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Amor a distância

Fandom: Romance

Criado: 07/08/2026

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O Eco de Telas Abertas e Almas Partidas

O brilho azulado da tela do celular era a única fonte de luz no quarto luxuoso de Camila. Eram duas da manhã em São Paulo, e o silêncio da casa só era interrompido pela respiração pesada de Marcos ao seu lado. Para quem olhasse de fora, Camila tinha a vida das propagandas de margarina: um marido bem-sucedido, uma filha linda e uma cobertura nos Jardins. Mas, por dentro, ela era uma construção em ruínas, sustentada por vigas de ansiedade que rangiam a cada respiração.

Ela desbloqueou o Instagram pela centésima vez naquela noite. Seus dedos deslizaram mecanicamente pelo feed, ignorando as fotos de viagens e pratos caros de suas "amigas". Camila vivia em um mundo secreto, uma redoma de vidro que ela construiu para não enlouquecer. Em sua mente, ela não era a esposa negligenciada que fingia orgasmos e aceitava migalhas de atenção; ela era uma heroína de romance vitoriano, ou talvez uma viajante do tempo presa em um século que não a entendia.

A ansiedade, porém, não respeitava seus contos de fadas. Ela sentia o aperto no peito, aquela sensação de que o teto iria desabar a qualquer momento. "É pela Júlia", ela sussurrava para si mesma, como um mantra, toda vez que pensava em pedir o divórcio. A filha era o único fio que a prendia àquela realidade cinzenta.

Do outro lado do país, a quase setecentos quilômetros de distância, em uma pequena e gélida cidade no interior do Paraná, Caroline encarava o teto de seu quarto. O som da chuva batendo nas telhas de zinco parecia uma bateria descompassada dentro de sua cabeça.

Caroline sentia que sua mente era um rádio mal sintonizado. Havia dias de euforia absoluta, onde ela sentia que podia tocar as estrelas, e dias — como hoje — em que o Transtorno Afetivo Bipolar a arrastava para o fundo de um oceano de chumbo. Para silenciar o ruído, ela recorria aos seus vícios de estimação: o cigarro eletrônico que nunca saía de sua mão e as madrugadas perdidas em fóruns de discussão e vídeos rápidos de TikTok que não lhe ensinavam nada, mas ocupavam o vazio.

Sua família, uma mistura caótica de cobranças e silêncios punitivos, nunca entendeu o que se passava com ela. Para eles, Caroline era apenas "difícil". Ela se sentia um erro de sistema, uma peça de um quebra-cabeça que foi colocada na caixa errada.

Foi naquela madrugada de 2026, entre um gole de vinho barato de Caroline e uma crise de falta de ar de Camila, que o algoritmo do TikTok decidiu brincar de Deus.

Camila havia postado um vídeo curto, quase sem querer. Era apenas a imagem da chuva na janela com uma música melancólica de piano ao fundo. A legenda dizia apenas: "Às vezes, o castelo é apenas uma prisão com vista".

Caroline, deslizando o dedo pela tela com o olhar vago, parou. Aquela frase a atingiu como um soco no estômago. Ela clicou no perfil. Viu as fotos de Camila — a elegância, a beleza madura, os olhos que, apesar do sorriso nas fotos, pareciam gritar por socorro.

Sem pensar muito, Caroline comentou: "Algumas prisões têm grades de ouro, outras têm paredes de gelo. Mas o frio é o mesmo".

Minutos depois, a notificação brilhou no rosto de Camila. Ela sentiu um calafrio. Ninguém nunca lia o que ela escrevia nas entrelinhas. As pessoas só comentavam "Linda!" ou "Que luxo!". Aquela resposta era diferente. Ela clicou no perfil de Caroline. Viu as fotos da menina de olhar rebelde e profundo, as paisagens bucólicas do Sul e a aura de quem carregava o mundo nas costas.

Camila abriu o direct.

— Suas palavras me causaram um arrepio — escreveu Camila, o coração disparado contra as costelas. — Como você sabe sobre o frio?

Do outro lado, Caroline sentou-se na cama, o cigarro eletrônico esquecido no lençol.

— Eu moro no Paraná — respondeu Caroline, com um sorriso triste nos lábios — e moro dentro da minha própria cabeça. O inverno aqui é eterno, mesmo no verão.

— Entendo perfeitamente — digitou Camila. — Eu vivo em um conto de fadas onde o dragão venceu e a princesa esqueceu o caminho de casa.

— E por que você não foge? — perguntou Caroline, a audácia da juventude e da mania falando mais alto.

— Porque a princesa tem uma pequena herdeira que precisa desse castelo — Camila suspirou, as lágrimas finalmente vencendo a barreira dos cílios. — E porque eu tenho medo de que, lá fora, o ar seja rarefeito demais para mim.

— O ar aqui fora é sujo e bagunçado — Caroline escreveu, sentindo uma conexão estranha e imediata com aquela mulher desconhecida —, mas a gente consegue respirar por conta própria. Sem aparelhos.

As horas passaram como se o tempo tivesse sido suspenso. O que começou com frases curtas transformou-se em um fluxo de consciência. Camila confessou a ansiedade que a paralisava, o segredo de que escrevia poemas que nunca mostraria ao marido, e a dor de ser um enfeite na própria vida. Caroline falou sobre a montanha-russa do TAB, a sensação de não pertencer àquela cidade pequena e conservadora, e como os seus vícios eram apenas tentativas desesperadas de calar os gritos internos.

— Você é muito jovem para se sentir tão acabada — disse Camila em uma mensagem de áudio, sua voz saindo baixa e aveludada, carregada de uma ternura que ela não usava há anos.

— E você é muito viva para estar enterrada nesse casamento — rebateu Caroline, a voz firme apesar do tremor nas mãos. — A idade é só o tempo que a gente levou para descobrir que tudo é uma mentira.

— Às vezes eu acho que sou louca — confessou Camila. — Eu crio mundos inteiros enquanto estou jantando com pessoas que não sabem meu nome do meio.

— Então somos duas loucas — Caroline riu, um som raro que aqueceu o peito de Camila através do alto-falante. — Mas a minha loucura tem nome médico e receita controlada. A sua parece ser apenas o brilho de alguém que está tentando não apagar.

— Você me faz sentir... vista — Camila escreveu, e pela primeira vez em anos, não sentiu o aperto da ansiedade. — É estranho dizer isso para alguém que está a centenas de quilômetros.

— A distância é um detalhe técnico em 2026 — Caroline respondeu. — Eu estou aqui, Camila. Mesmo que seja só através desses pixels.

O sol começou a despontar no horizonte de São Paulo, tingindo o céu de um rosa pálido que Camila costumava descrever em seus diários secretos. No Sul, a neblina cobria as ruas de Caroline, escondendo a cidade que ela tanto detestava.

— Preciso acordar a Júlia para a escola — disse Camila. — O teatro vai começar de novo.

— E eu preciso tentar dormir antes que minha mente decida que hoje é dia de faxina às seis da manhã — Caroline brincou, embora houvesse um fundo de cansaço em suas palavras.

— Não desapareça, Caroline. Por favor.

— Eu não vou a lugar nenhum, Camila. Eu acabei de encontrar algo interessante no meio desse lixo todo que é a internet.

Camila bloqueou o celular e o guardou sob o travesseiro. Ela olhou para Marcos, que ainda dormia, alheio à revolução silenciosa que acabara de ocorrer em seu quarto. Ela se levantou, caminhou até o espelho e viu uma mulher diferente. Os olhos ainda estavam cansados, mas havia uma faísca ali.

No Paraná, Caroline finalmente fechou os olhos. Pela primeira vez em semanas, o rádio em sua cabeça estava sintonizado em uma melodia suave. Ela não se sentia tão errada. Se havia alguém como Camila no mundo, talvez houvesse um lugar para ela também.

O mundo lá fora continuava girando, frenético e digital, mas entre as notificações de redes sociais e o caos da vida moderna, duas almas quebradas haviam acabado de encontrar a cola necessária para começar o conserto. E o segredo, agora, não era mais apenas de Camila. Era delas.

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