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Garras e Venenos

Fandom: Gachiakuta

Criado: 09/08/2026

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DramaAngústiaPsicológicoDistopiaPós-ApocalípticoEstudo de PersonagemCiúmesCenário Canônico
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O Veneno no Limiar do Silêncio

A noite em Underground nunca era verdadeiramente silenciosa. Havia sempre o som distante de engrenagens, o eco de detritos caindo ou o vento uivante que parecia carregar o cheiro de ferrugem e abandono. Mas, no quartel-general dos Zeladores, o silêncio era uma regra de ouro, especialmente durante as horas de descanso.

Zanka Nijiku não estava descansando. Ele estava sentado na beira de sua cama, a luz de uma única luminária a óleo projetando sombras longas e afiadas contra as paredes. Ele polia sua arma, o cajado "Love and Peace", com uma dedicação que beirava o ritualístico. Cada movimento era preciso, cada fibra de seu ser focada na manutenção da ferramenta que definia sua existência.

Um ruído sutil veio da janela. Não era o som do vento. Era o som de garras arranhando levemente o metal da moldura.

Zanka nem sequer levantou os olhos, embora seus dedos tenham apertado o cabo do cajado com um pouco mais de força.

— Você está ficando previsível, Jabber — murmurou Zanka, a voz baixa e carregada de uma irritação cansada.

Uma silhueta esguia e desengonçada saltou para dentro do quarto, aterrissando sem fazer barulho, como um predador que esqueceu como caçar. Jabber endireitou o corpo, soltando aquela risada abafada e maníaca que sempre fazia os pelos da nuca de Zanka se arrepiarem. Ele não estava usando suas luvas de garras venenosas; suas mãos estavam nuas, os dedos longos brincando com os fios de seu cabelo bagunçado.

— Previsível? Ora, Zanka, que falta de educação — disse Jabber, aproximando-se com passos saltitantes, parando a poucos centímetros da zona de alcance do cajado. — Eu prefiro o termo "consistente". Além disso, você sabe que eu adoro ver essa sua cara de quem está mastigando pregos.

Zanka finalmente ergueu o olhar. Seus olhos eram frios, analisando o intruso em busca de qualquer sinal de hostilidade imediata.

— Por que você continua vindo aqui? — perguntou Zanka. — Somos inimigos. Se eu desse o alerta agora, você não sairia vivo deste prédio.

Jabber inclinou a cabeça para o lado, um sorriso largo e perturbador rasgando seu rosto. Ele deu um passo à frente, invadindo o espaço pessoal de Zanka de propósito, apenas para ver a mandíbula do Zelador se retesar.

— Ah, mas é aí que está a graça, não é? O perigo! — Jabber soltou um suspiro teatral, quase um gemido de prazer. — A ideia de que você poderia me perfurar a qualquer momento... faz meu sangue ferver. E, admita, você gosta das minhas visitas. O silêncio deste lugar deve ser um tédio mortal para alguém tão sério quanto você.

— Eu aprecio o tédio — rebateu Zanka, voltando a polir sua arma, embora seus sentidos estivessem totalmente voltados para o homem à sua frente. — O tédio significa que não há lixo para limpar. E você é o maior pedaço de lixo que eu já conheci.

Jabber riu alto, um som que Zanka rapidamente abafou jogando um pano de limpeza no rosto do arruaceiro.

— Shh! Cale a boca, idiota. Quer que o prédio inteiro acorde?

Jabber pegou o pano com agilidade, cheirando-o com uma expressão de êxtase fingido antes de jogá-lo de volta.

— O grande Zanka, preocupado com as regras? Que fofo. Diga-me, como está o pequeno Rudo? Ainda tentando salvar o mundo com aquele olhar de cachorrinho perdido?

— Não fale dele — a voz de Zanka subiu um tom, a advertência clara.

— Tão protetor... — Jabber se sentou no chão, bem na frente de Zanka, cruzando as pernas de forma relaxada. — Sabe, às vezes eu me pergunto o que aconteceria se eu simplesmente mordesse você. Meu veneno agindo nas suas veias, enquanto você tenta manter essa postura impecável... seria uma obra de arte.

— Você não vai tentar nada — disse Zanka, seus olhos encontrando os de Jabber. — Você está desarmado. E você é masoquista, Jabber, não suicida.

— Há uma linha tênue entre os dois, meu caro Zelador.

O clima no quarto era uma mistura estranha de hostilidade e uma intimidade distorcida. Eles eram opostos em tudo: a disciplina de Zanka contra o caos de Jabber; a pureza do propósito de um contra a sede de dor do outro. E, no entanto, ali estavam eles, no meio da noite, conversando como se o destino do mundo não dependesse de eles se matarem na próxima vez que se encontrassem no campo de batalha.

De repente, as orelhas de Zanka captaram algo. Um passo pesado no corredor. Depois outro, mais leve.

Jabber percebeu a mudança na postura de Zanka instantaneamente. O sorriso do arruaceiro se alargou.

— Parece que temos companhia — sussurrou Jabber, seus olhos brilhando de excitação.

— Esconda-se. Agora — ordenou Zanka, levantando-se e agarrando o braço de Jabber para empurrá-lo em direção ao armário.

Mas era tarde demais. A porta do quarto de Zanka não foi apenas aberta; ela foi escancarada com a força de quem não aceitava negativas.

— Zanka! Eu ouvi uma voz de homem aqui e não era a sua! — Riyo gritou, entrando no quarto com sua energia caótica habitual, já segurando sua arma.

Logo atrás dela, Enjin entrou com uma expressão de preocupação paternal, sua mão descansando no cabo de seu guarda-chuva. Rudo vinha por último, parecendo meio sonolento, mas alerta o suficiente para perceber que algo estava errado.

O tempo pareceu parar.

Riyo parou no meio do passo. Enjin estreitou os olhos. Rudo arregalou os dele, a confusão dando lugar ao choque absoluto.

No centro do quarto, Zanka estava parado, com a mão ainda segurando o braço de Jabber, que parecia estar se divertindo mais do que nunca com a situação.

— O... o quê? — Rudo balbuciou, apontando para o intruso. — Aquele é o Jabber?!

— Olá, pessoal! — Jabber acenou com a mão livre, a voz transbordando deboche. — Que recepção calorosa. Eu não sabia que os Zeladores faziam festas do pijama.

— Zanka — a voz de Enjin era baixa, perigosamente calma —, por que o inimigo está no seu quarto? E por que você não o matou ainda?

Zanka soltou o braço de Jabber como se tivesse sido queimado. Ele sentiu o calor subir pelo pescoço, uma mistura de vergonha e fúria.

— Eu estava... eu ia... — Zanka tentou encontrar as palavras, mas sua mente, geralmente tão organizada, era um caos. — Ele entrou pela janela. Eu estava prestes a rendê-lo.

— Rendê-lo? — Riyo deu um passo à frente, a ponta de sua arma brilhando. — Ele está sentado no seu chão como se fosse o dono da casa! E você está segurando o braço dele como se estivessem indo passear no parque!

— Não seja ciumenta, Riyo — Jabber provocou, levantando-se lentamente, as mãos para o alto em um gesto de falsa rendição. — Zanka e eu estávamos apenas discutindo... filosofia. E o brilho maravilhoso das armas dele.

Rudo deu um passo à frente, a luva em sua mão brilhando com o poder de sua série vital.

— Zanka, afaste-se dele. Ele é perigoso! Ele usou aquele veneno nojento na última vez!

— Ele não está armado, Rudo — disse Zanka, recuperando um pouco de sua compostura, embora ainda estivesse visivelmente abalado. — Ele veio aqui para me provocar. Eu tinha a situação sob controle.

— Sob controle? — Enjin soltou um suspiro pesado, cruzando os braços. — Zanka, você é um dos nossos melhores homens. Mas ter um membro dos Vândalos no seu quarto às duas da manhã não parece "sob controle". Parece uma brecha de segurança catastrófica. Ou algo muito mais estranho.

— É a segunda opção! — Jabber exclamou, rindo. — Definitivamente a segunda!

— Cale a boca! — Zanka e Riyo gritaram em uníssono.

Riyo avançou, apontando sua arma para a garganta de Jabber.

— Dê-me um motivo para não furar o seu pescoço agora mesmo, seu lixo sorridente.

Jabber não recuou. Pelo contrário, ele inclinou o pescoço para a frente, encostando a pele na ponta afiada da arma de Riyo. Seus olhos estavam fixos nos dela, mas seu sorriso era para Zanka.

— Porque se você me matar agora, nunca vai saber o que o Zanka me contou sobre todos vocês — mentiu Jabber, a voz carregada de veneno emocional.

Zanka sentiu o sangue fugir do rosto.

— Eu não contei nada! Ele está mentindo!

— Mentindo? — Jabber fingiu estar ofendido. — Zanka, e as nossas conversas sobre como o Enjin é autoritário demais? Ou sobre como a Riyo faz barulho demais quando come?

— EU VOU MATAR ELE! — Riyo gritou, sendo segurada por Enjin.

— Chega! — A voz de Enjin ecoou pelo pequeno quarto, impondo ordem. Ele olhou para Jabber com um desprezo profundo. — Jabber, você está em desvantagem de quatro para um. Mesmo que você seja rápido, não sairá daqui sem ferimentos graves. E Zanka... teremos uma conversa muito longa sobre isso depois.

Zanka baixou a cabeça, o punho cerrado ao lado do corpo. Ele nunca se sentira tão humilhado. Sua dedicação, sua seriedade, tudo parecia ter sido jogado no lixo por causa das visitas noturnas daquele louco.

— Rudo — disse Enjin —, pegue as algemas de contenção. Riyo, mantenha a arma nele. Se ele se mexer um milímetro, pode atacar.

— Ah, que chato — Jabber bufou, perdendo parte do interesse. — A diversão acaba quando as regras chegam. Zanka, você realmente precisa de amigos novos. Esses aqui são muito rígidos.

Zanka deu um passo à frente, ficando cara a cara com Jabber. A raiva em seus olhos era palpável, mas havia algo mais ali — uma frustração por ter permitido que aquela estranha conexão existisse.

— Você não vai sair impune disso, Jabber — sussurrou Zanka, perto o suficiente para que apenas o outro ouvisse.

— Eu já ganhei, Zanka — Jabber respondeu no mesmo tom, o sorriso nunca vacilando. — Olha para eles. Eles nunca mais vão olhar para você da mesma forma. E toda vez que você fechar os olhos, vai se perguntar quando eu vou voltar.

Rudo voltou com as algemas, seu rosto expressando uma mistura de medo e decepção. Enquanto ele prendia as mãos de Jabber, o arruaceiro continuava a rir, um som que parecia arranhar as paredes do quarto.

— Levem-no para a sala de interrogatório — ordenou Enjin. — Zanka, você fica.

Riyo e Rudo escoltaram Jabber para fora. Antes de sair, Jabber olhou por cima do ombro e piscou para Zanka.

A porta se fechou, deixando Zanka e Enjin no silêncio opressor do quarto. Enjin não disse nada por um longo tempo. Ele apenas olhou para o cajado de Zanka, ainda brilhando pelo polimento recente.

— Zanka — começou Enjin, a voz cansada —, nós lidamos com o lixo de Underground todos os dias. Mas o pior tipo de lixo é aquele que deixamos entrar em nossa própria mente.

— Eu sei, Enjin. Eu... eu não tenho desculpa.

— Não, você não tem. Mas o que me preocupa não é o fato de ele ter entrado. É o fato de você não ter tentado expulsá-lo até sermos nós a abrir a porta.

Enjin virou-se e saiu, deixando Zanka sozinho.

Zanka sentou-se na cama, o silêncio agora parecendo mais pesado do que nunca. Ele olhou para a janela aberta, por onde o vento frio de Underground entrava, trazendo consigo o cheiro de poeira e o eco distante de uma risada maníaca que ele sabia que não seria a última que ouviria.

Ele pegou seu cajado novamente, mas desta vez, suas mãos tremiam levemente. A ordem que ele tanto prezava havia sido quebrada, não por um ataque inimigo, mas por uma curiosidade mórbida e um veneno que não precisava de garras para agir. Jabber estava certo sobre uma coisa: nada seria o mesmo depois daquela noite.

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