
gui e os ossos
Fandom: guilherme
Criado: 10/08/2026
Tags
Entre Bisturis e Endoscópios
O ar no Hospital Universitário era sempre carregado de uma mistura de antisséptico, café requentado e uma tensão palpável que emanava das alas cirúrgicas. Para Guigo, um aluno do quarto ano de medicina, aquele ambiente era seu habitat natural, embora, nos últimos meses, ele se sentisse menos como um futuro médico e mais como o prêmio em uma competição da qual ele não tinha certeza se queria participar.
Guigo estava parado no corredor da enfermaria, revisando o prontuário de um paciente com colecistite, quando sentiu a temperatura do ambiente cair vários graus. Ele não precisava olhar para trás para saber quem se aproximava. O som rítmico e pesado dos sapatos de couro no piso de linóleo era a marca registrada do Dr. Jhong.
Jhong era o terror dos internos e residentes. Um cirurgião brilhante, cujas mãos eram descritas como instrumentos de precisão divina, mas cuja paciência era inexistente. Ele não ensinava; ele desafiava. E, no entanto, quando ele parou ao lado de Guigo, o tom de sua voz não carregava o habitual veneno que reservava para os outros mortais.
— Esse prontuário não vai se resolver sozinho, Guilherme — disse Jhong, sua voz grave ressoando baixa, quase íntima. — O que você está esperando para formular a conduta cirúrgica?
Guigo empertigou-se, sentindo o olhar penetrante do professor sobre si.
— Eu estava apenas confirmando os níveis de bilirrubina, doutor. A cirurgia está indicada, mas eu queria garantir que não houvesse obstrução distal antes de...
— Decisão correta — interrompeu Jhong, aproximando-se um passo a mais do que o estritamente profissional exigiria. — Um cirurgião que não hesita diante da dúvida é um perigo. Mas um cirurgião que demora a agir é um covarde. Você não é um covarde, é?
Guigo engoliu em seco, sentindo o magnetismo austero do homem.
— Não, senhor.
— Ótimo. Venha comigo. Vou abrir uma exceção e deixar que você auxilie na colecistectomia das dez horas. Mas se você tremer um milímetro que seja...
— Ele não vai tremer, Jhong. Porque ele não vai estar na sua sala de cirurgia.
A voz era suave, porém firme, cortando a tensão como um bisturi bem afiado. Guigo virou-se e viu a Dra. Cecil, a chefe da Gastroenterologia. Ela estava encostada no batente da porta da sala de exames, com o jaleco impecavelmente branco e um sorriso que nunca chegava totalmente aos olhos quando ela olhava para Jhong.
Cecil era o oposto do cirurgião. Onde ele era fogo e aço, ela era análise e perspicácia. Ela tinha uma maneira de ler os pacientes — e as pessoas — que beirava o sobrenatural.
— Dra. Cecil — cumprimentou Guigo, sentindo o rosto esquentar.
— Olá, Guigo — disse ela, aproximando-se e colocando uma mão leve, mas possessiva, no ombro do aluno. — Sinto muito interromper o momento "mestre e pupilo", mas o Guilherme tem um compromisso comigo na unidade de endoscopia. Temos um caso fascinante de uma angiodisplasia que ele prometeu acompanhar.
Jhong soltou um riso seco, cruzando os braços sobre o peito largo.
— Endoscopia, Cecil? Sério? Você quer que um talento como o dele perca tempo olhando para uma tela de vídeo enquanto poderia estar sentindo a textura dos órgãos, aprendendo a arte real da cura?
— A "arte real" — ironizou Cecil, arqueando uma sobrancelha — muitas vezes termina em complicações que eu tenho que resolver com a minha "telinha de vídeo". O Guigo tem um raciocínio clínico refinado demais para ser desperdiçado em alguém que só pensa em cortar e costurar.
Guigo olhou de um para o outro, sentindo-se como um cabo de guerra humano. Ele admirava a técnica impecável de Jhong, a disciplina quase militar que o cirurgião exigia. Havia algo naquele homem, uma paixão bruta escondida sob a máscara de carrasco, que o atraía profundamente. Por outro lado, Cecil era brilhante, acolhedora e via nele algo que ia além da técnica; ela via a alma do médico.
— O aluno é livre para escolher, não é? — desafiou Jhong, fixando seus olhos escuros em Guigo. — E então, Guilherme? O bloco cirúrgico, onde as vidas são salvas no fio da lâmina, ou a sala escura da gastro, onde se brinca de detetive com câmeras?
Cecil deu um passo à frente, diminuindo a distância entre os três.
— Não dê ouvidos ao ego dele, Guigo. Na gastro, você aprende a sutileza. Você aprende a tratar o paciente sem precisar violar o corpo dele. É uma medicina mais humana. Mais... próxima.
Ela enfatizou a última palavra, e Guigo sentiu o peso do significado. O hospital inteiro sabia que Jhong e Cecil não se bicavam, mas poucos percebiam que a disputa não era apenas por prestígio acadêmico. Era por ele.
— Eu... eu acho que ambos os procedimentos são importantes — gaguejou Guigo, tentando ser diplomático.
— Resposta de político — rosnou Jhong, embora houvesse um brilho de diversão em seus olhos. — Eu não quero um político. Quero um cirurgião. Esteja no bloco em dez minutos.
— Ele vai estar na sala 4 da endoscopia em cinco — rebateu Cecil, com um sorriso desafiador.
Jhong deu um passo em direção a Cecil, a altura dele intimidando a maioria, mas não ela.
— Você está interferindo na formação de um excelente profissional por capricho, Cecil.
— Capricho? — Ela riu, uma nota de escárnio na voz. — Eu estou protegendo ele da sua arrogância. Você não quer um aluno, Jhong. Você quer um espelho. E o Guigo é muito mais do que uma versão mais jovem e menos amarga de você.
A tensão entre os dois professores era quase elétrica. Guigo podia sentir a animosidade — e algo mais — que pairava no ar. Era uma disputa de territórios, de ideologias e, fundamentalmente, de corações.
— Chega — disse Guigo, surpreendendo a si mesmo pelo tom de voz firme. Ambos os professores se calaram e olharam para ele. — Eu vou acompanhar a cirurgia do Dr. Jhong agora, porque a colecistite é aguda e o paciente precisa de intervenção imediata.
Jhong exibiu um sorriso triunfante, mas Guigo não havia terminado.
— Mas — continuou ele, olhando para Cecil —, assim que terminarmos, eu vou direto para a unidade de endoscopia para revisar os vídeos da angiodisplasia com a Dra. Cecil e ajudar no relatório. Eu quero aprender tudo. E se vocês dois não conseguem trabalhar juntos, eu vou ter que aprender a dobrar meu tempo.
Houve um silêncio momentâneo. Jhong bufou, mas não pareceu descontente.
— Ele tem garra — admitiu o cirurgião em voz baixa, olhando para Cecil.
— Ele tem bom senso — corrigiu ela, embora tenha relaxado a postura. — Vá, Guigo. Não deixe esse homem te transformar em um robô.
Jhong colocou a mão nas costas de Guigo, guiando-o em direção ao centro cirúrgico. Antes de sair do campo de visão de Cecil, ele parou e olhou por cima do ombro.
— Ele tem mãos de cirurgião, Cecil. Aceite isso.
— E um coração de clínico — respondeu ela, cruzando os braços. — E é o coração que ele vai ouvir no final.
No caminho para o bloco, o silêncio entre Guigo e Jhong era diferente. Não era o silêncio opressor das rodadas de perguntas na enfermaria, mas algo mais carregado.
— Você foi bem lá atrás — comentou Jhong, enquanto entravam no vestiário para trocar de roupa. — Poucos ousam enfrentar a Dra. Cecil. Ela pode ser... persistente.
— Ela é uma excelente médica — defendeu Guigo, tirando o jaleco.
Jhong parou, com a mão na maçaneta do armário, e olhou para Guigo. Por um momento, a máscara de carrasco caiu, revelando uma vulnerabilidade que o aluno nunca tinha visto.
— Ela é. E ela está certa sobre uma coisa. Você não é como eu. Você é melhor. Por isso eu sou tão duro com você.
Guigo sentiu o coração acelerar. Aquele era o elogio mais alto que Jhong já havia feito a qualquer ser humano.
— Obrigado, doutor. Significa muito vindo do senhor.
— Não me agradeça ainda. Você ainda tem que provar que merece estar na minha mesa — disse Jhong, recuperando a compostura austera. — Agora, lave-se. O tempo é vida.
A cirurgia foi um sucesso técnico. Guigo observou, fascinado, como Jhong manipulava os instrumentos com uma graça quase violenta. Havia uma beleza brutal naquilo. Mas, durante todo o tempo, ele também pensava na paciência de Cecil, na maneira como ela explicava os mecanismos fisiopatológicos como se estivesse contando uma história.
Ao sair do bloco, exausto, mas satisfeito, Guigo encontrou Cecil esperando no corredor, com dois copos de café na mão.
— Sobreviveu ao monstro? — perguntou ela, estendendo um dos copos.
— Ele não é um monstro — disse Guigo, aceitando o café. — Ele é apenas... intenso.
— Ele é apaixonado pelo que faz — corrigiu Cecil, caminhando ao lado dele. — E ele vê essa mesma paixão em você. O problema, Guigo, é que ele quer essa paixão só para a cirurgia. E eu sei que você tem espaço para muito mais.
Eles chegaram à porta da unidade de endoscopia. Cecil parou e olhou nos olhos dele.
— O Jhong acha que o mundo se resolve com cortes. Eu acho que o mundo se resolve com compreensão. Você é o ponto onde essas duas coisas se encontram. Não deixe nenhum de nós dois te puxar demais para um lado só.
— Por que vocês fazem isso? — perguntou Guigo, finalmente verbalizando a dúvida que o perseguia. — Por que essa disputa por mim? Existem dezenas de outros alunos.
Cecil deu um sorriso triste e tocou levemente o rosto de Guigo.
— Porque você nos lembra de por que começamos a medicina, antes do cinismo e da arrogância tomarem conta. E porque, honestamente, é difícil não querer estar perto de alguém que brilha tanto quanto você.
Ela entrou na sala, deixando Guigo sozinho no corredor por um momento. Ele olhou para um lado, onde o centro cirúrgico representava o desafio e a força de Jhong. Olhou para o outro, onde a gastro representava a mente e a empatia de Cecil.
Ele sabia que a disputa estava longe de acabar. Na verdade, ela estava apenas começando. E, enquanto bebia o café quente, Guigo percebeu que, naquele hospital, ele não estava apenas aprendendo a curar corpos. Ele estava aprendendo a navegar entre os corações mais complexos que já havia encontrado: os de seus próprios mentores.
Lá no fundo do corredor, ele viu Jhong observando-os de longe, com a expressão indecifrável, mas a postura rígida de quem não desistiria facilmente. Cecil, de dentro da sala, acenou para que ele entrasse.
Guigo respirou fundo e seguiu em frente. A medicina era uma arte difícil, mas lidar com o afeto disfarçado de disciplina e a admiração disfarçada de rivalidade seria o seu maior desafio naquele ano letivo. E, secretamente, ele não mudaria nada naquilo.
