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Fandom: Naruto
Criado: 07/08/2026
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Café, Tinta e Silêncios Barulhentos
O som da chuva batendo contra a janela do apartamento era o único ruído constante, servindo de fundo para o jazz suave que saía da vitrola de Itachi. No centro da sala, o psicólogo estava sentado em sua poltrona favorita, com os óculos apoiados na ponta do nariz e um livro de psicanálise densa em mãos. Ele parecia a personificação da paz, com seu rabo de cavalo baixo perfeitamente alinhado e uma xícara de café fumegante ao lado.
Essa paz, no entanto, tinha hora marcada para acabar.
A porta do quarto se abriu com um estrondo leve, e Lis surgiu como um furacão de cores escuras e energia caótica. Ela usava uma das camisas de linho de Itachi — que nela ficava parecendo um vestido — e um par de meias felpudas. Os cachos pretos com a raiz vibrantemente vermelha estavam presos em um coque desleixado, e ela carregava um tablet de desenho em uma mão e um copo de café gelado na outra.
Sem dizer uma palavra, ela caminhou até a poltrona e, ignorando completamente o fato de que Itachi estava lendo, sentou-se transversalmente no colo dele.
Itachi nem sequer piscou. Ele apenas levantou o livro um pouco mais para não bater na cabeça da namorada e moveu a mão livre para pousá-la naturalmente na coxa dela, sentindo a textura das tatuagens que subiam pela perna de Lis.
— Ocupado, vida? — perguntou ela, dando um gole barulhento no café gelado.
— Agora, tecnicamente, eu sou o suporte para o seu ateliê móvel — respondeu Itachi, com a voz calma e aquele tom seco que sempre a fazia sorrir. Ele fechou o livro, marcando a página com cuidado. — Como vai a ilustração?
— Uma merda. O cliente quer algo "minimalista, mas com muita informação". Dá para acreditar? — Ela revirou os olhos, morder a parte interna da bochecha enquanto encarava a tela. — Por que as pessoas são tão burras, Itachi? Você é psicólogo, me explica a mente humana.
Itachi soltou um riso baixo, um som vibrante que Lis sentia contra suas costas.
— A mente humana é complexa, amor. Mas, no caso do seu cliente, talvez seja apenas falta de vocabulário visual.
Lis bufou, encostando a cabeça no ombro dele. O cheiro de Itachi — uma mistura de sândalo, café e sabão neutro — sempre a acalmava instantaneamente. Ela se virou um pouco, passando os braços pelo pescoço dele.
— Você está muito cheiroso. É irritante.
— É irritante eu tomar banho? — Ele arqueou uma sobrancelha, guardando os óculos no bolso da camisa.
— É irritante que você pareça um comercial de perfume de luxo enquanto eu pareço um troll que vive de cafeína e ódio — ela resmungou, mas logo abriu um sorriso travesso.
Antes que ele pudesse responder, Lis deslizou as mãos para dentro da gola da camisa de Itachi, pressionando os dedos gelados contra a nuca quente dele.
Itachi deu um leve solavanco, mas não se afastou. Ele apenas fechou os olhos e suspirou, já acostumado com a tortura térmica.
— Suas mãos estão congeladas, Lis.
— É para você saber que eu estou viva. Sangue frio, coração quente.
— Eu preferiria que o sangue estivesse circulando normalmente — ele comentou, envolvendo a cintura dela com mais firmeza e puxando-a para mais perto. — Mas já que você decidiu interromper meus estudos, o que quer fazer?
Lis brilhou.
— Eu vi um vídeo.
Itachi sentiu um calafrio. Sempre que Lis começava uma frase com "eu vi um vídeo", geralmente terminava com ele montando um móvel de cabeça para baixo ou tentando cozinhar algo que exigia nitrogênio líquido.
— Não — disse ele, preventivamente.
— Nem deixei eu falar! — Ela protestou, dando um tapa leve no ombro dele. — É um desafio de pintura. A gente coloca uma tela no meio, cada um pega um lado e a gente tenta completar o desenho do outro sem falar nada.
— Lis, eu sou psicólogo. Minha habilidade artística se resume a fazer anotações legíveis em prontuários.
— Mentira. Eu já vi você desenhando corvos nas margens dos seus livros. Você tem talento, Uchiha. Vamos, vai ser divertido. Por favor?
Ela fez o que ele chamava de "ataque psicológico desleal": inclinou a cabeça, fez um bico leve e o olhou com aqueles olhos castanhos expressivos. Itachi manteve a expressão neutra por exatos cinco segundos antes de ceder.
— Cinco minutos — ele disse, embora ambos soubessem que duraria duas horas.
— Eba! — Ela saltou do colo dele, dando um beijo estalado em sua bochecha. — Vou pegar as tintas. E não ouse fugir para a cozinha para fazer mais café!
Meia hora depois, o tapete da sala estava protegido por jornais velhos. Lis tinha espalhado tintas acrílicas, pincéis e duas telas pequenas. Ela tinha colocado uma playlist de rock alternativo para tocar, o volume alto o suficiente para fazer as paredes vibrarem levemente.
Itachi estava sentado no chão, com as mangas da camisa social dobradas até os cotovelos, observando a bagunça com uma mistura de resignação e adoração.
— A regra é simples — explicou Lis, entregando um pincel para ele. — Eu começo aqui, você ali. Quando eu virar a tela, você continua o que eu fiz e eu continuo o seu. Sem reclamar.
— Isso vai ser um desastre estético — comentou Itachi, mergulhando o pincel em um azul profundo.
— Cala a boca e pinta, lindo.
Eles ficaram em silêncio por um tempo, apenas o som da música e as pinceladas preenchendo o ambiente. Itachi trabalhava com precisão, movimentos lentos e pensados. Lis era o oposto; ela usava os dedos, jogava tinta, ria de si mesma e cantava os refrões das músicas com uma voz rouca e afinada.
De vez em quando, Itachi parava para observá-la. Ele amava o jeito que ela ficava concentrada, a ponta da língua entre os dentes, uma mancha de tinta vermelha cruzando a bochecha clara. Ela era um caos vibrante que dava cor à vida dele, que muitas vezes era excessivamente cinza e metódica.
— Por que você está me olhando com essa cara de "estou analisando seu complexo de Édipo"? — perguntou ela, sem tirar os olhos da tela.
— Eu estava apenas pensando em como você consegue sujar o nariz com tinta estando a trinta centímetros da tela — ele respondeu, com um sorriso de canto.
— É talento, meu bem. — Ela virou a tela para ele. — Sua vez. Boa sorte transformando meu borrão em algo que preste.
Itachi olhou para a tela dela. Era uma explosão de cores quentes, formas abstratas que lembravam chamas ou flores. Ele pegou o pincel e, com delicadeza, começou a traçar linhas finas em preto, dando estrutura ao caos dela.
— Você sempre tenta consertar tudo, né? — comentou Lis, observando-o. Ela se arrastou pelo chão e sentou-se entre as pernas dele, apoiando as costas no peito de Itachi enquanto ele pintava por cima dos ombros dela.
— É o meu trabalho, vida. E meu instinto.
— Às vezes as coisas não precisam de conserto, Itachi. Só de... companhia.
Ele parou o pincel por um momento, beijando o topo da cabeça dela.
— Você tem razão.
A pintura logo foi esquecida quando Lis se virou nos braços dele, passando as mãos sujas de tinta pelo pescoço da camisa dele. Itachi nem se importou com a mancha que provavelmente nunca sairia do tecido caro.
— Você é muito paciente comigo — ela sussurrou, a voz perdendo o tom brincalhão e ficando carregada de afeto. — Eu sei que eu sou barulhenta, que eu ocupo espaço demais e que eu te obrigo a fazer essas coisas idiotas.
Itachi afastou uma mecha de cabelo do rosto dela, deixando o polegar descansar em sua bochecha.
— Lis, o silêncio da clínica é ensurdecedor às vezes. Eu passo o dia ouvindo problemas e tragédias. Chegar em casa e ver você dançando com uma espátula na mão ou me obrigando a pintar um quadro abstrato... é a única coisa que me mantém são.
Ela sorriu, os olhos brilhando.
— Então você admite que gosta das minhas loucuras?
— Eu admito que não saberia mais viver sem elas.
Lis o puxou para um beijo, um encontro suave que rapidamente se tornou mais profundo. O gosto de café gelado e o cheiro de tinta se misturavam. Itachi a puxou para mais perto, sentindo o calor do corpo dela contra o seu. Ele adorava a forma como ela se encaixava perfeitamente nele, apesar da diferença de altura e de temperamento.
— Sabe de uma coisa? — ela disse, rompendo o beijo por um segundo, com um olhar malicioso. — O sofá é muito pequeno para o que eu estou pensando agora.
Itachi soltou uma risada curta, carregando-a no colo com uma facilidade que sempre a deixava levemente sem fôlego.
— E a louça do jantar que você prometeu lavar? — ele perguntou, subindo as escadas para o quarto.
— O Itachi do futuro resolve isso — respondeu ela, mordendo o lóbulo da orelha dele. — O Itachi de agora tem obrigações mais... urgentes.
— Você é impossível, princesa.
— E você me ama por isso.
— Amo — ele confessou, a voz baixa e sincera, antes de fechar a porta do quarto com o pé.
Horas depois, a chuva tinha diminuído para uma garoa fina. O apartamento estava mergulhado na penumbra, iluminado apenas pelas luzes da cidade que entravam pela janela.
No quarto, Itachi estava encostado na cabeceira da cama, com Lis dormindo profundamente atravessada sobre o seu peito. Ela tinha um braço jogado por cima da cintura dele e a respiração pesada de quem tinha gastado toda a energia do dia.
Ele passava a mão suavemente pelos cachos dela, desembaraçando os fios com paciência. O relógio de pulso dele, deixado no criado-mudo, marcava quase três da manhã. Ele deveria estar cansado — tinha pacientes logo cedo no dia seguinte —, mas não conseguia se mover.
Havia uma paz específica em estar ali, servindo de travesseiro para a mulher que transformava sua vida em um eterno festival de cores e sons. Ele pensou nas telas inacabadas na sala, nas manchas de tinta no tapete e no fato de que, provavelmente, teria que fazer café extra para conseguir funcionar de manhã.
Mas, enquanto observava o rosto sereno de Lis, Itachi Uchiha chegou à conclusão de que a análise era simples: ele era um homem de sorte.
Ele se inclinou e depositou um beijo demorado na testa dela, fechando os olhos logo em seguida. Como sempre, ele só dormia realmente bem quando ela estava ali, ancorando-o ao mundo real.
— Boa noite, vida — sussurrou ele para o silêncio do quarto, antes de finalmente se entregar ao sono.
