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Fandom: Dead Plate

Criado: 09/08/2026

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O Tempero Amargo da Traição

O silêncio do bistrô La Gueule de Saturne nunca pareceu tão ensurdecedor. O cheiro de alecrim e carne assada, que antes trazia a Rody uma sensação de conforto e a promessa de um salário no fim do mês, agora cheirava a ferro, a mofo e a morte. Suas mãos tremiam tanto que ele quase derrubou a lanterna. Os papéis espalhados sobre a mesa de Vincent não mentiam. As fotos, os recortes, os detalhes sórdidos que ligavam o chef sofisticado ao desaparecimento — não, ao assassinato — de Manon.

O som de passos lentos e ritmados ecoou pelo corredor de ladrilhos frios. O som de sapatos de couro caros batendo contra o chão, um metrônomo que marcava os últimos segundos de paz de Rody.

— Rody? — A voz de Vincent era calma, gélida como uma lâmina de aço recém-afiada. — O expediente já acabou. Por que você ainda está na minha sala mexendo no que não deve?

Rody sentiu o estômago revirar. Ele era maior que Vincent, mais largo e, em qualquer outra situação, sua energia de "golden retriever" — como os outros garçons costumavam dizer — o faria sorrir e inventar uma desculpa boba. Mas agora, seus olhos estavam arregalados, as pupilas dilatadas pelo terror puro.

— Você a matou — sussurrou Rody, a voz falhando. — Você... você a transformou em...

— Em arte, Rody. Em algo útil — interrompeu Vincent, aparecendo no batente da porta. A luz fraca do corredor projetava uma sombra longa e distorcida sobre o tapete. Ele não parecia arrependido. Ele parecia entediado.

O pânico finalmente assumiu o controle. Rody não pensou; ele apenas agiu. Ele empurrou a cadeira pesada de carvalho na direção de Vincent e correu para o lado oposto da sala, ficando encurralado entre a estante de vinhos raros e a mesa principal. Vincent desviou da cadeira com uma elegância irritante, seus olhos escuros fixos no garçom.

— Não há para onde ir, Rody. O restaurante está trancado.

Rody tateou desesperadamente a superfície da mesa atrás de si. Seus dedos encontraram o gargalo de uma garrafa de vinho que ele mesmo havia trazido para Vincent mais cedo. Em um movimento brusco, ele a chocou contra a quina da mesa de mármore. O som do vidro quebrando foi como um tiro no ambiente silencioso.

Vincent deu um passo à frente, a expressão imperturbável, embora seus músculos estivessem tensos. Ele era forte, um homem que passava horas lidando com carcaças pesadas e facas de precisão, mas Rody tinha a vantagem da adrenalina e de uma estatura que impunha respeito, mesmo quando ele estava apavorado.

— Afaste-se! — gritou Rody, segurando o que restava da garrafa, as pontas de vidro serrilhadas brilhando sob a luz da lua que filtrava pelas cortinas entreabertas.

— Você sempre foi um funcionário tão dedicado — disse Vincent, ignorando o aviso e encurtando a distância. — É uma pena que a curiosidade tenha arruinado o seu paladar.

Vincent avançou com uma rapidez predatória. Ele tentou agarrar o braço de Rody, sua mão fria fechando-se como uma garra em torno do pulso do garçom. Rody rugiu, uma mistura de medo e fúria, e usou sua força superior para empurrar Vincent contra a parede.

No caos do movimento, quando Vincent tentou revidar com um golpe seco no estômago de Rody, o garçom golpeou para baixo com a garrafa quebrada.

O vidro rasgou o tecido caro do dólmã branco de Vincent, afundando na carne do ombro, perigosamente perto da curva do pescoço.

Um som agudo de sucção de ar escapou dos lábios de Vincent. Ele recuou um passo, a mão subindo instantaneamente para a ferida. O sangue, escuro e quente, começou a manchar o branco imaculado de seu uniforme, escorrendo por entre seus dedos longos e pálidos.

Rody soltou o que restava da garrafa, que caiu no tapete com um baque surdo. Ele estava ofegante, o peito subindo e descendo violentamente, os olhos fixos no líquido vermelho que agora decorava seu chefe.

— Você... você me obrigou a fazer isso — disse Rody, a voz embargada.

Vincent não gritou. Ele nem sequer xingou. Ele apenas inclinou a cabeça ligeiramente para o lado, observando o próprio sangue com uma curiosidade clínica, antes de voltar o olhar para Rody. Havia algo diferente naqueles olhos agora. Não era apenas a frieza habitual; era um brilho novo, algo que beirava o fascínio.

— Olhe para você — murmurou Vincent, a voz levemente trêmula pela dor, mas ainda carregada de uma autoridade sombria. — Você finalmente tem algum sabor, Rody.

— Cale a boca! — Rody deu um passo para trás, esbarrando na janela. — Eu vou chamar a polícia. Eu vou contar tudo.

Vincent deu uma risada curta e seca, que terminou em uma careta de dor.

— E quem vai acreditar no garçom que acabou de esfaquear o chef mais renomado da cidade dentro de sua própria sala? — Vincent deu um passo instável em direção a ele, a mão ainda pressionando o ombro sangrento. — Olhe para as suas mãos, Rody. Elas estão sujas do meu sangue agora. Você faz parte disso.

Rody olhou para as próprias palmas. Ele estava manchado. O cheiro de Vincent — uma mistura de sabão caro, fumaça de cigarro e agora o odor metálico de sangue — parecia impregnar seus poros. Ele sentiu uma náusea avassaladora. Ele deveria fugir, deveria pular pela janela, mas seus pés pareciam colados ao chão.

— Eu não sou como você — cuspiu Rody, embora a dúvida começasse a corroer suas certezas.

— Ainda não — respondeu Vincent, um sorriso cruel e mínimo surgindo em seus lábios pálidos. — Mas eu vejo o potencial. A força que você usou... o modo como você não hesitou em me marcar.

Vincent cambaleou levemente, a perda de sangue começando a afetar seu equilíbrio. Rody, por puro instinto — aquele maldito instinto de ajudar que ele não conseguia desligar, mesmo diante de um monstro —, deu um passo à frente para segurá-lo pelos braços.

A diferença de altura era óbvia. Rody o segurava com firmeza, seus braços fortes sustentando o peso de Vincent. Por um momento, eles ficaram ali, no centro da sala escura, unidos pelo ferimento e pela traição. Vincent encostou a testa no peito de Rody, respirando pesadamente.

— Por que você não termina o serviço? — provocou Vincent em um sussurro contra o tecido da camisa de Rody. — Você tem a força para isso. É só apertar o meu pescoço.

Os dedos de Rody se fecharam com mais força nos braços de Vincent, mas ele não o apertou para matar. Ele estava paralisado. O ódio que ele sentia por Vincent por causa de Manon estava colidindo com uma atração distorcida e doentia que ele vinha tentando ignorar há meses. Vincent era um enigma, um mestre que o tratava como lixo e, ao mesmo tempo, lhe dava a atenção que ele nunca teve de ninguém.

— Eu odeio você — disse Rody, as lágrimas finalmente começando a descer.

— Eu sei — respondeu Vincent, fechando os olhos por um momento, deliciando-se com a dor e com o calor que emanava do corpo de Rody. — É o começo mais honesto que já tivemos.

Rody o empurrou para a poltrona de couro, deixando-o cair ali. Vincent soltou um gemido baixo, o rosto ficando cada vez mais pálido.

— Eu não vou deixar você morrer — disse Rody, pegando um pano de prato limpo que estava sobre o aparador e jogando sobre o ombro de Vincent. — Não porque eu me importe. Mas porque você vai pagar pelo que fez com ela. De um jeito ou de outro.

Vincent olhou para o pano, depois para Rody, que já se afastava para buscar o telefone na recepção, mas parou na porta, olhando uma última vez para o homem ferido.

— Você não vai a lugar nenhum, Rody — disse Vincent, sua voz recuperando um pouco da firmeza. — Você está preso a mim agora. Esse restaurante, esse segredo... esse sangue. É o nosso contrato.

Rody não respondeu. Ele saiu da sala, o som de seus passos pesados ecoando pelo restaurante vazio. Ele sabia que Vincent tinha razão em uma coisa: nada jamais voltaria a ser como antes. O "golden retriever" tinha mostrado os dentes, e o mestre tinha gostado da mordida.

Lá fora, a chuva começou a cair, lavando as ruas de Paris, mas nada seria capaz de limpar o que tinha acontecido naquela sala. O jogo de gato e rato apenas havia mudado de fase. Agora, as garras estavam expostas, e o sabor da perseguição tinha se tornado pessoal demais para ser ignorado.

Rody pegou o telefone, mas seus dedos hesitaram sobre os números. Ele olhou para o corredor escuro que levava à sala de Vincent. O ódio queimava em seu peito, mas sob ele, uma curiosidade sombria e uma dependência que ele não ousava admitir começavam a criar raízes.

Ele não discou para a polícia. Em vez disso, ele voltou para a sala com um kit de primeiros socorros.

Vincent, ao vê-lo entrar novamente, permitiu-se um sorriso vitorioso, apesar da agonia.

— Sabia que você voltaria — murmurou o chef.

— Cale a boca e não se mexa — rosnou Rody, ajoelhando-se entre as pernas de Vincent para limpar a ferida que ele mesmo causara.

A tensão entre eles era palpável, um fio elétrico prestes a romper. O "slow burn" de sua animosidade estava apenas começando a se transformar em algo muito mais perigoso e intoxicante. Naquela noite, Manon foi quase esquecida diante da realidade sangrenta e imediata de dois homens presos em uma dança de poder, dor e uma obsessão que nenhum deles estava pronto para nomear.

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