
D
Fandom: Nenhum
Criado: 09/08/2026
Tags
Entre o Tatuador, a Bailarina e o Caos
O sol de final de tarde batia contra as janelas de vidro do estúdio principal de Emanuel, criando sombras longas sobre os desenhos de anatomia e as máquinas de tatuagem meticulosamente organizadas. Emanuel, com seus vinte e cinco anos e uma postura que exalava uma autoridade silenciosa, observava o movimento da rua lá embaixo. Ele era um homem de contrastes: a pele marcada pela arte que o tornou rico e renomado, e uma mente que funcionava com a precisão de um relógio suíço.
A porta do escritório se abriu com um estrondo familiar. Sara entrou, preenchendo o ambiente com o perfume caro e a presença magnética que sempre a precedia. O vestido justo de seda vermelha acentuava cada curva, inclusive a quase imperceptível mudança em seu ventre. Ela era o fogo, a provocação em forma de mulher, e Emanuel a amava com uma intensidade que beirava o possessivo.
— Você está muito sério hoje, Manu — disse ela, caminhando com passos decididos até ele e sentando-se em seu colo, sem pedir licença. — O que está ocupando essa cabeça cheia de problemas?
Emanuel envolveu a cintura dela, sentindo a firmeza do corpo de Sara contra o seu.
— Só pensando na viagem para a fazenda. O grupo todo vai estar lá. Quero que tudo seja perfeito para o anúncio.
Sara soltou uma risada anasalada, passando a unha bem feita pelo queixo dele.
— O anúncio do nosso herdeiro ou o fato de que você está morrendo de vontade de morder a Eduarda toda vez que ela entra na sala?
Emanuel não desviou o olhar. Não havia segredos entre eles. Ele já havia confessado a Sara que Eduarda, com seu jeito doce e sua fragilidade de bailarina, despertava nele um instinto de proteção e um desejo que ele não conseguia explicar logicamente. E Sara, sendo a mulher pragmática e segura que era, não via Eduarda como uma ameaça. Para ela, a menina era como uma boneca de porcelana que Emanuel queria colecionar, e se isso o fizesse feliz, ela não se importava em dividir o espaço.
— Eu já disse que meu foco agora é você e o bebê — respondeu ele, a voz rouca. — Eduarda é... um assunto para depois.
— Ela é uma gracinha, Manu. Eu até gosto dela. Se você quer ela por perto, por mim, tudo bem. Só não aguento mais ver você olhando para ela como se ela fosse quebrar enquanto eu estou aqui, carregando seu filho.
— Você nunca quebra, Sara. Você é feita de aço.
— E de silicone de alta qualidade — ela brincou, beijando-o com fome antes de se levantar. — Vamos. Temos que arrumar as malas. A fazenda nos espera.
Enquanto isso, no outro lado da cidade, Eduarda terminava de dar aula para sua turma de ballet infantil. O piano suave ainda ecoava em sua mente enquanto ela ajudava as crianças a guardarem as sapatilhas. Ela se sentia exausta, uma fadiga que ia além do esforço físico das piruetas. Seus seios estavam sensíveis, pesando sob o collant claro, e uma náusea leve a acompanhava desde o café da manhã.
Eduarda estava grávida de dois meses. O pai, um estudante de arquitetura com quem ela teve um breve romance, desapareceu assim que ela mostrou o teste positivo. Bloqueou o número, mudou de cidade, sumiu. E Eduarda, em sua timidez crônica e medo de decepcionar os pais — que eram jovens, modernos e bem-sucedidos —, guardou o segredo para si.
Ela se olhou no espelho da sala de dança. Seu corpo esguio ainda não dava sinais óbvios, mas ela sentia a mudança. Sentia-se mais vulnerável do que nunca. E, por algum motivo que ela não ousava admitir, a imagem de Emanuel não saía de sua cabeça. Ele sempre foi o porto seguro do grupo, o homem que resolvia tudo com um olhar firme. Toda vez que ele a olhava, Eduarda sentia um arrepio que não era de medo, mas de uma necessidade profunda de ser cuidada.
— Duda? — A voz de uma das amigas do grupo a tirou do transe. — Vamos? O carro está esperando. A viagem para a fazenda do Emanuel começa agora!
Eduarda forçou um sorriso, escondendo o cansaço.
— Já vou. Só vou pegar meu casaco.
A fazenda da família de Emanuel era um refúgio de luxo encravado entre montanhas verdes e ar puro. O grupo de amigos, composto por cerca de dez pessoas, já estava animado, abrindo vinhos e aproveitando a estrutura da casa colonial reformada.
Emanuel circulava entre os convidados, mas seus olhos buscavam constantemente duas figuras. Sara, que brilhava no centro da sala com um copo de suco (por ordens rígidas dele), e Eduarda, que estava sentada em um canto do sofá, envolta em um cardigã bege, parecendo querer desaparecer na mobília.
— Você está bem, pequena? — Emanuel se aproximou de Eduarda, ignorando por um momento a conversa sobre negócios que tinha com outro amigo.
Eduarda levantou os olhos castanhos, expressivos e carregados de uma melancolia que Emanuel não soube identificar.
— Só um pouco de dor de cabeça, Manu. O caminho foi longo.
— Você precisa comer algo. Está mais pálida que o normal — ele disse, a mão movendo-se instintivamente para tocar a testa dela, verificando a temperatura.
O toque de Emanuel era quente e firme. Eduarda fechou os olhos por um segundo, inclinando-se levemente para o toque dele, como um gato buscando carinho.
— Eu estou bem, de verdade.
— Não está — ele decretou, o tom controlador surgindo. — Vou pedir para prepararem um chá e algo leve para você. Não quero você desmaiando na minha fazenda.
Sara, observando a cena de longe com um sorriso irônico, aproximou-se balançando os quadris. Ela usava um conjunto de linho branco que, apesar de elegante, era ousado o suficiente para atrair todos os olhares masculinos da sala.
— Deixa a menina respirar, Manu. Você sufoca as pessoas com esse seu instinto de babá.
— Ela está mal, Sara — Emanuel retrucou, sem tirar a mão do ombro de Eduarda.
— Ela está é com fome, provavelmente — Sara disse, piscando para Eduarda. — Oi, Duda. Adorei sua sapatilha nova que vi no Instagram. Depois quero que você me dê umas dicas de postura, minha coluna está me matando.
Eduarda sorriu timidamente para Sara. Ela não conseguia odiar a namorada de Emanuel. Sara era barulhenta e vulgar às vezes, mas tinha uma energia vibrante que Eduarda secretamente admirava.
— Claro, Sara. Quando você quiser.
Emanuel sentiu a tensão em seus ombros diminuir um pouco ao ver as duas interagindo. Ele queria aquilo. Queria a força de Sara e a delicadeza de Eduarda sob o mesmo teto, sob sua proteção.
— Atenção, pessoal! — Emanuel elevou a voz, chamando a atenção do grupo que se espalhava pela sala de estar.
Ele passou o braço pela cintura de Sara, trazendo-a para perto. O momento tinha chegado.
— Eu e a Sara temos um comunicado a fazer. Como vocês sabem, estamos juntos há algum tempo e... bom, a família vai aumentar. A Sara está grávida.
Um coro de gritos, aplausos e assobios tomou conta da sala. Os amigos correram para abraçá-los. Emanuel mantinha um sorriso contido, mas seus olhos brilhavam de orgulho. Ele seria pai. Ele tinha o controle de sua linhagem agora.
No canto do sofá, o mundo de Eduarda pareceu girar mais rápido. Ela sentiu uma pontada no ventre e uma onda de náusea tão forte que precisou tapar a boca com a mão. A ironia da situação era um peso esmagador: o homem que ela secretamente desejava, o homem que a tratava com uma doçura protetora, estava comemorando a chegada de um filho com a mulher que ele amava. E ela, Eduarda, estava carregando um segredo solitário, um filho de um homem que a descartou como lixo.
Ela se levantou rapidamente, tentando não chamar atenção.
— Com licença... eu... eu preciso de um pouco de ar.
Ela saiu para a varanda ampla, respirando o ar frio da noite. As lágrimas teimaram em descer. Ela se sentia tão pequena, tão insuficiente.
— O que foi? — A voz de Emanuel soou atrás dela, firme e preocupada.
Ele a seguiu. Sempre a seguia.
— Nada, Manu. Parabéns pelo bebê. É uma notícia maravilhosa.
Emanuel caminhou até ela, ficando a poucos centímetros de distância. Ele podia sentir o cheiro de lavanda que sempre emanava dela. Ele percebeu o rastro de lágrima em seu rosto.
— Você está chorando, Eduarda. Por que está chorando?
— É só a emoção — ela mentiu, a voz falhando.
Emanuel não acreditou. Ele era um observador nato. Ele viu a forma como ela segurou a própria barriga por um breve momento antes de se recompor. Ele viu o medo nos olhos dela.
— Tem algo errado. Você não está apenas cansada.
— Emanuel, por favor, volte para lá. É a sua noite. A noite da Sara.
— A Sara sabe que eu estou aqui com você — ele disse, a voz baixando para um tom íntimo. — Ela não se importa. E eu me importo. O que está acontecendo com você?
Eduarda sentiu que ia desmoronar. A proteção dele era sua maior fraqueza.
— Eu não posso contar — ela sussurrou.
— Você pode me contar qualquer coisa. Eu resolvo. Você sabe que eu resolvo.
Emanuel deu um passo à frente, cercando-a contra o parapeito da varanda. Ele não a tocava de forma imprópria, mas sua presença era absoluta. Ele era o muro que a impedia de cair.
— O pai dele foi embora — ela soltou, antes que pudesse processar a própria fala.
O silêncio que se seguiu foi pesado. Emanuel franziu a testa, processando as palavras. Sua mente lógica conectou os pontos rapidamente: a palidez, a náusea, o choro, o toque na barriga.
— Você está grávida? — A pergunta dele saiu como um trovão baixo.
Eduarda apenas assentiu, as lágrimas fluindo livremente agora.
Emanuel sentiu uma onda de fúria e, ao mesmo tempo, um instinto possessivo avassalador. Alguém tinha tocado nela, alguém tinha a engravidado e a deixado desamparada. A ideia de Eduarda sofrendo sozinha enquanto ele estava focado em seus estúdios e em Sara o irritou profundamente.
— Quem foi o desgraçado? — ele perguntou, a voz gélida, o controle começando a escorregar.
— Não importa, Manu. Ele não quer saber. Ninguém sabe. Meus pais não sabem.
Emanuel respirou fundo, tentando acalmar o batimento acelerado do coração. Ele olhou para dentro da sala, onde Sara ria com uma taça de água na mão, e depois voltou para Eduarda, a criatura frágil que parecia prestes a quebrar sob o luar.
Ele estendeu a mão e acariciou o rosto dela, limpando as lágrimas com o polegar.
— Agora eu sei — ele disse, com uma autoridade que não admitia discussões. — E se eu sei, você não está mais sozinha.
— Mas a Sara... o seu bebê...
— A Sara vai entender. Ela já entende muito mais do que você imagina — Emanuel inclinou a cabeça, aproximando seu rosto do dela. — Eu cuido da Sara e do meu filho. E agora, eu cuido de você e desse bebê também. Você não vai contar para mais ninguém por enquanto. Eu vou assumir isso.
— O que você quer dizer com "assumir"? — Eduarda perguntou, confusa e trêmula.
— Quero dizer que você é minha responsabilidade agora, Eduarda. Minha e da Sara. Você vai morar perto da gente, você vai ter os melhores médicos, e ninguém vai encostar um dedo em você ou te julgar.
Eduarda olhou para ele, chocada. Ela esperava julgamento, ou talvez um conselho distante. Ela não esperava ser "reclamada" daquela forma.
— Emanuel, você não pode simplesmente decidir isso...
— Eu acabei de decidir.
A porta da varanda se abriu e Sara apareceu, encostando-se no batente com um sorriso cúmplice. Ela tinha ouvido o suficiente.
— Ele tem razão, bonequinha — Sara disse, caminhando até eles e colocando a mão no outro ombro de Eduarda. — Se o babaca fugiu, o Manu resolve. E eu sempre quis saber como é ter uma irmãzinha... ou uma co-esposa, se a gente quiser ser moderna de verdade.
Eduarda olhou de um para o outro, sentindo-se pequena entre os dois gigantes de personalidade. Emanuel, o porto seguro e controlador; Sara, a força provocadora e desinibida.
— Vocês estão falando sério? — Eduarda perguntou, a voz pequena.
Emanuel olhou para Sara, que assentiu com um brilho de diversão e aceitação nos olhos. Ele então voltou-se para Eduarda, segurando as mãos dela entre as suas.
— Eu nunca falei tão sério em toda a minha vida. Eu amo a Sara, e vou amar nosso filho. Mas eu não vou deixar você escapar, Eduarda. Eu quero as duas. Eu vou ter as duas.
Naquela noite, na fazenda, o destino de três pessoas — e de duas novas vidas que ainda nem tinham nascido — foi selado sob o céu estrelado. Emanuel tinha o controle novamente, ou pelo menos a ilusão dele, enquanto protegia as duas mulheres que compunham o seu mundo de contrastes. O caos estava apenas começando, mas, para Eduarda, pela primeira vez em meses, o peso em seu peito pareceu um pouco mais leve. Ela tinha um dono, ela tinha um lar, e ela tinha um segredo que agora era compartilhado por mãos poderosas.
