
Bone
Fandom: Sombras e ossos
Criado: 12/08/2026
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O Eclipse do Coração de Ébano
O silêncio no Pequeno Palácio nunca fora tão ensurdecedor. Para Clara Kirigan, as paredes de pedra pareciam sussurrar segredos que ela passara séculos tentando ignorar. Ela estava sentada diante do penteador, observando o próprio reflexo com uma melancolia que nem mesmo a seda preta de seu kefta conseguia disfarçar.
Clara era uma Sangradora, uma das mais poderosas que Ravka já conhecera, mas sentia que seu próprio sangue estava gelado. Ela apertou as mãos sobre as coxas, sentindo a maciez de suas curvas. Por anos, Aleksander a envolvera em palavras doces, dizendo que ela era sua âncora, sua rainha das sombras, mas sempre insistindo que ela se vestisse apenas de preto, como ele. Ele dizia que era para que o mundo soubesse que eles eram um só. Agora, ela se perguntava se o preto não era apenas uma forma de fazê-la desaparecer na escuridão dele.
A porta do quarto se abriu sem um aviso. O General Kirigan entrou, a aura de poder emanando dele como uma névoa fria. Ele parecia exausto, os olhos escuros carregados de uma frustração que ele não conseguia mais esconder desde que a Conjuradora do Sol, Alina Starkov, fugira de suas mãos.
— Você ainda está acordada — disse ele, a voz rouca. Ele caminhou até ela e pousou as mãos nos ombros de Clara.
O toque, que antes a fazia derreter, agora a fez enrijecer. Aleksander notou.
— O que foi, minha querida? — Ele inclinou o rosto, roçando os lábios no pescoço dela. — Você parece tensa.
Clara olhou para o reflexo dele no espelho. Ele era a própria imagem da perfeição imortal, enquanto ela sempre se sentira... demais. Curvas demais, peso demais, presença demais para um homem que parecia querer apenas uma sombra ao seu lado.
— Ouvi os criados falando, Aleksander — disse ela, a voz firme, apesar do tremor no coração. — E ouvi o que os rastreadores disseram quando voltaram.
As mãos dele pararam de se mover. O ar no quarto pareceu baixar alguns graus.
— Você não deveria ouvir fofocas de corredores. As pessoas são pequenas e invejosas.
— Elas não são invejosas quando descrevem a maneira como você olhava para a Starkov — rebateu ela, virando-se na cadeira para encará-lo. — Ou o fato de que você a beijou.
O silêncio que se seguiu foi cortante. Aleksander não desviou o olhar, mas houve uma mudança sutil em sua expressão — a máscara de marido dedicado caindo para dar lugar ao General calculista.
— Foi um meio para um fim, Clara — disse ele, com uma calma que a aterrorizou. — Eu precisava que ela confiasse em mim. O futuro de Ravka, a destruição da Dobra... tudo dependia de trazê-la para o meu lado.
— E para isso você precisou da boca dela na sua? — Clara sentiu uma lágrima quente escorrer, mas a limpou rapidamente. — Nós estamos juntos desde antes da Dobra existir, Aleksander. Eu estive ao seu lado quando você era apenas um homem com um sonho perigoso. Eu vi você criar aquele horror e eu fiquei. Por que eu te amava. Mas agora eu vejo... você não a beijou apenas por Ravka.
— Você está sendo insegura de novo — disse ele, aproximando-se e tentando segurar o rosto dela. — Esse seu hábito de se diminuir... eu já te disse mil vezes que você é a única para mim.
Clara recuou, levantando-se bruscamente.
— Não use minhas inseguranças contra mim! — exclamou ela. — Eu passei décadas usando essas roupas pretas porque você dizia que era o nosso símbolo. Mas a verdade é que você me queria escondida. Você queria uma Sangradora poderosa que pudesse curar suas feridas e matar seus inimigos em silêncio, mas que nunca brilhasse mais do que você.
— Isso é ridículo — rosnou ele, a paciência se esgotando. — Eu protejo você. Eu cuido de cada detalhe da sua vida para que ninguém a machuque.
— Você não me protege, Aleksander. Você me isola — disse Clara, sentindo uma clareza dolorosa tomar conta de sua mente. — Você beijou aquela menina porque ela é luz. E você percebeu que, por mais que tente, você nunca terá a luz. Então você tenta apagar a minha também.
— Clara, chega — ordenou ele, a voz vibrando com o poder do Shadow Summoner. — Eu tive um dia longo. Alina Starkov é uma ferramenta que escapou, nada mais. Você é minha esposa.
— Eu sou sua propriedade — corrigiu ela, sentindo o ritmo do coração dele através de sua habilidade de Sangradora. Estava acelerado, não de amor, mas de raiva e controle. — Eu percebi hoje, enquanto olhava para este kefta preto, que eu não sei mais quem eu sou sem o seu comando. Você não é um bom homem, Aleksander. Eu passei séculos justificando suas atrocidades porque achava que havia um coração batendo por mim sob essa armadura.
— E há — disse ele, tentando suavizar o tom, dando um passo em direção a ela. — Tudo o que eu fiz, a Dobra, o Pequeno Palácio... foi para nós. Para que os Grisha nunca mais tivessem medo.
— Não — disse ela, com uma convicção que o fez parar. — Foi para você. E agora, eu vejo como você olha para a Starkov. Há um desejo ali que não é apenas por poder. Você queria que ela o visse como um herói. E você sabe que eu te vejo como você realmente é.
Aleksander estreitou os olhos. As sombras nos cantos do quarto começaram a se agitar, respondendo ao seu humor sombrio.
— E o que você é sem mim, Clara? Uma Grisha que o mundo temeria ou caçaria. Eu sou o seu escudo.
— Eu prefiro enfrentar o mundo e ser caçada do que continuar morrendo aos poucos neste palácio de sombras — disse ela.
Clara caminhou até o guarda-roupa e, com um movimento rápido, rasgou a seda preta da manga de um de seus vestidos sobressalentes.
— O que você está fazendo? — perguntou ele, a voz gélida.
— Deixando você — respondeu ela. — Você está tão preocupado em caçar o Sol que não percebeu que o seu próprio sangue está se voltando contra você.
— Você não vai a lugar nenhum — disse Kirigan, e as sombras dispararam como chicotes, bloqueando a porta. — Eu não vou permitir que você me abandone agora, não quando tudo está desmoronando.
Clara sentiu o poder de Sangradora pulsar em suas veias. Ela não precisava de sombras para lutar. Ela conhecia cada batida do coração dele, cada fluxo de oxigênio em seus pulmões.
— Você esquece, Aleksander — disse ela, a voz baixa e perigosa —, que eu conheço o seu corpo melhor do que qualquer um. Eu posso fazer seu coração parar antes que você possa invocar o Corte.
Ele hesitou. O General sempre soube que Clara era poderosa, mas a submissão dela ao longo dos anos o fizera esquecer do perigo que ela representava.
— Você me mataria? — perguntou ele, um traço de vulnerabilidade genuína cruzando seus olhos. — Depois de tudo?
— Eu deveria — disse ela, as lágrimas finalmente caindo livremente. — Mas eu não sou como você. Eu não destruo o que eu amava apenas porque não posso mais controlar.
Clara concentrou sua vontade. Ela não atacou o coração dele, mas sim a pressão atmosférica ao redor das sombras. Como Sangradora, ela podia manipular o físico, a biologia, a pressão do sangue e, por extensão, o impacto do ambiente no corpo. Com um surto de esforço, ela empurrou o ar para fora, dispersando momentaneamente a concentração de Aleksander e fazendo as sombras vacilarem.
Ela correu para a porta.
— Clara! — gritou ele, mas não a seguiu imediatamente. Havia um choque em seu rosto, a percepção de que ele a perdera não por um erro estratégico, mas por sua própria natureza.
Ela correu pelos corredores do Pequeno Palácio, o kefta preto pesado em seu corpo. Ela se sentia grande, sentia que ocupava espaço, e pela primeira vez, não tentou se encolher. Ela era Clara Kirigan, e se o preto era a cor do luto, ela o usaria para enterrar a mulher que aceitava ser menos do que merecia.
Ao chegar aos portões, ela olhou para trás uma última vez. O Pequeno Palácio parecia uma tumba de obsidiana sob o luar.
— Nunca mais — sussurrou ela para o vento frio de Ravka.
Ela não sabia para onde ir, ou se a Alina Starkov era realmente a salvadora que diziam ser. Mas ela sabia que não seria mais a sombra de um homem que beijava a luz enquanto mantinha sua esposa na escuridão.
Clara arrancou o broche de prata que prendia seu kefta — o símbolo da linhagem Kirigan — e o jogou na neve. O metal afundou no branco frio, desaparecendo de vista.
— Eu não sou mais sua — disse ela, sentindo o próprio coração bater com uma força renovada.
Ela caminhou em direção à floresta, o corpo gordinho e forte movendo-se com uma agilidade que vinha da pura vontade de viver. Ela era uma Sangradora, e finalmente, estava curando a ferida mais profunda de todas: aquela que ela mesma permitira que Aleksander abrisse em sua alma.
A noite era vasta e perigosa, mas para Clara, pela primeira vez em séculos, o amanhecer parecia uma possibilidade real, e não apenas um sonho roubado por outro.
