
Uma diplomata no mundo sobrenatural
Fandom: Não tem
Criado: 10/08/2026
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Entre Neve e Destino: O Despertar da Loba
O ar gelado de Genebra não se parecia em nada com o vento cortante, mas familiar, de Curitiba. Para Maria Luiza, ou apenas Malu, como todos a chamavam, aquela mudança representava mais do que um oceano de distância; era a chance de transformar o sonho da diplomacia em realidade. Com 23 anos e uma mala cheia de expectativas, ela caminhava pelos corredores da residência universitária, sentindo o peso do pingente de cristal que carregava no pescoço, uma herança de sua mãe que ela nunca soube explicar bem por que brilhava às vezes.
Malu sabia que era diferente. Sentia o cheiro das emoções das pessoas e, em noites de lua cheia, suas costas ardiam como se asas invisíveis quisessem rasgar sua pele. Mas, no Brasil, com seus dois irmãos — o gêmeo protetor e o caçula bagunceiro —, ela apenas fingia ser uma garota comum.
Ao abrir a porta do dormitório 402, seu coração afundou. O quarto era compartilhado, e seu colega, um homem de ombros largos e olhar predatório chamado Marcus, já estava lá. O cheiro de álcool e um odor terroso e agressivo preencheram suas narinas. Ele era um lobo beta, e Malu, com sua natureza ômega ainda latente e sua herança de fada escondida, sentiu um calafrio percorrer a espinha.
— Então a brasileira chegou — disse Marcus, levantando-se da cama com um sorriso que não chegava aos olhos. — Espero que você seja mais receptiva que a última moradora.
Os dias que se seguiram foram um pesadelo. Malu tentava se focar no estágio na Chancelaria Suíça, mas o assédio de Marcus era constante. Comentários maldosos, toques indesejados no ombro e a sensação de ser caçada dentro do próprio quarto.
Em uma tarde chuvosa, após uma semana de pouco sono e muita tensão, Malu estava no grande salão da sede do governo, organizando documentos para o Chanceler Watfield, o governante máximo do país. De repente, o mundo começou a girar. O cheiro de Marcus ainda impregnava suas roupas, e a náusea a atingiu com força.
— Senhorita Maria Luiza? — A voz profunda e preocupada de um homem mais velho ecoou pelo salão.
Malu tentou responder, mas suas pernas cederam. Antes que atingisse o chão de mármore, braços fortes a seguraram. Era o Chanceler Watfield.
— Ela está queimando em febre — murmurou o homem, seus olhos azuis brilhando com uma sabedoria ancestral. Ele percebeu algo que ninguém mais notara: a aura mista de Malu, um brilho prateado e etéreo que emanava de sua pele.
Horas depois, Malu acordou em um quarto que parecia saído de um conto de fadas, mas com o conforto da modernidade suíça. O Chanceler explicou que ela não voltaria para aquele dormitório. Marcus havia sido expulso e denunciado. Por segurança e por uma dívida de honra que o Chanceler sentia ter com a "natureza especial" da jovem, ela moraria com a família Watfield.
Foi então que ela o viu pela primeira vez.
Hades Watfield entrou no quarto com a imponência de um deus antigo. Com 1,97m de altura, ombros vastos e um terno sob medida que parecia conter a custo uma força bruta, ele era a definição de poder. O CEO mais influente da Europa, o Alfa Supremo dos lobos, exalava um perfume de sândalo, neve e algo perigosamente viciante.
— Meu pai enlouqueceu de vez — disse Hades, sua voz um trovão contido. — Trazer uma estranha para dentro de nossa casa, no meio de uma crise econômica?
Malu, apesar de ainda fraca, sentiu o sangue curitibano ferver. Ela se sentou na cama, os olhos castanhos brilhando com um reflexo violeta momentâneo.
— Eu não pedi para estar aqui, Senhor Watfield — rebateu ela, a voz firme. — E se sua hospitalidade for tão curta quanto sua paciência, posso muito bem encontrar um hotel.
Hades arqueou uma sobrancelha, surpreso com a audácia. A maioria das ômegas se encolheria diante de sua presença. Mas Malu não era apenas uma ômega.
— Você mal consegue ficar de pé, brasileira — ironizou ele, cruzando os braços. — E cheira a medo e a... flores silvestres? Que combinação irritante.
— O cheiro deve ser do repelente que pretendo usar contra lobos arrogantes — retrucou Malu.
O Chanceler, observando da porta, sorriu discretamente. Ele conhecia as lendas. Sabia que o destino tinha um senso de humor peculiar.
A convivência na mansão Watfield era um campo de batalha silencioso. Hades tinha dois irmãos mais novos, ambos casados e extremamente acolhedores, que trataram Malu como uma irmã desde o primeiro jantar. A mãe de Hades, uma mulher elegante e doce, parecia enxergar através da alma de Malu, oferecendo-lhe chás que acalmavam a agitação de suas asas invisíveis.
No entanto, com Hades, tudo era faísca. Eles se cruzavam nos corredores e a tensão era palpável. Ele a criticava por sua "teimosia diplomática", e ela o chamava de "ditador de escritório".
— Você não entende nada sobre as tradições deste país — disse Hades certa noite, na biblioteca, enquanto ela estudava heráldica suíça.
— E você não entende nada sobre ser humano, Hades — respondeu ela, sem tirar os olhos do livro. — Você vive em um trono de números e poder. Esqueceu como é sentir o chão.
Hades aproximou-se, o calor de seu corpo irradiando como uma fornalha. Ele se inclinou sobre a mesa, o rosto a poucos centímetros do dela.
— Eu sinto muito mais do que você imagina, Malu. Sinto o cheiro do seu sangue pulsando no seu pescoço daqui. Sinto que você esconde algo que nem mesmo você compreende.
O coração de Malu disparou. A proximidade fazia seu lobo interior uivar e suas fadas internas dançarem. Era uma agonia deliciosa.
— Por que você me odeia tanto? — sussurrou ela, a vulnerabilidade transparecendo por um segundo.
Hades travou o maxilar. Ele não a odiava. Ele estava aterrorizado. Desde o momento em que a vira desmaiada nos braços de seu pai, seu lobo interior clamava: MINHA. Mas como ele, o Alfa Supremo, poderia estar ligado a uma garota que parecia ser feita de luz e mistério, e que desafiava cada uma de suas ordens?
— Eu não odeio você — rosnou ele, afastando-se bruscamente. — Eu apenas não gosto de distrações. E você é a maior delas.
Dias depois, uma oportunidade surgiu. O Chanceler convidou Malu para acompanhá-lo a uma antiga abadia nas montanhas, onde arquivos secretos sobre linhagens raras eram guardados. Ele sabia que Malu buscava respostas sobre seus pais biológicos e sobre os poderes que começavam a se manifestar com mais força na atmosfera mágica dos Alpes.
— Você encontrará o que procura lá, Maria Luiza — disse o Chanceler. — Mas esteja preparada. A verdade sobre ser metade loba e metade fada é um fardo que poucos conseguem carregar.
Malu empacotou suas coisas para a breve viagem, sentindo que sua vida estava prestes a mudar para sempre. O que ela não sabia era que Hades, movido por um instinto de proteção que ele se recusava a admitir como amor, já havia ordenado que seu motorista preparasse o carro. Ele não a deixaria ir sozinha.
Enquanto ela caminhava em direção à saída, encontrou Hades encostado no portal de carvalho da mansão.
— Onde pensa que vai sem um segurança? — perguntou ele, a voz agora carregada de algo que lembrava preocupação.
— Vou descobrir quem eu sou, Hades. Algo que você, com todo o seu dinheiro, nunca precisou fazer — disse ela, tentando passar por ele.
Hades segurou o braço dela com firmeza, mas sem machucar. No momento do toque, uma descarga elétrica percorreu ambos. A marca de companheiros predestinados, invisível aos olhos humanos, brilhou por um milésimo de segundo na pele de seus pulsos.
— Eu vou com você — sentenciou ele.
— Eu não preciso de um babá.
— Você não vai ter um babá — disse ele, aproximando-se tanto que ela podia sentir a respiração dele em sua testa. — Você vai ter o seu Alfa. Mesmo que ainda não saiba disso.
Malu sentiu um arrepio que não era de frio. O ódio que ela cultivava parecia estar se transformando em algo muito mais perigoso: necessidade. A jornada para as montanhas seria longa, e o que eles descobririam lá mudaria não apenas o destino de Malu, mas o equilíbrio de todo o mundo sobrenatural da Europa. Ela era a chave, e Hades, querendo ou não, era o seu guardião.
