Fanfy
.studio
Imagem de fundo

The Boy I Lost Twice

Fandom: cortis, Keonhyeon

Criado: 11/08/2026

Índice

O Eco de um Sorriso em Preto e Branco

A chuva em Seul não era apenas água caindo do céu; era um peso morto, uma cortina cinzenta que abafava os gritos da cidade e transformava o asfalto em um espelho distorcido. Eom Seonghyeon observava as gotas escorrerem pelo vidro embaçado do seu apartamento, sentindo o frio infiltrar-se em seus ossos, que pareciam cada vez mais proeminentes sob a pele pálida. Desde que ele se fora, o mundo perdera a saturação.

Seonghyeon era uma sombra do que um dia foi. Aos vinte e poucos anos, carregava a fragilidade de um pássaro ferido. Seus 1,70m de altura pareciam ainda menores agora que ele se recusava a comer adequadamente, e seus olhos, antes brilhantes, agora eram poços de uma indiferença gélida. Ele guardava tudo — a dor, o luto, o vazio — em um cofre trancado no peito.

Mas ele não estava sozinho. Nunca estava.

No canto escuro do quarto, onde a luz do poste de rua não alcançava, o vulto se movia.

Não era um movimento humano. Era uma distorção no espaço, uma mancha de escuridão absoluta, mais negra que a própria noite. O vulto era alto, alto demais para qualquer teto padrão, e seus olhos... dois pontos de um vermelho pulsante, como brasas moribundas em uma lareira.

Seonghyeon não sentia medo. Pelo menos, não mais.

— Você está aqui de novo — murmurou Seonghyeon, sua voz rouca pela falta de uso.

O vulto não respondeu com palavras. Ele se inclinou, um movimento fluido e desumano, as juntas parecendo dobrar-se em ângulos impossíveis. O ar ao redor dele caiu drasticamente de temperatura. Seonghyeon sentiu o arrepio subir por sua nuca quando a presença gelada se aproximou.

— Você cheira a remédios e a algo pior — a voz, se é que se podia chamar aquilo de voz, era um chiado vibrante que ressoava dentro da mente de Seonghyeon.

Seonghyeon soltou um riso seco, sem humor, enquanto girava um pequeno frasco entre os dedos.

— É a única forma de ver você melhor. A sobriedade é um tédio insuportável.

O vulto estendeu uma mão longa, cujos dedos pareciam garras de fumaça sólida, e roçou a bochecha de Seonghyeon. O toque era como gelo seco, queimando de tão frio.

— Eu protejo você — sibilou a criatura. — Sempre.

— Protege de quê? Da vida? — Seonghyeon provocou, um lampejo do seu antigo eu atrevido surgindo por um segundo. — Você é apenas uma alucinação leal, Keonho.

O nome fez o vulto estremecer. A escuridão que o formava pareceu borbulhar, uma reação instintiva e ciumenta. O vulto não gostava de ser lembrado do que não era, ou do que Seonghyeon pensava que ele representava.

Naquela noite, a mistura de álcool barato e as pílulas coloridas que Seonghyeon conseguira em um beco úmido foi demais. A realidade começou a dobrar-se como papel molhado. Ele se levantou, cambaleante, sentindo o mundo girar. O vulto estava ao seu lado, movendo-se sem fazer um único som, os olhos vermelhos fixos nele com uma intensidade protetora e possessiva.

— Cuidado — alertou a sombra, o tom carregado de uma ingenuidade quase infantil, apesar da aparência monstruosa.

— Eu estou bem — mentiu Seonghyeon, dando um passo em falso em direção à escada do duplex.

O pé não encontrou o degrau. O corpo frágil de Seonghyeon pesou contra a gravidade. Ele sentiu o impacto inicial, o som abafado de ossos contra madeira, e então... o vácuo.

Mas ele não parou no chão da sala.

A queda pareceu durar uma eternidade, e o cheiro de chuva e mofo foi substituído pelo odor de terra seca, ozônio e grama alta.

Quando Seonghyeon abriu os olhos, o céu não era cinza. Era de um roxo profundo, tingido por nuvens alaranjadas que pareciam pintadas à mão. Ele estava deitado em uma planície vasta, um deserto que lembrava o outback australiano, mas distorcido, onírico. O calor era seco e envolvente.

— Seonghyeon!

A voz não era um chiado. Era clara, vibrante e terrivelmente familiar.

Seonghyeon sentou-se com dificuldade, a cabeça latejando. À sua frente, parado sob a luz de dois sóis poentes, estava um jovem. Ele era alto, cerca de 1,84m, com ombros largos e uma postura atlética. A pele era morena, beijada pelo sol daquele mundo estranho, e os traços eram jovens, de um rapaz de dezessete anos.

Era Ahn Keonho. O Keonho que ele perdera. O Keonho que deveria estar enterrado sob sete palmos de terra há anos.

— Keonho? — A voz de Seonghyeon falhou. Ele se levantou, as pernas trêmulas.

O rapaz sorriu, um sorriso provocador e cheio de vida que Seonghyeon pensou que nunca mais veria. Ele correu até Seonghyeon, segurando-o pelos ombros com uma força bruta, porém cuidadosa.

— Você finalmente chegou, seu idiota desajeitado! — Keonho exclamou, sacudindo-o levemente. — Eu disse para ter cuidado com as escadas.

— Você... você é o vulto? — Seonghyeon tocou o rosto de Keonho. Era quente. Era real.

— Eu sou eu — Keonho respondeu, a lealdade brilhando em seus olhos escuros. — Aqui, eu sou o que você precisa. Lá fora... lá fora eu sou apenas o que sobrou.

Os dias — ou o que passava por dias naquele mundo paralelo — tornaram-se um ciclo vicioso de euforia e decadência. No Outback, Keonho era o protetor absoluto. Ele caçava criaturas estranhas que rondavam a mente de Seonghyeon, ele construía abrigos de palha e luz, e ele provocava Seonghyeon até que o menor perdesse a paciência e tentasse chutá-lo, apenas para ser erguido no ar pelos braços fortes do maior.

— Você é tão pequeno, Seonghyeon-ah — Keonho ria, prendendo-o em um abraço de urso que quase esmagava as costelas frágeis do outro. — Como sobreviveu tanto tempo sem mim?

— Eu não sobrevivi — sussurrou Seonghyeon contra o peito de Keonho, fechando os olhos para sentir o batimento cardíaco que não existia no mundo real. — Eu só estava esperando para morrer.

Mas o mundo paralelo tinha um preço. A cada momento que passavam ali, a pele de Seonghyeon tornava-se mais translúcida. A energia necessária para manter aquela ilusão estava drenando sua vida. Keonho, em sua ingenuidade impulsiva, queria mantê-lo ali para sempre, ciumento de qualquer pensamento que Seonghyeon tivesse sobre "voltar".

— Por que você quer ir embora? — Keonho perguntou um dia, enquanto observavam as estrelas que se moviam como rios de prata no céu. — Lá você é nada. Aqui, você é meu.

— Aqui eu estou sumindo, Keonho — Seonghyeon respondeu, observando suas próprias mãos começarem a tremer. — E você... você está se tornando algo terrível para me manter aqui.

A relação, antes um refúgio, tornou-se tóxica. O ciúme de Keonho manifestava-se em tempestades de areia que assolavam o deserto sempre que Seonghyeon mencionava a vida real. A proteção tornou-se possessão.

O tempo naquele lugar era relativo, mas para o corpo de Seonghyeon em Seul, os anos passavam em um piscar de olhos.

O último encontro aconteceu no topo de uma colina de rocha vermelha. O céu estava escurecendo, não para a noite, mas para o fim.

Keonho parecia diferente. Suas extremidades às vezes falhavam, tornando-se sombras pretas por breves segundos. Ele parecia desesperado.

— Se você for, eu não posso ir com você — disse Keonho, a voz carregada de uma tristeza profunda. — Eu sou apenas o eco do que você amou. Se você acordar, o eco silencia.

Seonghyeon olhou para ele, as lágrimas escorrendo pelo rosto magro. Ele amava aquele rapaz, ou a memória dele, com cada fibra de seu ser destruído. Mas ele sentia o chamado do vazio.

— Nós estamos nos matando, Keonho — Seonghyeon disse suavemente. — Este mundo... ele não é vida. É uma estase dolorosa.

— Eu protegi você — Keonho deu um passo à frente, sua figura oscilando entre o jovem de dezessete anos e o vulto de olhos vermelhos. — Eu fui leal.

— Eu sei — Seonghyeon tocou o peito de Keonho uma última vez. — Mas eu preciso descansar. De verdade.

— Você vai esquecer? — perguntou Keonho, a ingenuidade voltando em um sussurro quebrado.

— Nunca.

O mundo ao redor deles começou a rachar como vidro. O roxo do céu foi substituído por um branco ofuscante e estéril.

Seonghyeon abriu os olhos.

O teto não era de rocha vermelha ou estrelas de prata. Era um forro de gesso branco, com uma lâmpada fluorescente zumbindo irritantemente. O cheiro de antisséptico era tão forte que o fez ansiar pelo cheiro de terra seca de Keonho.

Ele tentou se mexer, mas seu corpo não respondia. Ele se sentia pesado, como se fosse feito de chumbo.

Uma enfermeira entrou no quarto, deixando cair a bandeja que carregava ao vê-lo acordado.

— Doutor! O paciente do quarto 402 acordou!

Foram dias de exames, de vozes abafadas e de uma descoberta cruel. Seonghyeon estivera em coma por dez anos. A queda da escada causara um traumatismo craniano severo, e as substâncias em seu sistema complicaram sua recuperação.

Ele agora tinha trinta e poucos anos. Seus pais haviam envelhecido, seus poucos conhecidos haviam seguido em frente. O mundo lá fora mudara; a tecnologia era diferente, o ritmo da cidade era outro.

Mas, para Seonghyeon, o tempo parara naquela colina vermelha.

Ele olhou para o canto do quarto do hospital. Esperou ver a mancha negra, os olhos vermelhos, sentir o frio reconfortante da sombra que o protegera por tanto tempo.

Nada. Apenas o vazio branco da realidade.

Ele tentou viver. Por algumas semanas, ele tentou. Frequentou a fisioterapia, ouviu os conselhos dos psicólogos sobre "recomeçar". Mas como recomeçar quando se viveu uma vida inteira em um sonho com a única pessoa que importava?

A lealdade de Keonho o havia salvado no coma, mas a ausência de Keonho o estava matando na vigília.

Uma noite, a chuva voltou a cair em Seul. Era a mesma chuva cinzenta e pesada de dez anos atrás. Seonghyeon estava sozinho em seu novo e pequeno apartamento, cedido pela assistência social. Ele se olhou no espelho. Ele não reconhecia o homem ali. O rosto era velho, os olhos eram opacos. A fragilidade não era mais poética; era apenas decadência.

Ele se aproximou da janela aberta. O vento frio açoitou seu rosto, mas não era o frio de Keonho. Era apenas o inverno coreano, indiferente e cortante.

— Você disse que me protegeria — murmurou Seonghyeon para o vazio.

Ele não viu o vulto, mas por um breve segundo, sentiu um toque gelado em seu ombro. Uma última provocação do destino.

— Eu estou indo encontrar você — disse ele, com a voz mais firme do que tivera em anos.

Seonghyeon não guardou nada para si daquela vez. Ele deixou o suspiro sair, deixou a dor escapar e, finalmente, deixou o corpo cair.

Desta vez, não houve mundo paralelo. Não houve deserto roxo ou jovens de dezessete anos esperando com sorrisos atrevidos.

Houve apenas o silêncio. O tipo de silêncio que só existe quando o eco finalmente encontra seu fim.

Índice

Quer criar seu próprio fanfic?

Cadastre-se na Fanfy e crie suas próprias histórias!

Criar meu fanfic