
On a leash by a rabbit
Fandom: EngLot
Criado: 10/08/2026
Tags
Entre Mordidas e Orelhas Caídas
O corredor principal da escola secundária de Bangkok fervilhava com o som de armários batendo e conversas triviais, mas o ruído pareceu diminuir alguns decibéis quando Engfa Waraha passou. Com sua jaqueta de couro preta aberta sobre o uniforme desleixado, o cabelo castanho-escuro levemente bagunçado e os óculos de armação fina escorregando pelo nariz, ela exalava uma aura de "não me provoque".
Engfa era o terror dos inspetores. A metamorfa de canino tinha uma energia que parecia não caber em seu corpo de um metro e setenta e cinco. Seus pais, magnatas do setor imobiliário, já haviam assinado cheques suficientes para cobrir janelas quebradas, brigas no pátio e pichações artísticas nos muros da instituição. Para Engfa, o mundo era um playground e ela era a dona da bola.
Ou pelo menos era o que ela pensava até chegar perto do armário 112.
Lá estava ela. Charlotte Austin. A metamorfa de coelho estava concentrada, organizando seus livros com uma precisão quase cirúrgica. Charlotte tinha aquele ar sereno, os cabelos castanho-claros ondulados caindo suavemente sobre os ombros e as sardas pontilhando seu nariz como uma constelação particular. Ela era o oposto absoluto de Engfa: esforçada, observadora e, acima de tudo, a única pessoa capaz de domar a fera.
Engfa abriu um sorriso sarcástico, seus instintos caninos vibrando de excitação. Ela acelerou o passo, ignorando os alunos que se encolhiam para dar passagem.
— Ei, sardenta! — exclamou Engfa, chegando por trás e envolvendo a cintura de Charlotte em um abraço de urso repentino.
Charlotte deu um sobressalto, seus ombros subindo até as orelhas (que, na forma humana, permaneciam escondidas, mas que Engfa jurava que via tremer sob o cabelo). Um pequeno som de susto escapou de seus lábios, mas, assim que sentiu o cheiro familiar de sândalo e rebeldia, seu corpo relaxou instantaneamente.
— Engfa! Você quase me matou de susto — reclamou Charlotte, embora já estivesse se recostando no peito da maior. — Quantas vezes eu tenho que dizer para não pular em mim assim?
— Ah, qual é, coelhinha. Você adora — Engfa murmurou perto do ouvido dela, apertando o abraço. — E você sabe que eu não consigo me controlar. Minhas patas simplesmente me levam até você.
Charlotte virou-se nos braços de Engfa, ajustando os óculos da canina que estavam tortos.
— Suas "patas" deveriam estar na aula de física agora. Eu vi o diretor procurando por você por causa daquele trote com as bexigas de tinta.
Engfa deu de ombros, a arrogância natural brilhando em seus olhos castanhos.
— Meu pai já mandou um e-mail. A escola vai ganhar um laboratório novo e o diretor vai ganhar um silêncio eterno sobre o assunto. Dinheiro bem gasto, se me perguntar.
Charlotte suspirou, cruzando os braços e encarando Engfa com aquele olhar de reprovação que só ela conseguia sustentar.
— Você é impossível, Waraha. Acha que pode resolver tudo com um talão de cheques. Algum dia você vai se meter em algo que o dinheiro não compra.
— Já me meti — Engfa sorriu de lado, aproximando o rosto do de Charlotte. — O seu tempo, por exemplo. Esse eu tive que conquistar na raça.
Charlotte sentiu as bochechas esquentarem, as sardas parecendo mais vívidas contra a pele corada. Antes que pudesse responder, um grupo de garotos do time de basquete passou por elas. Um deles, um metamorfo de lobo conhecido por sua arrogância, parou e olhou para Charlotte com um sorriso predatório.
— E aí, Austin? Vai na festa hoje à noite? Posso te dar uma carona que vai ser bem mais interessante do que ficar aqui com essa vira-lata.
O clima mudou em um milissegundo. A energia brincalhona de Engfa desapareceu, substituída por um rosnado baixo que vibrou em seu peito. Ela deu um passo à frente, colocando Charlotte protetoramente atrás de si. A possessividade de Engfa era lendária, e seu ciúme era um gatilho curto.
— Repete isso, se tiver dentes sobrando — disse Engfa, a voz fria e cortante. — Porque se você olhar para a Charlotte de novo, eu vou garantir que você precise de um canudo para comer pelo resto do semestre.
O garoto recuou, intimidado pela intensidade nos olhos de Engfa. Ele sabia que, embora Charlotte fosse uma coelhinha delicada, a "cachorra" que a protegia era capaz de destruir qualquer um que cruzasse seu caminho. Ele murmurou algo inaudível e apressou o passo.
Charlotte tocou o braço de Engfa, sentindo a tensão nos músculos da outra.
— Ei, P'Fa... calma. Ele não vale o esforço.
Engfa se virou para ela, a respiração ainda um pouco pesada, os olhos brilhando com uma mistura de raiva e proteção.
— Eu odeio quando eles olham para você. Você é minha, Charlotte. Minha.
— Eu não sou um objeto, Engfa — disse Charlotte, embora um pequeno sorriso brincasse em seus lábios. — Mas eu aprecio o instinto protetor. Agora, abaixe essa crista. Você está assustando os calouros.
— Eu não me importo com os calouros — resmungou Engfa, mas sua postura relaxou imediatamente sob o toque de Charlotte. — Só me importo com você.
Ela se inclinou, capturando os lábios de Charlotte em um beijo rápido e roubado, antes que a coelhinha pudesse protestar. Quando se afastou, Engfa deu uma leve mordida no queixo de Charlotte, um gesto de marcação que sempre fazia a outra arrepiar.
— Ai! — Charlotte riu, empurrando o rosto de Engfa. — Você é uma selvagem.
— E você ama isso — provocou Engfa.
— Amo — admitiu Charlotte em voz baixa, ajeitando a gola da jaqueta de Engfa. — Mas agora, você vai para a aula. Sem cabular, sem confusão, e sem subornar ninguém até o almoço. Entendido?
Engfa fez um bico, a imagem perfeita de um filhote mimado que não queria obedecer.
— Mas a aula de história é tão chata...
— Engfa.
O tom de voz de Charlotte era calmo, mas carregava uma autoridade que ninguém mais possuía sobre a rebelde Waraha. Engfa suspirou dramaticamente, jogando a cabeça para trás.
— Tá bom, tá bom! Eu vou. Mas você me deve um abraço de dez minutos no intervalo. E nada de ficar conversando com aquele pessoal da botânica. Eles cheiram a mato e eu não confio neles perto de você.
Charlotte revirou os olhos, mas não conseguiu esconder o carinho.
— Prometo. Agora vá.
Engfa começou a se afastar, andando de costas enquanto apontava para os próprios olhos e depois para Charlotte, num gesto de "estou de olho".
— Eu te amo, coelhinha! — gritou ela no meio do corredor, fazendo vários alunos se virarem.
Charlotte escondeu o rosto entre as mãos, sentindo o coração acelerado. Engfa era barulhenta, possessiva, teimosa e completamente louca, mas era a sua louca.
O intervalo chegou e, como prometido, Engfa encontrou Charlotte em um canto mais afastado do jardim da escola. A coelhinha estava sentada sob uma grande árvore, lendo um livro de biologia. Engfa não perdeu tempo: ela praticamente se jogou no colo de Charlotte, enterrando o rosto no pescoço dela.
— O mundo é tão cruel, Char — dramatizou Engfa, sua voz abafada pela pele da outra. — O professor de história falou por quarenta minutos seguidos sobre a Revolução Industrial. Eu quase entrei em coma.
Charlotte riu, deixando o livro de lado para acariciar os cabelos castanhos de Engfa.
— Tenho certeza de que você sobreviveu. Você é forte, não é? Um grande e perigoso canino.
— Só quando alguém mexe com o que é meu — Engfa levantou a cabeça, os óculos tortos novamente. — Fora isso, eu só quero ficar aqui.
Ela se acomodou melhor, envolvendo Charlotte em um abraço apertado. Engfa tinha consciência de sua força; ela sabia que, como metamorfa de cachorro, era fisicamente mais robusta do que a frágil estrutura de coelho de Charlotte. Por isso, apesar de sua natureza energética e às vezes bruta, com Charlotte ela era puro cuidado. Seus abraços eram firmes, mas cheios de uma ternura que ela não mostrava a mais ninguém.
— Você está muito quieta hoje — observou Engfa, olhando para as sardas de Charlotte de perto. — Alguma coisa aconteceu?
Charlotte hesitou por um momento, seus dedos brincando com a ponta da orelha de Engfa (que havia surgido involuntariamente devido ao relaxamento).
— Meu pai ligou. Ele quer que eu aceite o estágio na empresa dele no próximo semestre. Ele diz que eu não preciso me esforçar tanto, que ele pode facilitar as coisas.
Engfa arqueou uma sobrancelha.
— E o que você disse?
— Eu disse que quero conquistar minhas próprias coisas — Charlotte suspirou. — Você sabe como eu sou. Eu não gosto que as coisas caiam do céu.
Engfa sorriu, um sorriso genuíno e sem sarcasmo.
— É por isso que eu te admiro, sabia? Eu nasci em um berço de ouro e sempre achei que isso era tudo. Mas ver você lutar por cada nota, por cada conquista... isso me faz querer ser alguém melhor. Ou pelo menos alguém que não seja expulsa antes da formatura.
Charlotte puxou Engfa para mais perto, beijando-lhe a testa.
— Você já é alguém incrível, P'Fa. Só precisa parar de tentar provar para o mundo que não se importa com nada. Porque eu sei que você se importa.
— Eu só me importo com você — insistiu Engfa, a possessividade voltando à tona. — E se o seu pai te pressionar demais, me avisa. Eu posso ir lá e... sei lá, rosnar para ele?
— Engfa! — Charlotte deu um tapinha no ombro dela. — Você não vai rosnar para o meu pai.
— Tá, tá. Eu compro a empresa dele então.
— Engfa Waraha!
— Brincadeira! — Engfa riu, roubando outro beijo, desta vez mais lento e profundo.
O beijo tinha gosto de proteção e de uma promessa silenciosa. Charlotte sentiu a energia vibrante de Engfa se acalmar, como se a presença da coelhinha fosse o único porto seguro para a alma rebelde da canina.
— Engfa — sussurrou Charlotte entre os lábios dela.
— Hum?
— Sua cauda está balançando e batendo na minha perna.
Engfa corou violentamente — uma das poucas coisas que conseguia deixá-la sem jeito.
— Desculpe. Eu não consigo evitar quando estou com você.
Charlotte sorriu, puxando Engfa para um abraço ainda mais apertado, sentindo o coração da outra bater forte contra o seu.
— Não peça desculpas. Eu gosto.
Naquela escola, Engfa Waraha podia ser a rebelde sem causa, a filhinha de papai arrogante e a metamorfa que ninguém ousava desafiar. Mas ali, sob a sombra daquela árvore, ela era apenas a cachorrinha leal de Charlotte Austin. E para Engfa, não havia lugar no mundo onde ela preferisse estar do que naquela coleira invisível, presa pelo amor da sua coelhinha.
— Você é muito fofa quando está com vergonha — provocou Charlotte, mordiscando a ponta da orelha de Engfa.
— Ei! Isso é golpe baixo — reclamou Engfa, embora estivesse radiante. — Se você continuar assim, eu não vou te soltar nunca mais.
— E quem disse que eu quero que você solte?
Engfa sorriu, seus olhos brilhando atrás das lentes dos óculos. Ela apertou Charlotte em seus braços, prometendo a si mesma que, não importava quantas janelas ela quebrasse ou quantos problemas causasse, o coração de Charlotte seria o único tesouro que ela protegeria com a própria vida.
— Te peguei, coelhinha — murmurou Engfa.
— Te peguei, P'Fa — respondeu Charlotte, fechando os olhos e aproveitando o calor da sua canina favorita.
O sinal tocou, anunciando o fim do intervalo, mas nenhuma das duas se moveu. Afinal, para Engfa, as regras só existiam para serem quebradas, exceto uma: a regra de que ela pertencia a Charlotte Austin, e ninguém mais.
