
ba
Fandom: mha
Criado: 07/08/2026
Tags
A Joia Escondida por Trás das Explosões
A sala de reuniões da agência de Endeavor estava incomumente silenciosa, exceto pelo som rítmico de um teclado. Hawks balançava as pernas, sentado sobre a mesa, enquanto Mirko revisava alguns relatórios de patrulha com uma expressão de tédio absoluto. No canto, Shoto Todoroki observava o pai, que parecia ter dificuldades técnicas com um novo software de monitoramento de áudio recuperado de um esconderijo da Liga dos Vilões.
— Isso não faz sentido — resmungou Endeavor, a voz grossa ecoando pelas paredes de vidro. — O departamento de inteligência disse que esses arquivos continham comunicações criptografadas do Shigaraki. Mas tudo o que encontro são pastas com nomes de pedras preciosas.
— Deixe-me ver isso, velho — disse Shoto, aproximando-se sem muita cerimônia. Ele clicou em uma pasta intitulada "Family Jewels" e, por um erro de comando, o som se espalhou pelos alto-falantes de última geração da sala.
Uma batida pop vibrante, teatral e levemente eletrônica preencheu o ambiente. A voz que começou a cantar era inconfundível, embora o tom fosse mais melódico e controlado do que os gritos habituais de "Morra!" que todos estavam acostumados a ouvir.
— Espera aí... — Hawks parou de balançar as pernas, inclinando a cabeça para o lado. — Esse é o garoto explosivo da UA? O Bakugo?
— "Are you satisfied with an average life? Do I need to lie to make its way in life?" — A voz de Katsuki Bakugo saía das caixas de som com uma nitidez assustadora. Ele não estava apenas cantando; ele estava performando. A letra era ácida, ambiciosa e carregada de um intelecto que poucos se davam ao trabalho de notar por trás de seu temperamento volátil.
— Ele está... cantando sobre ser uma máquina de sucesso? — Mirko soltou uma gargalhada, mas seus olhos brilhavam de interesse. — Caramba, o moleque tem ritmo. E essa letra? "I'm gonna be a bubblegum bitch"? O que isso sequer significa?
— Shoto, desligue isso — ordenou Endeavor, embora não parecesse tão irritado quanto o normal. Ele estava, na verdade, confuso. — Por que o arquivo de um vilão teria músicas do Bakugo?
— Não são apenas músicas, pai — Shoto apontou para os metadados do arquivo que apareciam na tela. — Olhe o autor. "Composto, escrito e produzido por: K. Bakugo". Ele não está apenas fazendo cover. Ele escreveu isso.
O silêncio que se seguiu foi preenchido pelo refrão contagiante de "Primadonna". A letra falava sobre querer o mundo, sobre ser o centro das atenções e sobre uma autoconfiança que beirava o narcisismo, mas com uma camada de autocrítica que apenas alguém muito inteligente poderia projetar.
— — "I can't help that I need it all... The primadonna life, the rise and fall" — cantarolou Hawks, seguindo o ritmo com os dedos. — É brilhante. Ele pegou toda aquela agressividade e transformou em uma estética pop barroca. Quem diria que o esquentadinho era um gênio das composições?
— — Eu sempre soube que ele tinha foco — comentou Best Jeanist, que acabara de entrar na sala, atraído pela melodia familiar. — Mas Katsuki sempre se recusou a admitir qualquer hobby que não envolvesse treinamento. Ele deve ter gravado isso em segredo absoluto.
— — Segredo? — Mirko pulou da mesa, animada. — Isso é ouro puro! Escutem essa transição. O garoto entende de produção musical. E a letra de "Oh No!"... é literalmente a biografia dele. "I know exactly what I want and who I want to be".
— — Ele vai nos matar se souber que ouvimos isso — disse Shoto, embora houvesse um traço de diversão em sua voz monótona. — Especialmente a parte sobre "Teen Idle". É... surpreendentemente profundo.
Endeavor cruzou os braços, observando a tela. Ele via o nome de Bakugo vinculado a letras que falavam sobre a pressão de ser perfeito, sobre o vazio de alcançar o topo e sobre a complexidade de uma identidade moldada pela expectativa alheia.
— — Ele tem muito a dizer — murmurou o herói número um. — Mais do que ele deixa transparecer nos campos de treinamento.
— — É uma armadura — analisou Best Jeanist, ajeitando a gola alta. — Ele usa as explosões para manter as pessoas longe, mas a música... a música é onde ele coloca a verdade. "How to be a Heartbreaker" é claramente uma sátira sobre como ele lida com a popularidade na escola.
— — Esperem, tem uma pasta nova aqui — Shoto clicou em um arquivo chamado "Electra Heart".
Desta vez, a música era mais lenta, com uma batida de sintetizador que evocava uma melancolia glamourosa. A voz de Bakugo soava mais baixa, quase um sussurro desafiador.
— — "Feeling super, super, super... suicidal" — a letra ecoou, fazendo o clima na sala mudar instantaneamente.
— — Pesado — comentou Hawks, perdendo um pouco do sorriso. — Ele está falando sobre a pressão da sociedade de heróis?
— — "Underneath it all, we're just savages, hidden behind a mask" — continuou a música.
— — Ele está criticando o sistema — observou Endeavor, surpreso. — E ele faz isso com uma melodia que gruda na cabeça. É uma forma perigosa e eficaz de comunicação.
A porta da sala de reuniões se abriu com um estrondo. Katsuki Bakugo estava parado ali, o uniforme de herói levemente sujo de poeira, provavelmente vindo de um treino extra. Ele congelou ao ouvir a própria voz preenchendo o recinto através das caixas de som de alta fidelidade.
— — "I'm a ruin... I'm a ruin..." — a música continuava impiedosa.
O rosto de Bakugo passou por três tons diferentes de vermelho em menos de dois segundos. Suas mãos começaram a soltar pequenas fagulhas, e o cheiro de nitroglicerina inundou o ar.
— — QUEM... FOI... O DESGRAÇADO?! — ele rugiu, a voz competindo com o próprio registro melódico.
— — Bakugo! — Hawks levantou as mãos em sinal de paz, embora não conseguisse esconder o sorriso. — Cara, "Bubblegum Bitch" é um hino! Por que você nunca nos contou que era a Marina and The Diamonds da nova geração?
— — EU VOU EXPLODIR ESSA AGÊNCIA INTEIRA! — Bakugo avançou em direção ao console, mas Best Jeanist usou suas fibras para contê-lo gentilmente.
— — Calma, Katsuki. O talento não é algo para se envergonhar — disse o herói das fibras. — A estrutura lírica de "Lies" é fenomenal. Você capturou uma vulnerabilidade que raramente vemos em heróis profissionais.
— — VULNERABILIDADE É O CACETE! — Bakugo se debatia, embora estivesse visivelmente mais constrangido do que propriamente furioso. — Aquilo foram só experimentos! Eu estava testando frequências sonoras para... para melhorar o alcance das minhas explosões!
— — Com letras sobre ser uma "froot"? — Shoto perguntou, com a expressão mais inocente do mundo. — Eu gostei da metáfora sobre o amadurecimento e a colheita. Foi bem sutil.
Bakugo parou de se debater por um momento, olhando para Shoto com um ódio mortal.
— — Meio-a-meio, se você abrir a boca sobre isso para qualquer pessoa na UA, eu juro que apago as suas chamas permanentemente.
— — Tarde demais, garoto — Mirko deu um tapinha nas costas dele, quase o derrubando. — Eu já salvei "Power & Control" na minha playlist de treino. É motivacional pra caramba. Quem diria que você tinha esse lado... teatral?
— — Não é teatral! — Bakugo resmungou, desviando o olhar, as orelhas queimando de vermelho. — É só que... a maioria das músicas de hoje é um lixo. Se eu queria algo que prestasse, eu mesmo tinha que escrever.
— — "I'm not afraid of God, I am afraid of Man" — citou Endeavor, surpreendendo a todos na sala. — É uma linha poderosa, Bakugo. Você tem uma visão clara do mundo. Não deixe que a raiva esconda o fato de que você é um artista.
Katsuki ficou em silêncio. Ver o herói número um elogiar suas letras — letras que ele escreveu em noites de insônia, descontando a frustração de não se sentir bom o suficiente — era algo que ele nunca esperava.
— — Tanto faz — ele resmungou, soltando-se das fibras de Jeanist. — Só... desliguem essa porcaria. E se eu ouvir algum de vocês cantarolando isso pelos corredores, vai ter funeral.
Ele caminhou até o computador, fechou os arquivos com uma velocidade impressionante e arrancou o drive que continha as gravações. Antes de sair, ele parou na porta, de costas para eles.
— — A próxima pasta que eu estava escrevendo se chama "Ancient Dreams in a Modern Land" — ele disse, a voz baixa mas firme. — É melhor que todas essas juntas. Mas nenhum de vocês vai ouvir. Nunca.
Ele bateu a porta ao sair.
Hawks esperou alguns segundos antes de começar a assobiar a melodia de "How to be a Heartbreaker".
— — Ele vai nos matar — disse Shoto.
— — Com certeza — concordou Mirko, já procurando a música no celular. — Mas vale a pena. O moleque é um ícone pop.
No corredor, Bakugo caminhava a passos largos, o coração ainda disparado. Ele sentia uma mistura estranha de fúria e um alívio bizarro. Pela primeira vez, alguém tinha ouvido o que ele realmente pensava, sem que ele precisasse gritar.
Ele colocou os fones de ouvido e deu o play em uma demo inacabada.
— — "I feel like I'm the worst, so I always act like I'm the best" — ele murmurou, seguindo o próprio ritmo.
Talvez, pensou ele, ser um herói e um artista não fossem coisas tão distantes assim. Mas ele ainda ia explodir o Hawks se o visse dançando "Primadonna" outra vez.
