
..
Fandom: N
Criado: 12/08/2026
Tags
Notificações, Abdominais e Outros Desastres
O sol da tarde batia contra as janelas do ginásio, criando feixes de poeira que dançavam no ar abafado. Itachi Uchiha soltou um suspiro pesado, secando o suor da testa com a gola da camiseta de treino. Seus músculos latejavam levemente, aquela dor satisfatória de quem havia levado o corpo ao limite. Ele era o tipo de aluno que mantinha a excelência em tudo: das notas em História à performance na quadra.
Sentado no banco do vestiário, ele pegou o celular. A tela brilhou com uma enxurrada de notificações. Duas, em especial, chamaram sua atenção no topo da lista.
Izumi: "Ei, acabou o treino? Fiquei curiosa... manda uma foto de como você tá? Queria ver o resultado de tanto esforço ;) "
Lis: "ITA-KUN!!! Pelo amor de tudo que é sagrado, me salva. Perdi a aula de História hoje porque fiquei ouvindo o álbum novo do The Cure e esqueci da vida. Manda foto do seu caderno? Prometo que não vou babar nas suas anotações perfeitas."
Itachi deu um meio sorriso. Lis era um caos em forma de pessoa. Sua melhor amiga desde que se entendia por gente, a garota de 1,60m com cabelos cacheados volumosos e um gosto por roupas pretas que contrastava com sua personalidade solar e barulhenta. Já Izumi era algo mais... linear. Eles estavam saindo, uma espécie de "ficada séria" que ainda não tinha nome, mas que funcionava bem dentro da rotina organizada de Itachi.
Ainda meio grogue pelo cansaço, Itachi levantou a camisa para checar um arranhão na costela. Aproveitando o ângulo, tirou uma foto rápida do abdômen definido para enviar a Izumi, como ela pedira. Em seguida, abriu a mochila, tirou o caderno de História e fotografou as duas últimas páginas para Lis.
O problema de ser um gênio multitarefa é que, às vezes, o cérebro entra em curto-circuito.
Com os dedos ágeis, ele selecionou as imagens e as conversas. O clique de "enviar" ecoou no vestiário silencioso. Itachi guardou o celular, pegou sua toalha e caminhou em direção ao chuveiro, sem notar o erro catastrófico que acabara de cometer.
Vinte minutos depois, ao sair do banho e trocar de roupa, ele pegou o aparelho novamente. Havia doze mensagens não lidas.
Izumi: "Itachi? Por que você me mandou a estrutura da Revolução Francesa?"
Izumi: "É algum código? Kkkk"
O coração de Itachi deu um solavanco. Ele abriu a conversa de Lis.
Lis: "EITA PORRA"
Lis: "Itachi, meu querido, meu amor, meu melhor amigo do mundo inteiro..."
Lis: "Eu pedi a matéria de História, não o cardápio completo de delícias da Uchiha Corp."
Lis: "QUE ISSO, GAROTO? Tá querendo me matar do coração ou me fazer reprovar por falta de sangue no cérebro?"
Lis: "Vou emoldurar. Vou colocar de papel de parede. Vou mandar imprimir em outdoor."
Lis: [Foto visualizada]
Itachi sentiu o rosto esquentar instantaneamente. Ele fechou os olhos por um segundo, encostando a testa no armário de metal frio. Como ele pôde ser tão descuidado?
— Droga... — sussurrou para si mesmo.
Ele rapidamente digitou para Izumi, explicando o erro e enviando o caderno (desta vez para a pessoa certa), mas o verdadeiro desafio seria lidar com o furacão chamado Lis. O celular vibrou na mão dele. Era uma chamada de vídeo.
Ele atendeu, já esperando o pior.
— Mas olha só se não é o modelo da Calvin Klein de Konoha! — A voz de Lis explodiu pelos alto-falantes, carregada de deboche.
Ela apareceu na tela, deitada na cama, os cachos espalhados pelo travesseiro e usando uma camiseta larga de uma banda de metal gótico. Ela sorria de orelha a orelha, os olhos brilhando com a oportunidade perfeita de provocação.
— Lis, apaga isso agora — Itachi disse, tentando manter sua voz calma e monótona de sempre, embora suas orelhas estivessem vermelhas.
— Apagar? Itachi, isso é patrimônio histórico! — ela exclamou, sentando-se na cama. — Você sabe que História é minha matéria favorita, mas eu não sabia que a anatomia humana fazia parte do cronograma de hoje. Que definição, hein? Você anda fazendo quantos abdominais? Mil por hora?
— Foi um erro, Lis. Eu ia mandar para a Izumi. Ela pediu.
Lis fez um biquinho dramático, fingindo estar ofendida.
— Ah, então a Izumi ganha o conteúdo VIP e eu fico com a Revolução Francesa? Que injustiça, Uchiha. Eu sou sua melhor amiga! Eu mereço exclusividade no entretenimento.
— Você é impossível — Itachi suspirou, mas não conseguiu evitar que o canto dos lábios subisse. — Já mandei o caderno. Copie logo e pare de falar besteira.
— Ah, eu vou copiar. Mas confesso que a motivação para estudar agora subiu uns 200%. Se eu tirar dez na prova, o mérito é todo dos seus gominhos.
— Tchau, Lis.
— Tchau, gatinho do treino! Não esquece de passar protetor solar, não queremos estragar a mercadoria!
Itachi desligou, balançando a cabeça. Lis era a única pessoa no mundo capaz de desarmá-lo daquela forma. Ele sempre se orgulhou de sua compostura, de ser o "gelo" em qualquer situação, mas Lis era o fogo que não pedia licença para queimar.
No dia seguinte, o clima na escola estava estranhamente tenso para Itachi. Ele encontrou Izumi no corredor perto dos armários. Ela sorriu para ele, mas havia uma sombra de dúvida em seu olhar.
— Oi, Itachi. Conseguiu terminar de estudar ontem? — ela perguntou, aproximando-se para um beijo rápido na bochecha.
— Sim, desculpe pela confusão das fotos. Eu estava exausto do treino.
— Tudo bem. Só achei estranho... você mandou a foto do caderno muito rápido depois. Parecia que estava com pressa de consertar algo.
— Só não queria te deixar confusa — ele respondeu, polido como sempre.
Nesse momento, um vulto preto e roxo surgiu do nada, pulando nas costas de Itachi.
— BOM DIA, GRUPO! — Lis gritou, abraçando o pescoço dele com força. — E aí, Tachi? Recuperado do esforço físico intenso de ontem? Dormiu bem ou ficou pensando em ângulos de câmera?
Itachi sentiu o corpo de Izumi enrijecer levemente ao lado dele. Lis, por outro lado, parecia completamente alheia (ou fingia muito bem) ao desconforto da outra garota. Ela desceu das costas dele e deu um tapinha amigável no ombro de Izumi.
— Oi, Izumi! Sorte a sua, hein? O material de estudo do Itachi é... de primeira qualidade.
Izumi forçou um sorriso.
— É, ele é bem dedicado.
— Dedicadíssimo! — Lis piscou para Itachi, uma piscadela lenta e carregada de segundas intenções. — Bom, vou indo. Tenho que devolver o caderno para o dono antes que ele sinta falta da sua "propriedade". A gente se vê no intervalo, Tachi? Do lado da árvore de sempre?
— Sim, Lis. Eu estarei lá.
Ela saiu saltitando, os fones de ouvido já posicionados, balançando a cabeça ao som de alguma música alta que Itachi conseguia ouvir mesmo de longe.
— Ela é... bem intensa, não é? — Izumi comentou, cruzando os braços.
— É o jeito dela — Itachi respondeu, observando as costas de Lis se afastarem. — Somos amigos há muito tempo.
— Eu sei. Mas às vezes parece que vocês têm um mundo só de vocês.
Itachi não respondeu. Ele não tinha uma resposta para aquilo, porque, no fundo, Izumi tinha razão. Havia uma linguagem própria entre ele e Lis, um código feito de anos de confidências, provocações e uma lealdade que ele nunca sentira por mais ninguém.
O intervalo chegou e, como prometido, Itachi estava sentado sob a grande macieira nos fundos do campus. Ele lia um livro de poesias, mas sua mente não conseguia se concentrar nos versos. Ele estava esperando pelo furacão.
Não demorou muito. Lis sentou-se ao lado dele, tirando um dos fones de ouvido e colocando-o na orelha de Itachi, sem pedir permissão. Uma batida de rock alternativo preencheu o silêncio.
— Toma seu caderno — ela disse, entregando o objeto. — E obrigada. De verdade. Salvei minha pele em História.
— De nada. Você sabe que é só prestar atenção na aula que não precisaria disso.
— Blá, blá, blá. Você fala igual ao meu pai — ela debochou, encostando a cabeça no ombro dele. — Mas sério, Tachi... sobre a foto...
Itachi suspirou, fechando o livro.
— Lis, se você vai começar de novo...
— Não, não é isso. — Ela ficou subitamente séria, algo raro. — Eu ia zoar, mas... a Izumi viu, né? Quer dizer, a foto que era pra ela.
— Viu. Eu mandei depois.
Lis ficou em silêncio por um momento, traçando padrões invisíveis na calça jeans rasgada de Itachi.
— Vocês estão ficando sério mesmo? Tipo, namoro?
Itachi olhou para o horizonte.
— Não sei. A gente se dá bem. Ela é calma, inteligente... faz sentido.
— "Faz sentido" — Lis repetiu, a voz com um tom de amargura que ela tentou disfarçar com um risinho. — Você é tão racional que dói, Uchiha. O amor não tem que fazer sentido, tem que fazer o coração errar a batida. Tipo quando você manda um nude por engano para a sua melhor amiga e ela quase tem um colapso.
Itachi virou o rosto para encará-la. Eles estavam muito próximos. Ele conseguia ver as pequenas sardas no nariz dela e o brilho escuro de seus olhos, que pareciam estar procurando algo na expressão dele.
— E o seu coração errou a batida, Lis? — ele perguntou, a voz subitamente mais baixa, mais rouca.
O ar entre eles pareceu mudar. A provocação que sempre servia de escudo para Lis evaporou. Ela abriu a boca para dizer algo debochado, uma de suas frases de efeito, mas as palavras morreram na garganta. Pela primeira vez em anos, ela não sabia o que dizer.
— Eu... — ela começou, a voz falhando. — Talvez ele tenha feito um treino de cardio completo, igual ao seu.
Itachi sentiu um impulso perigoso. Ele queria esticar a mão e tocar os cachos dela, queria puxá-la para mais perto e descobrir se aquele perfume de baunilha e incenso que ela sempre usava ficava mais forte na curva do pescoço. Sua impulsividade, algo que ele sempre criticou nela, parecia estar sendo contagiosa.
— Lis, eu...
— ITACHI!
A voz de Izumi cortou o momento como uma lâmina. Ela vinha caminhando em direção a eles, com um sorriso que não chegava aos olhos. Lis se afastou rapidamente, ajeitando o cabelo e recuperando sua postura debochada num piscar de olhos.
— Opa, a patroa chegou! — Lis levantou-se num salto, limpando a grama da saia preta. — Vou deixar o casal a sós. Tachi, valeu pelo caderno. A gente se fala por mensagem... e vê se não erra o destinatário da próxima vez, hein? Meu coração de idosa não aguenta.
Ela deu uma piscadela para Itachi, um aceno vago para Izumi e saiu andando, as mãos nos bolsos da jaqueta de couro.
Itachi a observou ir, sentindo um vazio estranho no peito. Izumi chegou ao lado dele e começou a falar sobre um trabalho em grupo, mas ele mal ouvia.
Naquela noite, deitado em sua cama, o celular de Itachi vibrou.
Lis: "Ainda não apaguei a foto."
Lis: "Só pra você saber."
Itachi encarou a tela por longos minutos. Ele deveria pedir para ela apagar. Deveria ser o Itachi responsável, o "ficante" da Izumi, o melhor amigo sensato.
Em vez disso, ele digitou:
Itachi: "E o que você pretende fazer com ela?"
A resposta veio quase instantaneamente.
Lis: "Estudar, Uchiha. Estudar cada detalhe da matéria. Boa noite, CDF."
Itachi sorriu, cobrindo os olhos com o braço. A amizade deles sempre foi um porto seguro, mas agora parecia um mar revolto. E, pela primeira vez na vida, Itachi Uchiha não estava com pressa nenhuma de voltar para a terra firme. Ele percebeu que a foto trocada não tinha sido um erro do destino, mas sim um despertar.
A provocação de Lis não era apenas barulho; era um convite. E ele, o observador paciente, finalmente estava começando a entender que algumas coisas na vida não foram feitas para serem observadas de longe.
Do outro lado da cidade, Lis olhava para a foto no celular, o coração ainda batendo naquele ritmo acelerado que ela tentara esconder. Ela sempre soube que Itachi era bonito, mas vê-lo daquele jeito, através da lente de um momento privado, mudara tudo. A lealdade que ela sentia por ele agora tinha um novo componente: um desejo ardente de ser a única pessoa para quem ele enviaria fotos — e não por engano.
O terceiro ano do Ensino Médio estava apenas começando, e a matéria de História nunca fora tão interessante.
