
amor
Fandom: mundo real
Criado: 09/08/2026
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Cicatrizes sob a Pele de Porcelana
O silêncio na casa da mãe de Tatsuyo era geralmente acolhedor, com cheiro de incenso e chá verde. Mas, naquela tarde, o silêncio era pesado, metálico e aterrorizante. O som da porta da frente batendo ecoou como um tiro de canhão, sinalizando que o monstro finalmente havia partido.
Tatsuyo estava caída no chão de madeira da sala. O lado esquerdo de seu rosto latejava em um ritmo frenético, e ela sentia o gosto ferroso do sangue escorrendo pelo canto da boca. Suas costelas pareciam fogo vivo a cada tentativa de respirar. A pele parda, geralmente tão radiante, estava manchada de roxos profundos que começavam a florescer sob a superfície.
Com um tremor que sacudia todo o seu corpo de 1,63m, ela arrastou os dedos pelo chão frio até encontrar o celular que havia caído sob a mesa de centro. Suas mãos falhavam, a visão embaçada pelas lágrimas e pelo inchaço. Ela não ligou para a polícia. Ela não ligou para a ambulância. Ela discou o único número que significava segurança.
Do outro lado da cidade, na cobertura luxuosa que dividiam, Kuro Hatake estava terminando uma série de abdominais. O suor brilhava em seus músculos definidos, e o cabelo branco repicado estava bagunçado. Quando o celular tocou, ele atendeu com o sorriso habitual na voz, pronto para fazer alguma piada sobre como a casa estava vazia sem ela.
— Hey, baixinha! Já está com saudade do seu cara favorito ou a comida da sogra estava ruim? — Ele brincou, mas o sorriso morreu no instante em que ouviu o primeiro soluço.
— Ku... Kuro... — A voz de Tatsuyo era um sussurro quebrado, sufocado pelo pânico. — Por favor... me ajuda... ele... ele fez de novo... dói tanto...
Kuro congelou. O ar pareceu sair de seus pulmões, substituído por uma fúria fria e um medo paralisante. Ele já estava de pé, pegando as chaves do carro e uma camiseta qualquer antes mesmo de ela terminar a frase.
— Tatsuyo! Fica comigo, meu amor. Não desliga! — Ele gritou, correndo em direção à garagem. — Eu estou indo. Onde você está? No chão? Consegue se mexer?
— Não consigo... levantar... — Ela soluçou, o som de sua respiração curta e errática enchendo o ouvido de Kuro. — Ele foi embora... mas eu sinto que ele ainda está aqui... Kuro, eu estou com medo!
— Eu estou no carro. Não vou desligar, está me ouvindo? — O motor do carro roncou, e Kuro saiu da cobertura como um raio. — Escuta a minha voz. Foca em mim. O que você está vendo agora?
— Sangue... no tapete... — Ela gemeu, encolhendo-se em posição fetal, apesar da dor que o movimento causava.
— Não olha para baixo, olha para a janela. Me conta como está o céu, Tatsuyo. Conversa comigo.
Kuro dirigiu como um louco pelas ruas da cidade, o coração martelando contra as costelas. Ele mantinha o viva-voz ligado, despejando palavras de carinho e promessas de proteção, tentando abafar o som do desespero dela. Quando ele finalmente freou bruscamente diante da casa, ele nem sequer trancou o carro.
Ele arrombou a porta com um ombro, seus 1,80m de puro músculo movidos pela adrenalina. Quando seus olhos castanhos encontraram a figura pequena e quebrada de Tatsuyo no chão, ele sentiu como se alguém tivesse arrancado seu coração.
— Tatsuyo! — Ele caiu de joelhos ao lado dela, mas hesitou em tocá-la, temendo machucá-la ainda mais.
Ela soltou um grito agudo, um som puramente instintivo de terror, e tentou se afastar, os olhos pretos arregalados e vazios de reconhecimento por um segundo.
— Sou eu! Sou eu, o Kuro! — Ele disse rapidamente, mantendo as mãos visíveis, a voz tremendo pela primeira vez na vida. — Ninguém vai te tocar. Eu estou aqui.
Ao reconhecer a voz e o rosto emoldurado pelos cabelos brancos, o pânico de Tatsuyo se transformou em um choro convulsivo. Ela se lançou nos braços dele, ignorando a dor física em favor do alento que só ele proporcionava. Kuro a envolveu com cuidado, sentindo o tremor violento que percorria o corpo dela.
— Ele me bateu tanto, Kuro... ele disse coisas... — Ela soluçava contra o peito dele.
— Shh... ele nunca mais vai chegar perto de você. Eu juro pela minha vida — Kuro murmurou, beijando o topo da cabeça dela.
Ele percebeu que ela estava com as roupas rasgadas e sujas de sangue. Com delicadeza, ele a pegou no colo e a levou até o quarto. Ele abriu sua própria mochila, que sempre carregava, e tirou um de seus moletons grandes e pesados. Tinha o cheiro dele — uma mistura de perfume cítrico e sabonete.
— Vamos trocar isso, meu amor. Preciso te levar para o hospital.
— Não! Hospital não! — Ela protestou, agarrando a camiseta dele.
— Você precisa, Tats. Pode ter algo quebrado por dentro. Eu vou estar lá o tempo todo. Eu prometo.
No hospital, o pesadelo ganhou uma nova camada. Assim que entraram na emergência, um enfermeiro se aproximou para ajudar Kuro a colocá-la em uma maca.
— Não toque nela! — O grito de Tatsuyo foi tão visceral que o corredor inteiro parou. Ela se encolheu atrás de Kuro, usando o corpo musculoso dele como um escudo humano.
— Por favor — Kuro disse ao enfermeiro, sua voz firme mas carregada de urgência —, ela passou por um trauma severo. Só médicas mulheres. Por favor, respeite isso.
A triagem foi um processo lento e doloroso. Tatsuyo não soltava a mão de Kuro por um segundo sequer. Quando uma médica se aproximou, ela permitiu o exame, mas seus olhos nunca deixavam Kuro. Se ele se afastava dez centímetros para pegar um copo de água, a respiração dela acelerava e o monitor cardíaco começava a apitar freneticamente.
— Sr. Hatake — a médica chamou em voz baixa enquanto Tatsuyo fazia um raio-X —, ela está em estado de choque e com uma crise de pânico latente. O senhor vai precisar ficar com ela, mesmo nos procedimentos onde normalmente não permitimos acompanhantes. A presença do senhor é a única coisa que está mantendo a estabilidade dela.
— Eu não ia sair do lado dela de qualquer jeito — Kuro respondeu, a expressão séria substituindo seu habitual jeito engraçadinho.
Horas depois, já em um quarto particular, Tatsuyo estava medicada, mas o sono era inquieto. Ela estava envolta no moletom de Kuro, que ficava enorme nela, cobrindo quase todo o seu corpo pequeno. Kuro estava sentado na beirada da cama, segurando a mão dela, o polegar acariciando a pele parda.
— Kuro? — Ela sussurrou, abrindo os olhos.
— Estou aqui, pequena. O que você precisa?
— Não me deixa... mesmo quando a gente for para casa. Não me deixa sozinha nem por um minuto.
— Nem por um segundo — ele prometeu, inclinando-se para beijar a testa dela, onde um curativo cobria um corte profundo. — Eu vou ser sua sombra. Vou ser sua parede.
— Por que ele fez isso? — Uma lágrima solitária escorreu. — Ele é meu pai... ele devia me amar.
Kuro sentiu uma onda de ódio pelo homem que havia feito aquilo, mas engoliu a seco. Agora não era hora para sua raiva; era hora para o amor dela.
— Algumas pessoas estão quebradas por dentro de um jeito que não tem conserto, Tatsuyo. Mas você não está sozinha. Você tem a mim. E eu sou muito mais forte que ele.
— Você é — ela deu um sorriso minúsculo, quase imperceptível. — E é muito mais bonito também.
Kuro soltou uma risada curta, o primeiro vestígio de sua personalidade vibrante retornando.
— Bom saber que mesmo toda arrebentada você ainda tem bom gosto.
— Idiota — ela murmurou, fechando os olhos novamente, sentindo-se, pela primeira vez desde o ataque, capaz de respirar.
Os dias que se seguiram foram difíceis. De volta à cobertura, o trauma se manifestava em pesadelos e medo de sons altos. Kuro transformou a rotina deles. Ele cozinhava todas as refeições, ajudava-a no banho com uma delicadeza que contrastava com sua aparência bruta, e passava horas apenas sentado ao lado dela enquanto ela tentava ler ou assistir algo.
Uma noite, enquanto estavam sentados no sofá imenso da sala, com a vista das luzes da cidade à frente, Tatsuyo se aninhou no peito dele. Ela traçou com os dedos os gomos do abdômen dele por cima da camisa.
— Sabe, Kuro... eu achei que nunca mais ia conseguir me sentir segura com um homem por perto.
Ele parou de acariciar o cabelo dela e olhou em seus olhos.
— E como você se sente agora?
— Com você é diferente. Você é como... um porto. O resto do mundo pode ser perigoso, mas aqui, entre seus braços, parece que nada pode me alcançar.
Kuro a apertou um pouco mais, sentindo o calor do corpo dela.
— Eu sempre vou ser esse lugar para você, Tatsuyo. Não importa quanto tempo leve para as feridas cicatrizarem, eu vou estar aqui segurando a bandagem.
— Obrigada por não ter feito piada quando eu comecei a chorar no hospital — ela disse, escondendo o rosto no pescoço dele.
— Hey — ele levantou o queixo dela com cuidado —, eu sou o palhaço da relação, mas eu sei quando o circo está pegando fogo. Minha prioridade é manter minha rainha inteira.
Tatsuyo sorriu, um sorriso real que chegou aos olhos. A dor física estava diminuindo, e embora a dor na alma fosse demorar muito mais para passar, ela sabia que não teria que carregá-la sozinha. Kuro Hatake, com seu cabelo branco bagunçado e seus músculos de aço, era a sua âncora. E, enquanto ele estivesse lá, ela sabia que, eventualmente, voltaria a brilhar.
— Kuro?
— Sim?
— Me conta aquela piada horrível sobre o panda de novo?
Kuro sorriu largo, o brilho brincalhão voltando aos seus olhos castanhos.
— Ah, você quer a do panda? Prepare-se, Nakamura, porque essa é tão ruim que vai curar suas costelas na base do susto...
E ali, sob a luz da lua que entrava pela cobertura, o som do riso fraco de Tatsuyo foi a música mais bonita que Kuro já tinha ouvido. Ele continuaria ali, sendo o escudo, o enfermeiro e o bobo da corte, pelo tempo que fosse necessário. Porque o amor, ao contrário da dor, não deixa cicatrizes feias; ele reconstrói o que foi destruído.
