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Fandom: Nenhum
Criado: 12/08/2026
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Entre Tinta, Laços e Segredos
O estúdio particular de Emanuel, localizado na cobertura de um dos edifícios mais caros da cidade, cheirava a antisséptico, tinta fresca e ao perfume caro e doce de Sara. Ele estava sentado em sua cadeira de couro, observando o reflexo da cidade através da parede de vidro, enquanto Sara, com seus quatro meses de gestação já marcando o vestido de seda justo e curto, analisava alguns croquis de tatuagem.
Emanuel era um homem de contrastes. Aos vinte e cinco anos, o império de estúdios que construíra ao redor do mundo era fruto de uma mente racional, fria e extremamente técnica. Mas, por dentro, ele sentia o peso constante de uma tensão que só duas mulheres conseguiam equilibrar — de formas completamente opostas.
— Você está pensando nela de novo, não está? — A voz de Sara surgiu, carregada de uma ironia que não buscava ferir, mas sim constatar o óbvio.
Ela caminhou até ele, o quadril balançando de forma provocante, e sentou-se em seu colo. Sara era o excesso em pessoa: o loiro platinado impecável, o silicone que ela exibia com orgulho em decotes generosos, a maquiagem sempre perfeita. Ela era o caos que Emanuel amava controlar.
— Eu conto tudo para você, Sara. Você sabe que sim — respondeu ele, as mãos grandes e calejadas repousando sobre a barriga dela, onde a pequena Ágata crescia.
— E é por isso que eu não me importo, querido — Sara riu, passando as unhas longas pela nuca dele. — Eu sou sua esposa, sou a mãe da sua filha e sou a mulher que manda nesta casa e no seu coração. Se a pequena Eduarda também ocupa um puxadinho aí dentro, quem sou eu para reclamar? Ela é uma gracinha. Parece um passarinho que vai quebrar se a gente apertar demais.
Emanuel suspirou, fechando os olhos. Ele amava Sara com uma intensidade possessiva e protetora. Ela era sua parceira, sua cúmplice. Mas Eduarda... Eduarda era o silêncio que ele precisava depois da tempestade. A estudante de História da Arte, com seus olhos expressivos e alma sensível, despertava nele um instinto de proteção que beirava a obsessão.
— Hoje vamos à casa do Gabriel — disse Emanuel, mudando de assunto, embora soubesse que não enganava a mulher. — Vamos contar sobre a Ágata.
— Ótimo. Mal posso esperar para ver a cara do seu "irmão" quando souber que vai ser tio de consideração — Sara levantou-se, ajeitando o vestido que mal cobria as coxas. — E, claro, para ver você tentando não babar na irmãzinha dele.
A casa da família de Eduarda era o oposto do mundo cosmopolita de Emanuel. Era um lar que exalava conforto, com cheiro de bolo de canela e o som suave de música clássica vindo do andar de cima. Gabriel, o melhor amigo de Emanuel, os recebeu com um abraço de urso.
— Entrem, entrem! Meus pais saíram, mas a Duda está lá em cima terminando um ensaio — Gabriel anunciou, guiando-os para a sala.
Emanuel sentiu o corpo retesar ao ouvir o nome dela. Ele tentou manter a expressão neutra, a máscara de seriedade que o acompanhava nos negócios, mas o olhar cansado entregava sua expectativa.
— E então, qual é a grande notícia? — perguntou Gabriel, servindo bebidas.
— Vamos ser pais, Gabriel — Emanuel disse, a voz firme, mas com um brilho de orgulho. — É uma menina. Ágata.
— Puta merda, cara! Parabéns! — Gabriel vibrou, socando o ombro do amigo.
Sara sorria, aceitando os parabéns com sua confiança habitual, até que um som suave de sapatilhas batendo contra a madeira da escada chamou a atenção de todos.
Eduarda apareceu no topo da escada. Ela usava um collant preto, uma saia de tule rosa pálido e o cabelo castanho estava preso em um coque frouxo, com alguns fios emoldurando o rosto delicado. Ela parecia uma pintura renascentista que ganhara vida, exatamente o tipo de beleza que ela estudava na faculdade.
Ao ver Emanuel, ela parou bruscamente. Suas bochechas ganharam um tom rosado e ela desviou o olhar imediatamente, as mãos pequenas agarrando o corrimão.
— Oi, Duda! Vem aqui, o Emanuel e a Sara têm uma notícia! — chamou Gabriel.
Eduarda desceu os degraus lentamente, quase como se quisesse ser invisível. Ela se aproximou com a timidez que lhe era característica, evitando o contato visual direto com Emanuel, cujo olhar queimava sobre ela de forma quase palpável.
— Oi, Sara. Oi, Emanuel — a voz dela era um sussurro doce.
— Oi, querida! — Sara foi a primeira a se aproximar, envolvendo a garota em um abraço perfumado. — Olha só como você está linda. Esse corpo de bailarina é um pecado, não é, Emanuel?
Emanuel limpou a garganta, sentindo a tensão subir pelo pescoço.
— Você está bem, Eduarda? — perguntou ele, a voz saindo mais profunda do que pretendia.
— Estou... estou bem. Parabéns pelo bebê — ela disse, olhando para os próprios pés.
— É uma menina, Duda! — Gabriel passou o braço pelos ombros da irmã, um gesto possessivo e protetor que não passou despercebido por Emanuel. — E eu já vou avisando, Emanuel: se você for um pai tão rígido quanto é com seus funcionários, a pobre Ágata vai sofrer.
— Eu só protejo o que é meu, Gabriel — Emanuel respondeu, os olhos fixos em Eduarda, que estremeceu levemente com a intensidade daquelas palavras.
— Bom, eu vou buscar uns petiscos na cozinha — disse Eduarda, buscando uma rota de fuga.
— Eu ajudo! — Sara se prontificou, piscando para Emanuel antes de seguir a garota.
Na cozinha, o contraste era gritante. Sara, com suas curvas artificiais e presença esmagadora, e Eduarda, esguia, leve e natural.
— Você não precisa ter medo dele, sabe? — Sara disse, encostando-se no balcão enquanto observava Eduarda pegar os pratos.
— Eu não tenho medo... — Eduarda mentiu, as mãos tremendo levemente.
— Tem sim. Mas é um medo gostoso, não é? — Sara deu um sorriso cúmplice, nada agressivo. — O Emanuel é um homem difícil, controlador, mas ele tem um coração enorme. E ele gosta de você, Duda. De um jeito que ele não gosta de mais ninguém.
Eduarda arregalou os olhos, sentindo o coração disparar.
— Sara, ele é seu marido... você está grávida...
— E eu o amo. Justamente por amá-lo, eu sei o que ele precisa. O Emanuel vive sob uma pressão que ninguém imagina. Eu sou o fogo dele, mas você... você é a paz. Eu não me importo de compartilhar a paz dele, se isso significar que ele vai ser completo.
Eduarda ficou sem palavras. A lógica de Sara era estranha, quase mundana demais para sua sensibilidade, mas havia uma sinceridade ali que a desarmava.
— Eu... eu preciso voltar para o ensaio — Eduarda disse, sentindo-se sufocada pela honestidade da outra mulher.
Ela saiu da cozinha quase correndo, passando pela sala sem olhar para trás.
— Duda? — Gabriel chamou, confuso.
— Deixa ela, Gabriel. Ela deve estar cansada — Emanuel interveio, embora o desejo de ir atrás dela estivesse rugindo em seu peito.
Minutos depois, Emanuel se desculpou para usar o banheiro, mas seus passos o levaram ao corredor dos quartos. Ele parou diante da porta entreaberta do estúdio de dança improvisado da casa.
Lá dentro, Eduarda dançava. Não era um ensaio técnico, era um desabafo. Seus movimentos eram fluidos, carregados de uma melancolia que só ele parecia notar. Ela girava, os braços finos cortando o ar, a expressão de dor e desejo misturados.
Emanuel não resistiu. Ele entrou no quarto e fechou a porta silenciosamente.
Ao notar a presença dele pelo espelho, Eduarda tropeçou em seus próprios pés, mas antes que pudesse cair, as mãos fortes de Emanuel a envolveram pela cintura. O toque era firme, quente, contrastando com a pele fria dela.
— Por que você sempre foge de mim? — ele perguntou, a voz rouca, mantendo-a presa contra seu corpo.
— Emanuel, por favor... o Gabriel está lá embaixo... a Sara... — ela arfou, apoiando as mãos no peito dele, sentindo os batimentos acelerados do homem.
— A Sara sabe. E o Gabriel não precisa saber de nada que não seja necessário — ele aproximou o rosto do dela, o cheiro de tabaco e perfume amadeirado a envolvendo. — Você é tão pequena, Eduarda. Tão frágil. Eu sinto que, se eu não te segurar, você vai simplesmente desaparecer.
— Você tem tudo, Emanuel. Você tem o mundo, tem a Sara, vai ter a Ágata... por que eu? — ela perguntou, os olhos cheios de lágrimas, a insegurança transbordando.
Emanuel tocou o rosto dela com o polegar, traçando a linha da mandíbula com uma delicadeza que ele raramente demonstrava.
— Porque você é a única coisa que eu não posso comprar, nem controlar com lógica. Eu amo a Sara, ela é a minha base. Mas você... você é o meu respiro. Eu quero as duas. Eu vou ter as duas.
— Isso é loucura — ela sussurrou, embora não fizesse menção de se soltar.
— Talvez seja. Mas eu nunca perdi um desafio na vida, Duda. E eu não vou perder você.
Ele inclinou a cabeça, a ponta do nariz roçando a dela. O clima estava carregado de uma eletricidade perigosa. Eduarda sentia-se pequena, protegida e, ao mesmo tempo, aterrorizada pela força dos sentimentos dele.
— Duda? Emanuel? — A voz de Gabriel ecoou do corredor, fazendo-os se afastarem bruscamente.
Emanuel recuperou a postura em segundos, a face voltando à máscara de seriedade. Eduarda virou-se para a barra de alongamento, tentando controlar a respiração.
A porta se abriu e Gabriel entrou, estreitando os olhos ao ver o amigo ali.
— O que você está fazendo aqui, cara?
— Vim ver se a sua irmã estava bem. Ela saiu da sala parecendo pálida — Emanuel respondeu com uma calma gélida, a mentira saindo perfeitamente natural.
Gabriel olhou de um para o outro, o instinto protetor em alerta máximo.
— Ela está bem. Não está, Duda?
— Estou, Biel. Só um pouco de tontura, o ensaio foi pesado — ela disse, sem se virar.
— Certo. Vamos, Emanuel. A Sara quer ir embora, disse que a Ágata está começando a chutar e ela quer descansar.
Emanuel assentiu, mas antes de sair, lançou um último olhar para Eduarda pelo espelho. Um olhar que dizia, sem palavras, que aquilo era apenas o começo.
No carro, enquanto dirigia de volta para a cobertura, Sara repousava a cabeça no ombro dele, a mão sobre a barriga.
— Você falou com ela, não falou? — ela perguntou, a voz sonolenta, mas astuta.
— Falei.
— E?
— Ela é teimosa. Mas ela vai entender — Emanuel apertou o volante, os nós dos dedos brancos. — Eu vou cuidar de vocês duas. Ninguém vai tocar no que é meu.
Sara sorriu, satisfeita. Ela não via Eduarda como uma ameaça, mas como uma extensão do mundo de Emanuel que ela também poderia dominar. Para Sara, se Emanuel estava feliz, o império estava seguro. E ela faria qualquer coisa para manter o seu rei satisfeito, mesmo que isso significasse trazer uma bailarina tímida para dentro do seu castelo de vidro e tatuagens.
Enquanto isso, em seu quarto, Eduarda abraçava os próprios joelhos, sentindo o calor das mãos de Emanuel ainda marcado em sua pele. Ela sabia que deveria se afastar, que aquela dinâmica era perigosa e fora de todas as normas que seus pais lhe ensinaram. Mas, pela primeira vez em seus vinte anos, a insegurança não a fazia querer se esconder, e sim ser encontrada por ele.
O conflito estava apenas começando, e o controle que Emanuel tanto prezava estava prestes a ser testado pelo mais volátil dos sentimentos: a necessidade de possuir não apenas o corpo, mas a alma de duas mulheres completamente diferentes.
