
Entre Notas e Notificações
O brilho azulado da tela do celular era a única fonte de luz no quarto escuro de Michael. Ele estava deitado de bruços, com o queixo apoiado nos travesseiros, observando o cursor piscando na barra de mensagens. Eram quase duas da manhã em Neverland, e o silêncio da propriedade só era quebrado pelo som distante do vento nas árvores.
Ele digitava e apagava. Digitava e apagava de novo.
Como se diz à sua melhor amiga que o namorado dela é um idiota sem parecer o "amigo ciumento"? Como explicar que cada vez que ele via uma marca de tristeza no olhar dela, seu coração se partia em mil pedaços?
Michael suspirou, os cachos caindo sobre a testa. Ele a amava. Amava o jeito que ela ria das piadas dele que ninguém mais entendia, amava como ela era alta, elegante, com aquela pele morena que parecia brilhar sob o sol, e como ela era a única pessoa que o tratava apenas como Michael, e não como o Rei do Pop.
O celular vibrou em sua mão, fazendo-o dar um pulo.
S/N: Você está acordado?
Michael sorriu involuntariamente. Seus dedos voaram pelo teclado.
Michael: Sempre. O mundo é mais calmo a esta hora. Aconteceu alguma coisa?
Houve uma pausa longa. Os três pontinhos de "digitando" apareciam e desapareciam, torturando-o.
S/N: O Jason e eu brigamos de novo. Ele saiu e disse que eu sou "sensível demais" porque reclamei que ele esqueceu nosso jantar de aniversário de namoro. De novo.
Michael sentiu uma onda de raiva percorrer seu corpo. Jason era um executivo de marketing que tratava S/N como se ela fosse um acessório, e não a mulher incrível que ela era.
Michael: Sensível demais? S/N, era o aniversário de vocês. É normal querer celebrar. Ele que é esquecido demais com as coisas que realmente importam.
S/N: Não sei, Applehead... Às vezes acho que o problema sou eu. Talvez eu espere demais das pessoas.
Michael sentou-se na cama, encostando as costas na cabeceira entalhada. Ele não aguentava mais ver aquela situação.
Michael: Você não espera demais. Você espera o básico. Respeito, carinho, presença. Coisas que qualquer um daria a você de joelhos.
S/N: Até você? rs
O coração de Michael falhou uma batida. Ele sabia que ela estava brincando, ou tentando aliviar o clima, mas para ele, aquela era a verdade mais absoluta de sua vida.
Michael: Especialmente eu. Eu nunca esqueceria um jantar com você. Eu provavelmente passaria a semana inteira planejando o cardápio.
S/N: Você é doce, Mike. O melhor amigo que alguém poderia ter. Queria que as coisas fossem simples assim.
"Melhor amigo". A expressão que era, ao mesmo tempo, seu refúgio e sua prisão. Michael jogou o celular de lado por um momento e cobriu o rosto com as mãos. Ele queria gritar que não precisava ser complicado, que bastava ela enxergar o que estava bem na frente dela.
Ele pegou o aparelho novamente.
Michael: Por que você ainda está com ele, S/N? Pergunta séria.
S/N: Porque... a gente tem história. E porque eu tenho medo de ficar sozinha, eu acho. E ele pode ser legal quando quer.
Michael: "Quando quer" não é o suficiente para você. Você merece alguém que queira ser legal o tempo todo. Alguém que te veja como a música mais bonita já escrita.
S/N: Uau. Isso foi profundo. Você está escrevendo música nova?
Michael: Estou sempre escrevendo. Mas desta vez, estou apenas sendo honesto.
Do outro lado da cidade, em seu apartamento, S/N sentiu um frio na barriga. Ela estava enrolada em um cobertor, as lágrimas que haviam caído mais cedo já secas em seu rosto. Ela olhou para a foto de Jason no porta-retratos e sentiu um vazio. Depois, olhou para a tela do celular, para as palavras de Michael, e sentiu calor.
Ela sabia. No fundo, ela sempre soube que o que sentia por Michael ultrapassava os limites da amizade. Mas como admitir isso? Michael era... Michael. O homem mais famoso do mundo, mas também o mais gentil. Ela tinha medo de estragar a única coisa pura que tinha em sua vida.
S/N: Michael, não diz essas coisas. Você sabe que eu fico confusa.
Michael: Confusa com o quê? Com a verdade?
S/N: Com a gente. Com o jeito que você me trata. Às vezes eu sinto que... deixa para lá.
Michael: Não deixa para lá. Diz.
S/N: Esquece. O Jason acabou de mandar mensagem dizendo que está voltando. Vou tentar dormir antes que ele chegue para não começarmos outra discussão.
Michael apertou o aparelho com força.
Michael: Tudo bem. Durma bem, S/N. Mas lembre-se do que eu disse. Você é preciosa demais para ser tratada como segunda opção.
Ele não obteve resposta.
Dois dias se passaram. Michael estava no estúdio de gravação em Los Angeles, tentando se concentrar nas harmonias de uma nova balada, mas sua mente estava em outro lugar. Ele não tinha notícias de S/N desde aquela noite, e o silêncio dela o estava matando.
— Michael, vamos tentar o refrão mais uma vez? — pediu o produtor através do vidro.
Michael suspirou e ajustou os fones de ouvido.
— Só um minuto, Bill. Preciso de um pouco de água.
Ele saiu da cabine de gravação e pegou seu celular na mesa lateral. Havia uma notificação. Não era uma mensagem de texto, era uma chamada perdida. Dela.
Ele retornou imediatamente.
— S/N? Está tudo bem? — perguntou ele, assim que ela atendeu, a voz carregada de preocupação.
Houve um silêncio do outro lado, seguido por um fungado baixo.
— Michael... — A voz dela estava embargada. — Você pode vir me buscar?
— Onde você está? O que aconteceu? — Michael já estava pegando sua jaqueta, sinalizando para o produtor que a sessão estava encerrada.
— Estou no parque perto do meu apartamento. A gente... a gente terminou. De verdade desta vez. Ele disse coisas horríveis, Michael. Ele disse que eu passo tempo demais falando com você e que... que eu deveria ir morar em Neverland de uma vez se eu te amo tanto.
O coração de Michael disparou.
— Eu chego aí em quinze minutos. Não saia daí.
Ele voou pelas ruas de Los Angeles em seu SUV preto, com os seguranças o seguindo em outro carro. Quando chegou ao parque, a encontrou sentada em um banco sob a luz de um poste, parecendo pequena e vulnerável.
Michael desceu do carro, ignorando o protocolo de segurança, e correu até ela. S/N se levantou e, sem dizer uma palavra, se jogou nos braços dele. Michael a apertou contra o peito, escondendo o rosto em seu cabelo, sentindo o perfume de baunilha que ele tanto amava.
— Está tudo bem, eu estou aqui — sussurrou ele, acariciando as costas dela. — Eu te peguei.
Eles ficaram assim por um longo tempo. Quando S/N finalmente se afastou um pouco, seus olhos morenos estavam vermelhos e inchados, mas ela deu um pequeno sorriso ao ver a preocupação genuína no rosto dele.
— Eu estraguei tudo, não foi? — perguntou ela, limpando uma lágrima.
— Você não estragou nada — respondeu Michael, segurando o rosto dela com as duas mãos, os polegares acariciando suas bochechas. — Você se libertou de algo que estava te sufocando.
— Ele estava certo sobre uma coisa — disse ela em um sussurro, desviando o olhar.
Michael sentiu o ar faltar em seus pulmões.
— Sobre o quê?
— Sobre eu amar você.
O silêncio que se seguiu foi denso, carregado de anos de sentimentos não ditos. Michael sentiu como se o mundo tivesse parado de girar. Ele aproximou seu rosto do dela, as testas se encostando.
— E você ama? — perguntou ele, a voz rouca.
— Eu tentei negar — confessou S/N, fechando os olhos. — Tentei me convencer de que era só amizade, que você era inalcançável. Mas toda vez que ele me tratava mal, eu pensava em como você me trataria. Toda vez que eu recebia uma mensagem sua, meu dia ganhava cor. Eu te amo, Michael. E tenho tanto medo disso.
Michael soltou um suspiro trêmulo, um sorriso de puro alívio e felicidade surgindo em seus lábios.
— Não tenha medo — disse ele, antes de selar seus lábios nos dela.
O beijo foi calmo, doce e cheio de promessas. Era o encontro de duas almas que esperaram tempo demais para se encontrar. Quando se separaram, Michael a abraçou novamente, desta vez com uma sensação de posse e proteção.
— Vamos para casa — disse ele.
— Para Neverland? — perguntou ela, sorrindo contra o peito dele.
— Para onde você quiser. Mas desta vez, você não vai apenas como minha melhor amiga.
Algumas horas depois, eles estavam na biblioteca de Neverland. Uma lareira estava acesa, e S/N estava vestindo um dos moletons grandes de Michael, sentada no sofá com uma caneca de chocolate quente. Michael estava sentado ao lado dela, com o braço em volta de seus ombros.
O celular dela, que estava sobre a mesa de centro, começou a vibrar. O nome de Jason apareceu na tela.
S/N olhou para o aparelho e depois para Michael.
— Ele está ligando. Provavelmente vai pedir desculpas e dizer que agiu por impulso.
Michael não disse nada, apenas observou-a, respeitando seu espaço, embora o desejo de jogar aquele celular pela janela fosse grande.
S/N pegou o telefone. Ela não atendeu. Em vez disso, abriu o aplicativo de mensagens.
S/N: Não me ligue mais, Jason. Você estava certo sobre uma coisa. Eu amo o Michael. E pela primeira vez na vida, eu vou parar de me contentar com menos do que eu mereço. Acabou.
Ela bloqueou o número e colocou o celular de volta na mesa, virado para baixo.
— Pronto — disse ela, suspirando.
Michael a puxou para mais perto, beijando o topo de sua cabeça.
— Você está bem?
— Estou melhor do que estive em anos — respondeu ela, olhando para ele com carinho. — Sabe, eu sempre achei que a nossa amizade era o topo da montanha. Que não podia ficar melhor que isso.
— E agora? — perguntou Michael, com aquele brilho travesso nos olhos.
— Agora eu percebi que a gente mal começou a subir.
Michael sorriu, o sorriso que iluminava estádios inteiros, mas que naquela noite era apenas para ela.
— Eu tenho tantas músicas para escrever sobre você agora — disse ele. — Acho que o meu próximo álbum vai ser só sobre uma garota morena e alta que finalmente percebeu que o melhor amigo dela é louco por ela.
S/N riu, encostando a cabeça no ombro dele.
— Acho que eu gostaria de ouvir isso.
— Você vai — prometeu Michael. — Mas primeiro...
Ele pegou o celular dele e rapidamente digitou algo. O celular de S/N vibrou na mesa. Ela o pegou, confusa, e abriu a mensagem.
Michael: Eu te amo. Mais do que as palavras podem dizer, mais do que a música pode expressar. Obrigado por finalmente me escolher.
S/N olhou para ele, os olhos brilhando.
— Você está mandando mensagem estando sentado do meu lado? — perguntou ela, rindo.
— Eu queria que ficasse registrado — disse ele, sério, mas com doçura. — Para que na próxima vez que você tiver qualquer dúvida sobre o seu valor, você possa ler isso.
S/N deixou o celular de lado e o abraçou pelo pescoço, derrubando-o levemente no sofá.
— Eu não vou mais ter dúvidas, Applehead. Eu estou exatamente onde eu deveria estar.
Ali, no silêncio acolhedor de Neverland, entre o calor da lareira e o som da respiração um do outro, Michael soube que a melodia de sua vida finalmente estava completa. Não havia mais mensagens não enviadas, nem sentimentos escondidos sob o rótulo de "melhores amigos". Havia apenas eles dois, e um futuro que brilhava mais do que qualquer holofote.
— Promete que não vai esquecer o nosso jantar de amanhã? — brincou ela, os dedos brincando com os cachos dele.
Michael sorriu e a beijou novamente, um beijo que carregava toda a paixão que ele guardara por anos.
— Eu prometo — disse ele contra os lábios dela. — Na verdade, eu já estou planejando o cardápio.
E pela primeira vez em muito tempo, Michael Jackson não era apenas o Rei do Pop ou o ídolo mundial. Ele era apenas um homem apaixonado, segurando em seus braços a mulher que era o seu mundo, sabendo que, desta vez, o amor tinha vencido o roteiro triste e escrito um novo começo.
