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Fandom: D
Criado: 12/08/2026
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Entre Tintas e Sapatilhas
A luz do fim de tarde entrava pelas janelas amplas do estúdio principal de Emanuel, cortando o ar carregado com o cheiro de tinta de tatuagem e antisséptico. Ele estava sentado em sua banqueta de couro, observando um esboço complexo em seu tablet, mas sua mente não conseguia se fixar nas linhas geométricas que deveria finalizar. Seus olhos, sempre sérios e marcados por um cansaço que o sucesso financeiro não conseguia apagar, desviaram-se para a porta de vidro fosco.
Emanuel era um homem de silêncios. Aos vinte e cinco anos, ele comandava um império de estúdios que se estendia por capitais europeias e americanas, mas ali, naquele canto particular, ele era apenas o homem que buscava controle em um mundo que insistia em ser caótico. E o seu caos tinha nomes, rostos e cheiros muito específicos.
O som de saltos altos ecoou no corredor, um ritmo firme, confiante e impaciente. Ele nem precisou olhar para saber quem era.
— Se você ficar mais cinco minutos encarando essa tela, vai acabar fundindo o cérebro, Manu. — A voz de Sara preencheu o ambiente, carregada de uma ironia vibrante.
Ela entrou na sala como se fosse a dona do prédio — e, tecnicamente, pelo modo como Emanuel a tratava, ela era. Sara vestia um vestido justo de seda vermelha que abraçava suas curvas acentuadas, deixando claro que, mesmo aos quatro meses de gravidez, ela não pretendia abrir mão de sua imagem provocadora. O loiro platinado do cabelo estava impecável, e a maquiagem destacava seus olhos astutos.
Emanuel levantou-se, a postura firme e protetora assumindo o comando instantaneamente. Ele caminhou até ela, pousando as mãos grandes e calejadas sobre a barriga ainda discreta, onde a pequena Ágata crescia.
— Você deveria estar descansando. A loja de roupas não vai fugir se você tirar uma tarde de folga — comentou ele, a voz rouca, depositando um beijo na testa da mulher.
— Descansar é para gente chata, querido. E a administração daquela loja me diverte mais do que ficar olhando para as paredes — Sara respondeu, passando os braços pelo pescoço dele, sem se importar com o contraste entre sua elegância vulgar e o estilo funcional e escuro de Emanuel. Ela se afastou um pouco, o olhar brilhando com uma inteligência social que poucos percebiam. — Além disso, temos visita. O seu "irmão" de outra mãe chegou com a pequena protegida dele.
Emanuel sentiu um aperto familiar no peito. Ele sabia exatamente de quem ela estava falando. Momentos depois, a porta se abriu novamente e Lucas, o melhor amigo de Emanuel e irmão de Sara por parte de pai, entrou no estúdio. Ao seu lado, quase escondida pela figura alta e protetora do irmão, estava Eduarda.
Duda era o oposto absoluto da irmã. Aos vinte anos, ela parecia emanar uma luz suave, quase etérea. Vestia uma saia de tule leve e um cardigã em tom de creme, o cabelo castanho escuro caindo em ondas naturais sobre os ombros. Ela carregava uma bolsa de ballet, indicando que tinha acabado de sair de uma de suas aulas.
— Fala, monstro! — Lucas cumprimentou Emanuel com um aperto de mão firme e um abraço de lado. — Duda precisava passar aqui perto para pegar uns livros de História da Arte e eu não ia deixar ela andando sozinha por esse centro a essa hora.
— Você é um exagerado, Lucas — murmurou Eduarda, a voz doce e baixa, as bochechas tingindo-se de um rosa delicado. Ela desviou o olhar para Emanuel e deu um sorriso tímido. — Oi, Emanuel. Oi, Sara.
— Oi, coisinha linda — Sara disse, aproximando-se de Eduarda e apertando suas bochechas com uma afeição genuína. — Você está cada dia mais parecida com uma boneca de porcelana. Como vai a faculdade?
— Vai bem... — Duda respondeu, buscando inconscientemente a proximidade de Emanuel, sentindo-se segura na presença dele, embora não soubesse explicar o porquê. — Estamos estudando o Renascimento agora. É fascinante.
Emanuel observava a cena em silêncio. Seus olhos captavam cada detalhe: a forma como Eduarda mexia nervosamente na alça da bolsa, a delicadeza de seus pulsos, a expressão sonhadora que ela sempre carregava. Ele amava Sara com uma intensidade possessiva e racional; ela era sua âncora, sua parceira de vida, a mulher que carregava sua filha. Mas Eduarda... Eduarda era o seu ponto cego. Ela era a poesia que ele não sabia escrever, a suavidade que sua vida bruta e controlada não possuía.
Ele queria as duas. O desejo não era apenas físico, era uma necessidade de completude. Ele precisava da força de Sara e da paz de Eduarda.
— Duda, por que você não vai ver aqueles desenhos novos que o Emanuel fez para a série de flores? — sugeriu Sara, com um sorriso enigmático. Ela sabia. Ela sempre soube. — Eu preciso discutir uns assuntos de "gente grande" com o Lucas sobre a herança do papai.
— Ah, eu adoraria ver — disse Eduarda, olhando para Emanuel com expectativa.
Emanuel assentiu, fazendo um gesto para que ela o seguisse até a mesa de luz nos fundos do estúdio. Lucas franziu o cenho, o instinto protetor sempre alerta quando se tratava da irmã mais nova, mas a mão de Sara em seu braço o deteve.
— Relaxa, maninho — sussurrou Sara para Lucas. — Ela está segura com o Emanuel. Mais segura do que com qualquer outra pessoa no mundo.
No fundo do estúdio, o silêncio era preenchido apenas pelo som distante do trânsito. Eduarda debruçou-se sobre os desenhos, seus dedos finos traçando os contornos das flores que Emanuel havia desenhado.
— São lindos — disse ela, a voz quase um sussurro. — Você tem um dom, Emanuel. Consegue transformar dor em algo visualmente perfeito.
— Às vezes a dor é a única coisa que faz sentido, Duda — respondeu ele, aproximando-se mais do que o necessário. Ele podia sentir o perfume dela, algo que lembrava lavanda e talco. — Mas ver você olhar para eles... faz o trabalho parecer mais leve.
Eduarda levantou os olhos, encontrando o olhar intenso e escuro de Emanuel. Ela sentiu um frio na barriga, uma confusão emocional que sempre surgia quando estavam a sós. Para ela, Emanuel era o porto seguro, o melhor amigo de seu irmão, o homem casado com sua irmã. Ela nunca se atreveria a pensar além disso, sua insegurança a impedia de ver o óbvio.
— Você é muito bom para mim — disse ela, baixando a cabeça, tímida.
Emanuel sentiu uma vontade avassaladora de puxá-la para um abraço, de protegê-la de tudo, inclusive de si mesmo. Mas ele apenas pousou a mão suavemente no ombro dela, sentindo a estrutura esguia da bailarina sob o tecido fino.
— Eu sempre vou ser, pequena.
Enquanto isso, na frente do estúdio, Sara observava a interação de longe. Ela cruzou os braços sobre o peito, um sorriso de satisfação nos lábios perfeitamente pintados. Ela não via Eduarda como uma ameaça. Como poderia? Eduarda era parte da família, era doce, era pura. Sara sabia que Emanuel era um homem complexo, um homem que tinha muito amor para dar e uma necessidade imensa de cuidar.
Mais tarde naquela noite, depois que Lucas e Eduarda foram embora, o estúdio estava silencioso novamente. Emanuel estava sentado no sofá de couro, com a cabeça encostada no encosto, os olhos fechados. Sara aproximou-se, sentando-se no colo dele, ignorando qualquer protocolo de conforto.
— Ela é encantadora, não é? — perguntou Sara, passando os dedos pelos cabelos curtos de Emanuel.
Emanuel abriu os olhos, encarando a esposa. Ele não mentia para ela. Nunca.
— Sim. Ela é.
— Você a quer tanto quanto me quer, Manu. Eu vejo o jeito que você olha para ela. Como se ela fosse um quadro que você tem medo de tocar e estragar.
Emanuel suspirou, a tensão acumulada nos ombros relaxando sob o toque de Sara.
— Eu amo você, Sara. Isso não muda nada. O que eu sinto por ela... é diferente. Não substitui o que temos.
— Eu sei, meu amor — disse ela, inclinando-se para beijá-lo com possessividade. — E eu não me importo. Se para você ser plenamente feliz, você precisa dela por perto, então nós vamos dar um jeito. Eu quero você completo. E se a Duda é o que falta para esse seu coração de pedra ficar macio, então ela será nossa.
— O Lucas mataria a gente — murmurou Emanuel, embora um sorriso contido surgisse em seus lábios.
— O Lucas é um chato — Sara riu, a risada alta e confiante. — Ele só quer que ela seja feliz. E quem melhor para cuidar daquela menina do que você? Do que nós?
Emanuel puxou Sara para mais perto, escondendo o rosto no pescoço dela. O conflito interno ainda estava lá — a racionalidade gritando sobre as complicações, o estresse de manter as aparências, a proteção extrema de Lucas. Mas, ao mesmo tempo, a imagem de Eduarda sorrindo para seus desenhos flutuava em sua mente como uma promessa de paz.
— Você é louca, Sara — ele disse, com sinceridade.
— Sou prática, Emanuel. E sou ambiciosa. Eu quero tudo o que a vida pode me dar. E eu quero que você tenha o mesmo.
Naquela noite, Emanuel sonhou com tintas escuras e sapatilhas de cetim. Ele via Sara comandando o mundo com sua força loira e vibrante, enquanto Eduarda dançava suavemente ao fundo, preenchendo as lacunas de sua alma com doçura. Ele era o eixo entre essas duas forças opostas, e pela primeira vez em muito tempo, a ideia de perder o controle não parecia tão assustadora.
No dia seguinte, a rotina recomeçou. Emanuel estava em seu escritório, revisando contratos de um novo estúdio em Tóquio, quando seu celular vibrou. Era uma mensagem de Eduarda.
"Obrigada por me mostrar os desenhos ontem. Eles me inspiraram para a coreografia nova. Você vai na apresentação no final do mês?"
Emanuel olhou para a mensagem por um longo tempo. Ele podia sentir a insegurança dela através das palavras, a esperança tímida de que ele estivesse presente.
— Ela mandou mensagem? — Sara perguntou, entrando na sala com um copo de suco verde, fazendo uma careta para o gosto da bebida saudável.
— Mandou. Quer que eu vá à apresentação de ballet.
— Nós vamos — corrigiu Sara, sentando-se na beirada da mesa dele. — Eu vou comprar o vestido mais escandaloso que encontrar para destacar aquela barriguinha da Ágata, e você vai usar aquele terno que te deixa com cara de bilionário perigoso. Vamos sentar na primeira fila.
Emanuel sorriu, sentindo a tensão de seus ombros diminuir.
— O Lucas vai estar lá.
— Deixe ele. Ele vai estar ocupado demais se gabando da irmã para notar que nós dois estamos planejando como trazer ela para o nosso ninho.
Emanuel voltou a atenção para o computador, mas seu coração estava em outro lugar. Ele sabia que o caminho à frente seria difícil. Eduarda era inocente demais para entender a complexidade do que estava sendo construído ao redor dela. Lucas era protetor demais para aceitar qualquer coisa que fugisse do convencional.
Mas Emanuel era um homem que conseguia o que queria. Ele construiu um império do nada, transformou dor em arte e conquistou a mulher mais difícil que já conhecera. Eduarda não era um troféu, era a peça que faltava. E, com Sara ao seu lado, ele sentia que podia redesenhar as regras do jogo.
— Manu? — chamou Sara, já na porta.
— Sim?
— Não esqueça de mandar flores para ela hoje. Rosas brancas. Elas combinam com aquela carinha de anjo.
Emanuel assentiu.
— Já estou providenciando.
Enquanto as flores eram encomendadas, Emanuel permitiu-se um momento de reflexão. Ele olhou para a foto de Sara em sua mesa e depois para um pequeno desenho de uma sapatilha que ele havia rabiscado em um canto de papel. Ele era um homem de sorte, ou talvez um homem condenado a uma vida de equilíbrios impossíveis. Mas, enquanto tivesse o controle, ele garantiria que ninguém saísse ferido. Especialmente a sua pequena bailarina.
A história deles estava apenas começando a ser escrita, não com palavras, mas com a precisão de uma agulha de tatuagem e a leveza de um passo de dança. E no centro de tudo, Emanuel permaneceria firme, o protetor, o amante, o homem que amava demais para escolher apenas um lado do paraíso.
