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The Boy I Lost Twice

Fandom: cortis, keonhyeon

Criado: 11/08/2026

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Cinzas e Sombras no Outback

A chuva martelava contra o vidro da varanda com uma insistência melancólica, um ritmo monótono que parecia ecoar o vazio dentro do peito de Eom Seonghyeon. O som dos pneus rasgando o asfalto molhado lá embaixo, nas ruas movimentadas da cidade, misturava-se ao sibilar do vento que se infiltrava pela porta de vidro entreaberta. O ar frio carregava o cheiro de terra úmida e poluição, mas, dentro do pequeno apartamento de dois andares, o aroma era outro. Era acre, denso e entorpecente.

Seonghyeon estava jogado no sofá de couro gasto, uma perna dobrada e a outra pendendo para fora. Entre os dedos finos e pálidos, um cigarro de substâncias que a lei não abraçava queimava lentamente, a brasa brilhando como um pequeno farol em meio à penumbra da sala. Ele soltou a fumaça devagar, observando-a dançar e se dissolver no ar frio.

Ele estava visivelmente mais magro. A clavícula saltava sob a camiseta larga, e os pulsos pareciam frágeis demais, quase quebradiços. Desde a morte dele — daquela pessoa que era o seu sol, o seu porto seguro —, Seonghyeon havia se tornado uma sombra de si mesmo. A independência que sempre o definira transformara-se em isolamento; a tranquilidade, em uma indiferença gélida. Ele não chorava, não gritava. Apenas consumia. Bebia até que o mundo parasse de girar e fumava até que as memórias se tornassem borrões indistinguíveis.

Seus olhos escuros, outrora brilhantes e observadores, agora estavam nublados pela névoa química. Ele era bonito, de uma forma dolorosa e delicada, com traços que pareciam esculpidos em porcelana fina, mas a fragilidade atual dava-lhe um ar de algo que poderia desmoronar ao menor toque.

Foi então que ele sentiu.

A temperatura da sala, que já estava baixa, despencou drasticamente. O ar tornou-se tão frio que a respiração de Seonghyeon formou uma pequena nuvem branca diante de seu rosto. Ele não ouviu passos. Não houve o som de madeira rangendo ou de tecido roçando. Apenas uma presença.

No canto da sala, onde a luz da rua não alcançava, surgiu um vulto.

Era uma silhueta impossivelmente alta, com mais de dois metros de altura, uma mancha de escuridão absoluta que parecia absorver a pouca luz do ambiente. A pele — se é que se podia chamar aquilo de pele — era de um preto profundo, como se fosse feita de fumaça sólida. Não havia roupas, apenas a forma desumana e alongada. E então, dois pontos vermelhos e brilhantes se abriram no topo daquela escuridão. Olhos que queimavam como brasas no inferno.

Seonghyeon não se mexeu. Ele levou o cigarro à boca mais uma vez, a mão tremendo apenas o suficiente para ser imperceptível a olhos humanos.

— Você de novo — murmurou Seonghyeon, a voz rouca pela falta de uso e pelo excesso de fumaça.

O vulto moveu-se. O movimento era bizarro, desarticulado, como se os ossos não existissem ou seguissem leis físicas diferentes. Em um piscar de olhos, a criatura estava a poucos centímetros dele, inclinando-se sobre o sofá. O frio que emanava dela era cortante.

— Não saia daqui — a voz do vulto não vinha de uma garganta, mas parecia ressoar diretamente dentro da mente de Seonghyeon, um som profundo, vibrante e carregado de uma urgência quase infantil. — Pare de fazer isso. Você tem que mudar. Não pode continuar assim para sempre, Seonghyeon.

Seonghyeon soltou uma risada seca, sem humor, e soprou a fumaça diretamente no rosto inexistente da criatura.

— E quem é você para me dizer o que fazer? — Seonghyeon inclinou a cabeça para trás, encarando os olhos vermelhos com um atrevimento que beirava o suicídio. — Um pesadelo? Uma alucinação causada por essa porcaria que eu fumo? Você nem é real.

— Eu sou mais real do que o mundo que você está tentando destruir — o vulto retrucou, e houve um tom de possessividade em sua voz, uma vibração ciumenta que fez os pelos do braço de Seonghyeon se arrepiarem. — Fique aqui. Onde eu possa ver você. Onde você esteja seguro de si mesmo.

— Eu não te conheço! — Seonghyeon exclamou, subitamente irritado, a apatia dando lugar a uma fúria defensiva. — Você aparece no meu apartamento, fica me vigiando como um maníaco e acha que tem o direito de me dar ordens? Vá embora. Volte para o buraco de onde você saiu.

O vulto estendeu uma mão longa e escura, os dedos terminando em pontas finas, e pairou sobre o peito de Seonghyeon, sem tocá-lo, mas a pressão do frio era quase insuportável.

— Você é teimoso — disse a criatura, e havia uma estranha lealdade em seu tom, algo profundo e antigo. — Mas eu não vou deixar você se apagar. Não saia desta sala. O equilíbrio está frágil.

— Eu vou para onde eu quiser — Seonghyeon rosnou, a rebeldia falando mais alto que o bom senso.

Ele esmagou a ponta do cigarro no cinzeiro transbordando e, com um esforço que fez sua cabeça latejar, levantou-se. O mundo oscilou violentamente. O álcool e a droga pareciam ter decidido cobrar o preço naquele exato momento. Suas pernas, finas e instáveis, mal pareciam sustentar o peso de seu corpo frágil.

— Seonghyeon, não — o vulto avisou, movendo-se com aquela rapidez sobrenatural para bloquear o caminho, mas sem usar a força física.

— Sai da minha frente, coisa — Seonghyeon cambaleou, passando por onde a sombra estava. Ele sentiu um arrepio gélido atravessar seu corpo, como se tivesse mergulhado em um lago congelado.

Ele caminhou em direção à pequena escadaria que levava ao andar de baixo, onde ficavam a cozinha e a porta de saída. Sua visão estava turva, as luzes da cidade lá fora transformando-se em manchas coloridas e distorcidas. Cada degrau parecia estar a quilômetros de distância.

— Volte! — a voz da criatura ecoou, agora carregada de um pânico genuíno. — O portal... a transição não está pronta! Fique na sala!

— Cale a boca... — Seonghyeon murmurou, a mão tateando o corrimão de madeira.

No terceiro degrau, o chão pareceu simplesmente desaparecer. Não foi apenas um tropeço; foi como se a gravidade tivesse sido desligada por um segundo e depois ligada novamente com o dobro da força. Sua cabeça girou, o estômago revirou e a última coisa que ele viu antes da escuridão total foram os olhos vermelhos do vulto, brilhando com uma tristeza infinita, enquanto a criatura mergulhava em sua direção.

O impacto não veio. Em vez da dor do encontro com o chão de madeira, houve um vácuo.


Seonghyeon acordou com o rosto pressionado contra algo que não era carpete nem madeira. Era areia. Mas não uma areia comum; era de um tom roxo acinzentado, fina como pó e fria ao toque.

Ele tossiu, sentindo o peito arder. Seus sentidos estavam voltando lentamente, mas nada fazia sentido. O cheiro de chuva e cigarro havia sumido, substituído por um odor metálico e doce, como flores silvestres misturadas com sangue.

Ele se sentou com dificuldade, a tontura ainda presente, mas de uma forma diferente. Quando abriu os olhos, ele não estava mais em seu apartamento.

O céu acima dele não tinha estrelas nem nuvens; era uma vasta extensão de cor laranja neon, com duas luas — uma verde e outra de um azul pálido — que pareciam grandes demais para serem reais. Ao redor dele, a paisagem era composta por árvores cujos troncos eram retorcidos como agonia e cujas folhas brilhavam com uma luz fosforescente. Criaturas pequenas, com múltiplas asas e olhos demais, passavam voando baixo, emitindo sons que lembravam sinos de cristal quebrados.

Aquele era o Outback. Um mundo onde a lógica morria e o impossível ganhava forma.

— Eu avisei que você não deveria ter descido.

Seonghyeon congelou. Aquela voz... não era mais a ressonância mental do vulto. Era uma voz real. Profunda, vibrante, mas humana. Ou quase isso.

Ele se virou lentamente.

À sua frente, sentado em uma rocha que parecia pulsar levemente, estava um jovem. Ele aparentava ter cerca de 17 ou 18 anos, mas havia algo em sua postura que sugeria uma eternidade. Ele era alto — muito alto, facilmente 1,84m —, com ombros largos e uma constituição forte e atlética que contrastava violentamente com a fragilidade de Seonghyeon.

Sua pele era morena, beijada por aquele sol laranja estranho, e seus cabelos eram escuros, caindo de forma bagunçada sobre a testa. Os traços eram jovens, quase infantis na curva das bochechas, mas os olhos... os olhos eram os mesmos. Vermelhos. Intensos. Provocadores.

— Quem é você? — perguntou Seonghyeon, a voz falhando enquanto ele tentava processar a transição da sombra para aquele deus jovem e imponente.

O rapaz saltou da rocha com uma agilidade predatória e caminhou até ele. Não fazia barulho. Mesmo naquela areia estranha, seus passos eram silenciosos. Ele parou a poucos centímetros de Seonghyeon, obrigando o menor a inclinar a cabeça para trás para manter o contato visual.

— Meu nome é Ahn Keonho — disse ele, um sorriso de lado, provocador e cheio de dentes brancos, surgindo em seu rosto. — E eu sou o cara que você acabou de mandar para o inferno umas dez vezes nos últimos trinta minutos.

Keonho inclinou-se, o rosto descendo até ficar no nível do de Seonghyeon. O calor que emanava dele agora era intenso, o oposto do frio do vulto, mas a intensidade da presença era a mesma. Ele estendeu a mão e, com uma curiosidade quase ingênua, tocou a ponta do nariz de Seonghyeon.

— Você é muito menor do que eu pensava que seria de perto — Keonho comentou, os olhos vermelhos brilhando com uma mistura de diversão e uma proteção possessiva que fez o coração de Seonghyeon errar uma batida. — E muito mais frágil. Você precisa comer. E parar de se matar.

Seonghyeon, apesar do choque e do medo latente, sentiu o velho atrevimento borbulhar.

— E você é muito mais barulhento do que um vulto deveria ser — rebateu Seonghyeon, tentando se levantar, mas vacilando.

Antes que ele pudesse cair, as mãos grandes e fortes de Keonho o envolveram pela cintura, segurando-o com uma firmeza absoluta. O toque era possessivo, como se ele estivesse reivindicando algo que lhe pertencia por direito.

— Cuidado, gracinha — Keonho sussurrou, a voz vibrando contra o pescoço de Seonghyeon, enviando um calafrio que nada tinha a ver com o clima do Outback. — Aqui, as coisas não são como no seu mundo. E agora que você está aqui, você é meu. Eu vou cuidar de você, mesmo que eu precise te trancar em uma caverna para você não se quebrar.

Seonghyeon olhou para aqueles olhos vermelhos, vendo neles uma lealdade cega e um ciúme que beirava o perigoso. Ele estava em um mundo estranho, com um estranho que era, ao mesmo tempo, seu perseguidor e seu protetor.

— Eu não sou de ninguém, Keonho — Seonghyeon disse, embora não fizesse menção de se soltar daquele abraço quente e esmagador.

Keonho riu, um som rico e desajeitado, enquanto o puxava para mais perto, o nariz roçando no de Seonghyeon de forma curiosa.

— Veremos. O Outback é grande, Seonghyeon. Mas eu sou muito, muito persistente.

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