. Gable estava certa. Charlie Mayhew era um buraco negro, e ela estava orbitando perigosamente perto da borda.

Mais tarde, naquela mesma noite, Clara estava organizando o estoque de medicamentos quando ouviu a porta se abrir. Ela não precisou se virar para saber quem era. O perfume amadeirado e caro de Charlie preencheu o espaço pequeno.

— A cirurgia foi um sucesso — disse ele, a arrogância vibrando em cada sílaba. — Eu salvei aquele homem quando ninguém mais conseguiria.

— Fico feliz por ele — respondeu Clara, mantendo-se de costas, contando as ampolas de morfina.

— Você não parece feliz. Você parece... distante.

Charlie se aproximou, parando logo atrás dela. Ela sentiu o calor do corpo dele, mas não se moveu.

— Eu estou trabalhando, Charlie. Como você disse, eu sou "a ajuda".

Ele soltou um suspiro de impaciência e a virou pela força, segurando seus braços.

— Não comece com o drama, Clara. Eu não tenho paciência para isso. Você sabe como as coisas funcionam. Eu sou o sol deste hospital, e você... você é uma das estrelas menores que giram ao meu redor. Deveria estar grata por eu escolher você para brilhar um pouco mais forte de vez em quando.

Clara olhou para ele, realmente olhou para ele, e viu a vacuidade em seus olhos azuis. Não havia alma ali, apenas um ego inflado e uma necessidade patológica de domínio.

— Minha infância não foi boa, Charlie — disse ela, subitamente, as palavras saindo antes que pudesse impedi-las.

Charlie franziu a testa, confuso com a mudança de assunto.

— O quê? Do que você está falando?

— Eu passei fome para que meus irmãos pudessem comer. Eu fui chamada de porca, de inútil, de estorvo. Eu estudei cada noite até os olhos sangrarem para sair daquela casa e me tornar enfermeira. Eu lutei por cada centímetro de espaço que ocupo neste mundo.

— E o que isso tem a ver comigo? — perguntou ele, soltando os braços dela com desprezo. — Todos temos histórias tristes, Clara. Isso não torna você especial.

— Tem a ver com o fato de que eu sei reconhecer um tirano quando vejo um — continuou ela, a voz subindo de tom. — Você acha que me trata assim porque eu sou gordinha ou insegura, mas a verdade é que você trata todo mundo assim porque tem medo. Medo de que, se você parar de ser cruel por um segundo, as pessoas percebam que você não é um deus, mas apenas um homem pequeno e sozinho.

O silêncio que se seguiu foi pesado. O rosto de Charlie escureceu, uma veia saltando em sua têmpora. Ele deu um passo à frente, sua presença agora verdadeiramente ameaçadora.

— Nunca mais fale comigo desse jeito — sibilou ele. — Eu posso acabar com sua carreira com um estalar de dedos. Você não é nada sem este hospital, e não é nada sem mim.

— Eu já era nada muito antes de você chegar, Charlie — disse ela, sentindo uma estranha calma tomar conta de si. — Você não pode me tirar o que eu nunca senti que tinha.

Ele a encarou por mais alguns segundos, o ódio emanando dele em ondas. Sem dizer mais nada, ele se virou e saiu, batendo a porta do estoque com tanta força que as prateleiras tremeram.

Clara encostou-se na parede fria, deslizando até o chão. Ela sabia que as coisas seriam piores agora. Charlie não perdoava desafios à sua autoridade. Ele a faria pagar, seja com turnos dobrados, críticas constantes ou, o que era pior, com o silêncio absoluto e a indiferença total.

Mas, enquanto abraçava os joelhos, Clara sentiu uma pequena faísca de algo que não sentia há anos. Não era felicidade, nem esperança, mas era uma forma de dignidade. Ela tinha falado. Ela tinha mostrado a ele que, embora ele pudesse usar seu corpo, ele não possuía sua história.

Lá fora, os corredores do Grotesquerie continuavam mergulhados em sua atmosfera de mistério e pecado. Mas ali, naquele pequeno estoque, Clara começou a entender que o peso que ela carregava não era apenas o de seu corpo, mas o das expectativas de homens que nunca aprenderam a amar.

Ela se levantou, limpou a poeira do uniforme e voltou ao trabalho. O Doutor Mayhew podia ser o sol, mas até o sol se põe, deixando para trás apenas a escuridão que Clara conhecia tão bem. E na escuridão, ela sabia como sobreviver.

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