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Amor sombrio

Fandom: Harry Potter

Criado: 09/08/2026

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A Tinta que Sangra e o Coração que Bate

O Salão Comunal da Sonserina estava mergulhado em um silêncio sepulcral, interrompido apenas pelo estalar ocasional das brasas esverdeadas na lareira de pedra esculpida. Clara Weasley estava encolhida em uma poltrona de veludo num canto escuro, longe da luz e, principalmente, longe dos olhares alheios.

Ela apertava o pequeno caderno de capa de couro preta contra o peito, sentindo o relevo das letras douradas na parte de trás: T.M. Riddle.

Clara sempre fora o erro na equação perfeita dos Weasley. Onde havia o fogo dos cabelos ruivos, ela carregava fios castanhos e opacos. Onde havia a magreza ágil dos irmãos, ela carregava curvas que a faziam se sentir pesada e desajeitada no uniforme da escola. A única Weasley a não ir para a Grifinória; a única a carregar o peso do verde e prata em uma família que respirava o ouro e o vermelho.

Para sua família, ela era uma nota de rodapé. Para a Sonserina, ela era uma "traidora do sangue" que nem sequer tinha a aparência de uma.

— Eles não entendem você, não é, Clara? — A voz não veio do ar, mas de dentro de sua mente, ecoando as palavras que haviam acabado de aparecer nas páginas do diário.

Clara abriu o caderno, pegou a pena e, com as mãos levemente trêmulas, escreveu sobre o papel amarelado.

— Ninguém entende. Eu sou invisível, Tom. Ou pior, sou o alvo quando decidem olhar.

A tinta preta foi absorvida pelo papel como se a página estivesse faminta. Segundos depois, uma caligrafia elegante e perfeita começou a se formar, respondendo-a.

— Ser diferente é um fardo que apenas os fortes conseguem carregar. Eu também fui um órfão sem lugar no mundo, Clara. Mas eu criei o meu próprio lugar. Eu posso ajudar você a fazer o mesmo.

Clara sentiu um calor estranho subir pelo peito. Tom era o único que não a julgava pelo tamanho de suas vestes ou pela cor de seu cabelo. Ele não ria quando ela tropeçava nos degraus das escadarias móveis.

Ela não sabia que, dentro daquela névoa de memória e magia negra, a consciência de Tom Riddle a observava com uma precisão predatória. A princípio, Clara Weasley era apenas o instrumento perfeito. Uma garota vulnerável, sedenta por atenção, fácil de manipular. Ele precisava de alguém para abrir a Câmara Secreta, alguém para derramar o sangue dos impuros e restaurar a glória de Slytherin.

Mas algo estava mudando na estática daquela conexão mágica.

Semanas se passaram. Tom a induzia a estados de transe, usando seu corpo para pichar mensagens de sangue nas paredes do castelo, mas, toda vez que ela retomava a consciência e voltava a escrever para ele, chorando de pavor e solidão, Tom sentia um puxão incômodo na essência de sua alma fragmentada.

— Por que você chora? — as letras apareceram no diário enquanto Clara soluçava no banheiro feminino do segundo andar.

— Ronald me chamou de vergonha da família na frente de todos — escreveu ela, a tinta borrada por uma lágrima que caiu sobre o papel. — Ele disse que até o Percy tem mais personalidade que eu. Que eu sou apenas... um erro de percurso.

Houve uma pausa longa no papel. Tom Riddle, ou o que restava dele ali, sentiu uma fúria que não era parte do plano. Ele deveria estar rindo da fraqueza dela. Ele deveria estar preparando-a para o sacrifício final. Em vez disso, ele se viu querendo materializar uma mão para secar aquele rosto.

— Eles são pequenos, Clara — escreveu Tom, a tinta surgindo mais forte, quase agressiva. — Eles são poeira diante do que você pode se tornar. Você tem o sangue dos antigos, mesmo que seu pai o tenha negligenciado. Você é minha. E ninguém tem o direito de diminuir o que me pertence.

Clara parou de chorar, relendo a frase: Você é minha.

— O que você quer dizer com isso? — perguntou ela, o coração disparado.

De repente, a névoa ao redor de Clara escureceu. Ela não estava mais sentada no chão frio do banheiro. O ambiente se transformou em uma versão nebulosa da Sala Comunal, mas sem ninguém. À sua frente, um jovem alto, de cabelos escuros e perfeitamente penteados, vestindo o uniforme de Hogwarts de décadas atrás, surgiu da penumbra.

Era Tom. Não apenas palavras em um papel, mas uma projeção sólida e hipnotizante.

— Quero dizer — disse ele, sua voz sendo um barítono suave que fez a pele de Clara arrepiar — que eu vejo o que eles se recusam a ver. Eu vejo a força escondida sob essa insegurança.

Clara levantou-se, sentindo-se pequena diante daquela figura impecável. Ela tentou puxar as vestes para esconder o corpo, um reflexo automático de quem sempre foi alvo de piadas.

— Você não precisa se esconder de mim — disse Tom, dando um passo à frente.

— Eu não sou como as garotas que você conheceu no seu tempo, Tom — sussurrou ela, baixando o olhar. — Eu sou... eu sou desajeitada. Eu sou gorda. Eu sou a Weasley errada.

Tom estendeu a mão e, embora fosse uma projeção de memória, Clara sentiu o toque frio e elétrico sob seu queixo, forçando-a a olhar para ele. Os olhos de Tom eram escuros, profundos como um abismo, mas havia neles uma faísca que ele não conseguia entender. Ele pretendia usá-la como uma bateria de energia vital até que ela não passasse de uma casca vazia. No entanto, observar a alma de Clara — uma alma tão pura e, ao mesmo tempo, tão ferida — estava causando um curto-circuito em sua natureza cruel.

— Você é a única que me deu vida em cinquenta anos — disse ele, a voz carregada de uma intensidade perigosa. — Você acha que eu me importo com os padrões medíocres de beleza desses idiotas que povoam este castelo? Eu vejo sua mente. Eu vejo sua lealdade.

— Você está sendo gentil porque precisa de mim — disse Clara, uma ponta de lucidez brilhando em meio ao encantamento.

Tom sorriu, um sorriso que não chegou aos olhos, mas que ainda assim era devastador.

— No início, sim. Eu precisava de uma chave para abrir portas trancadas. Mas agora... — Ele se aproximou mais, o cheiro de papel antigo e magia gelada a envolvendo. — Agora, eu me pego esperando pelo momento em que você vai abrir o diário. Eu me pego odiando os momentos em que você não está falando comigo. Isso não estava nos meus planos, Clara.

— O que você quer de mim, Tom? — perguntou ela, a voz trêmula.

— Eu quero que você pare de se desculpar por existir — respondeu ele. — E eu quero que você seja a rainha deste lugar ao meu lado. Eles riram de você, não riram?

Clara assentiu, lembrando-se das risadinhas de Pansy Parkinson e dos comentários maldosos de seus próprios irmãos no Salão Principal.

— Então deixe-me dar a você o poder de fazê-los calar a boca.

— Eu tenho medo — confessou ela.

— O medo é apenas a ausência de controle — disse Tom, deslizando a mão pelo rosto de Clara, seu polegar traçando o contorno de seus lábios. — Confie em mim. Eu vou transformar cada lágrima que você derramou em um grito de arrependimento daqueles que a feriram.

Clara fechou os olhos, entregando-se àquela sensação de ser, pela primeira vez na vida, a primeira opção de alguém. Ela não sabia que estava alimentando um monstro; ela apenas sentia que, no escuro do diário, ela finalmente tinha encontrado uma luz.

Tom, por outro lado, sentiu um aperto estranho onde deveria estar seu coração. Ele sabia que precisava do sacrifício dela para retornar plenamente. Mas, enquanto olhava para a garota de cabelos castanhos à sua frente, o herdeiro de Slytherin hesitou. Pela primeira vez em sua existência, a conquista do poder parecia terrivelmente solitária se Clara Weasley não estivesse lá para testemunhá-la.

— Promete que não vai me deixar? — perguntou ela, abrindo os olhos.

Tom Riddle inclinou a cabeça, o rosto a centímetros do dela.

— Eu nunca deixaria você, Clara. Você é a parte mais interessante deste século medíocre.

Ele a puxou para um abraço frio, e Clara se sentiu segura. Ela não viu o brilho vermelho que lampejou nos olhos de Tom por um segundo, nem a forma como as páginas do diário em seu colo começaram a sangrar uma tinta escura e densa.

Naquela noite, a Câmara Secreta não foi aberta. Tom Riddle decidiu que, antes de destruir o mundo, ele queria ver Clara Weasley aprender a amá-lo. E, talvez, em sua arrogância distorcida, ele estivesse começando a aprender que até mesmo um lorde das trevas poderia ser cativado pela beleza de uma alma quebrada.

— Vamos escrever uma nova história, Clara — sussurrou ele no ouvido dela, enquanto a visão da Sala Comunal desaparecia e ela voltava para a realidade fria do banheiro. — Uma onde você nunca mais será invisível.

Clara pegou a pena novamente.

— Eu gostaria disso, Tom.

— Então comece por não esconder mais quem você é — escreveu ele. — Amanhã, você entrará naquele Salão Principal como se fosse a dona de cada centímetro de pedra deste castelo. E eu estarei com você. Em cada palavra, em cada pensamento.

Clara sorriu, um sorriso pequeno e perigoso que nunca havia habitado o rosto de uma Weasley antes. Ela fechou o diário com cuidado, sentindo-se, pela primeira vez, completa. Ela não era apenas a Weasley gordinha e excluída. Ela era a protegida de Tom Riddle. E o mundo bruxo não tinha ideia do que estava por vir.

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